Capítulo 5: Fogo e Fúria, Parte Dois
Enriador não conseguia acreditar na imagem que tinha na sua frente. Onde quer que olhasse havia fogo, labaredas subindo bem alto no céu. A fumaça tóxica, que começava a entrar no quarto pelo janela, era terrivelmente sufocante. Devido a ela, nada na rua era visível, apenas vultos. Rudolfo tossiu atrás de si, aparentemente ainda dormindo. O som de aço contra aço estalava na noite.
Saindo do seu momento de choque, Enriador virou-se para seu amigo, sacudindo-o desesperado. Quando Rudolfo abriu os olhos, zonzo, Enriador foi curto e claro:
- Acorde logo! Northport está sob ataque! Precisamos acordar Elofor!
- Mas o que? Calma Enr- Rudolfo tossiu com força, a fumaça já tomando todo o quarto.
- Vamos logo! - Ainda tossindo, tudo o que Rudolfo pode fazer era anuir.
Os dois jovens recolheram suas trouxas e cajados rapidamente, deixando o quarto em direção aos aposentos de Elofor.
- Elofor, corre! Precisamos de você! - Enriador gritou, enquanto abria a porta e tentava enxergar em meio a fumaça.
- Utevo Lux! - gritou.
O quarto se iluminou. A janela estava aberta, a cama desarrumada... mas não havia nenhum druida ancião ali. Ele aparentemente descobrira que havia algo errado tempos atrás, recolhera suas coisas e estava lá fora, ainda lutando...
"Ou pior" - pensou Enriador, assustado. "Precisamos correr!"
Levando o tonto Rudolfo pelas escadas, chegou ao átrio da taverna. Não havia ninguém, porta escancarada, luz dourada entrando como se o próprio inferno quisesse entrar no Salmão Voador. Sem sinal de Barn, ou de outros hóspedes.
Quando estava quase passando pela porta, sentiu o coração acelerar. Ouvira passos atrás deles.
Virando-se, viu um homem - ou pelo menos pensava que fosse um homem - monstruosamente grande. Uma grande espada em sua mão esquerda, elmo com viseira fechada, virando-se ameaçadoramente na direção deles. Deixando Rudolfo de lado, Enriador não esperou: avançando contra o guerreiro com o cajado em punho, desferiu golpes rápidos contra ele, madeira mágica batendo na grande espada. Enquanto dançavam, Enriador notava que as mesas e cadeiras estavam em destroços, e havia sangue no chão.
O guerreiro era forte, mas lento e aparentemente bastante burro, perdendo diversas chances de contra-atacar. Após sentir que havia tomado uma vantagem, Enriador tomou distancia, virou a palma de sua mão para ele, e gritou: - EXORI MIN FLAM!
Chamas irromperam de sua mão, envolvendo o guerreiro, que berrava desesperado enquanto o fogo fritava-o dentro de sua armadura. Tentando se despir, espada jogada no chão, Rudolfo se aproximou rápido e, com seu próprio cajado, acertou-o na descoberta nuca.
O gigante tombou no chão, imóvel. Tremendo, Enriador virou o soldado com seu cajado, procurando enxergar seu rosto, apesar da fumaça.
Era um orc. Rosto verde-negro, dentes afiados, olhos pequenos, vermelhos, cruéis.
"Ah, não diga que são orcs!" - pensou Enriador, com ironia - "quase esperei que fossem minotauros!".
Rudolfo disse, mais alerta: - Vamos achar Elofor e dar o fora!
Concordando com a cabeça, Enriador saiu pela porta. Para sua tristeza, viu o corpo de Barn em frente a taverna que ele lutou a vida inteira para manter, uma longa lança negra atravessada em seu coração, e um orc morto do seu lado - pescoço quebrado, uma das mãos do estalajadeiro ainda em volta dele. O vasto calor ardia, a dupla tentando enxergar alguma coisa. Os sons de aço tinindo estavam mais próximos - em toda parte.
Logo na sua frente, viu uma amazona lutar sozinha contra uma dupla de orcs, armados com espadas. A garota lutava bem, até que, numa esquiva, perdeu um dos orcs de vista, e ser atingida com força total no ombro esquerdo. O golpe do segundo orc foi brutal, perfurando seu estômago e levando-a para os frios braços da morte.
Enriador e Rudolfo atacaram ao mesmo tempo. O treinamento que recebiam desde crianças finalmente posto em uso prático. Orcs eram vigorosos, mas invariavelmente lentos. Cajados de magos eram encantados para causarem dor quando usados para combate. A cota de malha da dupla de monstros não resistia ao avanço inexorável dos carlinienses. Logo, desistiram de lutar, e fugiram. Naquele breu anormal, segui-los não era uma opção.
- Exiva Elofor! - disse Rudolfo. Mas ele pronunciou as palavras, uma seta branca, brilhante, surgiu na palma de sua mão, indicando o caminho para das docas.
Passando pelas ruas de Northport, era dificil encontrar uma casa que não estivesse em chamas, ou um caminho que não tivesse corpos, seja de orcs, seja de locais. Enriador e Rudolfo sequer olhavam duas vezes, pois sabiam que Elofor não cairia perante orcs... embora o pensamento de que alguns dos que morreram eram seus conhecidos doesse.
