<Senta-se e puxa uma papelada do casaco. Suspira e começa a ler o texto com os olhos>
Sem comentários.
Capítulo XXVI
Pouco de Seu Tempo
Eu mal podia acreditar na cena que insistia em circular pelo meu encéfalo e em invadir meu globo ocular. Minha mente estava demorando a processar as informações decorrentes, meu coração estava bombeando sangue enlouquecidamente por todo meu corpo, eu fervia de cima a baixo, minha testa suava e eu estava completamente paralisado com a mão estendida.
Exatamente em minha frente, o terrível “demônio” conhecido apenas por Ele estava enrolado nas cordas mágicas que eu mesmo conjurara segundos antes. Ele estava com os braços presos a cintura, as pernas atadas e o pescoço rodeado pela ponta final da corda gigante. Tentar fugir era inútil. Mas o temível vilão se debatia com uma fúria comparável a de um dragão cercado por guerreiros com enormes lanças, prontos para matá-lo. Ele caiu no chão e começou a rolar, na esperança de partir a corda nas pedras do calçamento.
A cena era irônica. Um ser que se julgava tão “superior” estava jogado aos meus pés como um verme. Meus olhos pousaram no corpo do homem. Passaram a fitar sua cabeça coberta. Ele parou de se contorcer e ergueu os olhos. Senti uma forte vontade de vomitar quando vi aqueles viscosos olhos travarem perante os meus. Do meu ponto de vista parecia que ele suplicava pela liberdade. A tentação de me aproximar e revelar a identidade de tal ser era enorme.
Com muito esforço eu pisquei e abaixei a mão. Ainda tremendo dei um passo a frente. E outro. E outro. A cada passo meu coração se acelerava mais e mais. Meu cérebro estava confuso. Meus pulmões começaram a exigir cada vez mais ar. Meu nariz não pôde agüentar. Eu já estava respirando pela boca. Ele também. Eu parei em frente ao homem. Ninguém tentou me impedir de fazer nada. Agachei-me e estendi o braço para baixar o capuz. A poucos centímetros do rosto dele, ouvi um grito.
- EXEVO GRAN MAS POX! – Ouvi uma voz esganiçada gritar próxima a igreja.
O instinto de sobrevivência foi mais forte que a vontade de acabar com minha curiosidade. Atire-me para trás no exato momento em que uma colossal nuvem esverdeada tomou conta do céu da cidade. Um odor podre invadiu minhas narinas e minha vista ficou negra. Minha corrente sanguínea parecia que ia ser interrompida a qualquer momento. Comecei a tremer. Meu sistema nervoso estava fora de si. Parecia que eu estava em meio a um ataque epilético. Levei as mãos a garganta. O ar não conseguia mais penetrar em minhas vias aéreas. Minha boca estava completamente seca. Meus ossos pareciam ser esmagados por uma pressão fora do comum, e meus músculos se contraiam sem meu controle. Passei a chutar o ar e rolar pelo chão. Meu rosto inchou e ficou vermelho. Meus olhos começaram a saltar das órbitas e minha língua foi jogada para fora da boca. Eu acreditei que era meu fim.
Eu forcei minha língua para dentro da minha boca e tentei tomar ar. Mas era impossível. Reuni todas as forças que ainda pairavam sobre meu ser no nariz e inspirei o máximo que pude. Pouquíssimo ar entrou, mas o suficiente para chegar até minhas cordas vocais e fazê-las vibrar. Movi a língua furiosamente por toda a boca, tentei gritar, mas ainda era impossível. Meus membros começaram a dormir e eu senti que era agora ou nunca. Movi meus lábios rachados e secos para formular alguma frase coerente. Com minha cabeça pronta para explodir, eu consegui pronunciar apenas duas palavras. Exana Pox. Depois disso perdi totalmente a consciência.
***
Druid estava a poucos metros de distância de Drago, em pé. Ele respirava com certa dificuldade, embora necessitasse de quantidades astronômicas de ar, já que havia gastado muita energia executando seu feitiço. Enquanto Drago estava distraído tentando desmascarar Ele, Druid viu Zivrid em pé em frente a igreja, com os braços erguidos. Pôde ver que o monge se concentrava muito, e por isso Druid temeu o pior. Murmurou um feitiço de escudo mágico e correu na direção de Zivrid. Mas já era tarde, o monge executara uma poderosa tempestade de veneno, que poderia causar a morte de alguém em pouquíssimos segundos. Druid não foi envenenado graças a seu escudo mágico, mas foi arremessado contra a parede de um prédio residencial próximo. Ele viu que o sangue frio de Zivrid não possuía limites. O monge dizimou todo seu exército com aquela magia. Os únicos que sobreviveram eram o próprio Zivrid, Bruno e Ele. Bruno havia se escondido na igreja e Ele havia feito o mesmo que Druid. Mas Drago não tivera tal sorte, e acabou sendo infectado.
