Citação:
Ela era de Escorpião: sabe qual é, aquele mistério todo a envolvendo tal como a luz do sol envolve uma poeira brilhosa. Você acha que consegue enxergar um grão de poeira, mas se a luz solar incidir diretamente sobre os grãos e você tentar fixar um deles, perceberá que sua primeira visão do grão de poeira estava equivocada (ou excecionada) pelo multicolorismo desses grãos particulares. E agora todas as suas primeiras observações sobre a poeira estavam completamente incompletas: de repente, o multicolorismo meio que trazia as “zonas de indecisão ou incerteza” que a definiam simplesmente por isso: mistério.
Voltando um pouco o raciocínio: a dúvida me move. Não a cegueira, não a completa ignorância, mas conhecer o suficiente para querer conhecer mais, e ficar com aquela sensação maravilhosa de caminhos a serem trilhados. Isso é que é o bom do mistério, e em certo grau acho que isso é inerente a todo ser humano: o desconhecido nos fascina, nos prende, nos tira da confortável zona segura da certeza.
— Vem cá, dança comigo!
Danço. E nem precisei responder, ela já deu um jeito de me envolver em seus braços, tomando a frente da situação. É legal brincar de ser garota por uns minutos, sem ter que dominar o tempo todo. Um arrocha pesado, coxa na coxa e olho no olho: sim, aquilo ali tinha potencial.
Meia hora depois, o que sobrou foi eu com uma outra garota qualquer que simplesmente seguia a porra do roteiro: esperou a minha atitude, sorriu enquanto dançávamos e acabou me pegando. E me pegou justamente por ter agido como eu esperava que uma garota que queria me pegar agisse! É, o mérito era dela, não meu.
E lá, agarrada com outro cara, estava a Lola! Sempre dizia que ela tinha cara de Lola. Não sei o que aquele brother uniformizado — pólo, jeans, sapatênis e analógico no pulso — tinha feito de diferente. E também não sou tão egocêntrico e arrogante a ponto de dizer que ela só queria me provocar. Sei lá, mistério.
O mais engraçado era conversar sobre ela, porque praticamente a roda inteira sentia o mesmo: “ela me dá moral”. Alguns — os que gostavam do roteiro do jeito que estava, talvez por medo — diziam “não faz meu tipo”; outros se sentiam mais estimulados pela dissimulação.
Eu estava no terceiro grupo: o dos que tinham medo e se sentiam estimulados. Ter um homem e um moleque dentro de você dá nisso, é foda mesmo. Se fosse fácil, teria nascido mulher.