Postado originalmente por Guardian of Muritanya
Nessa mensagem direi a história de um homem que não gostaria de contar,mas me sinto obrigado a tal.Aprendi muito com um homem chamado Maphrax Tiratin,um soldado de Thais.Eu,como estava viajando por lá,soube da guerra(contra orcs,como sempre).E eu,em frente aos soldados treinando na rua resmuguei para no nada:Mais por quê diabos não ficam em suas casas?
Meu comentário infeliz foi ouvido por um homem alto e forte,um soldado de baixo escalão na hierarquia militar de Thais.
-Porque vivemos para o reino.
-Não sei porque bancar o herói,quando se há trezentos deles aqui.
-Vejo que você não é daqui!
-Eu não sou de lugar nenhum.Sou Guardian of Muritanya,Bardo em nome da estrada.
-Vou lhe explicar,como uma gentileza.Meu horário de treino já acabou.O que você tem contra isso tudo?
-Bem,é o seguinte.Você podia ser muito bem um comerciante,mago,fazendeiro...Mais guerreiro?Você coloca sua vida em risco ao lutar apenas pela sua honra e xenofobia.Sem contar que vocês,soldados novatos ganham uma merda de salário,e você não pode me retrucar nisso.
-Mais o caso é que...eu me chamo Maphrax Tiratin,Cidadão de Thais.Fui treinado desde cedo como soldado que sou,e além disso,luto para sustentar á mim e a minha amada...
-Amada?Credo!Nessa idade já está com a maldição do casamento.
Pelo que eu conheci de Maph,ele concerteza me atiraria uma lança no meio da testa.Mais acho que ele foi com a minha cara na hora,e simplesmente riu ao ouvir isso.
-Vocês bardos são uns tolos mesmo.Deviam era criar raízes,aprender valores...são mesmo um bando de cantores vagabundos.Não são vocês que só fazem canções de amor e casamento?
-Esses são os boêmios...não me confunda com esses frescos.
-Boêmio,Bardo,Boi,Barata...pra mim,tanto faz.é porque você nunca amou ninguém.
-Mentira.
-Verdade.Diz que sim,pois se já tivesse tido um amor,teria parado quieto.Mais não,você é um daqueles rudes.
-E você é um daqueles boêmios soldados.
-Tanto faz.Já vi que você é um cabeça-dura mesmo...Já foi a guerra?
-Só de mensageiro.
-Então,pode me fazer um favor?
-Depende.
-Pode levar cartas minhas á minha mulher,Heloise?
-Não sei,não.Nem te conheço direito!
-quinhentos.
-e trinta!
-Tá certo,seu bardo ladrão.Mas prometa que nunca abrirá as cartas que eu lhe mandar,e dará elas a Heloise o mais rápido possível.
-Está querendo me ensinar a trabalhar,soldado?
E assim continuamos uma longa conversa que se estendeu até a noite,quando ele foi passar suas útimas horas com sua Heloise.
No dia seguinte,peguei meu cavalo,meu violão e minhas runas,e marchei ao campo de batalha com Maph.Estava chovendo forte,e os orcs pareciam bem empolgados com isso.Via as criaturas sujas marchando em minha direção,cheias de ira e fúrias incontroláveis.Sinceramente,eu via mais motivos para um orc estar lá do que duzentos homens estarem morrendo.
Mas isso não vem ao caso.O caso é que,vocês podem estar certos,era um cenário ameaçador.eles corriam convictos da vitória,e os homens da certeza.Creio ser essa uma das vantagens de ser um bárbaro ignóbil...Você nunca está errado.Então,sempre faz o melhor.
Eu me afastei do campo de batalha,e olhava a guerra de longe.Porque o motivo disso tudo?Todos esses homens morriam e sofriam com nenhum objetivo claro,além dos interesses políticos de Tibianus.Eu sou contra seu governo,e por isso minha cidade de coração é Ab'dendriel.Durante todas aquelas horas,via uma única pergunta á minha mente...ele está vivo?
Eu estava muito longe,e a chuva dificultava ainda mais a visibilidade.Só ouvia os gritos de terror,fúria e destruição.Homens morriam,orcs morriam,e a guerra continuava...e o objetivo cada vez mais longe.
A guerra busca a paz,mas não busca a vida.Todos saem de lá com um pedaço faltando.Até os bárbaros orcs sentem falta de um companheiro,ou talvez não sintam mesmo de tão ignorantes que são.
A chuva estava parando,e minha visilibilidade aumentou.Desta vez,via os orcs fugindo...estavam em desvantagem.Mas,como todos sabem,os orcs são persistentes.Perderam a batalha,e não a guerra.
-Guardian!Guardian!-gritou Maph-Venha aqui,rápido!
Eu corri para perto dele,e parecia estar bem,apesar dos ferimentos.Quem vai na linha de trás não morre fácil,mais corre o risco.Parou um pouco,pensou e me disse a mensagem.Eu,como qualquer bardo,decorei-a perfeitamente.
-Diga isso a ela...mandei lembranças.
-Está certo.
