Capítulo 27 (até que enfim...)
Antes de por o capítulo, peço mil perdões pela demora, visto que andei super atarefada... A todos que comentaram, agradeço bastante, e farei meu melhor para manter a qualidade dos capítulos.
Sem mais delongas, o capítulo de hoje.
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Capítulo 27 – Atos de Guerra (Parte 7) – Cinzas para Cinzas
(Narrado por Andarilho do Vento)
Apesar de curado, ainda me doía respirar. O ar estava impregnado de um cheiro de morte, e eu sentia minha visão embaçar.
A tarefa de um bloqueador consistia em impedir o avanço de uma dada criatura, bloqueando-lhe os ataques, fossem eles corpo-a-corpo ou de área, recebendo a maior parte dos danos nominais por ela causados. Se tentassem triscar um dedo, garra, pata, ou o que quer que fosse em nossos atiradores, era dever cívico de um bloqueador impedir de fazê-lo.
A verdade é que eu e Liive estávamos com dificuldades; ainda que tivéssemos causado muito dano a Morgaroth, o maldito curava-se em uma velocidade assustadora. Parte de nosso dano, execetuando-se o braço decepado, fora recuperado: as feridas feitas pelas lâminas e pelos projéteis foram fechados, e seu corpo parecia como novo.
A criatura rugia e bramia, golpeando o ar com sua mão colossal, criando rajadas cortantes de vento, que arrancavam fora membros de nossos companheiros de batalha; alguns perdiam apenas alguns dedos; outros assistiam com horror a perda de seus braços ou pernas. Os mais azarados tinham suas cabeças decepadas ou seu corpo dividido pela metade, com os membros superiores sendo separados do tronco brutal e rapidamente.
O braço curado do demônio acertou a mim e Liive, empurrando-nos para longe da ação. Morgaroth voltou sua atenção para o grupo de paladinos cujos espíritos eram semelhantes aos de Cavaleiros, por assumirem corajosamente a tarefa de impedir o avanço da besta. Brand os comandava sem temor. Era fasciante aquele homem, possuidor de uma coragem sem tamanho.
— Não recuem! — Bradou o Paladino de olhos rubros e cabelos precocemente grisalhos — Não deem a essa monstruosidade a chance de revidar!
As flechas perfuravam a carne vermelha e musculosa que já estava dando sinais de fadiga, ainda que persistisse em sua carnificina titânica.
— É inútil resistir! — Bradava o ser colossal e herege, esmagando os guerreiros mais próximos com sua única mão, apertando-a contra o corpo forte, embora frágil de suas vítimas — Todos vocês servirão como fonte de alimento para o poder de Zathroth, o único senhor desse mundo enfraquecido pela luz que vocês tanto veneram!
Nós nos mantivemos firmes, pois não acreditávamos nas palavras de Morgaroth. Se alguma criatura haveria de perecer ante a vontade de algum de nosso deuses, seria ele, o senhor do Triângulo do Terror, que daria sua vida para livrar essa terra do mal que causara, e caberia a Crunor e Banor fazerem uso de seu poder para o bem de nossa existência.
— “Exevo Gran Mas Tera”! — Bradaram alguns dos Druidas, chamando Crunor em nosso auxílio.
Morgaroth soltou um rugido de fúria ao ver que seu corpo débil fora preso em uma ardilosa teia de vimes, folhas, galhos e cipós, fortes como nossa vontade. Os Paladinos continuaram atirando, e os Druidas faziam um esforço magnânimo para manter Morgaroth preso. A concentração deles era intransponível e simultaneamente frágil, pois uma leve perturbação libertaria Morgaroth e poria tudo a perder.
Eu e Liive mancávamos visivelmente. O safanão que leváramos anteriormente nos causara um ferimento bem desagradável e inoportuno, que limitava nossos movimentos na pior hora possível. Nossa respiração era pesada, dolorosa e ofegante; creio que ou deslocáramos ou quebráramos os malditos ossos da canela.
