O Manteiga tá cansado e não pode vir postar anda aqui. Logo - lamento o double post - venho eu aqui. Com novo capítulo. Ficou curto e possivelmente ruim e salpicado de erros, mas estamos usando um outro pc - já que o dele escafedeu-se - e o Word desse é muito precário... Em todo caso, o próximo capítulo será melhor. Este é para manter a história atualizada. Perdoem-nos se estiver muito ruim, mas ele passou tempos sem escrever e esta se readaptando as idéias. Eu apenas auxiliei aqui e ali. Espero que pelo menos sirva de passatempo.
Capítulo XV
"Não haverá luz do sol..."
Escuridão. Sombra. Medo. Três meras palavras – malévolas, por sinal – impertinavam a mente do minotauro. Não que esse temesse os humanos e suas armas porcas, mas Sheng temia a morte, como qualquer mortal. Ou pelo menos quase qualquer mortal. Se aprendera alguma coisa com Thul – provavelmente nada – teria sido que grandes seres não deviam temer a morte. A morte deveria teme-los. Aquelas palavras não lhe fizeram sentido no momento em que foram ditas, nem faziam agora. Sheng era um ser vivo racional, um dos únicos racionais de sua espécie, diga-se de passagem, e por tanto temia a morte. Temia o momento em que fecharia seus olhos para a eternidade e cairia no vazio. Era cético em relação a reencarnação, assim acreditava veemente que a morte era o fim. O fim tão desejado pelos antigos imperadores a seus traidores ou prisioneiros de guerra, e também tão repudiado pelos presos e condenados. Um medo vil que prendia a mente das pessoas horas e horas a fio.
A sombra projetada pelo corpo de Ulizin perante as tochas crepitantes lembrara-lhe de um momento único e deprimente de sua vida. Não muito antes, talvez um qüinqüênio ou dois, ou algo assim. Ele estava em sua casa – se é que pode-=se chamar uma toca com lixo entupindo cada nicho e montes de palhas ao chão de casa – admirando o fogo de uma fogueira. Era bravo e paciente, consumia cada pedaço da madeira sem pressa, pois sabia que a pressa terminaria por apaga-lo. Pelos momentos em que queimava ardentemente, aquele fogo era o soberano dos elementos. Tinha vida breve, mas aproveitada de forma sábia. Seu pai – um dos mais importantes guardas de Mintwallin – sempre lhe dissera para ser sábio como o fogo.
Aquilo só fez sentido quando os humanos invadiram Mintwallin, com tochas e armas nas mãos, montados em ursos enormes e monstruosos, em grupos de cinco ou seis, sempre precedidos por arqueiros a pé que disparavam suas rápidas e cortantes flechas a esmo, tentando amedrontar as infantarias da cidade subterrânea ou até matar algum ou outro civil. Para aqueles mamíferos pelados ridículos sedentos de carne, não importava quem iriam ferir, mas sim se este iria morrer. Para eles os minotauros eram todos uma ralé. E para os minotauros , eles também eram. De fato, sempre tiveram suas desavenças, mas já fazia anos que Mintwallin não os atacava.. Essa investida, segundo o imperador supremo Marwik, era um insulto ao tratado de paz feito anos antes.
Naquela fatídica noite – ou dia talvez, nunca soube. Nas cavernas abaixo de Thais o sol não penetra e fica difícil saber se há luz do lado de fora – seu pai fora chamado por Murius para combater os humanos que invadiam o perímetro da cidade. Sua mãe era uma arqueira excelente, logo não preciso dizer que ela juntou-se ao marido no combate. Sheng ficou em um campo de refugiados, aguardando. Nunca mais soube de seus pais. Nunca quisera saber, ou sequer reconhecer os corpos, pois sabia que estes estavam mortos. Na época, só pensava no que o pai dissera-lhe. “Seja sábio como o fogo filho, seja sábio como esta chama que consome a madeira e os corpos dos tolos”. Estranha ironia, afinal certamente seu pai já estava carbonizado aquela altura. Era um costume dos humanos queimar os corpos de suas vitimas ao fim de um ataque. Mas isso não vem ao caso.
Passaram-se horas e horas até que os humanos invadiram o campo. Os malditos paladinos dispararam projéteis em chamas contra os pobres refugiados, deceparam-lhe as cabeças e jogaram álcool por todo recinto, a fim de pulveriza-lo. Sheng entrou em um nicho escondido a parede e esperou, assim como o fogo. Decidiu ser paciente, consumir lentamente a madeira e crepitar virilmente. Não afobaria-se em seu calor para não restarem-lhe somente cinzas. Não queria morrer sobre elas. Quando os humanos saíram e a cabana entrou em combustão, ele encontrou uma porta de emergência e saiu. Viu-se em uma varanda com trepadeiras enroladas sobre seu parapeito e belos e exuberantes vasos floridos em todos os lados. As trepadeiras que desciam até o chão já eram destruídas pelo fogo. Em poucos segundos toda a sacada seria pó.
