O Fantasma do Corsário
Drasty
No outono do ano que selou as batalhas em todo o continente, eu me tornei escravo. Uma corja me aprisionou em seu navio e com eles eu viajei os sete mares. Dos maus tratos eu sofri diversos: fui cuspido, espancado e trancafiado no calabouço. Passei com fome as piores noites do inverno, sem destino aparente apenas vagando com aqueles animais. Trabalhei! Todos os dias naquele gigante eu suei meu corpo, limpando o convés, jogando ao mar suas necessidades e cozinhando-os as refeições.
O capitão era um homem pouco civilizado. Andava forte com a perna-de-pau atropelando os pregos do chão. Suas longas barbas brancas eram a evidência de suas aventuras e, através delas ele contava as histórias. Pouco articulado e muito animado, por noites seus oficiais ouviram anedotas sobre as batalhas nos mares mais perigosos já navegados. Uma vez que todos estivessem ensopados de cerveja, ele sacava a sabre das tipóias e cantava canções embriagadas. A cantoria seguia firme até caírem no sono.
Nos meus aposentos eu tinha a companhia de uma vasta gama de ossadas. Provavelmente meus antecessores naquela cruzada. Nas sombras do crepúsculo conversava sozinho. Lembrava-me da minha família em solo firme. Vivi durante anos dessa vida em Thais, estudando em busca de algum dia ser alguém memorável. Porém esses sonhos já tinham sido assassinados pelas ondas do mar.
Depois de alguns meses, peguei a mania de cantar com os piratas. Diferente das canções sobre mulheres e tesouro que cantavam sobre minha cabeça, eu cantarolava as antigas melodias dos tempos de criança. Era a única forma de encontrar naquele inferno uma felicidade. Em uma dessas noites, algo estranho aconteceu. A água salgada que invadia o navio batia rápida nos meus pés machucados. Havia alguém além de mim no recinto.
Foi quando, através das barras de minha cela, surgiu a forma de um sobretudo. Dentro dele apenas o vácuo da escuridão. Flutuava em cima de si um chapéu de corsário com pontas e ornamentos. Sufoquei de medo ao ver a figura fantasmagórica. Recuei atrapalhado e cai sentado no caixote de pólvora. Seja lá o que aquilo era, continuava a se mover ao meu encontro. Então, ele parou. Estático ficou por alguns minutos. Tentei acreditar que fosse fruto de minha imaginação, afinal depois de tanta humilhação, uma hora eu ficaria louco.
Assim que a cantoria no convés teve fim, a figura começou a tremer inquieta. Entre seus tremeliques, se enrijeceu. Um pigarro altíssimo arranhou o assoalho e passou voando pela janela do barco. O chapéu virou para um lado e depois para o outro e finalmente focalizou em mim.
– Uman! Uman! – gritava uma voz rouca que emanava pelos botões do casaco. – Ave Uman! Vamos garoto, agradeça Uman comigo – com uma mistura de pavor e perplexo eu o acompanhei na sua oração.
Terminada a prece, o chapéu do fantasma se abaixou cabisbaixo. Supus que aquele ser não me faria mais mal do que os piratas haviam feito, então perguntei eufórico:
– O que estamos agradecendo, senhor?
– Ora, meu jovem! Se não é o fim dessa cantoria infernal. Nos meus tempos os tripulantes eram muito mais afinados – ele forçou uma risada, amassando todo o vestuário, fazendo o parecer uma pilha de roupa amarrotada.
– Que mau lhe pergunte, mas quem é o senhor?
Dessa vez, houve uma pausa longa. Ele flutuou da direita para a esquerda e saltitou insistentemente na cela. Em seguida, saltou no ar e parou sentado do meu lado. Vi um dos braços apoiar-se em meu ombro, mas nada senti.
– Se eu soubesse, eu te diria com o maior orgulho – disse tristonho. – Só sei de uma coisa, garoto. Sei que esse navio é meu! Essa corja barulhenta se apossou do que é meu! Crápulas! – agora a voz do fantasma não estava mais rouca, soava forte e cortante como um trovão. Levantou-se e caminhou à frente. Dessa vez, falava para si. – Preciso expulsá-los do meu bardo. Do meu barco!
– Isso mesmo, senhor! Tem que mandá-los embora! – vi minha chance de voltar a terra firme tornar-se real. Talvez meus sonhos não estivessem perdidos em garrafas vazias. – Sabe o que devia fazer? Devia matar um a um, afinal, o senhor é o verdadeiro capitão desse estupendo navio.
– É verdade, meu rapaz! É verdade. É meu, meu e somente meu – ele pigarreou de novo e agora mais comedido finalizou: – Ironicamente, o desembarque deles será feito na Baia da Liberdade.
Ainda ouvi a gargalhada do fantasma desaparecer com seu espectro. Sumiu como apareceu, indo sabe-se lá para onde. Nem tive chance de perguntar o que a última frase significava. A conversa com o espírito de um capitão possessivo tomara horas do meu sono. Deitei-me tranqüilo no assoalho do barco e adormeci.
Acordei no silêncio da manhã. Os raios de sol invadiam minha cela e tocavam meu rosto gentilmente. Notei que a porta da cela estava entreaberta. Segui o rumo da proa e batendo meus pés contra os degraus surgi nas imediações, agora empapadas de sol. Não havia ninguém ali. Estávamos ancorados e logo ao lado uma praia jazia.
Saltei ao mar e nadei. Meu corpo logo arrastava-se na areia. Já tinha desistido de acreditar que seria possível voltar a terra-firme.
Após andar alguns metros terra adentro, virei meu dorso e mirei o navio pirata atrás. A bandeira negra ostentando uma caveira maquiavélica balançava no topo do mastro. Pude ver o capitão fantasma acenar as mangas do sobretudo. Devia estar desejando-me boa sorte. Agradeci devolvendo o aceno. Acho que não vou precisar.







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