Desesperar-te
Wu Cheng
Sentado em sua mesa, diante de uma folha de papel em branco, o escritor olha para o reflexo do vazio de sua mente. Precisa escrever o conto perfeito, a história que mudará para sempre a maneira da humanidade ver o mundo.
Este texto revolucionário irá celebrar o artista em estado bruto, esta verdadeira antena universal que catalisa todo o poder da história de milhares e milhares de civilizações passadas numa única linha, numa mera vírgula, num soluço, numa pausa.
Alguém já disse que a música é construída pelas pausas. Pensou, naquela hora avançada da noite, que toda a arte, e aí incluía sem falsa modéstia seu texto, também deveria ser feita de pausas, momentos de expiração para se ganhar fôlego para nova e revigorante inspiração.
Quando tomara a decisão de se dar uma pausa e abandonar o febril exercício de associação de ideias, adormeceu...
Acordou assustado, a folha de papel em branco ainda estava lá, imaculada como a Santa Maria. Isso o aterrorizava, tanto a folha em branco quanto a ideia de violar a Virgem Maria com sua caneta.
Então se tranquilizou e lembrou que havia sonhado uma história incrível, o conto perfeito, a história que mudaria para sempre a maneira da humanidade ver o mundo.
E começou um conto assim:
Este texto revolucionário irá celebrar o artista em estado bruto, esta verdadeira antena universal que catalisa todo o poder da história de milhares e milhares de civilizações passadas numa única linha, numa mera vírgula, num soluço, numa pausa.
Alguém já disse que a música é construída pelas pausas. Penso, nesta hora avançada da noite, que toda a arte, e aí incluo sem falsa modéstia meu texto, também deve ser feita de pausas, momentos de expiração para se ganhar fôlego para nova e revigorante inspiração.
Decido conscientemente me dar uma pausa e abandonar este febril exercício de associação de ideias... Adormeceu.
Acordou assustado, a folha de papel em branco ainda estava lá, imaculada como a Santa Maria. Isso o aterrorizava, tanto a folha em branco, que se recusara a fixar suas memórias, quanto a ideia de ter violado a Virgem Maria com sua caneta.
Então se tranquilizou e lembrou que havia sonhado uma história incrível, o conto perfeito, a história de milhares e milhares de civilizações passadas numa única linha, numa mera vírgula, num soluço, numa pausa.
E começou um conto assim:
Sentado em sua mesa, diante de uma folha de papel em branco, o escritor olha para o reflexo do vazio de sua mente. Precisa escrever o conto perfeito, a história que mudará para sempre a maneira da humanidade ver o mundo.
Este texto revolucionário irá celebrar o artista em estado bruto, verdadeira antena universal que catalisa todo o poder da arte, que alguém já disse que é construída pelas pausas. Pensou, naquela hora avançada da noite, que a boa arte, e aí incluía sem falsa modéstia seu texto, deveria ser feita de momentos de expiração para se ganhar fôlego para nova e revigorante inspiração.
Quando tomara a decisão de se dar uma pausa e abandonar o febril exercício de associação de ideias, adormeceu...
Acordou assustado, a folha de papel em branco ainda estava lá, testemunha de seu desespero, contudo o que o aterrorizava era a lembrança real de ter violado a Virgem Maria com sua caneta.
Mas sua cabeça se recusava a fixar suas memórias e logo se tranquilizou, lembrando que havia sonhado uma história incrível, o conto perfeito, a história que mudaria para sempre a maneira da humanidade ver o mundo.
E começou um conto assim:
A imaculada Santa Maria é a verdadeira antena universal que catalisa todo o poder da história de milhares e milhares de civilizações passadas.
Desenhou estas linhas caprichosamente na folha de papel em branco e adormeceu, exausto com o febril exercício de associação de ideias.
Acordou assustado, não havia certeza maior do que a alvura daquela página invicta, que refletia o vazio de sua mente.
Desistiu de tentar escrever sua obra-prima e resolveu deixar seus pensamentos divagarem, rabiscando pequenos fragmentos de texto na folha de papel em branco, imaculada como a Santa Maria. Isso o aterrorizava, tanto a folha em branco quanto a ideia de violar a Virgem Maria com sua caneta. Mesmo assim, começou:
Alguém já disse que a música é construída pelas pausas. Penso, nesta hora avançada da noite, que toda a arte, e aí incluo sem falsa modéstia meu texto, também deve ser feita de pausas, momentos de expiração para se ganhar fôlego para nova e revigorante inspiração.
Decido conscientemente me dar uma pausa e abandonar a busca pelo conto perfeito, a história que mudará para sempre a maneira da humanidade ver o mundo.
Renego o texto revolucionário que pretende celebrar o artista em estado bruto, verdadeira antena universal que catalisa todo o poder da história de milhares e milhares de civilizações passadas numa única linha, numa mera vírgula, num soluço, numa pausa.
Sentado em minha mesa, diante de uma folha de papel em branco, olho para o reflexo do vazio de minha mente. Não preciso mais escrever o conto perfeito, nem a história que mudará para sempre a maneira da humanidade ver o mundo.
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