Algo de incomum havia no ambiente desértico quando finalmente saí do túnel que levava ao mausoléu do conspirador flamejante. Relm, minha nova companheira de viagem, caminhava ao meu lado, e parecia alheia ao clima insólito que o deserto apresentava. Não havia nenhum vestígio da presença de Zack no horizonte, como se o anão tivesse se teleportado magicamente para outro lugar após deixar a tumba; àquela altura, não ficaria surpreso se isso fosse mesmo verdade.
Os sóis brilhavam normalmente, quentes e implacáveis como de costume; após vários dias naquele lugar, meu corpo já estava se acostumando ao novo clima. Todavia, o céu estava mais obscuro do que deveria naquela hora. Num primeiro impulso, pensei simplesmente que o dia estava nublado, porém, não havia sinal de nuvens até onde meus olhos enxergavam. Depois das minhas últimas experiências com faraós, maldições e magias profanas, qualquer anormalidade parecia ser um lúgubre presságio dentro da minha mente.
— Está tudo bem com você, rapaz? Deveria estar mais contente por ter escapado ileso daquele lugar...
A voz firme, porém doce de Relm trouxe minha atenção de volta. A anã olhava-me com a cabeça levemente curvada, além de esboçar um tímido sorriso. Definitivamente a moça não tinha muito a ver com o estereótipo da espécie.
— Eu estou aliviado, acredite — Respondi, tentando sorrir amistosamente, mas sem tirar os olhos do céu. A cor azul pálida, quase acinzentada que o firmamento apresentava prendia minha atenção de uma forma indescritível.
De relance, notei algo curioso também na superfície arenosa. Apesar da escuridão, os raios dos sóis ainda causavam um efeito reflexivo na areia, o qual era responsável pela formação das famosas miragens desérticas. Entretanto, contrariando a lógica, o efeito era muito mais expressivo naquele momento do que em dias claros. A areia funcionava como um primoroso espelho, refletindo minha imagem com perfeição no solo.
A visão do meu próprio reflexo de forma tão repentina assustou-me, primeiramente. Meus cabelos e barba estavam em uma situação crítica, maltratados pelos dias no deserto. As roupas não pareciam muito melhores, já que estavam rasgadas em vários lugares e chamuscadas pela batalha na tumba. Olhei para aquela cena exótica durante alguns instantes, mal acreditando que se tratava mesmo de mim. Quando já estava me recuperando do susto, algo estranho começou a acontecer comigo. Minha vista estava escurecendo, ao mesmo tempo em que sentia os outros sentidos também falharem. Bastaram alguns segundos para que minhas pernas cedessem e eu caísse inerte no chão.
— Ei... O que houve? — A voz de Relm passou como uma suave brisa pelos meus ouvidos, logo antes da escuridão encobrir-me completamente e minha consciência desaparecer.
...
Não sabia dizer onde estava naquele momento. Meus olhos se abriram lentamente, mas tudo que enxergavam era uma silenciosa escuridão; tentei tatear o espaço ao meu redor, mas não encontrei nada que pudesse ser tocado. Alguns instantes depois, minha visão começou a vagarosamente se acostumar àquele novo ambiente, revelando uma tímida fonte de luz alguns passos a minha frente. Apertei bem meus olhos, mas não fui capaz de dizer do que se tratava o objeto; se eu quisesse descobrir, teria que me aproximar mais. Respirei fundo, ganhando tempo para reunir coragem, e fui andando até a luz.
A distância que me separava do objeto luminoso era maior do que parecia; precisei andar por quase um minuto para atingi-lo. Ao chegar próximo, consegui observar melhor do que se tratava. O objeto que emitia a luz, na verdade, ainda estava oculto, já que três placas acinzentadas, tendo em torno de meio metro de comprimento cada, estavam inclinadas umas sobre as outras, de forma que encobriam a fonte do brilho.
