Enfim, cá está o prometido capitulo! Um pouco menor do que o ultimo, mas ta ai ;P
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Memórias de uma Knight
Capitulo II – Trilhando o caminho do destino
Várias semanas se passaram desde o incidente dos ratos. Seguindo meu caminho do aperfeiçoamento das habilidades com a espada, comprei uma espada de verdade, não aquela faca de combate que eu usava – apesar de ainda mantê-la escondida na minha bota para caso de emergências -, e claro que também comprei uma armadura digna de continuar meu treino sem grandes dificuldades.
Era noite e eu estava na taverna, num quarto que o taverneiro tomou a liberdade de dar um pequeno desconto para mim por noite. Claro que era apenas de vez em quando que eu tomava a liberdade de dormir por lá, pois já dizia meu pai “Quem tem o pé na estrada tem que dormir na estrada”.
Estava prestes a dormir quando decidi escrever uma carta para minha mãe, que se encontrava do outro lado do mar. Lembranças doces da minha infância vieram a minha mente, juntamente com a saudade da minha família e a ansiedade de reencontrar Crucis.
Peguei um papel de dentro da minha bolsa, juntamente com a pena e o tinteiro, inclinei-me sobre a mesinha e comecei a escrever a minha carta:
“Querida mamãe,
Em breve meu treinamento em Rookgaard terminara e poderei rumar para Venore como eu queria. Sinto saudades suas e do papai. Desejo muitas felicidades para meus irmãos e que também vocês possam ter uma colheita farta esse ano.
Realmente, ratos são seres abomináveis como contava o barqueiro, agradeço à Deus que não exista esses tipos de ratos na ilha.
Com saudades e com muito amor, sua querida Magdalena.”
Na verdade escrevia mais aquela carta para poder tranqüilizar minha mãe quanto a minha segurança. Após ter lacrado o envelope com a carta, deixei sobre a mesa para levar ao barqueiro no dia seguinte, depois, iria à caverna dos trolls novamente.
-x-
Como já sabia o caminho da caverna dos trolls, como dizem por essas bandas... “de cor”, cheguei a perder uma ou duas noites debaixo da algumas árvores, aproveitando o sereno e a paz que a noite trazia, viajava por entre as estrelas acompanhada do som de um violão que comprei recentemente, aprendi a tocar o instrumento com Crucis, apesar de esse adorar um instrumento que ele chamava de guitarra, algo que não cheguei a conhecer, já que violão era o único instrumento de fora que era mais conhecido na minha amada ilha.
Juntamente com notas vagarosas e fracas, entrei no ritmo de uma música que Crucis havia me ensinado. A luz da fogueira entre a clareira se tornou ainda mais brilhante naquela hora, juntamente com o brilho das estrelas, assim como também a escuridão da noite se tornou profunda e impenetrável.
Vagueando pelas minhas memórias, a letra veio a mim de maneira que fluiu de forma natural, juntamente com a música. Mal me dei conta quando minha voz começou a soar juntamente com o som do instrumento.
“Two hearts that shouldn't
(Dois corações que não deveriam)
Talk to each other become close
(Falar entre si se tornam próximos)
In a town much like a prison cell
(Em uma cidade parecida com uma cela de prisão)
People speak our names
(Pessoas falam nossos nomes,)
On the street in hushed tones
(Nas ruas em tons silenciosos,)
Oh the stories they'd tell
(Nas estórias eles falariam)
If anyone would listen…
(Se alguém escutasse...)”
Como se meu amado estivesse novamente ao meu lado, pude escutar sua voz ressoar em minha mente, sua voz aveludada e calmante, um sorriso passou pelos meus lábios suaves, em um dueto imaginário com meu amado, continuei:
“You come from a town where
(Você veio da cidade onde)
People don't bother saying hello
(Pessoas não se preocupam em dizer olá)
Unless somebody's born or dies
(A não ser que alguém nasça ou morra)
And I come from a place where they
(E eu vim de um lugar onde eles)
Drag your hopes through the mud
(Arrastam suas esperanças através da lama)
Because their own dreams are all dying
(Porque seus próprios sonhos estão todos morrendo.)”
Aumentando a força com que as vibrações eram feitas pelas cordas, aumentei um pouco minha voz e a força com que cantava, sendo tomada pela emoção tamanha.
“And when we walk down the street
(E quando nós descemos a rua)
The wind sings our name in rebel songs
(O vento canta nosso nome em canções rebeldes)
The sounds of the night should make us anxious
(Os sonhos da noite deveriam nos deixar ansiosos)
But it's much too late when the fear is gone
(Mas é muito tarde quando o medo vai.)”
