Capítulo VIII - Perigo À Espreita
O casal havia deixado o acampamento durante o amanhecer e quando chegavam em Venore o sol havia acabado de passar do ponto mais alto do mesmo no céu. As ruas da parte alta e no coração da cidade estavam cheias de pessoas que procuravam um lugar para almoçar, disputando lugar com aventureiros que estavam descansando, seja voltando ou prestes a sair em uma nova missão.
As construções denunciavam o quão abastada era aquela região, montadas em cima de pedras bem refinadas e argamassa de boa qualidade e janelas de madeira e vidro.
O cavaleiro de armadura negra com uma capa escura caminhava de mãos dadas com uma maga de vestido negro e bordados de rosas brancas subindo pela saia.
“Não devemos demorar muito.” Disse ele, olhando por cima do ombro para a maga. “Vamos chegar logo na sua casa agora.”
“..Eu sei disso…”
Ela respondeu timidamente, sua voz quase lutando para escapar para fora. O caminho inteiro o silêncio predominou entre o casal, a princípio justificaram mentalmente com a preocupação de serem atacados de surpresa, mas agora na segurança da cidade, aquele receio havia desaparecido completamente, e ainda sim aquela tensão permanecia.
Olhando para a mão de Crucis junto a dela, que estava parcialmente enluvada com os dedos para fora, Gabi podia sentir bem os calos dos treinos insistentes que ele teve contra a maciez da sua mão que não conheceu o esforço e a insistência como ele.
Aquele mundo cheio de barulho ao redor dos dois parecia desaparecer, em que ela lutava para encontrar palavras para tentar expressar o que sentia.
“Ora! Não esperava encontrar vocês em breve!”
A voz familiar vindo por trás pegou os dois de surpresa, fazendo com que o casal parasse de caminhar e virasse na direção do recém chegado, um mago esguio de cabelos ruivos e que agora portava um sorriso cansado. Crucis ergueu a sobrancelha.
“Lloyd?” Crucis soltou da mão da namorada somente agora, indo até o amigo para apertar a mão do mesmo. “Caramba, cara! Quem é vivo sempre aparece! Mas por que você sumiu do nada antes da gente sair da cidade?”
“Eu senti que seria bom eu, sabe, dar minha licença do grupo um pouco, amigo. Peço desculpas por não ter dito nada antes.” Lloyd respondeu com um meio riso. “Mas o que vocês estão fazendo na cidade? Achei que estavam caçando.”
“Ah… Bem…” Crucis deu uma olhada na direção de Gabi. “Sabe, Gabi não estava se sentindo bem…”
“Ah, é mesmo?”
Lloyd deu uma olhada na direção da garota, a avaliando dos pés a cabeça com os braços cruzados. A garota mirrada pareceu se encolher ainda mais diante da atenção, sorrindo de canto em que acenava com a cabeça.
“Sim, eu… Eu precisava voltar.”
“Não, tudo bem. Eu entendo que ser a filha de um mercador emergente não é fácil. Posso acompanhar vocês, se quiserem.”
“Vamos, vamos sim!”
Crucis foi logo abraçando Lloyd de lado e o puxando de leve com dois tapas no ombro, mesmo que tivesse que esticar um pouco mais o braço para isso para conseguir alcançar a altura do seu amigo, tendo que o soltar logo em seguida. Gabi se moveu silenciosamente para o lado do seu namorado para os acompanhar.
“Alguma novidade, Lloyd?”
“Nenhuma muito grande, na verdade.” O mago suspirou de leve. “Ouvi falar que teve alguns problemas nas estradas, mas é algo dentro do comum. Já foram despachados soldados para averiguar a situação.”
“E você não foi por que?”
“Por que tenho coisa mais importante para fazer do que ver qual é o bando de monstros ou foras da lei que estão atrapalhando o comércio.” Lloyd grunhiu de leve, balançando a cabeça negativamente. “Sinceramente, Kruis, você deveria saber melhor dos meus talentos! Há quanto tempo nos conhecemos?”