“Devo estar sonhando. Não consigo imaginar outra explicação para isso”, pensei, enquanto olhava em volta. A escuridão ainda cobria completamente tudo ao redor daquele objeto. Voltei o olhar novamente para a placa que estava virada para meu lado; aproximei-me dela, e consegui notar que algumas letras estavam se materializando em sua superfície. Surpreso, vi quando os caracteres se organizaram, formando uma palavra que fez meu corpo estremecer: “O temor”. Assustado e ao mesmo tempo curioso, estiquei a mão para tocar na placa e, assim que meu dedo indicador encostou-se à sua superfície, uma luz acinzentada começou a fluir com mais intensidade dali, preenchendo todo o local. Em poucos instantes, eu estava em um ambiente completamente distinto.
A nova visão que tive após o contato com a superfície era de tirar o fôlego. As placas haviam desaparecido, e eu estava de pé em uma ponte suspensa, já com sua estrutura de madeira bem avariada; o vento no local era suave, e carregava consigo um aroma familiar. Ao meu redor, uma paisagem extraordinária se estendia de forma sufocante. Uma montanha gigantesca envolvia uma pequena clareira, que era composta por vegetação rasteira, basicamente gramínea; alguns ninhos de aves também podiam ser vistos entre as saliências da montanha. Às minhas costas, a parte mais impressionante: uma estrutura rochosa robusta, imponente, que reproduzia a aparência de um anão e guardava a entrada de uma cidade. Não havia dúvidas de que eu estava no grande Colosso de Kazordoon.
— O temor... Vejo que decidiu começar por aqui.
Fui surpreendido pela fala inesperada e quase me desequilibrei, segurando nas frágeis cordas da ponte para não cair. A voz tinha um tom pesado, quase sobrenatural, e parecia estar carregada de sofrimento. Quando olhei para trás, de onde vinha a fonte do som, abafei um grito de horror. O dono daquela voz era um anão – ou, pelo menos, lembrava um; a criatura apresentava uma aparência horrenda, decrépita, como se fosse o resultado de uma experiência mágica mal sucedida. Os cabelos e barba, geralmente um orgulho da espécie, eram finos e quebradiços, além de terem uma cor cinza fosca e sem brilho. Os olhos eram caídos e rodeados por profundas olheiras, e o corpo era extremamente magro e enrugado.
— Q-Quem é você? Onde estou? — Consegui dizer, por fim, após alguns segundos em silêncio. A criatura não mudou sua expressão, apenas mexendo levemente a boca para falar.
— Ora, eu sou o que você está vendo — Começou o anão. — Eu sou um anão. Eu sou esse lugar. Antes de tudo, Glenn, eu sou você.
Meus ossos tremiam a cada palavra dita pela criatura. Aquilo só serviu para me deixar ainda mais confuso.
— Explique-se! Isso é um sonho, uma ilusão, não é? Apenas esperarei que eu acorde e estarei livre disso!
— Bom, você não conseguirá sair tão facilmente, rapaz. Talvez isso pareça mesmo um sonho, um pesadelo... Afinal, estamos em sua mente. O fato é: você não sairá daqui se não conseguir me superar.
— Superar? Por acaso vou precisar lutar com você? — Perguntei, ainda muito confuso com a situação. As minhas sensações eram reais demais para um simples pesadelo.
— De certa forma, você está certo. Mas não será uma luta física, obviamente. E o adversário será poderoso, acredite. Se você acabou vindo para este lugar, isso quer dizer que as trevas o cobriram quase por inteiro; muitas vezes os seres conseguem seguir em frente com suas vidas apesar dos problemas, Glenn. Você sabe muito bem disso. Todavia, há um certo momento no qual sua mente está prestes a perder o controle, a ponto de sucumbir à escuridão. Nessas horas, poucos são aqueles que conseguem resistir à própria degradação. Você, garoto, está aqui por esse motivo: não conseguirá continuar seu caminho se não superar o que mais teme, o que mais te prende às trevas. E eu represento isso, também.
As palavras da criatura me deixaram completamente sem fala. “O que mais temo? Como devo superar isso, se nem mesmo sei exatamente do que se trata?”, pensei, tentando organizar minhas ideias. “Talvez...”
— Exatamente, rapaz — a entidade disse, interrompendo meu pensamento. Ele parecia conseguir ouvir o que se passava pela minha mente. — Não fique surpreso; já disse: eu sou você. Eu represento um dos seus medos mais profundos e antigos: o temor pelos anões.
