Capítulo 8
Com o leve calor do sol tocando sua face, Taura sentiu cutucões pelo seu corpo. A voz de seu irmão adentrou-lhe as orelhas, despertando-a:
-Acorde, Taura. Papai tem algo para contar-nos!
Nem bem abrira os olhos, já levara mais uma pancada do travesseiro em seu rosto. Exibindo uma careta para Iluminista, a menina seguiu-o escada abaixo, um pouco emburrada. Ao chegarem na cozinha, o pai esperava recostado a uma cadeira, examinando displicentemente a palma da mão.
-Bom dia, filha. – ele enviou-lhe um sorriso, que a fez ficar envergonhada de seu próprio estado de ânimo e responder alegre.
Tenho uma tarefa para vocês. Suponho que não seja das mais fáceis, porém acredito que se sairão bem. O que tem de fazer é o seguinte: vão até a montanha das vespas e tragam o maior número de favos de mel possível. Para cada favo 10 moedas de ouro. No final dividirão a quantia e farão o que bem entenderem com ela. - ao ver os olhares cintilantes de ambos, ele continuou – tinha certeza de que gostariam desse joguinho. Agora vão, pois já é tarde. – acrescentou ele, arremessando uma torrada para a filha e um velho mapa para Iluminista.
Algum tempo depois, lá estavam os irmãos, encurvados sobre o mapa, consultando-o. Após constatarem que a montanha localizava-se ao oeste, caminharam rapidamente, quase correndo. O coração de Taura estava acelerado, mas esta não se importava. Que mal pequenas vespas poderiam fazer? Após passarem pela escada por cima do muro, atravessarem um riacho e andarem mais um pouco, os dois depararam-se com um imenso monte, cujo cume desaparecia no meio de uma névoa fria que pairava no alto. Um pouco balançada com a altura da montanha, Taura começou a subir, seguida por Iluminista. A caminhada não era tão difícil, visto que havia uma espécie de rampa pedregosa em volta de todo o relevo. Aos poucos o ar se tornava rarefeito, e não mais era possível ver a grama lá embaixo. Finalmente pisando no cume, uma forma perfeitamente plana, os dois caminharam lenta e silenciosamente. Onde estariam as vespas?
De repente, um grito. Taura olhou rapidamente para o lugar onde estivera seu irmão: havia apenas um buraco, camuflado pelas rochas ao seu redor.
-Taura, eu estou aqui. Venha, a queda não é muito grande.
A menina guindou o corpo e encolheu as pernas, aterrissando suavemente no chão. O buraco, revelando-se ser uma cúpula, era bem mais amplo do que imaginava. A única fonte de luz lá embaixo vinha de um portal, de onde vinha uma grande claridade cor de ouro derretido. Havia somente esse caminha a seguir. Ao passarem pelo grande portal, um forte aroma de mel adentrou pelo corpo dos gêmeos, indicando estarem perto do destino. Agora já era possível ver: como um rio de lava incandescente, lá estava o mel genuíno, desprendendo um cheiro imensamente doce. A câmara era circular, deixando-os com a verdadeira impressão de estarem numa colméia gigante.
E lá estavam os favos, revestindo as paredes de pedra, e deixando-as com uma magnífica cor de topázio. Os irmãos desceram as escadas, aproximando-se ainda mais do mar de mel. Iluminista falou, olhos fixos na companheira:
-É melhor começarmos logo.
Logo em seguida, a irmã esticou o braço para retirar o primeiro favo, brilhante como metal. A tarefa seguiu-se por mais alguns longos minutos, até que todas as sacolas foram cheias. Quando já se encaminhavam para a saída, Iluminista disse, o sorriso malicioso:
-Esse mel parece estar delicioso....
Enquanto o irmão se abaixava para sorver o grosso líquido, um projétil passou por suas costas, rápido como uma bala.
Estupefata, Taura olhou para os lados. Não muito longe de onde estava, uma nuvem escura se aproximava, zumbindo ameaçadoramente. Pelo visto o irmão ainda não havia percebido o perigo, e teve de ser chacoalhado pela garota:
-Anda logo! Você nos meteu em uma grande confusão!
Atordoado pelo susto, ele levantou-se, e só aí se deu conta da situação. O enxame crescia mais e mais, cercando-os. Uma vespa passou rente ao rosto de Taura, fazendo-a perder o equilíbrio e cair na piscina de mel. Ela bateu os braços freneticamente, sem resultado. Era como estar em areia movediça; e a menina não conseguia emergir.
Iluminista, vendo a irmã em apuros, estendeu-lhe o braço, nervosamente. Taura, com imenso esforço, retirou as mãos da piscina, e esticou-as o máximo que pôde. Aturdida, a menina começou a correr para a saída, seus pés gosmentos colando no chão.
Ela sentiu algo lhe perfurar o braço. Uma dor lancinante percorreu-lhe o corpo, adormecendo-o. Caindo de joelhos, viu suas mão tremerem de forma descompassada. Iluminista correu ao seu lado, socorrendo-a. Taura disse, sua voz fraca o bastante para o irmão ter de se aproximar ainda mais:
-As vespas... são... venenosas... Precisamos sair... daqui.
Após proferir essas palavras, ela sentiu sua língua pesada, sinal de que deveriam se apressar.
-Consegue caminhar?
Frente à resposta negativa da irmã, levantou-a nos braços, enquanto golpeava várias vespas furiosas, sua respiração entrecortada. Lembrando-se de que Taura não teria forças o suficiente para subir pelo buraco no cume da montanha, Iluminista dirigiu-se para outra passagem, localizada no extremo oposto da câmara. Estava jogando os dados, pois não tinha certeza se tal caminho os levaria para a saída. Era evidente que o nervosismo aumentava à medida que o corpo da menina amolecia debilmente.
A visão de Taura escurecia a cada minuto, e seu irmão deveria apressar-se. De repente, um escorregão inesperado. O chão estava coberto de uma camada espessa de musgo, fazendo com que os gêmeos descessem mais e mais, como que em um escorregador. Após voltas e mais voltas, ambos viram a luz, e o ar tornou-se imensamente puro. Tornando a carregá-la nos braços, Iluminista seguiu, os passos ainda mais firmes. Agora havia somente manchas, e Taura via breves relances. O riacho, a ponte... Relutante, ela fechou os olhos, enquanto respirava muito precariamente.
*****
Podia sentir a movimentação ao seu redor. Pés apressados iam e vinham. Todo o seu corpo doía, mas não se importou. Talvez poderia abrir os olhos, porém não o fez. De repente, algo tocou seu braço suavemente. Ela pôde ouvir com clareza as seguintes palavras:
-
Exana Pox
Sentiu a substância eletrizante percorrer-lhe as veias, espalhando-se. Seu coração bateu mais forte, e soube que a cor voltava ao seu rosto, pois este esquentava. Abrindo lentamente os olhos, ela viu o rosto cintilante de sua mãe, fitando-a com ternura.