Capítulo 2. 16 de abril.
- Bem vindo. – Disse Bruno recuando um passo e apresentando a cadeira empoeirada – Queira se sentar.
O homem hesitou. Teve de ser empurrado pelo acompanhante e forçado a se sentar, de torto, quase que deitado. O torturador o ficou encarando por alguns minutos, sem que o homem trocasse um olhar sequer. Sinalizou para que o outro saísse, e então, fechara a porta.
- Como se chama? – Perguntara enquanto tornava o olhar para o homem novamente. Ele não respondeu. Aproximou o rosto dos olhos inchados do pobre coitado que não devia ter mais de sessenta anos pelas poucas rugas em torno da face – Coopere agora, enquanto as perguntas ainda não determinam sua vida. – Tornara reta a coluna e passara a caminhar lentamente em círculos em torno do homem – Volto a perguntar. Como se chama? – O silêncio prevaleceu por dois minutos. Sentira o velho ruivo que algo vinha em direção de seu pescoço. E vinha. Um golpe dolorido do cotovelo do torturador, que deixara no mesmo instante uma marca amarelada – Diga, desgraçado! Como se chama? – Uma sensação de preto e branco, como na televisão, em câmera lenta ecoou em sua mente como uma dor insuportável. “As várias habilidades do torturador são adquiridas com o tempo”, lembrava-se ele enquanto retornava o braço.
Talvez por estar em conflito e levar as lembranças como único porto-seguro, qualquer soldado, alemão, russo ou americano, considerava essas dores em déjà vu como um tipo de êxtase, um momento em que qualquer bala poderia atravessar seu crânio e ele morreria sorrindo. Mas não para o torturador. O torturador não podia sentir saudades de um lar com esposa preparando um colossal bolo esbranquiçado, não podia sentir a necessidade de mandar regulares cartas aos filhos. Bruno não tinha nada disso.
Ele hesitou com um ligeiro movimento do pescoço, que recuou lentamente. Um suspiro lhe escapou.
- Quem é você? – Perguntou a sangue frio por notar que o homem chorava de medo. O hematoma em seu pescoço já estava esverdeado, a mudança repentina de cor assustara Bruno, era como se o tempo tivesse passado rapidamente. O homem não respondeu, novamente, deixando apenas que soluços freqüentes fossem sua voz. Uma vontade descomunal de atingir-lhe a marca por uma segunda vez transpassou por todo o seu braço, quase o fazendo mover-se por conta própria. Espontaneamente, cessou o movimento, era um feito necessário preservar o corpo do subordinado, necessário para o país e desnecessário para sua sanidade.
Em dois passos largos chegou à porta que dividia a sala da cadeira e a sala das paredes verdes. Bruno bateu duas vezes no objeto de madeira como se chamasse alguém do outro lado e encostou a orelha.
Sim? Respondeu uma voz oca.
- Quem é este homem?
-
Não sabemos, mas ouvi falar que é um espião russo. Estava entre os homens importantes do Führer até então.
- Obrigado, Ludwig.
Bruno retornou o olhar para o homem que fitava o chão com uma expressão quase imperceptível de desespero. O torturador apertou as sobrancelhas, sabendo que teria de usar alguma técnica disponível. De relance, encontrou as farpas de bambu no chão.
- Uma vez, um italiano me disse que foi torturado por um sul-americano durante dois dias – dizia ele enquanto apanhava as lascas de bambu –. Quando eu o vi, estava com todos os dedos enfaixados – ele hesitou por um instante, deixando que a reação do homem transparecesse –. Você quer ter os dedos enfaixados?
E pela primeira vez desde que o homem entrara pela porta, ele disse,
não, senhor. Bruno hesitou novamente, esperando que falasse mais.
- Por favor, senhor, mate-me logo! O que posso fazer a esse ponto? – A voz do homem era a de uma pessoa que chorava, não conseguindo completar bem as frases.
O motivo daquela tortura, na verdade, não era o de apanhar informações para o país, era apanhar informações para os sobreviventes da tropa em que Bruno estava, o TR-16.
Já faziam mais de cinco dias desde a última vez que encontraram alguma tropa aliada, e os únicos que restavam eram Bruno, Ludwig, e Borcha, o homem mais forte do carro. Eles queriam saber o que acontecia no país, onde estavam os americanos e os malditos russos.
- Nós só queremos saber o que você sabe. Eu juro que o deixo ir, se me disser onde estão os russos – Bruno teve de recuperar o fôlego, o ar estava extremamente pesado –. Há dois dias atrás houve um bombardeio aqui, o que foi aquilo?
- Os russos, senhor – Disse, mais aliviado –. O plano deles era invadir Berlim no dia 16 de abril – Ele brevemente sorriu como um maníaco –. Não há nada que se possa fazer.
Os olhos de Bruno se arregalaram no mesmo instante, o que poderiam fazer? Os malditos estavam em toda parte! Deixando que o desespero lhe consumisse, Bruno apanhou a Walther P38 – uma pistola negra e suja – que levava em seu bolso, mas antes que pudesse atirar contra o homem, Ludwig gritou,
T-34! T-34!
Ouviu-se um zunido após uma explosão catastrófica.