Apesar de já estar desconfiando, ouvir aquilo em forma de palavras era ainda mais cruel. Continuei sem conseguir falar nada, apenas olhando firmemente para a criatura.
— Crescer em meio aos humanos... Certamente um fardo pesado demais para um anão jovem carregar. Mas você precisou aguentar, Glenn. Você passou por esses anos em uma sociedade doente, com criaturas sujas, corruptas e inescrupulosas; você viu como uma espécie, como uma sociedade pode corromper-se facilmente. Como o ser humano pode ser cruel. O que você não sabia era que suas tenras memórias infantis eram enganosas. Os anões, dos quais você tinha poucas, porém positivas memórias, são iguais aos humanos — Nesse momento, a imagem de Zack passou como um raio pela minha mente. Eu estava ainda mais paralisado e sem reação. — Eles também mentem. Eles também dissimulam. Eles também enlouquecem. No fundo, você sempre soube, Glenn: sua espécie é tão suja quanto os humanos. E isso te atormenta...
Cada frase dita pela entidade açoitava-me com violência. Ele estava completamente certo... Ao mesmo tempo em que estava ansioso para conhecer melhor a cultura do meu povo, temia do fundo da alma que eles fossem parecidos com os humanos. O encontro com Zack foi um choque de realidade enorme e poderoso. Senti como se meu corpo estivesse imundo, maculado por ter nascido de um povo corrupto. A cada instante, sentia-me mais deprimido e paralisado, e o grande Colosso começara a desmoronar com rapidez sobre mim. Os fragmentos de rocha, inicialmente pequenos, começaram a trazer consigo enormes blocos rochosos, que caíam rapidamente na minha direção, como uma avalanche. Mesmo que eu tentasse, minhas pernas não se moviam um milímetro sequer.
— Nunca sairá daqui caso perca o controle, Glenn. Já disse e irei repetir: não poderá seguir em frente se não superar as trevas — Dizendo isso, a criatura desapareceu em meio à montanha, deixando-me sozinho, prestes a ser soterrado.
Era isso. Eu era fraco, de corpo e de espírito. Ficaria ali, condenado a passar a eternidade soterrado pelos meus medos e frustrações. Naquele momento, não tinha vontade alguma de tentar resistir: as palavras da criatura levaram consigo a chama que me mantinha são. Tudo isso por temer algo tão previsível... Fechei os olhos, esperando pela chegada das rochas, que se aproximavam.
“Glenn?”
Uma voz suave e quase indistinta passou rapidamente pela minha cabeça, me fazendo abrir os olhos. Era inconfundível: tratava-se de Relm. A simples lembrança do som da voz da anã fez com que minha mente se clareasse parcialmente. Como eu estava sendo tolo! Fui enganado por aquela entidade de forma tão simples... Julguei toda a sociedade dos anões pelas atitudes de apenas um indivíduo. Ignorei as lembranças que tinha de infância, nas quais meus companheiros de espécie eram seres trabalhadores, aventureiros e honrados. Não levei em conta Relm... A anã se arriscara muito para frustrar o pérfido plano de Zack, e ainda confiou em mim sem mesmo ter nenhum indício de minha índole. Era absurdo pensar que não existiam bons valores na sociedade dos anões!
À medida que voltava ao meu estado normal, a paralisia ia passando, lentamente. As pedras ainda caíam, e já estavam bem próximas de mim. Juntei todas as forças que pude buscar naquele momento e, com um impulso, saltei da ponte, caindo de forma desajeitada numa pequena saliência da montanha, à direita dali. As rochas soterraram o local em que eu estava apenas alguns instantes após minha aterrissagem.
Passei longos minutos deitado naquele local, recuperando o fôlego. Estive muito, muito próximo de me entregar por um motivo tão parvo... Era vergonhoso ser enganado daquela maneira. Levantei-me com dificuldade, e olhei para a enorme pilha de rochas que o desmoronamento do Colosso formou. Não fosse por aquele flash sobre Relm... Talvez eu estivesse ali embaixo agora, derrotado. Fitei o topo da pilha, e notei que ele terminava bem no lugar onde o rosto do Colosso se localizava. Apertando a vista, consegui observar que havia algo lá: tratava-se do objeto luminoso cercado de placas, dessa vez, com apenas duas. Parecia que eu havia superado o primeiro obstáculo. Comecei a escalar as rochas em direção ao objeto, e o ambiente se escurecia mais a cada passo dado. Ao chegar à frente das placas, eu estava de volta à primeira sala, completamente imersa em trevas e silenciosa.