Nas docas de Northport estava o âmago do conflito. Meia dúzia de guardas restava, cercados por quase o dobro de orcs. Entre os gritos de dor dos feridos e os xingamentos mútuos, o urro de Sven se sobrepunha.
Enriador e Rudolfo observavam, fascinados, o guerreiro nórdico traçar grandes arcos sangrentos com seu imenso machado entre os orcs. Seus olhos denunciavam uma fúria colossal, própria dos combatentes das Ilhas de Gelo. Próximo a ele, murmurando encantamentos, estava Elofor, cajado em mãos.
Enriador e Rudolfo se juntaram à luta, ajudando os soldados de Carlin a combater as bestas. O conflito pareceu durar horas, mas em apenas dois minutos todos os orcs estavam mortos no chão, alguns dilacerados, outros congelados pela magia de Elofor, outros caídos sem nenhum dano aparente. Os barcos que outrora davam vida ao vilarejo eram cinzas no Oceano Nórdico.
- Elofor!
- Garotos! Que benção vocês estarem vivos. - Elofor virou-se para um dos guardas sobreviventes - Precisamos reagrupar os soldados restantes.
O guarda com quem Elofor falava era Tobias. Estava com o olho esquerdo roxo e inchado, e para o horror dos jovens, nada restava de sua orelha direita. Ninguém sangrava, graças aos feitiços de Elofor. O rosto do experiente soldado estava sombrio.
- Orcs... em Northport. Deviam ser uma vintena deles. Nunca, desde as antigas invasões, esses bastardos amaldiçoados atacaram em tal número, tão perto da capital... - Tobias estava incrédulo.
Tobias foi interrompido por outro urro gutural de Sven, que agora estava de joelhos, rugindo para os céus. O rosto de Tobias ficou mais fechado ainda.
- Tobias, não foi sua culpa. Sua primeira preocupação foi checar o alarme. Não tinha como saber do que se tratava. Não há sangue em suas mãos. - disse Elofor, mais sério do que Enriador jamais havia visto na vida.
Tobias olhou para suas mãos, empapadas de sangue negro de orc. - É, velho mestre. Não há sangue algum - Tobias deu uma risadinha fraca e forçada, antes de suspirar e encarar seus pés. - Ajax não teve muita chance. Trancado, acorrentado... ainda posso ouvir seus gritos, quando os orcs incendiaram a prisão.
- Elofor está certo. A culpa não é sua Tobias. Tanto como sabemos, o alarme podia ser um ladrão de galinhas apanhado no meio da noite. Como saberia que se tratava de um grupo de pilhagem orc? - disse Enriador, enfático.
Tobias pareceu pensar um pouco antes de responder, seus olhos indo dos corpos no chão diante de si para sua vila natal, em chamas - Northport está destruída. Não há nada que podemos fazer agora por ela. Falhamos em sua defesa. Só nos resta ir para a capital, pedir perdão à Rainha por nosso erro, e clamar por uma força de ataque, e fazer esses orcs pagarem por sua ofensa contra o Reino. - Os olhos do capitão estavam fixos na sua frente, determinados, como se conseguissem distinguir um futuro de glória no meio do fogo. - Então, voltaremos, e iremos reconstruir Northport das cinzas, maior e mais magnífica do que jamais foi!
Os soldados deram gritos de vivas. Elofor parecia preocupado e exausto. Rudolfo não parava de olhar para os muitos corpos no chão. Sven encarava as estrelas, murmurando o nome de seu irmão.
Tobias ergueu a voz, de maneira firme e clara. - Vamos, heróis de Carlin. Façamos uma rápida ronda pela vila, em busca de sobreviventes. Feito isso, vamos nos encontrar na estrada para o sul. De lá, iremos - a voz de Tobias vacilou e morreu. Quando todos se viraram para ver o que acontecera, viram, para seu horror, um dardo cravado no pescoço do velho guarda. Tobias estava morto antes mesmo de chegar ao chão.
Antes que qualquer um tivesse tempo de respirar, o uivo de um berrante de guerra foi ouvido, longo e agourento. Berros em uma língua estranha eram ouvidos, e para terror geral, os vultos de dezenas de orcs eram visíveis por trás das chamas.
Os guardas de Carlin quebraram. Cada um correu em uma direção diferente. Sven, por outro lado, se ergueu e gritou - AJAX! - antes de correr rumo ao inimigo, em uma ira suicida, machado pingando sangue.
Enriador e Rudolfo olharam para Elofor. O druida disse, com a voz cheia de pesar:
- Esta batalha está perdida. Os guardas não tem muita chance contra a horda, mas um trio de magos pode cobrir uma longa distância sem serem seguidos. Vamos.
- Mas e Sven? - disse Rudolfo - Não podemos deixa-lo morrer!
- Ele está em busca de vingança... e a terá, antes de cair. Não podemos fazer nada por ele. Vamos logo, se quiserem voltar vivos para casa.
Com um último olhar para a vila em destroços, Enriador seguiu Elofor e Rudolfo para as trevas da floresta.