O cavaleiro deu uma cutucada com o cotovelo no mago, o empurrando dois passos para o lado quase esbarrando em um transeunte que estava tão concentrado avaliando duas frutas na altura do peito que nem percebeu, apesar do mercador na frente dele ter feito uma cara irritada para a dupla.
“Ei, ainda estou em missão, eu sou Crucis!”
“Ah, Kruis, Crucis… No fim são a mesma coisa. Não sei por que você insistiu com isso de codinome…” Lloyd olhou para Gabi. “Por que você concorda com essas coisas, Hilda?”
A maga deu uma risada tímida, cobrindo um pouco a boca, vendo primeiro a expressão de Kruis irritadiça antes de voltar a olhar para Lloyd.
“Eu acho que é uma boa. Seria ruim se ficássemos falando o meu nome sem parar.”
“Sim, é exatamente isso!” Kruis colocou o rosto mais para frente, se colocando na visão do mago. “Você não pensa na segurança dos outros?”
Sentindo um pulsar breve na testa, Lloyd estreitou os olhos encarando os olhos escuros do Crucis. O mago chegou a interromper a caminhada, com a dupla ainda em silêncio, com a tensão sendo quebrada quando o mago suspirou e abaixou os ombros, passando a mão na nuca e voltando então a caminhar, olhando para frente.
“Está certo, entendi o recado. Vou te chamar de Gabi e Crucis daqui para frente.”
Aquilo não caia como certo para o mago ainda sim, mas ele tinha a percepção melhor que a maioria das pessoas sobre o que era o momento certo de questionar e agir - e agora não era nenhum dos dois.
Enquanto conversavam, o trio acabou saindo da rua principal e movimentada, atravessando um caminho para dar em direção as casas mais abastadas onde as mansões começavam a despontar no fundo, se sobrepondo aos telhados de barro, e foi naquela direção que seguiram, abandonando as ruas barulhentas e movimentadas da rua principal para o silêncio do bairro nobre.
Depois de virarem mais duas esquinas, se aproximaram de uma das mansões, a qual a sombra foi se estendendo sobre o trio, dando um descanso necessário do sol quando chegaram na soleira da porta, finalmente os ombros de Gabi relaxando e um sorriso surgindo dos seus lábios quando tomou a frente dos outros dois para abrir as portas dupla de madeira entalhada.
“Finalmente..!”
Ela murmurou, e uma vez que passavam a entrada, davam para uma empregada que esperava na entrada. A mesma até mesmo pareceu tomar um susto sutil, seu ar um tanto entediado logo ganhando vida em que abria um sorriso e virava para os recém chegados.
“Voltaram mais cedo do que o esperado. Sejam bem-vindos de volta, senhorita Gabriol e o senhor Helbert.” Sua atenção voltou então para o Lloyd. “Estão acompanhados do senhor Wildride hoje? Por acaso é necessário que eu os leve à sala dos visitantes?”
“Não precisa, Meredith.” Gabi interveio. “Os dois já estão de saída. O Kruis só veio me trazer para casa e o Lloyd só nos acompanhou.”
“Na verdade…” Lloyd interveio, limpando a garganta. “Se não for incomodar muito, eu gostaria de um pouco de chá, sabe…”
Tanto Hilda como Kruis olharam surpresos para o mago.
“Bem… Acho que isso pode ser arranjado.” Hillda falou incerta a princípio mas logo voltou para a empregada. “Prepare então chá e biscoitos, Hilda. Eu mostro o caminho até a sala dos visitantes.”
“Certamente, senhorita.”
Meredith se retirou, deixando os sons dos seus calçados marcando a sua saída que ia se distanciando até sumir quando virava em um corredor, deixando o trio a sós. Crucis estava com os olhos semicerrados para Lloyd, que sorria tranquilo com as mãos atrás do corpo, levemente curvado para frente. Hilda dava alguns passos na direção do corredor na direção oposta à que Meredith se retirou.
“É por aqui.”