— Bem, vamos deixá-los com todas as glórias ou o quê?— Indagou Liive com zombaria ainda que ferido — Temos trabalho a fazer! — o bárbaro ajudou-me a caminhar em direção à fera, passando pelos inúmeros corpos dispostos no assoalho de pedra ígnea.
Morgaroth estava em seus últimos momentos, assim como nossas forças. O demônio ameaçava libertar-se das amarras da Mãe Natureza, visto que os vimes começaram a se romper como cordames finos, e o desespero reapareceu em nosso semblantes.
— Mantenham a calma! — Urrava Brand atirando flechas sem parar — Mantenham a calma!
O braço sadio do demônio se soltou, e foi a oportunidade de que precisara para conjurar bolas de fogo em nossa direção. Os feiticeiros se utilizaram de muros de energia para impedir a completa eficácia da investida do demônio, que ainda se encontrava preso,mas mostrava-se perigoso.
Quando eu e Liive chegamos a umas duas dezenas do combate, Morgaroth já havia se soltado quase que completamente, pois uma de suas pernas o mantinha firmemente preso ao chão de pedra vulcânica.
— É agora! — Urrou Brand parando de disparar seus projéteis — Solaria, traga suas almas!
Eu sorri ao ver Solaria e os demais Druidas tomarem a frente de batalha, concentrando suas forças mágicas em suas mãos; eu vi as esferas de energia convertendo-se no outro elemento tão associado aos Druidas: água. Eles se ajoelharam e fizeram um longo movimento de braço, arremessando as esferas de energia gélida já imensas em suas dimensões, tamanha concentração enérgica que havia nelas.
— “Exevo Gran Mas Frigo!” — Que Bastesh esteja conosco, pensei por um segundo.
A onda gelada assumiu a forma da Deusa, indo de encontro ao demônio, que tentava em vão fugir do abraço aquático de nossa protetora dos navegantes. Seu abraço congelante acertou-o em cheio, abrindo-lhe as feridas outrora cicatrizadas, jorrando-lhe sangue aos borbotões. A corda natural arrebentou com o inesperado choque térmico,mas já não importava mais. O grande estrago já estava feito, e era hora de terminar o que havíamos começado há semanas, quando soubemos do despertar de Morgaroth.
O demônio, muito débil, afogava-se nas águas invocadas pelos senhores da relva, gorgolejando de forma sofrida. Não havia mais nada a ser feito, senã uma última intervenção nas mãos do aço que nós, Cavaleiros, segurávamos com força.
Liive me lançou um rápido olhar decidido. Enfim, a hora havia chegado.
— “Exori Gran Ico!” — Urramos em uníssono ao lançar-mos nossos corpos de encontro à fera.
***
Um silêncio fúnebre pairava no ar. Havia cheiro de morte em toda parte. Fiz um esforço descomunal para abrir meus olhos, e tudo ao meu redor parecia girar. Minha visão estava embaçada e minha cabeça doía miseravelmente. Senti algo pegajoso em minhas mãos, e tentei levantá-las para ver o que era.
Minhas mãos pareciam dois blocos pesadíssimos de chumbo. Doía-me fazer o mais simples movimento de trazer a palma de minha mão para perto de meu campo de visão. Era sangue, mas não humano. Apesar de rubro, o líquido viscoso mudava de vermelho para roxo e de roxo para verde-escuro conforme o reflexo da luz. Tentei me levantar, e meu corpo parecia pesar toneladas, tamanha era minha dificuldade.
Meus músculos pareciam não querer responder. Quando, após minutos de esforço, consegui ficar sobre meus joelhos, vi pequenos focos de luz em formato de ankh caindo sobre mim, como se estivesse chovendo bênçãos divinas.
Um desses flocos caiu sobre minha mão ensanguentada, fazendo-o borbulhar e converter-se em pó. Meus olhos se arregalaram, e logo percebi o que acontecera. Olhei para meus joelhos: estavam sobre uma couraça rubra cuja textura não me era estranha.
