Citação:
Era uma passeata solitária. Uma faixa que se estendia por cima da cabeça já dava título à balbúrdia que ocorria naquela terça-feira quente de Curitiba. “Sou curitibano e não cumprimento NUNCA!”. Com grande impacto o “NUNCA” em letras maiúsculas e vermelhas de guache. Passando pelo calçadão da XV em pleno meio-dia estava lá, gritando, trovando, rogando, à todos que olhavam sua manifestação mais louca impossível. Xingava quem ria, gritava com quem olhava, dizia “Não me olhem, eu sou um ser superior, não me encarem e nem comentem”, bufava igual à um pombo que foge todo dia do nóia da Tiradentes que tenta caçar-lhe como caça uma onça, para o almoço não ser só pedra. Era um sujeito peculiar, não andava de cuecas e óleo que nem o “Oil Man” nem com sua bike do lado, como o Plá. Era apenas um jovem, com uma faixa erguida e uma guitarra nas costas, vestido igual à muitos que passam sem ver as ofertas da Casa China, ali, perto da Marisa, tal Marisa que agora se encontrava um pouco atrás do manifestante solitário, que para parecer maior colocara um som diferente do eterno samba, parecia algo como Irlandês, Escocês ou se duvidar até Islandês. Agora acendia-lhe um belo de um Marlboro vermelho, sim, daqueles famosos “Estouram Pulmões” que se encontra em qualquer banquinha, desde o “Torto” até o “Blood”.
Puxou o primeiro trago que acendeu com um fósforo e olhou para cima. “Nuvens”, pensou. Não demorou muito e soltou mais um grito de juventude incompreendida “Or! Or! Or! Bom dia é pra doutor!”, e continuou falando atrocidades à quem passasse perto ou olhasse de relance tal ato... infantil? Vulgar? Ato de desespero ou só mais um louco tentando imitar a Efigênia? Enfim, o tal “infrator” da verdade agora se encontrava bem perto da Osório, quando como se planeja no melhores planos, o imprevisto mais comum em Curitiba aconteceu. Choveu! O vento começara a uivar por entre os postes e anunciava mais uma noite de frio na boa e velha “Sociedade do espetáculo”. Seu grito foi de horror, sua raiva incontrolável à ponto de tacar a faixa no meio da rua Doutor Muricy, então discursou. Seu discurso poderia até ser bonito como é o do Professor Galdino em dias de campanha em frente à Estação Central. Era mais, falava, não, declamava, importunava de gestos as grandes nuvens cinzentas que gostavam de passear por ali, seus xingamentos agradavam até uma senhora de 90 anos, de tão belo que era a pronúncia, mas foi de breve tempo. O tempo do qual Curitiba muitas vezes era conhecido lhe surpreendera em sua empreitada de reconhecimento mal humorado, ele mesmo se espantara por não ter pensado no fato de que a “cidade do dia das 4 estações” não tinha esse apelido à toa. Com a chuva já iminente pingando o rosto, os rostos mal-encarados de vários curitibanos correndo, decidiu-se, então, que sentaria perto do bondinho e reclamaria com quem quisesse ouvir, fora o palhaço que ali ficava tirando sarro das pessoas que passavam. Daquele tinha ódio... Foi quando me aproximei, acompanhei-o em toda sua jornada, metido a dizer que acompanho quase todas as passeatas para ver “qual era” a daquele rapaz...
— Ei...
Me olhou dos pés a cabeça, meio assustado e frustrado ao mesmo tempo:
— Quê? — Aqueles “quês” que só os próprios curitibanos arrogantes conseguem fazer.
— Tem um careta?
— Não...
— Hmm...curti tua “passeata”. — Fiz as aspas com os dedos.
— Por que “passeata”? — Me imitava com repugnância...
— Porque isso, esse treco, que você fez, de nada teve de passeata...
— Por que não? Você nem me conhece e vem me tirando..
Eu ri.
— Qual teu nome? — Perguntei tentando trocar de assunto.
— Lucas...
— Hmm... Então Lucas, você não quer me descolar esse careta ai... fica pra próxima... se trombamos...
Silêncio por parte dele.
— Você tem apelido, ou algo mais fácil para lembrar de você? — Eu perguntei ao mesmo tempo que ia me afastando...
— LDM...
— LDM? Não, muito difícil...
— Nem é...
— Enfim, LDM, até mais...
Outro silêncio típico da região, que se encontra em negatividade constante com as saudações e os sorrisos.
—Eu falei até mais... CURITIBOCA! — Gritei.
Me afastei sem olhar para trás, sem se preocupar com os estranhos, sem se preocupar com ele... afinal, sou curitibano...
Abraços.