“Claro, claro.” Com um ar bem mais animado em sua voz, o ruivo mago virou para Crucis, tirando a destra de trás das costas para acenar “Bem, você está de saída agora, certo? Muitos afazeres. Vejo você depois.”
Cedendo, o cavaleiro seguiu atrás da dupla, trazendo mais uma surpresa para a maga.
“Acho que posso descansar um pouco antes de voltar para o acampamento.”
“Kruis?”
Enquanto Hilda estava surpresa, Lloyd só deu uma risada, dando um tapa nas costas do cavaleiro que nem sentiu direito a pressão da força do seu amigo. Assim o trio seguiu para a área de espera, onde ficaram em silêncio até Meredith chegar com o chá e os biscoitos, se retirando depois de receber o agradecimento de todos os presentes.
Lloyd cruzava as pernas sentado em uma poltrona vermelha, segurando o pires com uma mão enquanto levava a xícara para a boca, sentindo o cheiro da bebida quente com um leve sorriso, enquanto Crucis estava levemente recurvado para frente em um sofá do mesmo tecido da poltrona, seus cotovelos apoiados nas coxas.
Sentada ao lado de Crucis, Hilda servia um chá para o cavaleiro, que pegava a xícara branca com um pouco de dificuldade pelo tamanho das suas mãos em comparação ao objeto delicado.
“Vocês realmente têm as melhores folhas da região, seus funcionários merecem parabéns por tanta dedicação.” Lloyd comentava depois de tomar um gole da bebida.
“Não é nada… De verdade.” Gabi sorriu timidamente, também pegando a própria xícara de chá. “Mas obrigada.”
O cavaleiro acabou inclinando para trás, recostando nas costas do sofá e deixando o tornozelo apoiado na coxa. Diferente dos outros dois, seu paladar não era tão refinado ao ponto de notar as sutis diferenças no chá, apesar de saber o suficiente para notar a diferença dos cheiros e sabores.
“Então… Quando é sua próxima missão, Lloyd?”
“Sabe como é, eu só estou esperando o mensageiro chegar…” O mago apoiou a xícara no pires, deixando a porcelana apoiada na perna enquanto olhava para Crucis. “Acho que ainda hoje devo ter meu próximo trabalho.”
“Verdade, é?”
Assentindo em confirmação para o cavaleiro, Lloyd voltou a tomar o chá.
Hilda olhava os dois convidados em sua residência, um pouco insegura com a situação, mas enquanto pensava em como quebrar a situação, ouviu-se os sons das portas da entrada sendo abertas com um estrondo, junto com uma voz alarmada exclamando.
“Eu trago notícias urgentes!” Um homem falava.
Apesar de não ouvir exatamente as palavras sendo ditas, conseguiram ouvir da sala a voz exasperada da Meredith tentando acalmar o recém chegado, que acabou abaixando a voz e logo os passos foram se aproximando de onde estavam, com a porta da sala sendo aberta.
A empregada olhou atordoada para dentro, vendo o rosto confuso das três pessoas.
“Meredith, o que aconteceu?”
“Senhorita…” Meredith ajeitou a postura e deixou as mãos na frente do corpo, sua expressão séria. “Um mensageiro acabou de chegar, um soldado. Ele disse que… Seu pai, ele sofreu um ataque na estrada enquanto estava indo para Carlin.”
As pernas da garota imediatamente perderam a força e a xícara caiu da sua mão, tinindo sem quebrar e rolando conforme derramava o chá no assoalho caro.
“O que?! O que… O que aconteceu?!”
“Meredith.” Crucis interveio, levantando do sofá. “Por favor, traga esse homem para entendermos a situação.”
A empregada olhou para sua senhorita por aprovação da ordem, recebendo um aceno positivo e imediatamente partiu, não demorando nem mesmo um minuto para retornar com o dito soldado. O homem estava com uma expressão alarmada, suor brilhando no seu rosto junto com a marca de poeira e terra, deixando-o realmente ainda mais acabado.
