Capítulo II
Enquanto corria, pisava em poças de água, formadas pela chuva de horas atrás. Seus pés ficavam cada vez mais molhados, e ele imaginava se isso não estragaria as sandálias. Logo afastou esse pensamento de sua cabeça, não tinha tempo para perder com trivialidades, sabia que só tinha mais duas chances e não havia margem para erro.
Finalmente chegou ao lugar que queria, a praça central da cidade de Loria. Era uma cidade de tamanho médio, tinha uma proteção natural por estar no vale de Daro, cercado pelas colinas de Jindan. Se localizava a sudoeste de Maetso, e havia uma distância considerável entre elas. Loria também era conhecida pela exportação de minérios de alta qualidades, extraídos das minas nas colinas ao redor. Eles eram extremamente caros, e também os mais procurados para forjar armas, armaduras e outros equipamentos em geral.
O homem então se escondeu em um pequeno beco, entre duas casas, perto da praça central. Olhava atentamente, mantendo-se nas sombras. Estava cansado, o peso da armadura parecia aumentar cada vez mais, e imaginou se não teria sido melhor ir com uma roupa mais leve. Seus pensamentos foram rapidamente interrompidos quando uma figura surgiu das sombras, na outra extremidade do parque. Olhou atentamente, e percebeu um pequeno cristal que ela carregava na mão esquerda. Era o seu alvo.
Esperou que ela se aproximasse um pouco mais do centro da praça, antes de sair do beco correndo, brandindo sua espada. A figura pareceu se assustar ao ver um homem corpulento, aparentemente de meia idade, com longos e desarrumados cabelos brancos e uma armadura prateada correndo em sua direção, com uma espada em mãos.
Agora que estava mais perto, o homem conseguia distinguir melhor a figura. Percebeu que usava um longo sobretudo preto com longas mangas, que cobriam todo o seu corpo, exceto as mãos. Um capuz escondia também o rosto, segurava um cristal meio arroxeado na mão esquerda, a outra estava livre. Ela se virou e começou a correr rapidamente cidade adentro, fugindo. Seu sobretudo balançando no ar com o efeito do vento, fazendo com que fosse possível ver as pernas.
Correram até chegar no portão de saída da cidade, onde o homem finalmente alcançou-o, e atacou com um golpe furioso da espada. Seu alvo não teve nem chance de se defender, e caiu no chão, partido em dois pela cintura. O homem deu um leve sorriso enquanto se abaixava para pegar o cristal, foi então que notou o erro que havia cometido. Olhou rapidamente para trás, somente para ver uma coluna de luz roxa subindo do meio da praça, até alcançar o céu, ultrapassando as nuvens, e então desaparecer. Praguejou. Havia perdido outra chance... só possuía mais uma.
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Neil fechou os olhos quando viu a lâmina indo em sua direção, sentiu então o homem soltá-lo, fazendo com que caísse de cara no chão. Sentiu então algo pingando em suas costas, passou a mão para verificar. Sangue. Olhou para cima e viu que o líder havia esfaqueado o outro bandido, que o soltara alguns momentos antes do impacto. Viu então o cachorro que mordia a perna do bandido com força. Neil suspirou enquanto percebia a sorte que teve.
O líder ainda não havia percebido o que tinha feito, segurava a faca de olhos fechados, provavelmente sentindo as batidas do coração em volta da lâmina, e apreciando o que tinha acabado de fazer. Ao abrir os olhos, viu seu comparsa morto na sua frente, e o garoto já havia corrido para longe, fora de seu alcance.
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— Você está bem? — perguntou uma voz suave.
Neil olhou então para a garota que o esperava na saída da Cidade Alta. Ela parecia ser apenas um pouco mais velha do que ele, seu rosto era perfeito, e sua pele parecia brilhar. Ele parou completamente, e olhava somente para aquele rosto, nunca havia visto nada como aquilo. Ela corou levemente, e um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
— Assim você me deixa envergonhada. — disse ela fechando levemente os olhos, junto com um discreto sorriso.
— Me desculpe...
— Ah, não tem problema, isso sempre acontece. Mas eu perguntei se você estava bem.
— Sim, estou. Obrigado. — Neil já havia se recomposto, e estava pronto pra ir. — Agora, com licença...
— Espere. — ela segurou rapidamente o braço dele — Suas roupas estão horríveis. Me acompanhe até em casa, tenho algumas lá que você pode usar.
— Eu acho melhor não e... — sem ouvir o que Neil dizia, ela já o puxava pelo braço em direção a uma das casas na Cidade Baixa.
Ao chegarem, Neil se surpreendeu com a casa. Apesar de ser modesta, comparada as outras por perto, ela possuia um enorme jardim cheio de todos os tipos de flores, algumas que ele sequer já havia visto na vida. A mistura de tantos tipos de cores diferentes era agradável aos olhos, se pudesse, ele ficaria ali admirando aquilo o dia todo.
— Vejo que você também gostou do meu jardim. Acho que dá pra perceber que eu sou um pouco fissurada em flores.
— Eu nunca vi algo assim. — os olhos percorriam toda a extensão do jardim
— Tenho flores de todas as partes de Lycia nesse jardim, mas a minha favorita são as que estão mais perto da casa. Ali.
Os dois caminharam até a entrada da casa, onde haviam dois pequenos círculos no chão, formados por uma espécie de flor que nunca havia visto. As pétalas azuis cresciam para cima, formando uma espécie de cálice. Percebeu então que as pétalas só eram azuis por fora, mas por dentro eram completamente brancas.
— Na primavera ela se abre, e a parte branca reflete a luz do sol, mudando de cor dependendo do horário. — A garota havia se agachado perto das flores, e Neil fez o mesmo — Essa flor é muito rara. Ela só cresce em um oásis de difícil acesso, no deserto de Ateruna. Eu trouxe um da areia de lá pra plantar, por isso que ela está separada das outras flores.
— Deve ter sido difícil trazer... — Neil foi então derrubado pela garota, que se jogou para o lado empurrando-o, no mesmo momento que uma faca cravou no chão, exatamente no lugar que eles estavam.
O líder dos bandidos estava parado na entrada do jardim, dessa vez com uma longa espada em mãos. Neil se levantou e ia preparar para lutar, mas a garota levantou antes e pegou uma espada que estava escondida pelo vestido.
— Não se preocupe. Deixe que eu cuido dele pra você.
Os dois correram um em direção ao outro, e então começou. Movimentos rápidos, o barulho de metal se chocando, cortes ocasionais que algum deles sofria, seguido de sangue pingando no chão e dor. Então, um golpe mais forte. A espada saiu voando das mãos da garota e caiu no meio do jardim. Sem ter como se defender, observou o homem mover o braço para trás, se preparando para dar o golpe final. Neil prendeu a respiração enquanto olhava assustado a cena, e tudo terminou. Uma enorme poça de sangue se formava, enquanto um corpo caía no chão, com a cabeça cortada.
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