Citação:
Capitulo X – A semente do céu
Agradável maldita tarde. Eram a praça, as árvores, tudo parecia brilhar na cadente monotonia do sol. Eram as cores que preenchiam os espaços e formavam aquela linda triste imagem de praça antiga e simpática. Sentamos num banco de concreto, conversávamos distantes, olhando-se pouco. Tenho vontade de vomitar, essa lembrança é pesada. Intragável, amarga, dolorosa...
... Vem da sensação dúbia do esperado, do fim evidente e próximo. Vem da verdade.
E o pior é que me lembro exatamente de tudo. Lembro-me da tua saia preta, da tua blusa de banda, do teu guarda-chuva, dos teus olhos que agora fugiam dos meus. A tristeza crescia, conversamos sobre o que pudemos, tentei fugir ao assunto, juro que tentei.
- Esqueça! Sério, já acabou. Não quero realmente que você apenas suma da minha vida, mas... isso...
- Isso o que?
- Esses olhos, para! Para com isso! Esses olhos pedindo, as palavras doces e literárias. Causa-me vertigem, me perturba. Por favor...
Capitulo XI – O sorrir é solitário
Levantei-me, olhei pra ela já meio cansado de tudo aquilo. Olhei desterrado, sem pátria e incrivelmente louco de amor. Lembro-me de longe minha raiva, minha pena de mim mesmo, do sarcasmo, do riso maledicente, da dor, da depressão e do amor. Tudo misturado, batido, remexido em colheres graves de doses absurdas.
Ferido corri pra infantilidade do meu quarto escuro e dormi bons bocados. Dormi tentando apagar, fugir do meu próprio coração que sente tudo expansivamente e não se alegra no álcool. Fiquei perdido por um tempo, até encontrar qualquer espasmo da luz sem esperança. Apenas a claridade da vida e do improvável que ela proporciona, e este é meu único alento no tormento que senti. E neste sentimento lembrei-me do teu sorriso novamente que nunca foi inteiro, não me destes a liberdade de te ver sem o receio, sem o medo da felicidade. Sinto que nunca te vi realmente, que tu sempre colocaste um empecilho, uma margem de segurança pra não se entregar.
Então olhei o mundo de pessoas passando a frente e pensei comigo, foras tu que perdeste. E sorri de tudo isto, e de outras coisas mais. Ri do mundo e de ti, e por fim pensei que ainda encontrarei alguém que me ame como eu amei a todas vocês.
Sorri com teu suspiro, leitor...
(...e com teu sorriso.)
Capitulo XII – Desculpe-me realmente se sou assaz piegas
- Desculpe-me, só posso te pedir isto. Desculpe...
Não fiz de todo mal. Não era minha culpa, ou era? Vou fingir que não. Fingir que tudo o que eu disse foi pura besteira minha, e eu nunca disse nada que realmente você se importasse. Afinal não tenho mais certeza se me ouvia, e se me ouvia adianta? Eu ontem lembrei do teu rosto que já havia por pouco esquecido, e fundei a minha própria nova vida. Incrível, interessante, perfeito e cansativo.
E o teu beijo hidratado, calmo, uma chuva de paz na minha alma. Um alento nos dias quentes, frios e mornos. Era minha vida, eras tu e teu cheiro que por mais que alguns e até você queiram, não esqueci. Mas te amo, e o teu silêncio me fez pensar em tudo. Triste, dolorido, a dor de um sorriso largo.
Já te chamo pelo nome. Sinto-me mal ao não dizer nosso apelido, a meiguice de um tolo, o sentimento do poeta para pouco. Procure-me no curso de francês, me busque um dia de lá. Porque todo dia acordo com o teu rosto na mente e teu cheiro arfando meus sentidos.
- Não precisa se desculpar, só quero que você pare com isso, com tudo isso...
Capitulo XIII - Insistente? Talvez apenas não queira deixar-me abater
- Ingrid?
- O que, Isaac?
- Nada. Só queria dizer, te amo...
O telefone arfou ocupado. Eu ainda com o telefone em mãos fiquei ouvindo o vazio, a perda, minha tolice. Segurei-me, me segurei muito. Mas por um momento senti algumas lágrimas escorrendo pelo rosto. Só pude limpá-las, respirar fundo e ir ver o céu da minha janela, um pouco.
Capitulo XIV – Ah! Porque se abater não terei mais meu somente-nada
Desde o inicio desta obra até agora muito se passou. Mas não mais do que está impresso nestas páginas. As poucas coisas que sobraram não são para leitores, mas para grandes sonhadores. Sim, sonhadores. Dou-lhes o papel pra que em seus sonhos inebriantes escrevam o que vier vindo, porque obras são obras, não tem donos especificamente.
O final não é algo concreto, porque nada na vida é concreto. Não tem nenhum “felizes pra sempre”, nem algum suicídio inglório para dar o ar melodramático ou infantil (se esta for a verdadeira intenção dos clichês literários) para a obra. O final é obscuro, é o nada. Desde então tudo foi sumindo devagar, aqueles loucos espasmos amorosos se secarão como espinho e morreram como se morrem todas as coisas no mundo. Alguns menos românticos dirão que esta é a verdade, os romantizados talvez achem isso uma blasfêmia, mas não me importo.
Importo-me com aqueles que irão ler este livro e entenderão com alma. Quem não ver em si essa verdade, este entendimento todo não fique mal, não é culpa sua. Os livros, assim como todas as artes não são criadas por homens, na verdade todas elas já estão prontas e apenas escolhem quem possa reproduzi-las em sua mente de modo digno. E desta mesma forma também escolhem os seus verdadeiros leitores, para também habitarem em seus corações até o fim esperado.
E este fim esperado foi à morte. Eu fechei meus olhos bem devagar, observando acima as folhas das arvores caindo e planando ao vento. Os sentidos foram também se perdendo, o velho rumor do vento, a sensação gelada da terra, tudo fora se fechando e então morri num ultimo arfar do meu peito cansado.
Não fora ruim nem fora bom. Apenas me incomodei com uma melodia tão doce, tão docemente infantil que tocava ao fundo de minha mente e parecia fazer minha alma vibrar no gosto tolo das verdades. A morte é isto, não tenho outras nem mais palavras pra descrevê-la. Uma boca então se encostou a minha, não só no corpo mais na alma. Eu abri os olhos devagar encontrando outros olhos poéticos, como os que eram meus.
- Seus olhos...
- Que? – disse sorrindo
- Nada menina, apenas me diga umas palavras literárias. Olhe-me com estes olhos longos, por favor. Não quero mais me perder por nada... – e por fim terminei sorrindo, rindo.
Já havia terminado a obra a muito tempo, mas só agora resolvi postar. Minha primeira terminada, que já foi feita em formato de fanzine e vendida pelas ruas manauaras.