Li
O Leopardo é um Animal Delicado, livro de contos de Marina Colasanti. A diferença para outras coletâneas de contos dela é que nesse os textos são maiores, mais complexos. Acho magnífico ela usar cenários tão irreais para explorar as fragilidades do ser humano, como no conto onde um homem leva um manequim como companheiro a uma festa por não querer ir sozinho.
“[...]O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.[...]”
“[...]Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente.[...]”
A paixão de um homem por sua ovelha; o encontro virtual diário entre duas pessoas; uma história de amor trágica, senão patética, entre uma mulher e seu amante; não só Colasanti escreve muito bem histórias com ideias um tanto anormais, como as termina de modo deveras imprevisível e desconcertante. É hoje a terceira escritora que mais idolatro, digamos assim, atrás apenas de Victor Hugo e José Saramago.
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Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido - José Saramago – Texto em forma de peça que reconta o clássico de Don Giovanni, homem libertino que anotava em um caderno os nomes de suas inúmeras conquistas. Aqui, um senhor assassinado por ele volta a Terra na forma de uma estátua para lhe amaldiçoar. Ele falha em seu objetivo, e o que se segue é uma sucessão de diálogos inteligentes e um final de significado bastante sutil. Por conta de seu tamanho e o texto que corre facilmente, dá para lê-lo em menos de uma hora; então, nem dá para falar muito dele.
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O Homem e o Cavalo - Oswald de Andrade – Um texto em forma de peça que começa numa conversa repleta de “vulgaridades” no Céu, entre o renegado São Pedro, o revolucionário Poeta Soldado e quatro mulheres virgens entediadas, e termina num cenário onde o homem conquistou o espaço e a Terra é dominada pelos socialistas.
É tudo uma bagunça de nomes, lugares e épocas; aqui se vê a bela Cleópatra trabalhando numa dancing, Capone, Bryon e referências várias para outras personalidades e eventos. Tudo usado como base para Oswald pôr em evidência sua paixão pelo socialismo. Às vezes tem um humor engraçado e ácido, criativo. Já em outras, sua adoração política o deixa cego e o faz criar momentos, simplesmente, imbecis e desnecessários.
É um texto que, hoje, está bem ultrapassado; foi escrito em 1934, e Oswald faleceu na década de 50. Logo, ele não pôde presenciar o declínio daquilo que ele amava, o que faz com que atualmente diversas partes da peça soem ingênuas e infantis. Mas é interessante notar que ele “previu” o domínio espacial pelos socialistas, que só ficaram para trás na disputa espacial após um homem norte-americano chegar à Lua. Outra das suas previsões foi a de que Hitler se suicidaria.
Enfim, uma mescla de instantes de genialidade com outros de estupidez.
Dard*