Permanecendo com a força feita sobre as cordas, a voz do meu amado soou novamente em minha mente, mais forte, como se nossa emoção fosse mutua, sem que pudesse perceber, minha garganta começou a apertar, mesmo permanecendo a cantar, tal como também meus olhos começaram a arder.
“I will meet you in the Next Life, I promise you
(Eu encontrarei você na outra vida, eu lhe prometo)
Where we can be together, I promise you
(Onde nós poderemos ficar juntos, eu lhe prometo)
I will wait till then in Heaven, I promise you
(Eu irei esperar no paraiso, eu lhe prometo)
I promise, I promise
(Eu prometo, eu prometo)”
Um estalo rompeu a música e como também interrompeu meu transe. Olhei pasma para o violão, cuja uma corda havia arrebentado. Para minha surpresa, senti algo escorrer por minhas bochechas quentes, passei a mão pela bochecha e enxuguei a lágrima.
Ergui meu rosto para o céu, fechando meus olhos para sentir o vento soprar contra meu rosto e escutar as folhas das copas das árvores se remexendo, em minha mente ainda ressoava a voz de meu amado juntamente com a nossa música.
Abri meus olhos e num sorriso quase bobo, disse:
- Nós prometemos...
Guardei meu violão e em seguida cobri-me com a minha capa, em busca de calor para adormecer.
O som da nossa música embalou meu sono.
-x-
Quando despertei, o carvão já havia se tornado cinza. Aquela clareira onde eu havia dormido era um local próximo de onde ficava a caverna, como também era um lugar longe de ninhos de cobras.
Preguiçosamente, espiei o céu, o sol já soltava seus raios por entre as montanhas distantes, mas, pela cor escura daquele azul, sabia que ainda era muito cedo. Remexi-me, querendo voltar ao meu sono, mas, sem sua vinda, percebi que já havia dormido o bastante.
Com um muxoxo, me encolhi um pouco, mas enfim levantei-me, espreguiçando-me e soltando um longo bocejo. Olhei para o céu, ainda que com um jeito sonolento, sorri.
A seguir, arrumei meu acampamento para que em breve eu pudesse partir sem grandes atrasos. Reacendi a fogueira para tomar um café, terminando de me alimentar, usei a água restante para apagar o fogo.
Ajeitei minha bolsa, carreguei o violão nas minhas costas e segui para a caverna.
O caminho pelo campo foi tranquilo, as cobras já fugiram para seus ninhos, já que estas tinham hábitos noturnos – apesar de algumas terem hábitos diurnos também, mas, o inicio da manhã era um horário onde a maioria das criaturas ainda permaneciam adormecidas, exceto por um ou outro grilo.
Logo já podia avistar as ruínas de uma antiga casa. Nunca soube a origem daquelas ruínas, já perguntei para o taverneiro e sua mulher, mas quando eles haviam chegado à ilha, as ruínas já estavam lá.
Passei a mão em um dos pilares e fechei os olhos, rezando pelas almas dos aventureiros que perderam suas vidas lá embaixo, como também rezando pela minha própria segurança. Terminando, segurei meu escudo de madeira reforçado com metal, com algumas pontas de aço, e peguei minha espada, admirei sua lamina. Tornou-se desnecessário o uso da tocha, uma vez que havia me acostumado com o escuro.
- Bem...– Suspirei, sorrindo meio animada com o que me aguardava. – Vamos lá!
Sem olhar para baixo, pulei no buraco que levava para a caverna dos trolls.
A altura não era muito grande, então quando cai não houve muito impacto em meu corpo. Em guarda, deixei o escudo na minha frente e a espada recuada, aguardando qualquer ataque surpresa enquanto meu olhar se acostumava com o escuro, um hábito que aprendi quando caçava lobos.
Sem sentir nenhum baque, abaixei a guarda e respirei fundo, entrando na escuridão.
Já conhecia certo caminho daquele lugar, conhecia como funcionavam os trolls. Eram seres burros, estúpidos, sem cérebro. Sua força era grande, mas, agora que eu era uma aventureira experiente e já os conhecia, não sofria tanto com seus ataques.
Lembrava-me de que logo abaixo de onde estava havia os orcs, cansada de seres que eu já havia me acostumado, decidi encarar os orcs novamente, afinal, eles eram puro músculo, desejava muito um desafio maior.
Sem grandes dificuldades, alcancei a escadaria que levava para o segundo andar, novamente ficando com a guarda em alta, pulei para dentro do buraco.
Assim que cai, não demorou a sentir um baque no meu escudo.
