A Narrativa: os Planos Originais
Devo dizer que, apesar de não parecer, os feedbacks da comunidade aqui da Seção me influenciaram como um todo, e mudei MUITO do que originalmente me propunha a escrever.
Começando pela proposta original: quando eu comecei a pensar no Ireas, antes mesmo de criá-lo no Tibia, minha ideia era trabalhar com um personagem com dualidade em termos de identidade de gênero. Em outras palavras, eu tinha a intenção de fazer um personagem que, em um dado ponto da história, seria capaz de fazer o que o mutante Nuvem, da série X-Men, faz: trocar entre corpo masculino ou feminino conforme a vontade e necessidade. Para todos os efeitos, um personagem
transsexual.
Originalmente, Ireas seria uma mulher transsexual, que descobriria essa nova identidade de gênero após ter sido beijado por um homem: que foi EXATAMENTE o ocorrido no Primeiro Pergaminho. Entretanto, precisei observar, primeiramente, como os leitores, ou usuários mais ativos da Seção Roleplaying lidariam com a questão primária da homossexualidade de um dos personagens (no caso,
Wind Walker). Para a minha surpresa, à época, a maioria das pessoas que frequentavam a história (ou seja, que se davam ao trabalho de comentar) aceitaram bem a homossexualidade. Então, por que não segui com o plano original?
Falta de vivência. Eu, na época,tinha conhecimento nulo de causa. Até onde eu sabia, no meu círculo social, o número de pessoas trans era zero. Além disso, eu não tinha uma pesquisa aprofundada sobre o assunto e, tendo apenas um personagem específico para lidar, cuja condição vinha de uma mutação genética, corria o grande risco de gerar o esterótipo do "traveco": uma figura escandalosa, de alta performance, totalmente caricata e que tentasse copiar feminilidade enquanto perfomance (eu REPUDIO essa ideia com toda a força que tenho em mim) em vez de ser mulher e se sentir mulher (sim, tem uma diferença gritante entre a ideia do traveco, do travesti e da mulher trans). Eu ainda não tinha contato com a história
A Garota Dinamarquesa (a primeira mulher trans a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, nos anos 30 em Copenhagen, na Dinamarca), então eu não sabia como incluiria essa questão na história sem:
- Destruir a narrativa, fazendo-a girar APENAS em torno disso (e deixar a lore tibiana em terceiro plano)
- Parecer forçado ou militante, de forma a tornar a história desinteressante e difícil de fazer as pessoas se identificarem ou ter algum tipo de simpatia pelo(a) Ireas.
O outro motivo foi
conflito pessoal. Passei por uma barra nos anos de 2011-2012 em uma série de assuntos, especialmente amorosos e de cunho de orientação sexual. Por conta disso, tocar no assunto da transsexualidade tornou-se ainda mais delicado, já que eu estava passando por uma série de questionamento os quais mantive apenas para mim, e sofri um pouco com isso, ainda que em silêncio.
Com isso, o plot que eu tinha para Jack foi, em um dado ponto do Primeiro para o Segundo Pergaminho, totalmente modificado. Jack serviria como o amigo de todas as horas para Ireas antes, durante e depois de sua transição (a qual seria muito mais simples, por possuirmos o recurso da magia em Tibia, mitigando a questão das cirurgias, mas sem ser capaz de diminuir o abalo psicológico proveniente das mudanças feitas), como um irmão que Ireas nunca teve mas que sempre precisou ter (essa última parte do plot permaneceu, como pode ser visto ao longo d'A Voz do Vento).
Também havia pensado em narrar uma Quest ou Questline por capítulo ou conjuntos de capítulos, mas preferi largar isso de mão por achar "mecânico" ou "impessoal" demais. Então, decidi usar um tópico (o Dreamwalking) para dar sabor à história, e acho que cumpri bem meu objetivo.
Abandonei o plano da transsexualidade e preferi trabalhar com uma outra noção:
sexualidade flexível.
Os Gostos e Amores de Ireas
Ireas não é gay, nem hétero e também não é bi. Ele ama; ele ama, muitas vezes, sem questionar. Ama sem reservas e com poucos preconceitos. Ele tem, óbvio, preferências: não explorei muito essa parte, mas, de fato, Ireas tem uma queda em particular por pessoas ruivas e de pernas grossas, qualidades que ele atribui a espírito aventureiro e segurança. Particularmente, eu não sou do tipo de escritora que usa sexualidade como declaração política; até o autor dar a canetada final e definir qual a orientação sexual de um personagem, eu suponho que pode ser qualquer coisa e que, se fosse importante para a trama, seria revelada na hora certa. E foi o que eu tentei fazer aqui.
