Citação:
E se a humanidade chorasse menos?
Esses dias eu estava andando na rua e presenciei uma cena normal.Foi tão normal que não deveria ter me chocado, mas nas raras vezes que isso acontece (principalmente com os sortudos que ficam no "lado bom" (engraçado eu, como se housesse lado bom) da desigualdade social) alguém sai pensando alguma coisa.
Sem mais delongas:
(o modo de falar idiota é para ênfase)
Vi um velho muito velho andando.Parecia ser pobre, do tipo muito pobre.Carregava vários sacos sujos em cada mão, que embora não aparentassem pesados, dava para ver os braços do velho tremendo, como se carregar aquilo fosse uma tarefa árdua e que não conseguiria fazê-la.Mas ele a realizava, pela rua, até eu perdê-lo de vista.
Foi aí que eu comecei a pensar, de novo.Era a segunda vez no mês que eu pensava nisso.
A primeira foi com uma cena menos comum (foi dramática pela essência mas tentarei deixá-la ainda mais): as aulas tinham acabado e todos os alunos saíam de suas salas, enquanto uma servente passava carregando uma vassoura.O corredor logo se encheu daquela gente se amontoando nas portas dos banheiros, nas escadas, no bebedouro.A tal servente, de repente, parou de andar e se pôs a chorar.E chorava.
Um servente que passava perto a abraçou perguntando "o que foi?" mas ela não respondia.Na hora, eu fiquei mal.Eu queria saber qual era o problema - e como solucioná-lo- mas não fiz nada, fiquei estático observando a cena.Os alunos ao meu redor nada manifestaram.Senti que lá estava eu, como alguém admirando tudo o que acontecia ali, sem mais ninguém "de fora do aquário" para compartilhar minha perplexidade e de certa forma impotência.Os alunos continuaram fazendo o que faziam.
Não posso julgá-los, seria errado e imbecil, entretanto a sensação que eu tive na hora foi que ninguém ligava para aquela mulher.Talvez almas caridosas tenham-na ajudado, sei lá, mas naquele momento parecia que só eu tinha me comovido.(parece egocêntrico, mas foi o que senti, porra)
Pausa: Não, não tento criar uma imagem de ser uma boa pessoa, um puro coração cristão e blablabla.Tanto que eu não fiz nada.O que tento dizer é que pelo menos alguns pingos de bom senso eu tenho.
Acontece que talvez ela estivesse mal por coisas "naturais", como terminar com o namorado ou a morte do cachorro, mas eu não quis me conformar com isso.Minutos depois meu pensamento estava distante, mas uma aula escrota sobre pressões parciais de vapores blablabla me tirou o foco.
Mas depois eu vi aquele tal velho muito velho e voltei a pensar.
O mundo não é bom.Eu não consigo acreditar que uma vida entupida de consecutivas alegrias efêmeras e experiências ou "aventuras" diferentes, ou até mesmo um sucesso duradouro, possa deixar alguém feliz considerando que numa distância de poucos metros deste alguém existe outro, um cérebro humano que poderia ter a capacidade de compreender algo sobre o mundo, o universo, a vida e tudo mais que nasce, passa fome e morre sem entender o motivo.Porque quando eu tinha meus 15 anos (idade que eu costumo citar) eu achava como seria legal ser um cachorro, mas quanto mais eu estudo mais eu gosto do meu cérebro de sapiens sapiens.
E tantos talentos e mentes que são perdidas, destruídas sem ninguém para dar-lhes uma opção (outro dia falo sobre quem tem opção e a usa ou não a usa e quem não tem).
Caro leitor, não se engane.Isto não é um texto político.Não estou fazendo nenhum discurso "-ista".(já vi imbecis acreditando que ser minimamente humanista é ser da esquerda, como se a direita fosse formada por banqueiros maus sem coração e a esquerda por pseudo-revolucionários com camisas do Ernesto e verdadeiros corações puros)
Eu apenas gostaria que por milagre a humanidade tentasse algum sistema novo.O "sistema" socioeconômico global não dá certo.Nosso planeta, assim como nós, está se perdendo.É óbvio, um médico com 10 anos de estudo e excelência acadêmica deve "ganhar" mais (com isso digo mais luxo, mais bens, maiores opções) que um pedreiro, mas isto não deveria tirar do anônimo Seu Zé as necessidades básicas da vida humana do séc. XXI (digo isso porque considero estas diferentes das dos outros séculos).
(eu poderia vomitar estatísticas de como nosso planeta está pior do que já foi ou como a humanidade também está na fossa, mas pouparei você disso admitindo que você, leitor não alienado - assim como eu tenho uma mera- tenha alguma consciência de como estamos na merda)
Voltando á minha história, sim, os cachorros vão morrer e os namoros terminarão.Mas e se fossem SÓ estes os problemas?A mulher choraria menos?
De qualquer forma, muita coisa deveria mudar.Infelizmente, duvido que vá.Tinha mais para falar, mas cansei, então finalizo aqui concordando, de certa forma, com o saudoso Thomas (embora ele tenha copiado de um tal de Plautus da vida aí).Homo hominis lupus, e a culpa é de Albertos, Paulos e Joãos por aí, mas de vez em quando, existe pelo menos um Fernando que fica triste com isso.
Agora vou beber uma Coca-Cola, dormir e esquecer.