Mas felizmente o pupilo de Druid encontrou forças para executar um feitiço antídoto com perfeição. Mas o desgaste corporal do jovem druida fora tanto que ele chegou a desmaiar. Druid sentiu um grande terror ao ver seu aprendiz contorcer-se no chão. Teve medo que fosse o perder, mas estava jogado muito distante dele, sem capacidade para o salvar. Mas Druid nunca duvidara da força de vontade de Drago.
Agora Druid já se recuperara do susto. O druida passava os olhos pela cena, tentando processar todas as informações. Drago jazia desmaiado no chão próximo ao tapete azul, Ele estava ainda preso a poucos metros de Drago. Os aliados do druida ainda estavam nos telhados, portanto não haviam sido atingidos pela onda envenenada. Mas Druid procurava outra pessoa. Alguém sem alma, com o tremendo sangue frio de sacrificar todos os seus aliados por uma única causa. Druid torceu a face e cuspiu no chão onde Zivrid pisara momentos antes. Ele tinha nojo daquele ser infeliz. Uma lágrima solitária escorreu pela face trêmula de Druid e chegou a sua boca. O druida sentiu o gosto salgado da lágrima lambeu os lábios. Não podia acreditar que quase perdera seu aprendiz, seu melhor amigo. Seu verdadeiro irmão.
Ele deu um soco na palma de sua mão e virou para encarar Drago. Ergueu os olhos ao teto da igreja e viu Ama, sentada sobre as telhas. Ela estava apoiada pelos braços. Tinha uma expressão de medo na face, a boca aberta e os olhos fora das órbitas. Apesar da distância dava pra ver que ela estava sem chão. Parecia que Ama estava revivendo todos os momentos felizes que viveu com o amado e percebendo que era o fim da linha – apesar de não ser. Ela soluçou e tentou limpar as lágrimas, mas não pôde. Druid olhou para Drago e correu até ele. Ergueu a mão do amigo e mediu sua pulsação. Estava normal. Ele pousou sua mão no ombro de Drago e sorriu. Ele estava fora de perigo. Lentamente, o aprendiz foi abrindo seus olhos.
- Druid? – Drago sussurrou. As lágrimas começaram a escorrer pelos olhos do druida ferozmente. Drago sentou-se e Druid o prendeu em um forte abraço.
- Drago – Ele sussurrou entre um soluço e outro – Que bom que estas vivo... Eu... Eu fiquei... Assustado.
Não muito distante do lugar, Ele continuava amarrado. Mas encarava a cena impassível. Até que começou a gargalhar. Rolava no chão de tanto rir. E ria alto. Ele bateu com a cabeça bem de leve no calçamento. Mas ao invés de praguejar, ele riu mais. Ele estava fora de controle.
- Que há de engraçado? – Druid pediu limpando o rosto com a manga do casaco.
- O que não há de engraçado? – Disse Ele. Mal conseguia falar qualquer coisa de tanto rir. Ele estava respirando com dificuldade, inspirava cada vez mais. Druid torceu os lábios e se aproximou do homem. Cuspiu sobre o vulto e chutou suas costas com todas a força que pôde.
- Como eu queria fazer isso – Druid disse. Ele se calou. Druid ia se preparar para chutá-lo novamente, mas viu uma forma dobrar a esquina da igreja. Era Zivrid. Ele pôde reparar que o monge erguia os braços, exatamente como fez pouco antes de executar seu feitiço. Druid começou a correr na direção do monge – Dessa vez não!
O druida fechou os punhos e acertou a face do monge. O monge cambaleou para trás com a mão no nariz torcido. Zivrid tropeçou na barra da batina rala e se desequilibrou, caindo de costas no chão. Druid tinha uma expressão de ódio no rosto. Contraiu as sobrancelhas e correu até o monge. Zivrid tirou a mão do nariz e viu que estava sangrando muito. O druida o havia quebrado.
Zivrid ficou em pé e se preparou para executar outro feitiço.
- Exura Gr... – Disse o monge. Mas Druid socou o abdome de Zivrid, o fazendo ficar sem ar e cair de quatro no chão. Druid chutou a barriga dele e o viu cair. Druid já ofegava. Ele havia se esquecido de seus princípios e estava partindo para a extrema ignorância.
- Jamais vou perdoá-lo pelo que fez seu merda! – Druid vociferou. Ele agarrou o monge pela batina e o ergueu do chão. Druid iria fazer Zivrid pagar pelos seus erros. O monge levou as mãos a garganta, na tentativa de respirar. Ele fez cara de dor e urrou. Sua face estava coberta de sangue, boa parte seco. O monge movia suas pernas tentando se soltar, mas o druida era mais forte.