Na cabeça dele,
pessoas ruivas = gente bem resolvida, bem amada e boa de serviço (em vários aspectos). Como sou uma pessoa mais reservada, não me imaginei, na época, entrando em detalhes com essa parte (até porque, bem, temos uma regra no fórum: nada de conteúdo 18+), então optei por tentar deixar isso implícito, destacando, sempre, a questão dos cabelos ruivos e sardas que o Wind tinha e que Lisette também veio a ter para que isso justificasse o interesse romântico do Ireas e fugisse da máxima
"bissexual é putaria, deve comer o que aparece na frente" ou
"em tempos de guerra, qualquer buraco é trincheira". O irônico disso tudo é que, nessa parte, eu e Ireas diferimos muito: homens com a aparência como a do Yami, o Primeiro, por exemplo, me atrairiam muito mais do que homens com a aparência do Wind, apesar de preferir, com algumas ressalvas, a personalidade do último em detrimento do primeiro.
Claro que as piadas mais recorrentes foram sobre a aparente (e quase inflexível) homossexualidade de Ireas, e não me incomodei ou intervi pois não achei a interpretação de todo errônea: claro, se não havia aparecido nenhum interesse romântico feminino para ele, que mal haveria supor que, no fim das contas, Ireas Keras nada mais era que um viadão? O que mais me surpreendeu foi que, em nenhum momento, as pessoas deixaram de gostar do druida. Pelo contrário: o que realmente dividiu opiniões foram as ações do Ireas enquanto caçava sua mãe e em como ele usou as pessoas ao seu redor, e não o fato de ele gostar de homens e, o que foi revelado posteriormente, de mulheres também.
Piadas Internas e Referências
Toda narrativa moderna se vale de uma gama de referências que puxam o público para ela e criam laços afetivos entre leitor e leitura. Meu conjunto de referências consistiu, obviamente, em locais ou eventos importantes e famosos em Tibia e, principalmente, em acontecimentos verídicos ingame.
A referência que mais moldou essa história foi um caso particular ocorrido entre mim e Wind Walker, quando estávamos em Folda, esperando chegar o Icel Emonebrin para sua print de lvl 100, lá pelos idos de 2011-2012; Wind e eu havíamos chegado primeiro e ele estava brincando com umas caixas que estavam na ilhota. Eu estava no lvl 24 ou coisa do tipo e ele me largou a seguinte: "Ei, eu to montando uma casa, bora dividir?".
Rimos muito e ficamos brincando com as caixas e conversando; quando chegou o Icel para tirar a foto, a piada já tinha se alastrado entre nossos amigos e... O resto é história. Eu usei a piada como pretexto para aqueles que eram de nosso grupo: se um dia eles viessem a ler, entenderiam o porquê do Wind e do Ireas terem tido um caso.
Outra referência foi a relação entre personagens: de todos do elenco, fora Don Maximus Meridius e Kinahked, que foi uma adição bônus, todos foram pesadamente baseados em minha relação cotidiana no jogo. Sírio Snow e First Yami, em realidade, eram os jogadores com os quais eu possuía o maior convívio, e tentei usar isso até o fim.
As Mortes
É uma lei do Tibia: ao menos em uma campanha ou hunt, alguém tem que morrer. Algumas pessoas, no entanto, morreram ou fora da hora certa ou por erro de percurso. Foi o caso do Liive, cuja treta foi explicada no capítulo de sua morte, no Segundo Pergaminho. Quem era para ter morrido era o Icel, mas quis dar ao Liive uns momentos a mais de glória para um personagem que foi muito querido pelo pessoal.
Outra morte fora de hora foi a de Wind: a bem da verdade, ele teria morrido
antes do Segundo Pergaminho, e eu me esqueci desse detalhe... E acabei protelando o inevitável.
Uma morte que era para ter ocorrido e que eu também impedi: em um dado ponto, Morzan, o irmão de Sírio, seria morto durante o período da Revolução Vandurana, mas optei por descartar essa ideia para não causar uma cisão abismal no grupo de A Voz do Vento. Emulov também correu o mesmo risco, mas eliminei a ideia ao juntá-lo com Solstícia Solária.
