Capítulo 32.5.5 - Monólogo
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Damn it! He's still alive!
Um baita de um capítulo, Carlos, apesar de ter sido um pouco mais comedido e menos intenso. O desenlace da situação é interessante de se acompanhar, especialmente porque Senzo continua vivo, apesar de o destino de Miraya me parecer um pouco confuso, mais para o final. Seria a alma e o corpo dela que Senzo estaria interessado em restaurar?
De qualquer forma, a história está tomando um rumo interessante. Que reviravolta, não? Terminamos o último capítulo crentes de que Nuito tinha matado Senzo. Agora, sabemos que Senzo continua vivo, mas Nuito está morto. Não em um combate franco, mas por um julgamento aparentemente corrupto. Espero estar errado a esse respeito, porque tiraria toda a credibilidade do tribunal. Porém, se a análise for um pouco mais ampla do que isso, certamente que teremos explicações para essa partida inesperada de Nuito, depois de vencer Senzo num combate justo.
Sobre Ember: grávida de Nuito? Não sei se deixei algum detalhe passar em algum momento, mas não estou lembrado sobre se isso foi comentado antes. Se não, é uma excelente notícia; ainda que Nuito tenha morrido, existe uma chance de continuar a história e a linhagem a partir dali. Se sim, então, falha minha; espero não causar mal estar por causa disso.
No mais, Carlos, toque adiante. Blood Trip está se tornando uma história e tanto. O quinto tomo de Jason Walker terá uma homenagem a ela, mas não direi de que forma. É desnecessário, já que você vai perceber, quando for postada.
Um abraço e keep going!
Salve Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
É bom saber que o capítulo ficou legal, ultimamente não tem sido um bom período pra ficar escrevendo, mas continuo tentando. Ainda mais porque falta pouco pra acabar.
A verdade é que Nuito não conseguiria ir até o final e dar o último golpe no melhor amigo. Apesar dele ter causado tantos problemas, ainda era o amigo dele, e Senzo não conseguia fazer outros amigos nem se relacionar com a sociedade direito. Mas isso acabou gerando problemas, pois se ele tivesse matado Senzo - ou ao menos tivesse dito que ele estava morto - talvez o destino dele fosse diferente. Bem, foi mais algo para mostrar que tomar decisões é algo complicado, que pode te trazer muitas coisas boas ou ruins. Foi algo que Nuito percebeu enquanto estava sendo julgado, e que incentivou ele a se confessar. Se ele tivesse matado Senzo, ainda estaria vivo.
O julgamento não era corrupto, Nuito assumiu que fudeu parte de Edron e criou aquilo pra parar Senzo, mas no fim, ele acabou usando aquilo pra ficar mais forte e matar mais pessoas, o que torna Nuito cúmplice daquela crise. Ele acabou julgado culpado mesmo sendo o salvador da crise, pois nem sempre a justiça fica do lado dos mocinhos. Btw, foi no capítulo do combate mesmo que deixei a menção da gravidez, embora de forma bem suave. Não tinha muito espaço pra incluir isso, mas eu precisava. Foi antes de Nuito se encontrar com Senzo.
Agradeço a presença constante, cara. Tamo junto.
Vamos voltar para o presente e dar os últimos passos para a conclusão de Bloodtrip. Esse capítulo possui um formato diferente dos outros, então espero que não incomode.
Espero que gostem!
No capítulo anterior:
Nuito foi executado pela justiça de Edron, devido a sua confissão a respeito do Musenki. Antes disso, ele já era julgado por agredir o governador da ilha, e optou pela confissão para evitar que Ember tentasse salvá-lo e coisas piores acontecessem. Senzo sobreviveu e tentou evoluir o Akonancore, mas não conseguiu, e ainda perdeu Miraya para um assassinato cometido por Ember. Furioso, ele foi para Darashia e tentou matar todos que viu, mas foi morto no processo.
Capítulo 32.5.5 – Monólogo
É... Deve ter uns três dias que estou caminhando a esmo.
Depois de tudo o que eu fiz, tudo o que eu vivi, eu ainda tenho medo de encará-los. Como se algo dentro de mim me impedisse de fazer isso. O pior é que eu conheço o caminho para Chaur tão bem como se fosse minha própria casa. E isso é muito estranho. Eu estou caçando eles, e não voltando pra casa. Outra coisa linda pra me ajudar nessa viagem pra comprar pão pro café da manhã é que meus olhos continuam lacrimejando. O veneno daquela aranha acabou comigo.
