Obrigado a quem ainda está acompanhando. Reconheço que é um pouco difícil, a história pode estar se desenrolando de um jeito meio estranho, mas começa a ficar boa agora.

Espero que continuem. Ela já está quase toda concluída, mas tenho a mania de ficar revisando e revisando e revisando capítulos, mas, vá lá. Espero que apreciem a figura do demônio neste capítulo.

Espero por mais leitores. Neste momento, escrevo mais por prazer porque, se fosse por público, já teria desistido.

CAPÍTULO 5 – O Leviatã


Jack e Jacob caminharam por bons trinta minutos, sem se arriscar a trocar nenhuma palavra, nem mesmo olhar para trás. O instinto de Jacob estava aguçado. Ele temia que, a qualquer momento, seus familiares fossem descobertos na adega e, sobretudo, que Josh falhasse em sua missão de protegê-los ou de proteger a si próprio.

Pelo menos, pelo que conseguiram ouvir no calabouço, Travers havia sido burro o suficiente para acatar o falso temor que Jacob imprimira em sua falsa carta. Josh e a família iriam se instalar na casa de Jack, e Dreader confiaria no garoto, visto que Jacob havia deixado claro, de forma criativa, que ele era um traidor. Agora, o amigo ia fornecer uma porção de falsas dicas, de forma a deixar o Imperador longe o bastante da dupla para que eles pudessem trabalhar e retornar na sequência para derrotar o exército invasor.
O trecho de passagem do túnel começou a se inclinar para cima, e Jake ficou assombrado ao ver o tamanho dos detalhes que foram empregados por Yuri na construção. Havia degraus, uma escadaria, muito bem moldada, que levava para cima.

- Pronto, amigo? – perguntou Jack. Sua voz saiu arranhada e rascante, consequência do longo tempo sem uso.
- Onde vamos sair?
- Mais ou menos a quatro quilômetros de Jarrah. Não há a menor chance de sermos descobertos na fissura da rocha, mas é importante que sejamos cautelosos, certo?

Jacob assentiu.

Chegaram, então, ao fim do túnel. O topo era pontuado por um alçapão de pedra, com argola interna e uma barra de ferro presa à rocha, de forma a ser possível exercer pressão de dentro para fora. Jacob ficou fascinado.

- Pode me ajudar?

Jack e ele imprimiram força no alçapão, removendo-o gradualmente para fora. A luz do sol invadiu a entrada do túnel, revelando vários ratos grandes que corriam nos dois sentidos. Mais uma pressãozinha e bum!; o tampo de pedra despencou para o outro lado, fornecendo possibilidade de saída.

Jacob e Jack alçaram-se para fora e saíram numa antecâmara natural de pedra muito apertada, espaço insuficiente para dois homens da envergadura deles, ainda mais trajando armaduras. Com dificuldade, repuseram o tampo de volta no lugar e Jack saiu pela fissura apertada na rocha, puxando o amigo consigo depois de averiguar as condições.

A oeste, a cidade de Jarrah, com suas torres em cada entrada, cujo castelo arranhava o céu, avultava-se. Jacob olhou para a cidade com carinho, desejando que não fosse necessário imprimir uma missão daquelas naquele momento da história.

- A Planície Fantasma fica bem ao leste – informou Jack, apontando para uma rama intensa de trepadeiras naturais que erguiam-se sobre as montanhas a leste. – Precisaremos caminhar com cautela. Existem abrigos pontuados em alguns locais da montanha, mas existem, também, povos que habitam as planícies e os planaltos. Provavelmente teremos problemas, então é importante que tentemos estabelecer laços de coleguismo com os moradores destes lados. São muito hostis, alguns deles, mas muitos outros são hospitaleiros. Meu pai conhece uma parte deles.
- Qual nosso plano de ação?
- É importante que sejamos respeitosos. Uma vez na Planície Fantasma, vamos cumprir nosso objetivo, doa a quem doer, independente das consequências. Sobretudo, devemos ser assertivos com o pessoal que mora para estes lados. Suas lendas são muito inviáveis, se quer saber.

Jacob assentiu. Com vigor, puseram-se a caminhar, observando o pôr do sol na linha do horizonte sobre o mar. Um pesar tomou conta de Jake.

Será que ele veria a família outra vez?

* * *

Travers e Dreader estavam absolutamente calados. O exército inteiro estava aguardando por ordens à sua frente, com suas couraças de aço e suas espadas afiadas de duas lâminas, em tons de vermelho e preto. Os integrantes do exército Esmeralda já haviam se apresentado e todos haviam sido absorvidos, à exceção daqueles dois, cujas técnicas seriam muito apreciadas pelo Imperador.

Dreader mordeu levemente os lábios finos e de aspecto frágil, as mãos entrelaçadas por baixo do manto que lhe cobria totalmente os braços. Travers, por sua vez, fitava o exército, calado, o rosto inexpressivo.

- Os senhores foram divididos em vinte tropas independentes – disse Dreader, e sua voz cortou o ar sem esforço, um silvo breve, suave, mas rascante, como o hálito da morte. – Cada um dos senhores terá três superiores imediatos. Sugiro que sigam suas ordens. A pena é a perda da cabeça.
- Sim, Imperador – gritaram os homens, em uníssono.
- Dispensados.

