Capítulo 1
O segundo dia de treinamento amanheceu, e a menina acordou antes de todos. Seus pés estavam estranhamente leves como pena, e ela não conseguir retirar o sorriso estampado em seu rosto. Rapidamente, pegou seus equipamentos, a velha espada da família e sua sacola de pano, já bem surrada. Guardou um punhado bem farto de frutas silvestres em seu interior. Desceu cuidadosa e sorrateiramente as escadas, para que ninguém acordasse. Já na rua, dirigiu-se para o córrego, onde tomaria um banho bem refrescante.
Entrou nas águas geladas com sua veste longa e colorida, dada por seus pais no aniversário. Ao mergulhar nas águas geladas, sentiu seu corpo inteiro adormecer, relaxar. Fechou os olhos. A luz matinal penetrou por sob suas pálpebras, aquecendo sua face agradavelmente. Involuntariamente, ela abriu-os, e olhou para o local onde deveriam estar seus pertences. Mas, misteriosamente não havia nada. Taura olhou para os lados assustada, e viu uma cena bastante sugestiva: não muito longe dali, um menino magricela corria, as mãos entulhadas de objetos que a menina não pôde enxergar com perfeição.
Ela saiu do córrego aos trancos e começou a perseguí-lo, numa velocidade tão excepcional que ela própria desconhecia. Correram, distanciando-se mais e mais do povoado. Havia uma floresta no horizonte cor de laranja que se aproximava a cada segundo. O ladrãozinho vacilou, porém recuperou seu ritmo e adentrou-se no matagal fechado. Não tendo alternativa a não ser continuar a perseguição, Taura penetrou na mata, excitada pelo fato de não conhecer o ambiente. A disputa pelos pertences ficava mais difícil agora: após inúmeros tombos e arranhões e vários momentos em que por pouco não perdera o alvo de vista, Taura consegue alcançá-lo. O menino ficara encurralado por conta de trepadeiras que impossibilitavam seu progresso. Assustado, ele olhou rapidamente da garota para os lados. Aparentemente não havia saída, senão descer uma escada imunda, localizada próxima às trepadeiras.
Sem alternativa, o garoto desceu os degraus, cujo destino obscuro era desconhecido por ambos. Quando Taura também se encaminhava para as trevas e seu pé tocava o segundo degrau, hesitou, lembrando-se das proibições de seu pai com relação ao subsolo.
Afastando tais lembranças da mente, continuou a descer para o desconhecido, tensa, porém constante. Seus olhos custaram para se acostumar à baixíssima luminosidade, até verem uma fileira de tochas fixadas nas paredes rochosas e irregulares. Elas faziam com que o lugar não se tornasse um breu total, mas não o deixavam menos tenebroso. Ela pisou em algum líquido, não podia saber se era água, urina ou sangue. Ouviu também uma série se ruídos, aproximando-se à medida que ela ia caminhando.
Repentinamente, viu uma cena que nunca desejara ter visto: o pobre corpo do menino esparramado no chão, com quase duas dúzias de ratos do tamanho de gatos, com grandes presas ameaçadoras. Ela começou a correr, golpeando loucamente as criaturas que a perseguiam. Após alguns minutos de agonia, ela conseguiu exterminar todas aquelas pestes, e voltou para perto do infeliz garoto. Seu corpo sangrava, e ele ainda tinha nas mãos os objetos roubados. Lentamente, com incontáveis lágrimas no rosto, Taura pegou seus equipamentos e virou-se para sair daquele lugar hediondo. Mas, essa ação foi interrompida ao ver sair, do peito do garoto, faíscas azuladas, que se transformaram numa esfera de energia luminosa. Aquela luz extraordinária banhou o lugar, deixando-o cheio de cor e vida.
Ela seguiu a esfera, que se dirigia para a saída. Não deixando o magnífico brilho sair de seu campo de visão, seguiu-o, hipnotizada. Seus passos eram leves, e não via o caminho pelo qual seguia. Muitos olhares foram para ela direcionados, porém a jovem descobridora não se importava com nada, senão aquela enorme cintilação angelical, que se dirigia para um grande edifício, imponente e imaculado. Lajotas pretas e brancas proviam ao lugar um ambiente gótico sob grossas colunas sustentando um telhado perfeito. Sim, o templo de Rookgaard, local cuja menina visitara pouquíssimas vezes, num passado distante.
Agora, no centro do templo, a esfera parava, dividia-se por magia. Aquela inexplicável corrente de poder fragmentava-se cada vez mais, e dava origem a uma massa de poeira brilhante. Que seria aquilo? Com a mente inundada de dúvidas, Taura viu surgir, diante de seus olhos, o menino que a roubara, estatelado, inconsciente. Estupefata, ela aproximou-se de seu corpo, examinando-o dos pés à cabeça. Abaixando-se para contemplá-lo melhor, Taura sentiu sua respiração, seu peito subir e descer por baixo do blusão velho. Com uma corrente forte de alegria ela percebeu os sinais de vida do garoto.
Supondo que sua vida estava salva, ela o deixou por um instante, para contemplar melhor o templo, tal era sua beleza. Havia estátuas; anjos com sua inocência entalhada na rocha. Mas havia algo tão imóvel quanto uma escultura, porém sem possuir o tom acinzentado de uma, recostado a um canto do cômodo: sem um músculo sequer mover, lá estava um monge, cabeça abaixada e ombros retos. Sua túnica marrom estava impecavelmente passada, e um grande capuz cobria sua cabeça Como se adivinhasse estar sendo observado, ele se levantou suavemente, quase levitando. Seus passos, inaudíveis, foram até Taura. Finalmente levantando o olhar, o monge fitou-a, ternamente:
-Oh minha jovem, vejo que está bem machucada! – e apontou para os inúmeros cortes e arranhões nas pernas e braços da garota - Deixe-me curá-la. – Ela sentiu como se um filete de água gelada descesse por sua cabeça, molhando o corpo todo. Mas não havia água alguma, apenas várias feridas desaparecendo milagrosamente. Voltou-se para seu curador, agradecendo-lhe. Em seguida olhou de modo interrogativo para o menino, ainda deitado, porém movimentando a cabeça e os braços levemente. O monge lhe falou, com um leve sorriso no rosto:
-Dúvidas, não é? O que tenho a lhe falar é que, para aqueles que ainda devem mudar o mundo, a hora ainda não chegou. – ao ver que seu discurso fora incompreendido, ele continuou – vá, faça sua vida virar história!
Novamente Taura foi ao encontro do menino cuja cor voltava a seu rosto pálido. Ele abriu os olhos e viu uma adolescente fitando-o fixa e profundamente.







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