Ah, mas essa caminhada tem sido boa para refletir sobre minha vida. Meu passado fodido. O próprio Dartaul me ajudou com isso antes de eu partir. Acabei dando a impressão errada pra ele, como se eu estivesse sofrendo profundamente por dentro, a ponto de eu me portar como um suicida. Porra, eu estava até chorando, quando na verdade tem anos que não choro. Mas tudo aquilo é causa do veneno. A linha tênue que me livrava do meu próprio lado ruim, do sofrimento mais profundo, dos sentimentos mais escuros, era Varmuda. Mas eu quebrei a conexão com ela. Não tenho mais minhas habilidades de regeneração. Como não tratei o veneno direito, não deve demorar mais uns dias pra eu bater as botas.
Não que isso faça diferença. Quando eu me soltar totalmente na toca do lobo, eu não irei sobreviver pra contar a história. O que eu descobrir lá irá morrer comigo. Mas, pelo menos, esses filhos da puta nunca mais vão mexer com esse mundo.
Mas Varmuda não parece estar muito a fim de me dar um descanso. Levando em conta o que eu fiz, provavelmente ela vai ser minha torturadora eterna por eu ter quebrado o pacto sem a consultar. Não espero menos do que isso. Ser inimigo de um demônio é a pior coisa que um humano pode fazer em Tibia. Embora exista muitas entidades, criaturas mitológicas e fantásticas, bem como mortos-vivos em Tibia, todos eles viram sujeira de bota quando comparados a um demônio. Poucos são os guerreiros capazes de matar algum. Poucos mesmo, acredite em mim. Uns oito malucos deve ser meu melhor chute, e olha que sou o melhor detetive desta merda.
E, bem, eu não sou adorado. Mais da metade do mundo já botaram um preço pela minha cabeça. Se eu fosse contar algumas pessoas que realmente querem que eu volte, seriam umas cinco, provavelmente.
Rachel. Ela quer que eu volte pra que eu pague minhas dívidas com ela. Houve uma vez que eu comprei todo o estoque de runas dela para dois meses pra fabricar armas com runas, mas não paguei todo o gasto até hoje. Ela me odeia por isso, mas não quer que eu morra. Senão, quem vai pagar?
Lucius. Conheço ele há muitos anos. Sempre quis ser caçador de entidades, e quando virou um Inquisidor, ficou mais feliz que uma criança quando ganha um brinquedo novo. Mas quando eu supostamente morri lá em Vengoth, lutando contra Senzo, ele passou a viver para eliminar todos os vampiros de Yalahar e Vengoth, ficando apenas naquele distrito fodido ao lado do porto e não saindo mais de lá. Ainda é reconhecido como um Inquisidor. E quer que eu volte, pois tem grande consideração por mim. Já o salvei várias vezes.
Palimuth. Experientes com espíritos como ele sabem dizer exatamente como você está no momento. Desde que cheguei em Yalahar, ele ficava atrás de mim, e frequentemente perguntava se eu estava bem. Ele foi o primeiro a descobrir que criei um pacto com Varmuda e que eu sabia usar a Manipulação da Alma como um poder pra lutar e também fugir. Ele tentava dominar o mesmo poder, mas ele só sabia expulsar espíritos ou exorcizá-los. Ele me ensinou algumas coisas, o que me ajudou na hora de exorcizar Bryca. Sinceramente, ele sempre me pareceu meio bicha, mas ele é gente boa. Ele quer que eu volte, mas não sei se é só por eu ser amigo dele, não. Prefiro não pensar nessas coisas.
Lea. Ah, a Lea. Ah, a voluptuosa e farta Lea. Eu a conheci por volta de cinco anos após ter abandonado Yalahar e começado a caçar Senzo e seu grupo que anteriormente foi formado em Vengoth, mas ele desapareceu no mundo depois daquilo. Acabei indo para Carlin um dia para manter um posto lá, e então me dirigir para Ab’Dendriel. Então, veio o dia onde eu a conheci por acidente.
Eu não estava prestando atenção em onde eu estava. Sinceramente, eu devia estar meio louco, sob efeito de substâncias criadas por dworcs ou lagartos de Chor, pois eu estava no telhado do prédio onde fica a Guilda dos Feiticeiros de Carlin. Estava sentando, observando os movimentos de alguém suspeito, disfarçado entre os cidadãos da cidade, e decidi me levantar e ir atrás dele. Então, o chão debaixo de mim quebrou e eu me espatifei no chão. Era óbvio que não foi um acidente, alguém usou uma explosão exatamente onde eu estava, então me preparei pro combate logo ao levantar. Mas o que eu vi me tirou o chão mais do que aquela queda do telhado.