“Superar minhas trevas. Quer dizer que devo enfrentar tudo isso de novo para sair daqui... Parece que não tenho outra escolha”, pensei, enquanto observava as placas. A luminosidade, apesar da placa do temor ter desaparecido, continuava débil, porém, era o suficiente para que eu não soubesse do que se tratava o objeto ali no centro. Era claro que eu deveria superar as outras placas para poder libertar o que quer que estivesse ali.
Aproximei-me das duas placas restantes, enquanto observava as letras se formando, como acontecera com a outra. Deveria escolher uma delas logo para terminar aquilo o mais rápido possível; dessa vez, eu não seria enganado tão facilmente. Após alguns segundos, as palavras estavam bem claras, e nenhuma delas parecia convidativa: na placa da esquerda havia “A incerteza”, e na da direita “O inevitável”. Sem ter ideia do que fazer, acabei escolhendo aquela que representava bem meu sentimento no momento: “A incerteza”. Estiquei o dedo indicador, como fiz também na primeira vez, e uma luz levemente azulada começou a cobrir o ambiente.
Dessa vez, a mudança de ambiente foi ainda mais brusca. O que parecia ser apenas um brilho azulado na verdade era água, que cobriu todo o espaço visível por mim, enquanto o objeto desaparecia novamente. Quase entrei em desespero ao notar que estava imerso em um gigantesco oceano, porém, surpreendentemente, eu conseguia respirar normalmente. Assim que me acalmei um pouco, passei a olhar freneticamente para os lados, a procura da entidade que provavelmente estaria ali. Não demorou mais do que alguns segundos para que a criatura aparecesse.
— Vejo que conseguiu passar pela primeira parte. Interessante, Glenn.
A entidade, dessa vez, tinha uma aparência menos desagradável, mas tão surpreendente quanto a anterior. Sua voz era mais suave, quase como um sussurro. A fraca luminosidade não me permitia visualizar muitos detalhes dela, mas consegui notar que se tratava de uma tartaruga marinha, parecida com as nativas da região próxima à Baía da Liberdade. O casco escuro emanava uma sensação de rigidez, e o rosto era sereno e harmonioso. A criatura me observava com uma expressão surpreendentemente aprazível.
— Resolveu assumir uma forma interessante dessa vez, não é? — Disse, tentando, sem muito sucesso, disfarçar minha tensão.
— A forma que assumo depende exclusivamente de você, rapaz. Tentar ser irônico ou disfarçar seus sentimentos será tão efetivo quanto beliscar-se para tentar despertar. Ou você acha que pode enganar a si mesmo?
As palavras me atingiram como um soco no estômago, e fiquei completamente sem resposta. Definitivamente eu não poderia subestimar aquela situação.
— Glenn... Talvez essa forma represente seu medo mais óbvio e, ao mesmo tempo, mais doloroso. Você já deve imaginar, não é? O nome da placa ser incerteza, essa forma... Não adianta simplesmente me ignorar ou tentar negar o óbvio; se não me superar, ficará preso aqui. Para sempre. O que será que sua mãe pensaria dessa situação?
Mais uma vez. Aquela entidade... Provavelmente estava falando sério quando disse que éramos um só. Incerteza... É a definição perfeita para o que sinto sobre minha mãe. Será que voltarei a vê-la? Será que ela não quis voltar após livrar-se dos sequestradores? Será que ela, de fato, se importa comigo? Pensei que teria algumas dessas respostas quando encontrasse o livro na fortaleza dos djinn, mas tal artefato só trouxe mais dúvidas. A incerteza por vezes é mais cruel que a própria verdade, por mais dura que seja. E aquela dúvida me consumia diariamente. Enquanto pensava, sentia minha respiração lentamente começar a se tornar mais difícil.