“Senhorita, eu peço desculpas pela minha intromissão.” O soldado tentou ainda sim manter algum decoro, colocando a mão no peito. “Eu estava junto com seu pai fazendo a guarda, mas fomos atacados por um grupo de amazonas… Acabei batalhando com elas, e acho que elas acreditaram que eu estava morto quando se retiraram e me deixaram para trás.”
“Não… E meu pai?!”
“Senhorita, eu não encontrei o senhor Gabriol entre as casualidades…”
O rosto de Hilda estava pálido de temor pelo o que ouvia, se abraçando inquieta enquanto Meredith se aproximava da sua senhorita e limpava o chá derramado. Crucis e Lloyd deixaram suas porcelanas na mesa e se entreolharam inquietos.
“Ele pode estar vivo então…” Crucis murmurou. “Talvez tenha sido levado como prisioneiro? Em que ponto foi esse ataque, soldado?”
“Estávamos viajando a meio dia quando fomos atacados… Isso foi na noite passada.”
“Não pode ser…”
Hilda cobriu a boca parcialmente com a mão enquanto murmurou estas palavras, seu estômago esfriando e apertando quando lembrava das amazonas que viram atravessando o pantano na outra noite. Seu olhar desamparado virou ao lado procurando o conforto de Crucis, o encontrando com um ar igualmente preocupado, mas o entendimento sendo feito sem nem mesmo precisar dizer algo.
“Estranho… Mas é possível.” Lloyd disse, se levantando da poltrona. “Vamos precisar reportar isso para as autoridades antes de fazermos qualquer coisa. Eles precisam saber do que está acontecendo.”
A urgência da situação era óbvia, mas o cavaleiro ainda hesitava, lembrando do grupo que os aguardava. Lembrando obviamente de Maggy, que se reencontraram depois de tanto tempo e justo agora algo daquele tipo acontecia.
Mas vendo o estado atordoado de Hilda ao seu lado, seus olhos que pareciam suplicar por socorro sem nem mesmo conseguir falar algo, Crucis fechou os punhos e suspirou, olhando para o soldado e Lloyd.
“...Eu vou investigar o que aconteceu com o senhor Gabriol.”
“Kruis..!” Hilda levantou, segurando a mão do namorado. “Você não vai sozinho, eu vou junto!”
“Não..!” Ele se livrava da mão da maga, segurando então um dos seus ombros. “Isso não é algo apenas com monstros, Hilda. E você já tem medo de lutar e dos monstros, esses são seres humanos, como eu e você. Você vai se colocar em perigo desse jeito, foi por isso que você quis voltar também, não foi?”
Sendo confrontada daquela forma, a maga sentiu seus ombros caindo desanimada, ficando com as mãos unidas na altura do peito com os olhos começando a arder em lágrimas.
“Não precisamos escalar a situação, amigos.” Lloyd enfim interveio na situação, se aproximando do casal. “Eu irei junto. Acredito no potencial da Hilda também, e dois magos é melhor do que um, não é mesmo?”
Os dois olharam para o ruivo que sorria com o dedão levantado, com um otimismo que ao menos fazia com que aquela situação ficasse um pouco menos tensa. Kruis suspirou, olhando hesitante uma última vez para Hilda antes de virar para o soldado que ainda observava a situação junto com a empregada.
“...Vá e avise as autoridades, estaremos indo na frente para fazer um reconhecimento da situação.”
“Certo!”
O soldado partia imediatamente, com o trio se olhando uma última vez.
“Não temos tempo para perder.” Voltando então para Meredith, Kruis suspirou. “Arrume o quanto antes mantimentos para pelo menos dois dias de viagem para nós três. Partiremos assim que tivermos a comida.”
A empregada se retirou logo em seguida.
Aquela situação estava longe de ser boa. Ainda tinham algumas poções que compraram para a caça recente que acabaram abandonando, mas tiveram que usar algumas delas na viagem de volta. Era um risco claro, mas sentindo o aperto inseguro da Hilda, Kruis respirava fundo.
Só podia torcer para que seus amigos ficassem bem enquanto estivessem fora.