***
Fiquei em pé e cambaleei. Ainda estava um pouco tonto pelo efeito do veneno. Esfreguei as pálpebras e vi Ele. O homem parecia estranhamente calmo, apesar da situação. Dei um passo na direção dele. E outro. E comecei a caminhar mais rápido. Meu coração acelerou. Minha mão estava trêmula. Eu respirava cada vez mais ar. Era chegada a hora, eu iria desmascarar aquele ordinário sem dó. E depois matá-lo. Ouvi um som atrás de mim. Me virei instantaneamente e vi Zeffyx.
- Drago, achei que estava morto! – Disse Zeffyx parando de correr. Ele ofegava muito, e parecia bastante cansado. Já tinha até olheiras! Ele apoiou as mãos nos joelhos e expirou.
- Não sou tão fácil de matar – Falei brincando – Viu o Druid?
- Ele ta matando o Zivrid lá no condomínio – Disse uma voz feminina. Zynara vinha correndo e tomando ar – Alia me contou.
- Cacete – Eu murmurei. Passei as mãos pelo cabelo e comecei a suar frio. Eu havia me esquecido completamente de Ama – E como está a Ama?
- Desmaiou – Disse Zynara sem rodeios – Mas Alia está cuidando dela. Parece que essa sua namorada tem coração fraco.
- É uma bastarda que nem o amante – Ouvi uma voz seca dizer.
- Cala-te – Urrei. Me virei bufando e corri até Ele. Agarrei-o pelo manto e o deixei de pé. Eu tremia de tanto ódio. Eu estava com os olhos fixados na face coberta do maldito vilão, os punhos fechados em torno do pescoço do safado. Eu já cerrava os dentes com raiva. Fechei os olhos e o soltei. Caminhei para trás e suspirei. Por pouco eu não fiz uma besteira. Ele começou a gargalhar.
- Tu és um fraco – ele disse entre uma gargalhada e outra – Exatamente como teu mestre.
- Bata na boca para falar de Druid! – Eu vociferei. Ele estava pedindo.
- Não. Falo daquele ser desprezível da maneira como quero.
- Você é desprezível – Eu falei baixando as sobrancelhas e balançando levemente o rosto.
- Não. Se você soubesse de toda a história, iria certamente discordar dessa opinião. Mas Druid não permite que tu saibas, não é verdade?
- Você não presta. Seus atos o condenam! – Eu falei perdendo o controle. Já estava começando a bufar novamente. Fechei os punhos com força.
- Meus atos são conseqüência dos atos de Druid. Eu sou o mocinho, não ele. Ah Drago, você podia ser poupado de tudo isso, de tudo que tenho planejado pra você. Mas não será, graças ao Jack. Culpe-o por todos os meus erros e acertos.
Ele parecia calmo. Calmo demais. Alguém nessa situação não teria condições de manter tanta calma! Estava parecendo que ele tinha total controle da situação. Que tinha tudo minimamente planejado. Tive a impressão de que ele piscou um olho para a igreja. Infelizmente não havia sido uma impressão. Bruno saiu desembestado pela porta da igreja com sua espada em mãos. Zeffyx viu a tempo e tirou Zynara da área em que Bruno passou atropelando tudo. Eu irei a face por um momento. E esse foi meu erro.
- Adeus Drago – Ele disse energeticamente – Ainda vamos nos esbarrar por aí. Utevo res ina “pássaro!
Virei-me no instante em que ouvi as palavras mágicas. Vi Ele brilhar intensamente por um instante. Depois disso, ele transformou-se em um singelo pássaro avermelhado com assas azuis. As cordas que o prendiam caíram no chão. Eram muito grandes para o pássaro. E Ele saiu voando pelos céus. Realmente ele teve o controle o tempo todo. Ele nos fez de bobos. Virei-m para Zeffyx e Zynara e vi que Bruno já havia escapado.
***
Não muito distante dali, Druid soltou Zivrid e o chutou novamente. A expressão de raiva do druida ainda dominava sua face, e o monge estava totalmente encolhido, gemendo e chorando. Seu rosto era irreconhecível pelo sangue seco que o cobria. A batina de Zivrid estava rasgada e manchada de sangue em diversos pontos. O monge estava cm uma aparência deplorável. Ele contraiu a face e ofegou mais ainda. Abriu os olhos e viu um pássaro vermelho erguer vôo.
- Mestre – Zivrid sussurrou com dificuldade – Não me deixe aqui...
- Não vai fugir dessa vez – Disse druid – Exori Vis.
E tudo ficou negro para Zivrid.
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