Aqueles que matam porque gostam
Dentro da taverna silenciosa, a luz falhava em acertar o vulto que se esgueirava pelos cantos escuros.
Ninguém falava lá dentro, por mais estranho que fosse. Todos atentos à porta de madeira, com bestas, arcos e lanças determinados a acertar qualquer um que por ela passasse.
Um homem, cercado por guardas armados, gritou de dentro de seu pequeno casulo:
–Lembrem-se! Quem matar o elfo leva cem moedas de ouro. – ele falava com uma voz esganiçada.
Movimentando-se, indetectável, o elfo riu.
Horas se passaram.
Com os olhos semi-cerrados, o homem baixinho continuava escondido atrás de seus guardas, como se essa fosse a única solução para escapar de sua perturbadora morte. Seus ouvidos treinados não detectaram nenhum som incomum por todo aquele tempo. Ele, então, acalmou-se. Talvez o assassino não quisesse enfrentar aquela gente toda. Talvez o tal elfo não respondesse por toda sua fama. Assim ele pensava.
Acidentalmente, a figura diminuta encostou em um dos guardas enquanto saía de seu estado de transe profundo. O corpo tombou para frente e caiu sem vida, emitindo um estrondo que ecoou por todo o lugar. Instintivamente, revivendo o pavor que antes lhe possuía, jogou-se para trás, provocando uma reação em cadeia em todas as pessoas de pé na sala.
Um por um eles tombavam, e nenhum se levantava. “Mortos”, berrava o homem desesperado.
Sentado numa das poltronas, esperando já havia algum tempo, o elfo falou pacientemente:
–Você demorou bastante para notar, outros o fizeram em menos tempo – a vítima, quase um cadáver, já começava a arranhar as portas e janelas, todas trancadas como ela mesmo pedira, a exceção da porta principal, guardada pela pálida figura do assassino.
Ele se levantou, retirando delicadamente uma adaga da bainha. Sua face morta ganhava vida, um tom de ansiedade e excitação. De todas as características que havia herdado de sua linhagem, os grandes olhos verdes eram os que mais mudavam, brilhando cada vez mais.
–Me chamo Anoén, adeus.
Uma única estocada certeira entre o pescoço e o ombro do homem foi suficiente, espirrando sangue por toda a cara do assassino. Seus olhos eram ilhas verdes de contentação em meio àquele mar vermelho.