Lea sempre foi espetacular, honestamente. Quando a vi logo adiante, ao lado de sua mesa, com uma das mãos na boca, segurando-se para não rir, eu não consegui reagir. Até sua voz era linda. Era como se eu estivesse me apaixonando de novo.
Então, como de costume, matei esses sentimentos antes deles se desenvolverem. É uma das habilidades que Varmuda me deu.
Mas não tive como não gostar dela, infelizmente. Os sentimentos voltavam o tempo todo. Ah, maldita seja a volumosa Lea, pois aquela mulher não sentia medo de mim nem por um instante. Ela me ajudou por um longo tempo, e sempre que eu voltava para Carlin, ela me oferecia ajuda. Até que começamos um caso. Na época, ela tinha um aluno, e ele devia querer fazer o mesmo que eu consegui fazer, mas como era só um jovem com menos de vinte anos... Heh, otário. Cheguei primeiro.
É, e por isso Alayen guarda rancor de mim até hoje. Sou cuzão demais, por Uman. Opa, eu sou ateu. Então, é... Por mim mesmo, então. Não preciso ser modesto enquanto estou tendo um monólogo.
Enfim... Lea deve estar a minha espera, certamente. Ela sempre ficou triste quando eu ia embora, pois não sabia se eu ia voltar ou não. Alayen torcia pra que eu morresse até o momento em que passamos a ter algumas conversas e passamos a nos entender melhor, e ele até desenvolveu alguma intimidade comigo. É por isso que ele me chama de tio. Bom, no fim, eu acabei parando de visitá-la tem quatro anos, por isso que ela ficou irritada quando voltei, naquele dia, há talvez um mês atrás. Tanta coisa aconteceu nesse curto tempo que estou até confuso. Mas, sim, se eu voltar vivo, certamente irei visitá-la. Eu simplesmente não posso dispensar aquele mulherão. E só fiz isso quando voltei pra Carlin naquela vez por motivos óbvios.
Não sei se vou voltar mesmo.
E Trevor. O modo que nos conhecemos foi engraçado, pra não dizer humilhante. Já tem um ano e uns meses. Me escondi na torre dos mágicos, vazia no dia, que fica ao lado do Monte Sternum, e no caminho para a Ponte Anã, em direção de Kazordoon. Estava sendo perseguido por autoridades thaianas tinha um bom tempo. Não sei o que Trevor fez até hoje, mas ele conseguiu fazer vários arqueiros se esgueirarem pela montanha dos ciclopes para chegar até o andar que ficava alinhado a onde eu estava. Os outros soldados cercaram a torre, e muitos outros a subiram num processo que parece ter tomado quase uma hora. A única coisa que ouvi foi um ranger de ferro, que me fez acordar, mas para a minha surpresa, eu já estava cercado pelos soldados de Trevor.
Ele não é nada menos do que genial entre os cães thaianos. Quando ele apareceu me levando para a prisão de Thais, ele foi consagrado como um dos melhores agentes que a capital e o reino dispunha. A notícia se espalhou até para as colônias. “Trevor Van Aknimathas prendeu Nightcrawler, detetive misterioso que cometeu inúmeros crimes contra a coroa”. Porra, que piada de mau gosto.
Ele obviamente ganhou uma promoção. Foi de um sargento para Capitão de Guarda, e com um pé na posição de Major, pois não ia demorar pra ele ser promovido de novo se continuasse sendo tão bom no comando. E eu realmente não tinha muito o que fazer na época que fui preso para escapar dele, pois meus poderes estavam em desordem. Estava interessado em ficar por ali pra recolher informações, também.
Fiquei um mês na cadeia. Então, um dia, Trevor surgiu, interessado em saber o que eu fazia. A contragosto, decidi falar um pouco sobre, mas ao invés dele tirar sarro de mim, ele pediu para que eu continuasse. E bem, eu só continuei, pois trata-se de alguém que me capturou. Merece respeito, ao menos. No final, ele pareceu tenso e com um medo visível, mas simplesmente disse que eu era um homem corajoso e que me ajudaria de alguma forma. O problema é que ele não pode me ajudar. Pedir para me soltar só pra capturar um suposto grupo de gente que estaria por trás de inúmeros massacres do mundo parecia loucura. De certa forma, os thaianos acreditavam na existência da Irmandade. Mas ignoravam por medo. O que fariam se conseguissem encontrá-los? Levando em conta que mataram tanta gente, como colocariam a lâmina em suas gargantas, se ela nem tem efeito?