— Tartarugas marinhas... Uma espécie fascinante. Porém, elas não têm vida fácil desde o seu nascimento. A mãe abandona os filhotes à própria sorte, e os poucos que chegam até a vida adulta vivem solitários no fundo dos oceanos... É quase exatamente o que acontece com você, Glenn. Mesmo rodeado de humanos durante todos esses anos, sempre esteve só, isolado em sua própria companhia — Minha respiração continuava ficando mais e mais comprometida, e eu não conseguia resistir ao sentimento de angústia que as palavras me causavam. — E pensar que você passou por tanta coisa para correr atrás de uma mãe que não liga para sua existência...
Eu tentei resistir. Não queria acreditar na entidade. Eu sabia que não deveria aceitar aquilo. Porém... Era impossível. Quanto mais eu lutava, mais minha mente era preenchida por pensamentos pessimistas e destrutivos. Mais minha respiração se tornava difícil. Mais eu era derrotado pelas trevas...
— Talvez seja mesmo o momento de desistir, Glenn. Já fez muito ao conseguir livrar-se do temor... Adeus — Ao dizer isso, a tartaruga começou a nadar lentamente para a direção oposta, enquanto uma correnteza surgia repentinamente na água, levando-me sem resistência para longe dali.
Eu tentei lutar. Dessa vez, eu tentei de verdade. Todavia, quando pensava em minha mãe, apenas imagens negativas surgiam na minha mente. Minha respiração já estava completamente cessada, e eu era carregado para algum lugar bem longe de onde estava inicialmente. Meus olhos começaram a se fechar, e meu corpo já não respondia mais aos meus comandos. Será que acabaria mesmo assim...?
Num último relance antes de fechar os olhos completamente, avistei, distante, o objeto luminescente. Ele estava lá, calmo e imóvel como sempre, e as duas placas ainda estavam intactas. Tirei forças de onde não havia mais, e, num ato de desespero, tentei nadar contra a correnteza, em direção à luz. Batia meus pés freneticamente na água, e esticava os braços o máximo que conseguia. Não foi suficiente para avançar na direção certa, mas pelo menos diminuiu a velocidade da correnteza.
“— Mamãe! Veja! É um rio!
— Estou vendo filho. Pule. Vou te ensinar a nadar.”
Minhas pernas pareciam ganhar força. Lentamente, eu tinha a impressão de que começava a avançar na direção correta.
“— Não se esqueça das pernas! Elas que lhe darão o impulso necessário.
— Assim, mãe? Está me vendo? Eu estou nadando!
— Claro que estou, filho. Eu sempre estarei te vendo...”
É verdade... Minha mãe nunca me abandonou. Se ela esteve longe durante esses anos, deve ter tido uma boa razão. E, com certeza, não é porque não se importa comigo. Sentia-me envergonhado por quase ter perdido a razão novamente. Afinal de contas, voltar a ver minha mãe sempre foi o que me motivou a seguir em frente. Agora eu tenho certeza.
Senti minha respiração voltando ao normal e, aos poucos, a correnteza mudava de sentido, levando-me em direção à luz. Rapidamente aproximei-me do objeto e, quando fiquei de frente para ele, tudo desapareceu novamente, voltando ao cenário obscuro. Dessa vez, só uma placa havia em torno da luz.
Fiquei alguns minutos parado em frente à última placa, enquanto recuperava-me do incidente anterior. O brilho do objeto havia aumentado ligeiramente, mas ainda era tímido, e seu formato continuava oculto. “O inevitável”... Sem dúvidas esse era o nome que mais me assustava, principalmente porque eu não fazia ideia do que poderia significar. Entretanto, eu não tinha alternativa além de encará-lo. Precisava vencer a entidade de qualquer maneira, independentemente das táticas que ela utilizasse. Estiquei o dedo, tocando a superfície da placa rapidamente, de olhos fechados.
Quando abri os olhos novamente, após alguns segundos, minha surpresa foi ainda maior do que nas outras duas placas. Inexplicavelmente, o ambiente não mudou em nada. A escuridão continuava lá, absoluta, e o objeto permanecia da mesma forma e no mesmo lugar. Pensei ter feito alguma coisa errada dessa vez, mas tudo que precisei fazer nas outras era tocar a placa. Enquanto pensava em qual tipo de erro poderia ter cometido, notei um barulho vindo de algum lugar na escuridão. Aproximando-se sorrateiramente de onde eu estava, a entidade reapareceu.
