Capítulo 2
Com o alvoroço e as fortes emoções, Taura não tivera tempo de observar as feições do garoto que a roubara. Seus cabelos eram loiros como o raiar do sol. Estavam oleosos e um pouco sujos, mas ainda assim não haviam perdido o brilho natural. Sua pele era bem clara e encontrava-se bastante maltratada. Olhou ao redor, parecendo meio atordoado. Disse, lentamente para a garota que se sentara ao seu lado, voz fraca:
-Desculpe-me por ter roubado seus pertences. Eu tinha fome, e não havia dinheiro para comprar comida.
Consternada com a situação do pobre menino, ela falou, o mais gentil possível:
-Não tem problema, você tem meu perdão. Mas, na floresta há frutas deliciosas, porque não as colhe?
-Jamais entrei naquele emaranhado de árvores a não ser hoje. Sempre tive medo de sair do povoado. – ele abaixou a cabeça, parecendo envergonhado com sua atitude.
Taura então se aproximou mais ainda e ofereceu-lhe um punhado daquelas frutinhas redondas. Ele comeu-as com voracidade.
-Eu sou Taura Minus. E você?
-É que – o menino encolheu-se ainda mais, diminuindo de forma descomunal – eu não me lembro do nome que meus pais me deram, pois vivo nas ruas há muito tempo. Mas meus colegas me apelidaram de Iluminista, pois ás vezes, ainda que não saiba como, consigo iluminar lugares muito escuros. – Ao ver a expressão de pena de Taura,acrescentou, rapidamente – A vida não é tão ruim nas ruas. Basta saber se cuidar.
Não muito convencida, ela perguntou:
-Qual é o seu grande sonho?
-Bem, uma das únicas lembranças que tenho do passado, quando eu tinha uma casa, é o desejo de correr grandes perigos e aventurar-me pelo mundo. É exatamente isso: ganhar o horizonte e enfrentar o desconhecido.
A menina olhou daqueles olhos cor de mel para o chão:
-Eu... eu gostaria de ouvir sua história, se não se importa... Diante do pedido encabulado, ele disse, gentilmente:
- Claro, mas, quero que saiba. Não espere muito, pois minha vida é... digamos assim... sem atrativos, o que a deixa extremamente curta. – após um trejeito risinho, ele continuou - Eu nasci numa casa localizada no interior da ilha. O sol nascia antes, e tingia a grama verde com tons alaranjados. Ainda me lembro do cheiro do orvalho, que penetrava em meu peito, deixando-me levemente sedado. Eu tinha uma irmã gêmea, e brincávamos o tempo todo. Um belo dia; fomos visitar uma feira no centro de Rookgaard com nossos pais. A multidão crescia mais e mais, quase que devorando-nos Eu me distanciei do grupo sem saber, e deles me perdi para sempre. Assim, desde os cinco anos de idade vivo na rua. Esse tempo sozinho foi muito difícil para mim, mas outros moradores de rua me alimentaram com a pouca comida que havia. Bem, é isso – disse ele, ainda com o olhar mergulhado em lembranças distantes - Espero não tê-la decepcionado, pois avisei para não esperar por atos heróicos e experiências de quase morte. Agora gostaria de ouvir sua história, por favor.
Ao invés de responder algo, ela observou-o, com o semblante perdido. O estômago de Taura deu um giro e seu coração pareceu parar por alguns instantes. Finalmente falou, rouca:
-Eu... acho que temos muitas semelhanças, entende? Também tive um irmão, e... bem, éramos gêmeos, mas este se perdeu de nós muito cedo. Hum, e além disso, nós morávamos no interior. Ambos encararam um ao outro sem nada falar, por vários minutos. Iluminista quebrou o silêncio, no que mais parecia um gemido:
-Ham... bom...
De repente, o garoto deixou escapar uma grossa lágrima, e depois várias. Os dois abraçaram-se, tentando recompensar todos os momentos perdidos. Ainda fungando, ele falou:
-Eu gostaria de voltar no tempo. Reviver tudo da maneira certa. Ficar junto daqueles com quem eu deveria sempre ter estado. – voltando a chorar abertamente, ele recostou sua cabeça no ombro da irmã, deixando-o úmido. Tentando de alguma forma acalentá-lo, ela disse, fraternalmente, porém com a voz embargada:
-Não adianta viver do passado, o que importa é que estará conosco, vivendo o presente. Pare de chorar, vamos voltar para casa.
Assim, os dois caminharam para fora do templo, abraçados. Chegando ao destino, os pais esperavam a filha com um grande sermão por ter desaparecido sem deixar vestígios. Porém, ao ver o menino maltrapilho ao seu lado, logo se esqueceram do grande discurso. Ao saberem de toda a verdade, abraçaram-no e lhe serviram um prato caprichadamente posto. Após o almoço, ocasião em que Taura contou aos pais o episódio ocorrido no subsolo, os dois jovens foram até o córrego, local onde tudo começou. A água provocava um estado de relaxamento total, deixando ambos em êxtase. O sol, que aos poucos tocava o horizonte perfeito, deixou por completo os dois na escuridão, com o fraco brilho de uma lua nova.
Após o jantar, onde reinou uma animada conversa, todos foram dormir, exaustos. Seus pais improvisaram um pequeno colchão para o filho recém chegado. Foi difícil para Taura adormecer. Estava inquieta por ter encontrado seu irmão desaparecido há tanto tempo. Finalmente, depois de muitas horas, a menina caiu num sono bem leve.







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