Postado originalmente por Rodrigo da Silva, editor do Spotniks
Algumas considerações importantes sobre a desistência de Jean Wyllys do papel de deputado federal e sua saída do país.
1. Não, o Brasil não é uma ditadura. Nós não estamos num estado policial e não há nenhum indício que aponte que caminhamos para uma distopia homofóbica. Há um único levantamento no país (com uma série de falhas e limitações estatísticas, é verdade) sobre crimes envolvendo LGBTs. Ao contrário do que foi constantemente propagado nas redes sociais, segundo este levantamento, esses números não aumentaram no período eleitoral: pelo contrário, houve uma queda de 6% entre 2017 e 2018. O estudo foi publicado nesta sexta-feira pelo Grupo Gay da Bahia. Neste momento, não há absolutamente nada que embase estatisticamente um aumento do número de crimes de homofobia no Brasil fruto de uma onda ideológica.
2. Jean Wyllys sofre inquestionavelmente muita pressão nas redes sociais. Algumas delas incitam a sua morte. Não é preciso um pouco mais do que alguns minutos para perceber isso navegando na seção de comentários das suas redes sociais. Este clima de assédio moral e ameaça pública é incompatível com um país que almeja o desenvolvimento - e é perfeitamente compreensível que Wyllys se sinta acuado para desempenhar o seu trabalho. É importante, no entanto, relembrarmos que o deputado federal eleito pelo PSOL não é a única vítima da truculência ideológica: o próprio presidente já esteve sob a mira dela, quando sofreu um atentado político que o deixou entre a vida e a morte no meio de uma campanha eleitoral (o primeiro da história numa disputa à presidência). A violência é um instrumento inaceitável independentemente da filiação partidária - tanto com Wyllys, quanto com Marielle, como com Bolsonaro.
3. É importante também relembrarmos que Jean Wyllys recebeu 144.770 votos em 2014 e 24.295 em 2018. A consistente queda eleitoral é sintomática: se o deputado federal eleito pelo PSOL tem razão em temer o embate público no país, também tem fartos motivos para procurar a reconstrução da sua carreira política, caso queira continuar sendo um player importante da discussão travada por aqui - e uma retirada de cena temporária pode ser uma boa estratégia nesse sentido.
4. O clima bélico envolvendo ambos os campos ideológicos não se apaziguará enquanto não desfulanizarmos a discussão política no Brasil. É preciso discutir ideias e confrontá-las sem o constante tom marrom que adotamos. Fugir do país propagando à imprensa internacional que o clima político por aqui é insustentável insinuando que vivemos sob a sombra de um ditadura que persegue homossexuais não é apenas objetivamente incorreto, como tentar apagar um incêndio com gasolina. É possível questionar duramente as declarações do presidente Jair Bolsonaro sem falsificar a realidade.
5. Como publicação, lamentamos que um deputado federal eleito não se sinta seguro o suficiente para exercer o seu cargo - o que é um fato grave - e desejamos que Jean Wyllys encontre a serenidade e a segurança necessária em seu novo ciclo, torcendo para que a sua decisão colabore para dar um pouco mais de amadurecimento ao nosso debate público - e que o deputado possa participar de outros pleitos, utilizando sempre que possível da inabalável liberdade democrática que todos desejamos. Wyllys, porém, não será um exilado político - e esta é uma informação relevante sobre esse caso. A sua decisão de deixar o país é um direito inalienável, mas ainda assim uma escolha. Jean pode ser vítima do achincalhe que as redes sociais provocam, mas está longe de ser um perseguido político - e qualquer retórica em torno dessa justificativa não será apenas falsa, como intensificará ainda mais o clima de ódio no debate público brasileiro.