Viva o double post...
Capítulo Três
O Devaneio
- EU GOSTARIA DE LHE DIZER... - Começou Sir Isaac um dia, enquanto travava uma batalha épica com um bife mal passado em seu prato de porcelana. - Que adoro a forma como você sorri.
Dawn estava sentada na outra extremidade da gigantesca mesa de carvalho ricamente enfeitada com arranjos florais exuberantes e estátuas de ouro puro. Os mais requintados pratos foram servidos naquela noite. Os quinze anos dela. Dawn sorriu ao ouvir o comentário, enchendo os olhos de Sir Isaac Evans com seus belos dentes brancos e perfeitamente alinhados.
- Você é o meu maior tesouro, Dawn. - Disse ele ao fim da ceia, sem fita-la. - Não sei o que seria de mim se te perdesse. Agora vá buscar seu presente na biblioteca.
Sem quaisquer cerimônias ou um agradecimento, Dawn ergueu-se e seguiu em disparada para as escadarias, descendo-as em velocidade exemplar para encontrar, repousando em uma das poltronas da riquíssima biblioteca da mansão, um vestido negro, aveludado, que aparentemente caía pelo seu corpo, dando-lhe formas belas. No momento em questão ela não entendeu exatamente porque um vestido tão sensual. Só entendia agora.
Ventava muito. Um vento gélido e cortante, que uivava pelas ruas incertas da cidade. Arrastava algumas sujeiras bobas pelo caminho, junto com algumas porcarias e galhos secos partidos. O vento varreu a cidade de leste a oeste, anunciando a tempestade que cairia naquela noite. A última do inverno. Dawn recordou-se de seu qüinquagésimo aniversário por breves momentos, enquanto comia algo que parecia ser um peixe torrado com uma salada fortemente temperada, sentada em um banquinho de madeira junto ao maior balcão da casa de Fletcher. Ele tinha saído e deixara aquilo para ela jantar.
Aproximou o xale avermelhado dos ombros, tapando-os. Estremeceu quando um braço do vendaval entrou pela janela e percorreu sua pele macia. Batendo os dentes, empurrou o prato e começou uma longa travessia pelo pátio morto até seu casebre de madeira torta. Podia até tentar, mas sabia que Arthur não deixaria que ela dormisse na mansão.
Deitou-se sob o que podia tentar chamar de cobertor, em uma cama mal construída de ferro num canto do quarto. Desligou a lamparina que era a única fonte de luz ali e descansou a cabeça sobre o travesseiro pinicante. Fechou os olhos com força e desejou estar de volta à sua casa humilde, dez anos antes. Antes daquele ataque. O ataque que mudaria sua vida para sempre.
O dia seguinte amanheceu de fininho. O sol brotou aos poucos das nuvens negras e pesadas que estavam travadas no céu, cobrindo-o. Pouco a pouco seus raios quentes como o fogo penetraram na terra toda, iluminando os caminhos dos viajantes. Ninguém tinha nada a reclamar. A tempestade anunciada não caíra, apenas atormentara. E agora todos podiam voltar à suas rotinas, alegres.
Dawn devia ser a única pessoa na cidade infeliz com a idéia.
Arthur batera três vezes na porta da “casa”, chamando-a com a voz impaciente. Levantou-se melancolicamente, como se estivesse indo para a forca. E estou. Vestiu-se com uma saia cinza escura que descia-lhe até os joelhos e com uma simples blusa branca que enfurnava seu corpo. Pouco penteou os longos cabelos negros e passou uma água proveniente da pia improvisada ao lado da cama pelo rosto. Saiu de casa mais tarde do que de costume, e, para seu infortúnio, Arthur já havia ido embora. Juntamente com a chave, o que impossibilitava seu café da manhã.
Pulou atrapalhadamente a cerca da propriedade, caindo no gramado logo após passar metade do corpo por ela. Raspou-se de leve na canela. Ficou em pé e praguejou baixinho, ajuntando os folhetos que deixara cair. Sentindo um filete de sangue escorrer por sua perna, dirigiu-se à cidade.
***
Varkhal Lins acordou às nove em ponto, com o sol da manhã iluminando sua face através de uma fresta na janela. Espreguiçou-se e saiu da cama, analisando a bela jovem que dormia nua ao seu lado. Soltou um risinho de satisfação e vestiu-se demoradamente, cuidando para que tudo saísse perfeito. Um fio de cabelo fora do lugar e poderia por tudo a perder. Desceu ao primeiro andar e roubou uma pêra de uma bela cesta deixada sobre uma mesa de mármore. Mordeu-a fazendo uma careta. Saiu e fechou a porta, jogando a pêra em um riozinho atrás da residência. No caminho ao castelo, cruzou com um guarda abobado.
- Vigie direito a casa. - Disse-lhe simploriamente, seguindo seu caminho. Ora ou outra cruzava com belas jovens. E em momento algum deixava de explorá-las com seus olhos indescritíveis.