Fui guiando meu olhar sobre aquilo que julgava ser o chão, até que vi algo que me fez sorrir de alegria: o rosto desfigurado de Morgaroth. A eletricidade paralizou-lhe as faces; o gelo perfurou-lhe a órbita direita, a garganta e a testa. Havia cortes de vários tamanhos, certamente causados por lâminas, e seu corpo mostrava os sintomas da peste conjurada sobre ele. Nós vencemos.
Apesar de todo meu corpo doer, de haver um corte sangrento em meu ombro esquerdo e um pequenino corte em minha testa, não pude deixar de soltar um grito rouco de alegria e júbilo. Minhas pernas doíam demais para poder pular, mas aquele grito já me bastava para expor minha alegria. Após semanas de luta, estava prestes a voltar para minha casa... E para os braços de Ireas.
Meu grito de alegria despertou Brand, Rei Jack, Mandarinn, Pingagua e Liive, bem como três Elfos, incluindo a esposa de Mandarinn, um oitavo dos anões, três feiticeiros e cinco druidas. Éramos pouco mais de vinte ali. Os vinte sobreviventes de três centenas de bravos guerreiros que uniram as forças de suas vocações para derrotar um dos membros do Triângulo do Terror.
— Ai... Que dor de cabeça dos infernos... — Resmungou Brand, tentando manter-se erguido sobre as pernas trêmulas. — Vencemos?
— Vencemos... — Respondeu Rei Jack em um tom suave, sorrindo devagar na medida em que ajudava Pingagua a se levantar.
— Vencemos! — Urrei de alegria — Vencemos o maldito!
Liive reergueu-se sem dificuldade e sem pronunciar uma palavra sequer. O ruivo fitou-me com um olhar sério e apático, alheio à minha alegria. Havia algumas das recompensas em sua mão, que não eram de lá alto valor. As mais valiosas estavam na posse de Brand, que as repartiria conosco. Duas lindas e raras armaduras — A Armadura Encantada e a Proteção Molten —, bem como o Escudo do Mestre das Mentes e o Grandioso Escudo nos foram deixados. Havia ainda outros itens de menor valor e algumas moedas, que nos foram repartidas.
O escudo do Mestre das Mentes me fora entregue para fazer dele o que bem quisesse. Por fim, amparados sob os ombros de cada um, seguimos para fora do ducto vulcânico de Goroma, levando conosco nosso ganhos e elementos representativos dos mortos em combate a fim de prestar-lhes as últimas homenagens.
Estava tudo acabado, finalmente. Eu me movia vagarosa e penosamente,pois a dor era descomunal. Construímos muitas cruzes de madeira; amarramos itens a cada uma delas. Perdi a conta de quantos nomes e ankhs gravamos em pequenos blocos de mármore postos na base das cruzes.
Brand, Rei Jack, Pingagua, Liive, Mandarinn, Solaria e eu éramos os únicos humanos que sobreviveram à empreitada. Logo chegaram os navios que levaram Kazordanis e Elfos Continentais de volta às suas terras. Jack pegou o navio para Darashia, pois tinha negócios a resolver. Pingagua regressou a Kazordoon. Mandarinn e sua esposa foram à Thais junto a Brand para receberem as honrarias devidas. Ficaram apenas eu e Liive em Goroma, à deriva.
Por um bom tempo, fiquei em silêncio, absorto em meus pensamentos, ainda incrédulo acerca de tudo o que ocorrera. O sangue do demônio deixara um cheiro muito forte e levemente tóxico no ar da funesta ilha. Olhei para Liive, e o bárbaro continuava com um sinistro olhar; então, um leve ruído vindo dos mares me chamou a atenção: uma pequena barcaça estava vindo nos resgatar.
— Liive, preciso lhe perguntar — Comecei a contragosto e com o coração apertado.
— Pergunte — Disse-me o bárbaro com indiferença.
— Por acaso... Você tem notícias de Ireas? — Sentia meu coração comprimido.
— Ele estava em Svargrond da última vez que o vi... — Respondeu-me com enfado — Por que não tenta descobrir se ele ainda está lá?
Continua...
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Nota da Autora: O título desse capítulo foi baseado em uma música da banda de industrial metal Rammstein: Asche zu Asche significa "(De) Cinzas para Cinzas".