Sheng correu para o parapeito. Viu uma escada de madeira, milagrosamente inerte em meio as chamas. Era sua única chance. Pulou seu impedimento e postou-se sobre a escada. Mas vacilou em um degrau, o partindo. Desequilibrou-se e caiu sobre a passagem de saída dali. Rompeu os restos da escada e caiu sobre um monte de corpos carbonizados. O fogo já havia cessado. Ficou ali, caído inerte. Sentiu a morte sentar-se ao seu lado e pegar-lhe o rosto. Ouviu então dois soldados humanos passarem ao seu lado. Sentiu o peso de seus olhos sobre seu corpo. Fechou as pálpebras com força ao ouvir um deles dizer que queimaria seu corpo.
- Não – disse o outro – Deve ser do Wallt. Você sabe que ele não gosta muito de queimar suas vítimas né?
- Naturalmente – replicou o outro – Devo ter esquecido.
Os dois saíram dali rapidamente, tropeçando em corpos e restos jogados pelas ruas. Sheng ficou ali, admirando as labaredas que destruíam o abrigo, pensando se demoraria a consumirem-no. Ele apenas encarou a madeira ser consumida rapidamente. Aquele fogo não era prudente. Virou-se em um ato insano e admirou o teto da caverna. Encarou-o e imaginou como seria o céu. Seu pai havia lhe falado da existência do sol, uma estrela que brilhava para o planeta. Ele pensou no sol. Como era ele? Como seria estar perante ele?
- Não haverá luz do sol... – Murmurou ele antes de desmaiar.
* * *
Sheng saiu de seu devaneio ao ouvir um estrondo alto. Draco aprumara-se e chiava enfurecido encarando Ulizin. Suas enormes asas escamosas estavam abertas ao extremos, tocando a sala de um lado a outro. Sua cauda agitava-se furiosamente sobre Sheng, colidindo com as paredes, derrubando pedras e erguendo poeira. O minotauro admirou-se ao ver Draco protege-lo. Jamais havia imaginado que um ser criado por ele arriscaria a própria vida para salvar a sua. Mas não era hora de admirações. O medo ainda possuía psicologicamente Sheng. Ele lutava com suas últimas forças para não manifestar fisicamente aquele sentimento tão... Humano. Ele não iria humilhar-se a ponto de fechar os olhos, encolher-se, ver seu corpo tremer, suas pernas bambearem e sua voz travar na garganta. Preferia cair em desgraça a submeter-se ao medo.
Apoiou-se sobre sua perna, na arena que corresponde ao joelho humano. Ergueu-se e olhou triunfante para Ulizin. Seus olhos haviam perdido o foco e estavam arregalados. Ele tentava resistir ao medo crescente. Uma gota de suor frio escorreu de sua face e caiu sobre sua boca. Lambeu-a com sua nodosa língua imunda e cuspiu a saliva no chão. Com seu casco, jogo pó sobre ela. Deu um passo. Depois outro. E outro. Começo a sentir mais firmeza em seu movimento. Olhou nervoso pela sala, observando se alguém notara seu medo. Para sua surpresa, todos os outros quatro ali presentes – os humanos e Draco – encaravam-no. Em suas bocas, a sombra de um sorriso formava-se. Seus corpos tremiam e seus olhos estavam meio fechados. Ruídos mínimos saiam de suas entranhas. Fez-se um silêncio. No momento seguinte, a caverna explodiu em risos. Cada vez mais altos e penetrantes. Sheng cerrou os punhos.
- Parem... De rir – Disse ele fraco. Os risos prosseguiam – CALEM-SE! – Sua voz ecoou pela sala mas não surtiu efeito. Ele piscou e mais seis elementos surgiram rindo. Depois eram doze. Então dezoito. Ai trinta e dois. Por fim perdeu a conta. Levou as mãos a cabeça e caiu sobre o túmulo de sua saliva, rangendo os dentes. Era o medo lhe enganando de novo. Ergueu a face e olhou Draco – CUSPA FOGO NESSES MERDAS!
***
Foi tudo muito rápido. Um jato de fogo ardente foi espirrado contra Ulizin. Estava olhando e respirando com dificuldade, logo, o que lhe avisou da onda de fogo fora o extremo calor transmitido pelo ataque. Rapidamente, ele jogou-se para o lado, caindo sobre o braço ferido e urrando de dor. Rolou alguns centímetros contra os restos do muro e admirou a imensa bola de fogo explodir contra a parede de terra, que desabou. O teto começara a ceder, e pouco a pouco, pedras e mais pedras despencavam da cúpula. Ulizin virou os olhos para o encolhido Tiher, que gemia e fazia caretas. Crossfox estava lívido, com os olhos em chamas fixos no vulto de Sheng jogado ao chão. Este parecia pronto para dar novas ordens ao seu subordinado infernal. Mas não o fez. Do contrário, ergueu-se e virou-se para Ulizin. Ergueu os olhos e disse, calmamente:
- O jogo acabou.
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Estarei esperando pelo menos um comentário antes de um décimo sexto capítulo.
Letra.