A balbúrdia começou. De forma ordenada, os homens seguiram as ordens de seus superiores, marchando, em sincronia, para fora do aposento gigantesco do quartel general, no castelo.

Dreader fez um sinal para Travers e o comandante o seguiu. Os dois passaram por uma porta aos fundos, do lado direito, e iniciaram a descida por incontáveis e intermináveis degraus. O ar se tornava mais rarefeito e escasso conforme desciam, e nuvens finas de fumaça se formavam com suas respirações.

Outro homem os seguia, bem de perto. Travers estava extremamente insatisfeito com a sua presença, como se o Imperador confiasse mais nele do que em si. Era um guerreiro por excelência, excelente combatente, muito bom na arte de manejar a espada.

E, enfim, havia mostrado seu rosto.

Dreader havia sorrido, enfim. Sabia que podia confiar em suas informações. Era um homem de sua confiança.

- O que faremos, senhor? – perguntou Travers, curioso.
- É hora de despertar... o Leviatã.

Travers aparentou confusão mas, na sequência, sorriu maldosamente.

- É o fim dos desgraçados.

Dreader deu-lhe um meio sorriso, concordando.

Ao fim da escadaria, chegaram numa porta simples, de madeira, mas sem maçaneta. Dreader ergueu seu braço direito e a porta se dissolveu. Ele orientou Travers a pegar uma das tochas nos archotes nas paredes e, juntos, os três entraram.

O aposento aparentava ser circular – era impossível dizer, dada a sua escuridão. As paredes eram invisíveis, mas o chão era de linóleo – um quadriculado suave de preto e branco, pontuado por algumas manchas de algo escuro que aparentava ser sangue.

- Rangel – disse Dreader, de forma suave.

Um uivo escarnecedor, excitado, ávido por sangue, respondeu das profundezas da escuridão.

Dreader sorriu, mas sentiu a tensão de Travers e do terceiro homem, os quais certamente sentiram-se assustados.

Um ranger de dentes rasgou a escuridão e Dreader sabia que a criatura estava se aproximando.

- Tenho um trabalho para você, meu querido – disse o Imperador, satisfeito com a proatividade de seu comandado. – E sugiro que não falhe.
- Não falharei – respondeu uma voz rascante, monstruosa, em meio a um sonoro borbulhar de baba.

A criatura, enfim, apareceu, dentro do campo de iluminação da tocha. Travers se retesou e, por segurança, o terceiro homem retornou à segurança da proximidade da porta, sentindo-se muito tenso.

Dreader meramente sorriu.

- Planície Fantasma – disse, de forma solene. – Dois combatentes que atendem pelo nome de Jacob e Jack. Desertores, devo dizer.
- O que devo fazer? – respondeu a criatura, os olhos vermelhos brilhando.
- Estão atrás de alguns itens – disse o Imperador, os olhos negros brilhando. – Siga-os. Mate quem falar com eles no caminho. Não falhe. Assim que eles estiverem de posse dos equipamentos, e, veja bem, eles não podem os estar utilizando, mate os dois e traga os equipamentos para mim. Inteiros. Intactos. Você entendeu, Rangel?

A criatura fungou, espalhando um fedor inacreditável pelo domo. Travers recuou um passo, temeroso, mas Dreader sequer piscou; compreendeu a manifestação de seu comandado como um aceite às ordens.

- Não falhe – frisou Dreader, mais uma vez.
- Quando sairei? – respondeu, exibindo seus dentes pontiagudos de mais de dez centímetros.
- Agora. Não seja visto pelos cidadãos.

A criatura passou por Dreader, dirigindo-lhe uma reverência, e sorriu de forma maldosa para Travers e para seu visitante. Tinha mais de três metros de altura, e era muito musculoso. Seu focinho comprido conservava marcas de batalha.

À porta, olhou para trás.

- Qual a importância dos equipamentos? Apenas para saber como devo tratá-los.
- É essencial. Traga-os inteiros. Obtenha êxito e será recompensado com o que quiser.

A criatura fungou mais uma vez e saltou para fora, tremendo os alicerces do castelo.

- Meu senhor do Olimpo – ofegou o terceiro homem, ajoelhando-se, a mão no peito, ofegando.

Dreader sorriu para ele.

- Não há mérito no lado perdedor.
- Certamente não há – disse Travers, os olhos fixos no ponto mais alto que conseguia enxergar da escada.

Ele sabia que Jacob e Jack não tinham a menor chance.

* * *

Algum tempo depois, do lado de fora, Josh montava guarda na torre leste, conforme havia sido ordenado. E não acreditava no que via.

Uma criatura monstruosa dirigia-se, a passos largos, mas lentos, para as Planícies Fantasma. O rapaz sentiu um gelo intenso em suas entranhas, algo que nunca havia sentido na vida.

Dreader mandou o Leviatã para buscar Jacob e Jack! Pelo amor do Olimpo, preciso avisá-los!

- Banheiro – disse, brevemente, para o outro soldado que estava de observação junto dele. Sonolento, ele assentiu, fechando os olhos novamente.

Josh desceu rapidamente, enfiou-se no banheiro da guarita e retirou um pergaminho de dentro da armadura, junto de uma pena e um tinteiro, tremendo e suando profusamente.

Jacob, Jack, por favor, tenham cuidado. Sugiro que se escondam. Dreader enviou o Leviatã, o monstro que dizimou nosso exército inteiro e usou para dominar Jarrah!