Ireas e Wind: o Término
Certamente um tópico delicado; se eu tivesse seguido meu plano original, Wind teria terminado com Ireas por não aceitar sua nova identidade, vindo a se arrepender posteriormente, antes de sua morte, que traria a Ireas um sentimento grandioso de raiva junto ao luto.
O relacionamento ficou fadado ao término pela forma que eu falhei em resolver a intriga do Primeiro Pergaminho: como não quis matar o Wind tão cedo, fosse pela minha memória afetiva, fosse pelo fato de que eu ainda via contribuições válidas de lore para Wind (pude usá-lo para introduzir Variphor na história, ainda que brevemente), o que fez com que a morte dele saísse ainda mais brutal do que o esperado.
A bem da verdade, Wind era para ser tanto o primeiro amor quanto a primeira desilusão de Ireas; ele serviria para Ireas começar a entender como as relações afetivas funcionam, e que nem sempre os relacionamentos são feitos para durar a eternidade, e que ele teria que aprender a viver com isso, mas sem deixar de buscar o amor.
Afinal, como poderia haver vida após o amor, ou sem ele?
Pensei em juntar o Yami e o Ireas, mas desviaria MUITO o foco do último Pergaminho, de modo que preferi descartar essa ideia para conservar a história.
Lisette
Por uma questão de pressão popular, premeditação e o desejo de homenagear uma amiga minha da Suécia, que joga hoje em Secura, a fim de dar ao Ireas algo que certamente ele desejava: a estabilidade de uma família e um amor para chamar de seu. Lisette foi baseada na Serena, de
Os Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, em Elizabeth Swan e, em partes, William Turner, ambos personagens da primeira série de filmes da franquia.
Como eu gosto da questão de como o EK e o ED se complementam em Tibia, ainda que eu não seja uma grande adepta de
team hunts, eu quis reforçar esse ponto, lembrando que sempre há um Cavaleiro para proteger um Druida, e o Druida sempre está ali para curar as feridas e renovar as forças do Cavaleiro. Lisette assumiu esse papel de forma magistral, que era antes o papel de Wind (também EK) e, por um tempo, mesmo que de forma mais branda, de Yami (o Efreet também é um EK).
Em meus planos originais, ela e Ireas de fato não conseguiriam ter os filhos; entretanto, por achar essa linha de raciocínio trágica e desmotivadora demais, preferi usar a maldição de Bastesh à favor deles, mantendo os três pequeninos vivos.
O Final
Mudei coisa PARA CARALHO. Sério. A começar pela ideia principal: quando concebi originalmente a história, tanto Ireas quanto Jack morreriam no final, usando todas as suas forças para salvar o Reino dos Sonhos. Esse final viria junto com o meu
retired definitivo do Tibia, pois meu plano com essa história era pegar lvl 100, fazer a Warlord Arena, encerrar a história e parar de jogar Tibia.
A Lisette não teria existido e Yami teria morrido ao final, tirando a própria vida ao ver-se desprovido de um propósito. A Sociedade teria permanecido isolada no Reino dos Sonhos como um memento de uma resistência, com poucos Teshiais o habitando para mantê-lo, mas com todos os contatos e Pontes cortadas, isolada para sempre do mundo físico.
Obviamente, os paradigmas mudaram e esse final não faria mais sentido algum para mim; eu havia voltado a jogar (ainda jogo, por sinal) e passei por tantas barras esse ano (alguns amigos faleceram, meu avô também, perdi o estágio e estava em vias de terminar a faculdade) que ao menos uma coisa alegre deveria vir do término de um projeto. Dessa forma, optei por mudar radicalmente as coisas e dar um final feliz à história, pois eu estou feliz no Tibia, jogando em Luminera com o pessoal maravilhoso da Golden Falcon Warriors e eu não trocaria isso por nada!
E grandes aventuras não vivem apenas da tragédia: é sempre revigorante dar de cara com um final feliz, onde o passado sofrido fica para trás como um aprendizado e o futuro parece mais otimista e belo do que o presente se mostra.
Continuação?
No momento, não estou pensando nisso: gostaria de dar atenção a outros projetos e outras histórias. Prefiro encerrar como está e deixar livre para conjecturas de vocês, leitores. ;)