Dessa vez, a criatura não exibia nenhuma forma grotesca ou extravagante. Ela caminhava ainda em meio à escuridão, mas eu conseguia enxergá-la perfeitamente, como se possuísse luz própria. A entidade era praticamente um reflexo da minha aparência, assim como o que vi na areia antes de perder a consciência; com estatura mediana para a espécie, possuía barba e cabelos bem negros, apesar de descuidados, e vestimentas em farrapos. Seus olhos não transmitiam nenhuma emoção, e seus passos eram lentos e comedidos. Por alguma razão, ver minha própria imagem projetada na criatura me aterrorizou mais do que qualquer outra forma que ela tenha assumido.
— Conseguiu chegar até aqui, rapaz. Impressionante. Pensei que a incerteza era o limite.
A voz da entidade, dessa vez, era como um misto de várias vozes projetando-se umas sobre as outras. Consegui identificar a das outras formas que ela assumiu em meio àquele amálgama de sons, porém, a que mais se destacava entre elas era a minha própria voz. Ela estava em um tom diferente, um pouco mais pesada e densa; mas ainda era a minha voz.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a criatura mudou bruscamente sua expressão. Seus olhos ficaram mais tensos, e as sobrancelhas arquearam-se, enquanto a boca se transformou em uma linha reta e firme. Definitivamente, não era uma aparência amigável.
— Saque sua arma, Glenn. Está na hora de resolvermos tudo isso — A entidade disse, enquanto empunhava um machado idêntico ao que eu usava normalmente, que estava em suas costas.
Olhei de relance para trás, e notei que meu machado estava amarrado às minhas costas também. Por alguma razão, não havia me dado conta de sua presença até aquele momento. Ainda surpreso pela reação inesperada da criatura, empunhei a arma sem muita firmeza, sem tirar os olhos dela por nenhum segundo.
— Você não havia dito que isso não seria uma luta físic... — Fui interrompido bruscamente pela criatura, que avançou para cima de mim com o machado em mãos. Pego de surpresa, quase deixei que minha arma caísse, mas consegui segurá-la e aparar o ataque da maneira que foi possível. O golpe veio muito mais forte do que eu pensei que seria, numa potência que dificilmente eu conseguiria imprimir em um ataque daqueles. A lâmina atingiu em cheio a região central da superfície do meu machado, arrancando uma lasca do metal que o formava.
— Inevitável... Talvez a expressão genuína da sua essência. O medo que sempre esteve com você, mas nunca era admitido. O medo que você sabe ser o mais verdadeiro, o mais próximo, o mais... Inevitável — A entidade dizia, enquanto continuava a desferir golpes contra mim. Eu mal podia defender-me dos ataques, que eram violentos e carregados de ódio. E aquelas palavras... O que poderiam significar?
— Não cairei em suas artimanhas novamente, criatura. Superarei o que for necessário. Deixarei esse lugar e viverei livre das trevas! — Exclamei, enquanto me recompunha de mais uma tempestade de ataques da entidade. Firmei o corpo e segurei o cabo do machado com força, preparando-me para contra-atacar.
— Eu já disse várias vezes, garoto. Eu sou você. Não adianta tentar mentir para si mesmo — A criatura dizia, enquanto evitava meus ataques com certa facilidade. — E, nesse momento, eu sou você em sua forma mais pura.
— Calado! — Gritava, enquanto aumentava a potência dos golpes. Não poderia me deixar levar pelas palavras da criatura novamente... Eu precisava resistir. — Eu não sou assim!
— Você não quer ser assim, garoto. Mas lá no fundo, você sabe. Sabe, porque eu sou você. Eu represento o que há de verdadeiro em seu âmago, o que você não consegue esconder. Eu sou o ódio. O ódio que você tem tanto medo de sentir. O ódio contra os humanos, o ódio contra os anões. O ódio contra si mesmo. O medo de perder a razão para esse ódio e transformar-se em um monstro é aquilo que corrói sua alma. É a verdadeira fonte da escuridão que envolve seu ser. É o seu fim inevitável!
