Capítulo 8! Ah, e obrigada pelos coments :rolleyes:
Capítulo 8 – Lua vizinha
O bando corria com vigor, inseparável sob a claridade alva. Seu novo integrante, apesar de bem recebido, acompanhava-os do final da fila. Estae supunha que seus recentes músculos tivessem feito a diferença para a admissão.
-Urso alfa, gostaria de conversar com o senhor.
Apesar de estar no fim do grupo, o chamado forte de Iluminista foi ouvido com perfeição. A voz grossa veio prontamente em resposta:
-No próximo descanso me procure, lebre aprendiz.
E assim foi feito. Lá estava o mestre Kwolk, líder dos Kiujeis de Folda. Fazendo-lhe uma reverência, o jovem aprendiz sentou-se em frente ao sábio homem, cujos traços faciais abriam-se em uma expressão enigmática. Mantinha-se sobre as pernas dobradas, ganhando assim uma aparência austera. Parando para tomar ar, o rapaz começou:
-Senhor, sinto que estamos nos distanciando do alvo. Se continuarmos avançando a oeste, a tribo morrerá de esperar pela carne da força sagrada. – vendo a expressão cética do chefe, continuou, escolhendo melhor as palavras – Sei que não costuma acreditar nos aprendizes, Senhor, mas o cheiro da carne que queremos está indo-se embora. Suponho que esteja ao norte, Mestre.
O Urso Alfa parecia estar pensativo. Acariciou seus cabelos grisalhos com calma. Argumentou:
-O que dirão se souberem que segui o conselho de um aprendiz? Nosso grupo de caçadores será ultrajado pelas próximas décadas, rapaz. Espero que não se ofenda.
Levemente magoado, Iluminista continuou sua estratégia de persuasão sem desistir.
-Mas, Mestre Kwolk, como pode afirmar se estamos na pista correta? Por que não tentar algo novo, se, como me parece, não temos nada a perder? Por favor, confie em mim. Use seus instintos, e verá que estou certo.
Após um minuto de reflexão, disse, claramente irritado:
-Não diga nada a ninguém sobre esta nossa conversa. Pensarei sobre isso, e, quando der as próximas ordens, saberá se sua sugestão foi aceita ou não. Agora o que tem a fazer é repousar. Vá, vá!
Após outra longa reverência, Iluminista saiu, um sorriso disfarçado em seu rosto. Sentia que ganhara aquela batalha de palavras. Agora só restava esperar, logo seria próximo o bastante de Kwolk para fazer-lhe certas perguntas.
*****A doce brisa costumeira da claridade transformou-se num vento arrebatador. Nada além de seu rumorejar era escutado lá fora.
Taura despertou sobressaltada. Lá estava o Yeti, o rosto inexpressivo, os dentes sujos à mostra. Podia sentir seu hálito, tamanha era a proximidade entre os dois. Este tinha nas mãos uma das facas afiadas na véspera. Apontava-a para o pálido braço da moça. Chegara o terrível fim.
-Para, não, por favor! – Vendo seu inútil apelo, a jovem fechou os olhos, sem ação. A ponta da lâmina de pedra começava a perfurar-lhe a pele macia. A criatura pouco ligou para seu grito de dor lancinante. Seu puro sangue escorreu, espalhando-se pelo braço como água. Nesse momento, o Yeti afastou a arma de perto do corte, virando-se para pegar algo atrás de si. Posicionou o frasco vazio de forma a coletar o líquido vivo que deslizava. Quando o vidro finalmente ficou cheio, o monstro levantou-se, arrolhou o recipiente e dirigiu-se para o outro extremo da caverna. Guardou o sangue de Taura numa sacola junto à sua cama de palha, onde se deitou e ficou brincando com sua faca, evidente objeto de estimação. A operação fora estranha, porém bondosa, se comparada ao que a pobre vítima esperava. Seu braço manchado tremia, branco como cera. Confusa, recostou-se o mais longe que pôde do misterioso anfitrião, seu rosto já marcado pelas lágrimas.
*****A caminhada do bando tornava-se cada vez mais cansativa. Dias de procura e resultado algum. Por esse motivo, o Urso Alfa mudara seus planos, tomando o caminho do norte. Na hora do crepúsculo, estavam mortos de tanto buscar algo, até o momento inalcançável. Quando a penumbra negra finalmente assentou-se, os caçadores estavam já refugiados sob suas cabanas móveis. Formava-se um círuclo, no qual todos aqueciam-se em volta de uma imensa fogueira.
-Lindo céu, não? Em breve nossas noites serão mais iluminadas.
O comentário de um dos companheiros do grupo provocou na lebre aprendiz uma reação inesperada. Faltavam, de fato, alguns dias para a lua cheia, o que representava um grande problema para Iluminista. Levantou-se, as feições contraídas de preocupação.
-Preciso... dormir, e-estou exausto.
Entrando em sua pequena cabana, manteve-se silencioso, isolado dos demais. As brincadeiras e cantorias não mais lhe afetavam. Estaria encurralado pela selvageria quando o plenilúnio chegasse, e não haveria como fugir. Amedrontado por tais pensamentos, cerrou fortemente os olhos e entregou-se a um sono agitado.
Algo lhe sufocava horrivelmente. Corria mais do que nunca, quase voava. Tinha raiva, e seus olhos ardiam. Mas... lá estavam! Figuras recortadas pela imensa brancura da neve. Avançou enérgico sobre eles. Primeiro a moça. A escultura delicada desmanchou-se em suas grandes mãos. Seus finos traços desfiguraram-se numa horrível máscara de sangue.
O próximo era o rapaz, agora debruçado sobre o corpo irreconhecível da jovem. Seus cabelos negros caíam-lhe pelos olhos, e sua boca entreaberta tremia. Transtornado, não percebeu as unhas bestiais cravando-se em suas costas magras. Quando sua sede foi saciada, levantou-se triunfante. Tudo aquilo correra num passe, e seus pés enormes aprontavam-se para subir a elevação gelada à frente. Mas, parou, rígido. Havia uma velha, olhar suave, despreocupado. Quando abriu a boca para falar, sua voz saiu alta, ecoando como se estivessem numa câmara acústica.
-Iluminista... a humanidade...
Tudo em volta rodopiou, inclusive as gentis palavras em sua mente. Mas algo lhe incomodava, sentia isso. De repente e aos poucos, seu corpo era engolfado pelo nada, o terrível vazio do “não ser”.







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