E nem mesmo eu reuni informações o suficiente nos mais de dez anos em que estive no rastro deles. O que garante que os thaianos conseguirão? No fim, me soltar ou não nem faria diferença, mas eles preferem me manter lá porque eu realmente cometi crimes. Não ligava, eu realmente precisava de tempo pra me recobrar. Mas o perigo da Irmandade me atacar enquanto eu estivesse ali era muito, mas muito alto. Não era uma boa situação.
No fim, um dia, no meio da noite, Trevor abriu minha cela e mandou segui-lo. Acabei fazendo isso, pois, se eu quisesse fugir, precisava traçar um rumo mais detalhado, e fazer isso fora da cela. Mas o que ele fez não estava nos meus planos: Ele me deu um disfarce, me levou para perto de Greenshore e me falou para continuar fugindo. Disse que queria ajudar, e aquela era a ajuda inicial dele. Não falou nada depois disso, apenas voltou para a capital.
No dia seguinte, soube por um fazendeiro do vilarejo das novas. Já soltaram a noticia que eu tinha fugido, e que Trevor ficou na minha cola, mas me perdeu no norte da capital. Por isso, ele foi rebaixado para Tenente de Guarda, pois a razão dele ter sido promovido foi por causa da minha captura. E havia suspeitas de que ele não estava atrás de mim, e sim me ajudando. Buscando evitar esses rumores de prejudicarem a imagem das Guarnições, ele foi simplesmente rebaixado.
Trevor apareceu pouco tempo depois em Greenshore, quando eu me escondi numa casa abandonada. Então, eu percebi. Ele entregou sua chance de continuar subindo profissionalmente entre os militares de Thais pra me ajudar. E de bom grado. Nunca conheci alguém como ele. Passei a confiar no homem, que tinha alguns 43 anos e muita merda no passado.
Ele me contou sobre o seu passado tempos depois, enquanto ainda se acostumava com minhas exigências. O cara era realmente filho de aristocratas, como eu brincava de vez em quando. Afinal, quem tem “Van” ou qualquer merda do tipo no nome provavelmente é riquinho. E ele era, mas, como descreveu, era um garoto muito mais imerso em lutar e virar um aventureiro.
Seus parentes não concordavam. Um filho de aristocratas e diplomatas virando aventureiro e vivendo nas piores condições apenas pra caçar aventura e exploração? Era ridículo, na visão deles. Mas ele tinha um incentivo vindo de sua mãe, que apoiava que ele corresse atrás dos seus sonhos, e também de um tio dele. Mas o restante não gostava da ideia. Porém, ele não tava nem aí: Podia ter 15 anos, mas nada do tipo iria derrubá-lo. Ele continuou treinando, dia após dia, e mostrando uma habilidade sem igual, como a de um herói de lendas antigas. Ele realmente tinha uma destreza sensacional segundo as pessoas que o conheceram na época, um dom genioso com a espada.
Então, um dia, parece que seu sonho de aventureiro foi por agua abaixo. Um grande evento abalou a Baía da Liberdade, lugar onde ele nasceu e foi criado. Uma grande invasão de piratas ocorreu, dezenas de navios cercando a cidade. Uma infestação de piratas vieram em pouco tempo, e os soldados mal estavam preparados. A defesa dos distritos da cidade foi feita quase que na base da guerrilha, pois eram piratas demais, e eles precisavam usar ideias mais eficientes pra vencer.
Detalhe interessante: Os piratas já tinham pólvora e possuíam canhões enormes nos seus navios, de alguma forma. Além de portarem garruchas e bacamartes que não eram lá tão bons, mas úteis. Esses montes de piratas bombardearam a cidade por uma hora antes de virem todos juntos atacá-la, e antes disso, eles mataram mais pessoas ainda com os tiros de canhão. As bolas de ferro foram longe, e atingiram até as mansões no distrito norte e no leste.
Uma delas atingiu a mansão onde Trevor vivia. Foi bem rápido. Ele foi até um corredor da casa e achou sua mãe com uma serviçal, correndo. No momento seguinte, a parede estourou logo ao lado dela, e alguns segundos depois, ele viu o corpo da mãe no chão. Tudo tava lá, menos a cabeça, que explodiu em mil pedaços. A bala do canhão estava coberta de sangue. A serviçal não foi atingida, mas desmaiou ao ver como sua patroa estava.
Trevor ficou entre catatônico e furioso. Ele foi até sua sala de treino, pegou sua espada e correu para a entrada da mansão. Antes disso, seu pai e sua irmã tentaram impedi-lo, mas não conseguiram. Ele avançou como um cão até a cidade, armado e nem um pouco preocupado se iria morrer ou não; Apenas queria levar uns piratas consigo. Parece comigo nos meus tempos de glória. Heh.