Os ataques cessaram por alguns instantes. Minha cabeça doía, as palavras da criatura martelando cada vez mais meus pensamentos. Esse medo... Era real. No fundo, sempre foi o que esteve nos confins da minha mente. A ameaça silenciosa que eu sentia a todo tempo, mas não era capaz de explicar. Mas... Não era inevitável!
— Eu cheguei até aqui, criatura. Eu superei o que tinha medo de admitir que sentia, e aceitei o que era inevitável. Mas isso... Isso não sou eu! Não me entregarei ao ódio. Eu não o aceitarei!
— Insistirá nisso? Percebo que não adianta repetir, você não consegue... Você não quer entender — A expressão da criatura tornou-se levemente melancólica por um breve momento, mas logo voltou à fúria de antes.
— Talvez você não tenha o suficiente para seguir em frente, Glenn. Hora de acabar com isso.
A entidade empunhou o machado com firmeza, e veio em minha direção, disposto a colocar um fim naquilo. Ele avançava rapidamente, porém, para mim, o tempo parecia fluir de forma diferente. Mais lenta.
“Ac...”
Eu ouvia algo. Sem dúvidas. Mas não era uma voz, não era um barulho. Era um pensamento, muito débil e quase impossível de se detectar. A criatura continuava vindo em minha direção, sua fúria ainda mais visível. Levantei o machado sem muita firmeza, abalado por toda aquela situação.
“Acei...”
O pensamento, dessa vez, era mais vívido. Ainda não entendia o seu significado, mas percebi que ele se fortalecia mais a cada instante. Minha mente parecia se clarear, à medida que era invadida por aquela sensação. A entidade continuava vindo, porém... Eu a via de forma diferente, naquele momento. Sua fúria parecia desesperada, sua expressão era melancólica. E sua arma... Seria possível?
“Aceite...”
Tudo fazia mais sentido, naquele momento. Não acredito que demorei tanto para perceber... A entidade repetia insistentemente que nós éramos o mesmo ser, que eu deveria superá-lo para deixar aquele lugar, que eu não podia mentir para mim mesmo... Era isso! Um sorriso formou-se instantaneamente no meu rosto, enquanto eu largava o machado e aguardava pelo ataque da criatura.
“Aceite-se!”
Eu não deveria lutar contra mim mesmo. A entidade representava o que eu era, o que não havia forma de esconder. As trevas... Elas vinham da minha rejeição aos meus próprios medos. Às minhas próprias verdades. Não é como se eu fosse um ser inteiramente rancoroso e cheio de ódio como a entidade representava, mas aquilo fazia parte de mim. Sem a totalidade do meu ser, eu deixo de ser um indivíduo. Eu caio na escuridão, e fico impedido de seguir em frente. A criatura prosseguiu com o ataque, atingindo-me em cheio no peito com a lâmina.
— Finalmente decidiu escutar, não é? — Sussurrou a entidade, sorrindo. O ódio desaparecera completamente de sua face.
Não senti dor. Nem poderia: a entidade e eu éramos um só, assim como aquele machado, as placas, todo aquele lugar. Uma vez aceitando a forma que sou, com meus medos e imperfeições, nada daquilo seria capaz de me ferir mais. Enquanto eu pensava, a entidade e o machado, tal como todo aquele ambiente, iam perdendo sua forma física, voltando ser parte de mim. Já conseguia vislumbrar o ambiente do deserto de Darama, onde desmaiei, indicando que eu estava voltando à consciência. Antes de despertar completamente, fitei o objeto luminoso, agora livre de qualquer placa que o inibia e irradiando sua luz sem barreiras. No fundo, eu já sabia que aquele era meu cérebro. Fechei os olhos, enquanto sorria, e quando tornei a abri-los já estava de volta ao mundo real.
— Glenn! Você está bem!?
A voz suave e preocupada de Relm acelerou meu despertar. Eu estava com a cabeça encostada no colo da anã, e ela me olhava de cima com uma expressão de agonia. O céu, logo acima, estava mais claro do que nunca.
— Não se preocupe, Relm, estou bem. Finalmente posso seguir em frente.