Sorri para mim mesma, adoro até hoje quando as coisas saem de acordo com o planejado. Abaixando um pouco o escudo, apesar de mantê-lo em prontidão para me defender, me deparei com o orc que seria meu oponente.
Diferentemente de trolls, orcs eram mais inteligentes e estrategistas, tal como também era muito mais fortes. Já havia derrotado um ou outro orc durante as semanas anteriores. Foi minha confiança em excesso que causou uma situação muito perigosa e delicada.
Sabendo que os orcs podiam entender nossas palavras, fiquei de um jeito relaxado, abaixei a espada e o escudo, balançando os braços. O orc ficou confuso com meu ato, soltou um grunhido e eu sorri para ele, chamando-o com a mão.
- Vem pra cima.
Irado, o orc voou para cima de mim, descontrolado.
Apenas sorri de canto e rolei pro lado, usando o escudo para parar meu impulso e ergui minha espada para perfurar o ser. Mas, o orc se recuperou mais rápido do que eu havia previsto.
Ao notar a posição que eu estava e o que eu faria a seguir, ele rugiu e com a mão fechava acertou-me com o punho no rosto, jogando-me alguns centímetros para frente. Senti as pedras raspando contra minha armadura e uma pequena ardência na altura da minha têmpora. Atordoada, levei a mão até onde estava a dor, sentindo uma sensação molhada e quente.
Com a visão turva, vi apenas o borrão do orc caminhando para cima de mim, sabia que corria risco de vida. Busquei com meu olhar o borrão da minha espada, ao enxergá-la, ela estava a alguns centímetros de distancia, mas não tinha tempo para resgatá-la. Quando olhei novamente para o orc, esse já erguia o pé para me pisotear.
Numa ação impulsiva, rolei pro lado e estiquei o braço para pegar a faca de combate que meu pai me presenteara – santa dita seja a intuição de não vendê-la -, arranquei-a da bainha costurada no interior da minha bota assim que o orc pisara no chão, urrando por ter me errado.
- Vou te dar um motivo para urrar agora, verdão! – Disse em meio a certa raiva e triunfo.
Tirei o escudo do meu braço, deixando-o no chão um momento enquanto erguia meu corpo, mirando a faca no ventre do orc. Foi delicioso sentir a faca perfurar a pele grossa do monstro que tentara me matar, como tal também a sensação de glória foi completa com seu choro de dor. Como ainda estava meio agachada, fui levantando rapidamente e cortando a barriga do monstro.
Mas graças à dita pele grossa que eu não estava acostumada a rasgar, o monstro teve tempo de se recuperar e aproveitar da minha lentidão para cortá-lo e segurou-me pelos cabelos, jogando-me para o lado. Um grito de dor escapou pela minha garganta, soltei a minha fiel faca e fui jogada ao chão novamente.
Para o acaso do destino, cai bem em cima da minha espada Carlin. Olhei por sobre meu ombro e encontrei o orc arrancando a faca de sua barriga, gemendo de dor, dirigindo um olhar de ódio para mim.
Engoli seco e apanhei minha espada, levantando-me cambaleante devido o impacto em minha têmpora.
Encaramo-nos, ele sabia que não iria viver muito tempo com aquele corte, então, ele queria vingar sua morte pessoalmente. Já eu, tinha que lutar por minha vida.
Mesmo assim, sorri.
Demos os únicos passos que nos separava, gritando. Tudo foi muito rápido a seguir, mas, pude sentir minha espada cortando a cabeça do orc, ao mesmo tempo em que senti um calor em minha cintura.
A cabeça do orc rolou no chão, empurrei seu corpo para frente e olhei para onde havia o calor. Meu sangue vertia de um corte de raspão causado pela minha própria adaga. Suspirei agradecida pelo fato de não ter ido mais para a direita.
Sentia-me exausta, como sempre me sentia depois de cada batalha, mas, como havia aprendido, investiguei o orc, pegando-lhe o dinheiro que ele roubara de outros aventureiros que foram suas vitimas, pelo simples fato de serem brilhantes, e juntei ao meu. Guardei minha faca e peguei meu escudo, estava pronta novamente, se não fosse pelo fato de ainda estar aturdida pela pancada em minha testa.
Escorei em uma parede, aguardando a tontura passar. Foi quando meu sangue gelou ao escutar outro urro de orc, não muito longe de onde eu estava. Olhei para e escuridão e engoli seco.
- Droga... – Murmurei, imaginando que os meus gritos junto com o do orc chamaram atenção de outro orc.