E assim passaram dias e mais dias de invasão,e eu entregando as cartas,poemas e mensagens de Maph.Ele sempre ficava vivo,por algum milagre.Passou uma semana nesse ritmo.Maph estava vivo,as tropas estavam menores e muitos acampamentos vazios.Estavam todos muito tensos,pelo que pude perceber.Estavamos comendo no acampamento na zona de batalha,em volta de uma fogueira.Quase todos estavam dormindo,menos eu e Maph(e alguns homens ao longe.Com certeza,digo que eram escravos ou curandeiros)
-Guardian-disse Maph-As vezes acho que você tem razão.As vezes acho que estou desperdiçando minha vida aqui...Mas eu não posso esquecer que fiz um juramento a todos os deuses,e que estou aqui pelo bem de minha amada...Não posso me esquecer também de você.Você vem me ajudado muito,estou tremendamente grato...sem você,eu morreria sem ouvir um ultimo suspiro de minha amada.
-Do que está falando?Esperança!Se aguentou até agora,pode aguentar novamente.
-O ataque será amanhã,e não sei certamente se voltarei...de segurança,pegue esta carta.Entregue a minha amada sem nenhuma palavra...ela compreenderá tudo.
Quando eu vi a carta em minhas mãos,eu dei um grito estendencedor.Como todos sabem,os bardos podem gritar em tons tão irritantes que são capazes de matar uma pessoa.Mais,na situação que estavamos,um grito de bardo só podia significar uma coisa:invasão orc.
E era verdadeiramente um ataque-surpresa,e por algum motivo,eu fiquei em transe total.E,quando cai em mim,estava no campo de batalha.Isso mesmo,ao meio daqueles guerreiros.
Esse foi meu contato mais próximo com a guerra e a morte.Eu vi toda ira,fúria e até a graça e amor da guerra.Eles lutavam por um ideal.Eles lutavam pelo seu povo.E então,eu vi que Maph estava certo o tempo todo.
Eu virei minha face e parti em fuga.Mas,quando ia fugir,uma visão me paralizou:Um orc correndo com uma lança se virou para Maph,e a atingiu em seu coração.Ele estava morto,e eu vi toda a esperança passando em meus olhos.Ao mesmo tempo fui possuído de fúria,e ataquei o orc com todas as forças.Ele morreu subitamente,e só depois ouvi as últimas palavras de Maph:
-Eu vivi...pelo meu ideal.
E depois disso,eu o vi murmurando algo,mas tenho certeza que era "Heloise".E,enfim,caiu como um corpo morto no duro chão molhado de sangue.Era uma morte trágica,uma morte de um amor e uma paixão pela sua pátria,e acima de tudo,uma morte.
E então eu compreendi:tudo isso valeu a pena.Parti em retirada,ainda bem pertubado e confuso.Resolvi dormir e depois dar a notícia a Heloise...mas não conseguia.Eu tinha virado mesmo amigo do cara.Mas não queria perturbar a dama em seu sono com uma notícia tão avassaladora...não é de minha educação.Sentei-me na cama de meu pequeno quarto em Thais e começei a pensar.Ou melhor,a não pensar em nada.Estava tenso demais,vazio demais.Então,eu resolvi ler a carta á Heloise.
"Amada Heloise,
Odiaria que você estivesse lendo esta carta,pois tenho em mente que nunca mais te verei...Ao receber esta carta das mãos do Guardian,peço que não a guarde.Isso mesmo.Será uma má lembrança de mim para você...
Eu te amei com todas as minhas forças,e lutei e morri por dois ideais:o reino e você.E o primeiro me fatalizou.Eu não creio que precisarei de mais palavras para descrever o quanto sinto medo ou desesperança,mas me sinto vivo por ti.A qualquer momento irei a guerra,com somente a certeza que...eu te amo.E minha alma sempre se unirá a você para confortá-la nas noites de escuridão.Tudo parece estar perdidominha amada...Mais acredite,eu também pensei assim.Mas eu pensei em você..."
A carta era clara,triste e direta.Ele parecia ter certeza absoluta de morte!A carta estava manchada de lágrimas dele.E não posso negar que chorei também quando a vi.Eu não tinha pensamento algum na hora...somente amassei a carta e vi a vida passando.E passando.E então percebi que tudo o que temos ou vimos é eterno.O amor que um dia se desfaz,viverá para sempre nas almas.Tudo que temos em nós é sombra da realidade ideal.Foi isso que Maph me ensinou...e que eu nunca esquecerei.
Quando cai na realidade como uma jaca grande e pesada cai no chão,já era de tarde.Eu estava tão envolto em poemas e pensamentos melancólicos que esqueci-me de Heloise.Então,fui até ela.Estava na porta de casa,olhando para o horizonte,com um olhar de esperança.Eu não conseguia abrir a boca.A sua face me desencorajava totalmente.
-Guardian,guardian!O que houve?Meu amado está passando bem?
Eu não suportei.Ela perguntava com esperança e uma voz encantadora,digna de um "sim".Mas eu não podia mentir,falar,andar ou pensar:eu simplesmente entreguei a carta a ela e virei as costas.E parei.
Ela lia,relia e lia de novo a carta.Eu me virei para trás e olhei em sua face...tão jovem é já experimentou o peso de uma morte.Ela estava chocada e ao mesmo tempo com ódio e raiva.Pra falar a verdade,eu não sei o que ela sentiu quando eu vios seus olhos.Eu nem sei o que eu senti.Só sei que nos abraçamos,chorando a morte de Maph.
E então,me despedi de Thais e parti rumo á novas terras.Com um peso no coração á mais,dos milhares que ganho por aí.Mas de uma coisa tenho certeza:Heloise e Maph nunca serão esquecidos.
A memória de Maphrax Tiratin,meu grande e eterno amigo.