Postado originalmente por
Amell
Cara, eu juro que não entendi completamente seu post, mas vou responder conforme minha interpretação.
Não entendi, sério mesmo.
O mercado é monopolizado hoje, há uma proteção estatal que impede novos concorrentes de chegarem (em verdade, distribuição de água, de energia, etc, normalmente tem apenas um player por mercado grande, mas um mercado aberto ainda permite a competição). Não é exatamente isso que eu sou contra?
"Quem vai investir em um mercado muito competitivo se pode ter um monopólio seguro em outro mercado"
Os maiores investimentos do mundo hoje estão acontecendo em um mercado extremamente competitivo, qual seja, o da informática. Empresas gigantes estão em constante queda e ascensão, têm valores enormes e são algumas das principais escolhas de investidores.
Por outro lado, a SABESP, só para dar um exemplo, tem um monopólio na distribuição de água, tem ações negociadas na bolsa, e tem um desempenho ruim.
Eu realmente não sei o que tu quiseste dizer, mas imagino que seja algo como "o interesse por lucro é de curto prazo".
É exatamente o contrário. O ser humano se direciona por incentivos, e o fato de o ciclo político ser de curto prazo, e do político ter de se orientar por ele - caso contrário pagando com seu próprio emprego -, faz com que ações governamentais tenham um pensamento extremamente focado no curto prazo. Um clássico exemplo: a dificuldade crônica de governos, em todo o mundo, de cortar gastos com previdência social (já que os contribuintes de hoje pagam pelos aposentados atuais, e a conta por benefícios exagerados ou desperdício de recursos só chega algumas gerações mais tardes).
A iniciativa privada, por outro lado, orienta-se pelo lucro, e não pela próxima eleição. Isto é, as empresas privadas, diferente das públicas, buscam maximizar seus lucros, em vez de maximizar as chances dos seus controladores serem eleitos nas próximas eleições. É exatamente essa busca por maximizar o lucro que, em um ambiente competitivo, gera a concorrência que propicia investimentos necessários a longo prazo. Existem múltiplos exemplos: em primeiro lugar, retomo o caso de um dos mais competitivos setores da economia mundial, o da tecnologia, em que as empresas, todas desejando maximizar seus lucros, nem por isso tem uma mentalidade de curto prazo, muito pelo contrário, as empresas atualmente se engajam em projetos de longuíssimo prazo, na tentativa de chegar a marcos tecnológicos que só serão utilizados talvez em décadas, em segundo lugar, posso citar os casos dos fundos de private equity, que fornecem crédito a empresas emergentes que só virão a dar lucros em prazos longos (algumas startups promissoras, por exemplo, chegam a demorar quase uma década para realmente valerem o investimento).
Cara, vamos esclarecer uma coisa: acionistas são donos de ações, isto é, têm participação no capital da empresa (são proprietários de parte dela). Isto NÃO quer dizer que eles participam da administração da empresa, em verdade, no caso da SABESP por exemplo, o único acionista que influi na administração da empresa (o controlador) é o Governo do Estado de SP. Os atuais acionistas não pensam em manter ou não manter o abastecimento da população, eles têm literalmente influência zero nisso.
Além da população, por óbvio, quem mais perde com a crise de uma empresa são os acionistas, sobretudo os minoritários (nesse caso, todos, com a exceção do Governo de SP), que suportam as perdas em seus investimentos. Os investidores podem até pular para outro barco, mas devido a essa crise, eles perderam boa parte do valor que investiram na empresa.
Mas cara, tudo o que NÃO FOI GARANTIDO foram altos lucros. O valor da companhia derreteu devido à crise, ela está sem crédito no mercado, e quem investiu nela perdeu dinheiro. O que aconteceu não beneficia nem os investidores e nem a população. Só beneficia aos gestores políticos (que, no final das contas, administram a empresa estatal) que, direcionando dinheiro de investimento para áreas que apresentam retorno político mais rápido, conseguiram muitas e muitas eleições.
oO
Por fim, ao meu ver, você tem uma ideia equivocada de que quem defende que a iniciativa privada é superior à pública acha que isso se dá porque os agentes privados teriam boas intenções, ou pensariam no bem coletivo, em vez de em si próprios.
Apenas para deixar claro que essa visão não condiz com a realidade, deixo uma citação de Adam Smith, bastante elucidativa:
"não é da bondade do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm pelo seu próprio interesse."
Os investidores em uma empresa estão sim preocupados com seu lucro, e não com o bem-estar da população. Nada obstante, ao permitir que essas pessoas empreendam em um ambiente competitivo, chega-se a um ambiente que amplia o bem-estar de todos, isto é, apesar da felicidade coletiva não ser o objetivo do empresário, ela é um resultado que acaba sendo alcançado, desde que se permita isso, garantindo ambiente competitivo, proteção à propriedade privada e uma estrutura jurídica segura.