O Baú da Esperança - Cap. 5
1 - O Destino de Alice
2 - O Baú Se Abre
3 - Surpresa
4 - Servos do Estado
5 - Medo e Morte
6 - Redenção
7 - O Mestre
Epílogo
Prólogo
Numa manhã arrastada e poeirenta do verão de 1922, um passageiro foi deixado para trás, chorando na plataforma, quando o trem que distribuía leite partiu de Denilburg após uma parada de cinco minutos. Num primeiro momento ninguém percebeu, pois havia o apito do trem, as ondas de vapor e a fricção das rodas de aço contra os trilhos. O leiteiro estava ocupado com as latas e o chefe da estação com a correspondência. Não havia mais ninguém por perto, não enquanto o amanhecer ainda estivesse na meia xícara de café de distância.
Quando o trem fez a curva, levando consigo, seus barulhos, o choro pode ser ouvido com nitidez. O leiteiro e o chefe da estação ergueram os olhos do trabalho e viram a fonte daquele ruído.
Um bebê, embrulhadinho em um cobertor cor-de-rosa, estava muito mal equilibrado sobre um enorme baú bem na beirada da plataforma. A cada lágrima e sacudida, o bebê se aproximava da ponta do baú. Se caísse, não cairia só de cima da caixa, mas também da plataforma até os trilhos, mais de um metro abaixo.
O leiteiro saltou sobre as latas, derrubando duas delas, as solas de seus sapatos fazendo espirrar o leite derramado. O chefe da estação largou a bolsa, deixando as cartas e os pacotes caírem como uma cascata sobre o leite.
Cada um deles segurou o bebê com uma mão no exato momento em que ele rolava pra fora do baú. Ambos passaram da beirada da plataforma e pisaram um no pé do outro ao aterrissar de forma pesada e dolorosa – mas em pé. O bebê fiou perfeitamente equilibrado entre os dois homens.
Foi assim que Alice May Susan Hopkins chegou a Denilburg e foi assim que ganhou dois tios sem nenhum parentesco, mas com o mesmo nome: o tio Bill Carey, o chefe da estação, e o tio Bill Hoogener, o leiteiro.
A primeira coisa que os dois Bills notaram quando pegaram o bebê foi um bilhete preso ao cobertor rosa. Era um papel marfim de boa qualidade, as palavras escritas com uma tinta azul-escura que refletia o sol e cintilava quando segurado contra a luz. Dizia:
“Alice May Susan, nascida no solstício de verão de 1921. Cuidem dela e ela cuidará de vocês.”
Comentário gigante, li tudo de uma vez
Gostei muito do início de sua história, por isso resolvi comentar alguns detalhes.
Como não sou dono da verdade, tome as críticas como alguém jogando conversa fora no botequim, debatendo o último filme ou livro que saiu.
Citação:
Numa manhã arrastada e poeirenta do verão de 1922...
...Alice May Susan, nascida no solstício de verão de 1921
Bom, Alice nasceu no dia 21 de junho de 1921 e foi abandonada na estação entre 21 de junho e 21 de agosto do ano seguinte.
Tinha pouco mais de um ano quando surgiu na plataforma. Gostei da maneira que forneceu esses dados, foi sofisticado.
Só vou reclamar de uma coisa que vejo bastante na seção de histórias: "Alice May Susan Hopkins"? "Bill Carey"? "Bill Hoogener"?
O que há de errado com nomes em português ou locações brasileiras?
Tolstói falava que "Se queres ser universal, fala da tua aldeia".
Citação:
partiu de Denilburg após uma parada de cinco minutos
Numa rápida pesquisa no google, entendi que é uma cidade fictícia dos EUA.
É um bom recurso fugir de locações reais se não houver um grande conhecimento dos seus detalhes.
Apesar de preferir nomes em português, é inegável que pela influência do cinema americano essa pseudo-referência a uma misteriosa cidadezinha americana causa curiosidade.
Citação:
não enquanto o amanhecer ainda estivesse na meia xícara de café de distância
Essa comparação não consegui entender. A figura literária ficou interessante, comparando medidas de tempo e de volume.
Você quis dizer que a manhã só começaria depois de terminada aquela meia xícara de café?
Citação:
Foi assim que Alice May Susan Hopkins chegou a Denilburg...
Numa visão "careta", seria mais apropriado apresentar o nome completo da protagonista no final, quando aparece seu nome grafado no bilhete azul.
De início achei um pouco sem sentido o narrador anunciar um nome tão grande sem nenhuma referência, e quando lemos o bilhete não constar seu último sobrenome.
Depois viajei um pouco e pensei que Alice acabaria se casando com algum Hopkins e se tornaria a senhora Hopkins.
Afinal ela chega na estação se chamando Alice May Susan. O narrador estaria nos reservando alguma surpresa para o futuro?
Citação:
Portanto, Alice May Susan juntou-se à família Hopkins e foi criada com as filhas biológicas de Stella
É, o narrador nos reservava uma surpresa... Não precisa acreditar, mas escrevi o comentário acima sem ler o seu capítulo seguinte.
Está realmente uma história bem costurada, as palavras ficam mais valiosas quando se sabe que o autor está preocupado com os detalhes.
Citação:
Até 1937, quando completou dezesseis anos.
Suas irmãs tinham agora 25, 23 e 19 anos. Mas olhando a data assim, e por ser uma cidadezinha americana, não dá pra não lembrar da grande depressão americana de 29, que se estendeu por toda a década de 30.
Lembrei também que Hitler já estava no poder na Alemanha desde 1936, mas aí já é divagação demais. Apesar da II Guerra Mundial ter acabado com a crise americana.
Citação:
se sentaram na varanda para ver a vida passar. Nada tinha passado, a não ser o gato dos Prowell.
Muito bom, ri a beça.
Citação:
Parecia estranhamente natural segurá-lo e, sem qualquer planejamento consciente, ela acionou a alavanca, checou se o cano estava vazio e atirou em seco. Um segundo depois, percebeu que não sabia o que tinha feito, mas que, ao mesmo tempo, poderia repetir o movimento, e ainda mais. Sabia carregar a arma e atirar, sabia como esvaziá-la e limpá-la. Estava tudo na sua mente, embora só tivesse dado um tiro na vida
Não tem nada a ver com o clima de faroeste da narrativa, mas lembrei de Identidade Bourne. Só que sua história parece melhor.
Falando em faroeste, acabei lembrando também de um filme chamado O último matador, de Walter Hill, com o Bruce Willis num faroeste onde já existiam pistolas, metralhadoras e os primeiros Fords. Excelente filme.
Não deixe de concluir a história, está muito boa.
P.S.: O povo da seção se amarra num cenário extremamente detalhado, com parágrafos inteiros de descrições. Eu pulo todos, só quero saber dos detalhes que tenham relevância para o andamento do tema. Os livros do José de Alencar lia de 3 em 3 páginas, por obrigação escolar. Claro que isso é preferência e não crítica, só achei arrastada a parte das descrições do conteúdo do baú.