A batalha durou até o amanhecer do dia seguinte. No meio da madrugada, a elite do exército retornou antes do distrito ao norte, o último da cidade, ser invadido. Muitos deles estavam em missão ao redor de Nargor e de Sabrehaven, bem como em Porto Esperança, mas quando voltaram, os piratas nem se preocuparam em continuar lutando como antes. Seus saques e violência acabaram rápido. Eles voltaram para seus navios com tudo que conseguiram e abandonaram a cidade.
Muitos soldados comemoraram, mas os membros da elite e outros soldados mais conscientes evitaram comemorações, e se apressaram em checar o estado da cidade, ver a quantidade de mortos. Eles encontraram Trevor, mas ele não estava no chão, e sim de pé. Ele fitava os navios indo embora ao longe com um olhar vazio e destruído. Parecia morto por dentro. E ainda estava coberto de sangue.
O general que o encontrou, parte da elite, olhou-o mais de perto, tomando cuidado com seus movimentos inumanos. Seu corpo estava torcido para o lado, encarando parte do céu, e parte do mar. Na sua mão, um sabre danificado. Sua espada foi colocada de volta na bainha, para preservá-la, nos seus últimos instantes de consciência. E nenhum – Repito – Nenhum ferimento. Todo o sangue nele era dos piratas. Ele matou tantos que até hoje não existe número correto. Sabe-se que, depois daquele dia, ele entrou no exército, formou-se rápido e logo estava dentre as fileiras da Baía da Liberdade, ignorando avisos de familiares e até mesmo o poder e influência de sua família. Ele entrou por conta própria. Sem ajuda.
Suas primeiras três missões foram simples. Os soldados sabiam que ele era um cão desalmado e sedento por piratas. Então, quando eles rastreavam os piratas nas ilhas ao redor, eles lançavam Trevor na sua direção com a melhor espada que tinham. Quando ele finalmente foi atingido por um bacamarte próximo da cintura, no lado direito, ele se acalmou e ficou mais realista, e esse tipo de estratégia não dava mais certo. Com isso, ele passou a ser mais estratégico. Em cinco anos, já era major. Isso porque ele era genial quando se tratava de caçar piratas e rebeldes. Nargor ficou com o cu na mão. O nome do cara já era mais temido que o de deus. Quando eu crescer, quero ser que nem ele.
Ele se tornou comandante com 25 anos e quase comandante-em-chefe. Suas táticas eram geniais. Ele sabia melhor do que ninguém como os piratas se comportavam, ganhando o nome de “Ceifador do Rum”. Ele ficou conhecido assim quando conseguiu botar fogo num navio inteiro atirando numa garrafa de rum com um arco e uma flecha flamejante.
Por que ele desistiu de tudo que é a questão principal. Mas ele explicou: Logo o seu ódio passou, e ele precisava de novos ares. Então ele foi para Thais. Perdeu seus cargos pois uma transferência de uma colônia para o reino não era bem aceita e geralmente era mais fácil conseguir um cargo nas colônias do que no reino em si. Trevor passou seus anos seguintes trabalhando para o exército, depois para a Guarnição. Suas habilidades diminuíram de forma significante. Não tem pirata em Thais, afinal de contas.
Ele ficou um bom tempo como Cabo, e então como Tenente de Guarda, até me capturar. Perdeu os dois cargos que conseguiu, e os recuperou quando a Irmandade nos atacou em Thais e ele os segurou sozinho. Eu sabia que podia confiar nele, pois ao longo do tempo em que trabalhamos juntos, ele nunca mostrou sinais de que iria me trair. Confio nele, mas não totalmente. E eu também sei que ele espera que eu volte. Trevor é uma das pessoas que mais se entristece com o fardo que coloquei sobre mim mesmo, e espera que ele acabe.
Ele acabará, Trevor. Assim que eu colocar Chaur no chão.
Não estou mais no meu ápice, e não tenho a mesma habilidade que tinha quando matava demônios atrás de demônios em Yalahar, há décadas.
Mas sou mais que o suficiente pra acabar com uma cambada de ninjas fedendo a sangue.
Eu já matei mais de duzentos demônios, caralho. Um filho da puta de vermelho jogando sangue em mim nunca será o suficiente pra me parar. Por isso, se prepare, Senzo e companhia.
Eu estou chegando.
Próximo: Capítulo 33 – Dilúvio