Meu bisavô era negro, então certamente tenho uma boa porção de DNA negróide. No entanto, meu fenótipo é típico de um europeu mediterrâneo. Tenho altura razoável (1,80m), cabelos castanhos, olhos claros e nariz grande (estilo francês).
Geneticamente, dizer que somos todos afrodescendentes é verdadeiro. Nada mais natural, visto que uma mesma espécie não pode surgir de dois lugares diferentes. O homo sapiens tem raízes na Mama África.
O que não se pode ignorar é que existe sim uma divisão social impulsionada em parte pela genética, e mais pelo fenótipo, local de nascimento e cultura. Costumamos chamar essas divisões de "raças", ou mais recentemente de "etnias", ainda que nenhuma dessas nomenclaturas seja satisfatória.
No Brasil, a sua "raça" é definida pela cor de pele. Minha mãe é considerada branca, ainda que tenha um avô negro. Filhos de pai negro e mão branca que nasceram claros podem ser considerados brancos. E para os padrões nacionais, uma pessoa pode até mesmo mudar de "raça" caso pegue muito Sol.
Nos Estados Unidos, a nomenclatura é ainda mais complexa. Para começar, qualquer um que seja considerado branco por aqui, será latino por lá, e não branco. Quem tem pais ou avôs negros, ainda que tenha fenótipo caucasiano, será chamado de negro pelos americanos.
Acredito que essas divisões não são, a princípio, nocivas. Em geral servem para dar pistas sobre a cultura ou os antepassados próximos de cada um. É por isso que chamamos os judeus de judeus mesmo eles abandonando a religião.
Nesse sentido cultural, não me considero afrodescendente. Recebi uma educação eurocentrista, vivo em uma cidade colonizada por portugueses, falo e tenho contato freqüente com idiomas nascidos no Velho Mundo. Ou seja, tenho algo de negro por dentro; mas as pessoas não me vêem como negro, algo que considero essencial para a definição de qual "raça" (dá-lhe aspas) eu faço parte.
Penso que a iniciativa dos geneticistas em mostrar que a etnia negra são é naturalmente inferior; bem como o fato de todos nós compartilharmos genes de origem africana é essencial para a tomada de medidas legais contrárias a todo tipo de discriminação racial. Mas não se pode reduzir o caldeirão cultural que é o planeta Terra em uma África gigante. Por mais que todos nós tenhamos sangue negro, muitos não se identificam com os negros e criam divisões culturais e étnicas. E como eu disse: esse multiculturalismo não é, a princípio, ruim.