Subi as escadas novamente, agradecendo por não ter me afastado delas. No andar dos trolls, senti-me mais segura, mas, sabia que era hora de recuar.
Corri por entre os corredores, pela primeira vez evitando lutas, hora ou outra era acometida por uma tontura e um pulsar dolorido na têmpora, tendo que parar de correr e me apoiar nas paredes para não cair.
Assim que me recuperava, voltava a correr, até enxergar a luz do sul do lado de fora do buraco. Sorri alegre, sentindo o vento acariciar meu rosto.
Sem demoras, peguei minha corda e atei um gancho em uma das suas pontas. Joguei para fora do buraco e ao sentir que o gancho prendeu bem, subi.
Fora daquele lugar, joguei-me sobre o gramado, fechando os olhos e agradecendo por estar viva.
O vento assobiou suavemente, acompanhados de uma voz poderosa e distante, que me fez sentar assustada ao notá-la, olhando em volta pasma. Mas, novamente escutei aquela voz, ficando de pé, sem entender, escutei:
- Venha até o oráculo para escolher seu destino... – E então, desapareceu.
Após uma breve confusão, compreendi, sorrindo em seguida. Havia terminado meu treino.
-x-
Antes do entardecer já me encontrava no abrigo aconchegante do quarto, e como sempre, escutei as histórias do taverneiro enquanto a sua mulher fazia os meus curativos, já que nesse caso não era necessário que eu me despisse.
- Acredita que o garotou confundiu um daquele rato de caverna com um rato?! Ele quase morreu! – O taverneiro fez um gesto exagerado com os braços, arregalando os olhos, mas logo riu. – Ainda bem que o amigo dele era mais forte o salvou.
- De fato. – Sorri tristemente, o taverneiro e a sua mulher notaram o meu abalo desde que chegara à taverna.
De maneira materna, a mulher se sentou na cama, olhando-me carinhosa.
- O que foi, querida?
Olhei para o chão, sem coragem de dizer que em breve partiria, mas quando olhei para os dois, pude compreender pela sombra que caiu sobre seus rostos que entenderam o motivo do meu desanimo.
- Entendo... – A voz do taverneiro soou baixa, e então saiu do quarto.
Sua mulher suspirou, acariciando a minha mão, sorriu triste.
- Não o culpe, você foi como uma filha para nós querida, a filha que nunca tivemos. Ele é assim mesmo, osso duro de roer, mas tem um bom coração. – Acenei positivamente, compreendia bem.
Ela sorriu docemente para mim e beijou-me a testa.
- Descanse bem. – Em seguida, saiu do quarto.
A noite caiu sobre Rookgaard, veio fria e triste depois do acontecido, remexi-me na cama sem sono, até que decidi trocar a corda do violão.
Estava afinando meu violão quando escutei as costumeiras três batidas, sorri e me virei um pouco para a porta.
- Entre.
A porta deslizou suavemente e me deparei com o rosto agradável da mulher do taverneiro novamente. Senti meu coração apertar ao pensar que nunca mais veria aquele sorriso caloroso e a voz calmante e maternal da mulher. Ela também parecia meio consternada com a notícia de que eu iria embora, mas, era o destino de todos que passavam em Rookgaard.
Com ela, entrou um delicioso aroma de frango assado com batatas gratinadas. Arregalei os olhos ao ver a travessa que ela trazia para meu jantar naquela noite. Boquiaberta, não sabia o que dizer, a mulher se viu um pouco sem graça.
- Bem, vai ser a ultima vez que vai cear aqui, não? – Uma sombra pairou sobre meu rosto ao me lembrar desse detalhe.
- Sinto ter te dado tanto trabalho... – A mulher fez um gesto de silêncio para mim, eu a fitei aflita e confusa, ela sorriu.
- Não se preocupe, foi ótimo te ter aqui.
Deixei o violão de lado e me levantei, caminhando até de encontro com a mulher. Abracei-a carinhosamente e chorei em silêncio.
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O capitão gritava que em breve partiríamos.
O cheiro do mar permanecia engraçado, mas agora, era-me semelhante depois de tanto tempo em Rookgaard.
Meu olhar vagou pelo píer, não havia sinal nem do taverneiro nem da sua mulher, sorri tristemente. Não os culpava, sabia o quanto deveria ser difícil se despedir de alguém que foi próximo de uma filha nas últimas semanas.
Mas, agora, estava mais perto de se encontrar com meu amado. Ao pensar nisso senti até um pequeno aperto no estomago.
Olhou para o horizonte sem fim a sua frente onde se estendia o oceano. Em breve... Reveria Crucis, finalmente.