Em questão de minutos estava parado perante o castelo, os olhos viajando pelas muralhas brancas e pousando sobre os portões de entrada feitos de bronze. Costelloe estava ali, parado, na ponte que ligava a ilha onde ficava o castelo com a cidade.
- Perdoe-me a insolência Sr. Lins... Mas que tem de tão importante para falar com o rei?
- Não diz respeito à sua pessoa, guarda. - Respondeu asperamente, sem olhá-lo. Costelloe resmungou alguma coisa e depois falou, num tom mais imponente:
- O rei está em reunião.
Sempre está.
- Estranho não é Costelloe? Sempre que venho ter com ele, vossa majestade está em reuniões das quais eu, um dos mais importantes parlamentares, nunca tenho conhecimento...
- Está tentando insinuar alguma coisa Sr. Lins?
- Não. - Disse prontamente, espiando pelas grades de bronze. - Estou afirmando. O rei não quer me ver, certo?
Costelloe demorou-se um pouco. Saboreou o tom de derrota na voz de Varkhal Lins por alguns segundos antes de responder afirmativamente. Já está na hora de você se foder.
- Pois bem... Ele que perde.
Varkhal partiu, com o sangue aglomerando-se em sua face, os punhos cerrados trêmulos. Aquele velho medíocre...
Do outro lado da cidade, Dawn Evans espiava pelas janelinhas quadradas o interior da taverna de Frodo. A água surgia-lhe à boca quando via os pratos de carnes, saladas, pães e os copos de leites e chás serem servidos aos viajantes que ali paravam para matar a fome. Como eu preciso disso... Inutilmente, enfiou a mão em um dos bolsos da saia, buscando alguma moeda qualquer. Nada. Não posso ficar sem comer nada!
A exigente barriga clamava por um pão de milho quentinho, por um filé macio como as almofadas de um sofá caro. Sentiu o gosto de um champanhe leve aveludar sua boca e quase chegou aos berros desejando um pudim de leite. Mas nada disso é meu agora... Nem nunca foi. Eram ilusões... Lambendo os lábios pequenos, tomou a decisão que impediria sua vida de voltar a normalidade.
Largou os folhetos que segurava no chão. Estavam marcados de suor transpirado por suas mãos suaves. Esgueirou-se pela parede de tijolos áspera, sentindo pontadas em sua pele extremamente branca. Chegou sem demora à porta do estabelecimento. Mas não entrou. Seguiu ao norte, enfiando-se em uma passagem muito estreita que separava a taverna de certa outra loja. Ao fim do corredor havia um pátio perante a mansão de Sir Isaac, onde Frodo costumava depositar mesas e cadeiras para os fregueses mais sofisticados. Não sem antes pagar para Sir Isaac permitir que a frente da casa fosse usada.
Evitou encarar a antiga morada e sobretudo pensar no que seu “pai” estaria fazendo lá dentro naquele instante. Limitou-se a entrar pela porta dos fundos, o mais perto possível das escadas que levavam à uma pensão existente no segundo andar. Silenciosamente, esgueirou-se por trás das mesas, rente à parede, parando na curva desta. Pousou os olhos sobre os pães empilhados em uma cesta belamente decorada na mesa à sua frente. Lambendo os lábios, deu alguns passos à sua frente e largou sua formosa mão sobre um dos pães. E quando foi puxá-lo para si, sentiu que uma mão maior, forte e áspera pousara sobre a sua. Um arrepio percorreu sua espinha e ela ergueu os olhos, temendo pelo pior.
- Uma bela dama como você não deveria estar surrupiando pães em uma taverna. - Disse o homem parado à sua frente, encarando-a com uma expressão complacente. Sorria de um jeito carinhoso. Dawn teve a ligeira impressão de já te-lo visto antes.
- Eu... Eu não...
Ele riu. Tinha um riso encantador. Passou a mão pelos espessos cabelos alourados, revelando sua face estranhamente oblíqua. Mas o que revelou sua identidade foram os olhos sem cor, misteriosos como uma sala escura.
- Se está com tanta fome assim, posso convidá-la para um banquete? - Sua voz era mágica, atraente.
- Ah... Mas...
- Eu faria tudo para não precisar ver uma bela criação divina como você passar por situações constrangedoras como essas.
- Algum problema aí? - Ecoou a longínqua voz de algum empregado que provavelmente estivera de olho em Dawn desde que ela entrara.
- Não, está tudo bem. - Disse ele, sem alterar a voz. Sorriu novamente e retirou sua mão dos pães. - Me encontre esta noite no parque, Srta...
- Dawn... Dawn Hedgens.
- Um belo nome. Então te vejo hoje logo que a lua cheia estiver ao topo do céu. - Beijou-lhe a mão carinhosamente e retirou-se. Já perto da porta, pareceu lembrar-se de alguma coisa. Virou-se com uma cara meio envergonhada. - A propósito, sou Varkhal Lins.
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Manteiga.
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