O esconderijo dos gigantes
“Tarde foi quando percebi a admirável amizade que Thuriel e Zaria dedicavam a mim e aos meus camaradas. De início, me mostrei muito inflexível e endureci meu coração para aqueles que buscavam nada mais do que a boa amizade, não querendo reconhecê-los por serem diferentes. Por fim... Me entreguei às suas irreverências... Humanos...
Espero tão somente que esse laço se prolongue e ultrapasse até mesmo o tempo e vença as gerações futuras, para honra e perpetuação da amizade entre os nossos descendentes.”
Foram as palavras que Tíenor, no conforto de sua poltrona, leu em um livro, velho e surrado, que encontrou na montanha ao norte de Edron e que intitulava-se “Memórias de Orfo, O Ciclope”. Tais palavras lhe causaram estranheza, primeiramente por um ciclope saber escrever, sempre imaginou aquelas criaturas de apenas um olho como verdadeiros palermas no tocante a arte de saber se exprimir em palavras escritas. Segundo, como poderia conceber a ideia de uma amizade entre humanos e ciclopes? E, longe de ser mais esquisito, de que forma os nomes dos seus avós foram parar ali? Sendo, ainda, nomes nada comuns em Edron?
Nosso jovem cavaleiro desconcertou-se diante do que acabara de ler. Que explicação poderia dar para uma coincidência dessas? A primeira pessoa que pensou em consultar foi o seu amigo Sendir, mago dedicado a leitura de livros tanto de feitiços quanto de outros assuntos, ele com certeza teria alguma explicação.
Buscando seu amigo, saiu de casa correndo pelas ruas de Edron olhando para todos os lados, um tanto desajeitado, até que avistou uma figura com um chapéu pontudo azul-marinho e uma roupa longa púrpura. Eis que o objeto observado estava imerso em sua leitura e carregava diversos livros, como sempre o fizera, era, sem sombra de dúvidas, Sendir.
— Seeeendiiiir – gritou Tíenor quase sem fôlego encostando bruscamente no seu amigo, de forma que fez com que derrubasse todos os livros que carregava.
Sendir apenas fez menção de se virar para ver quem o chamava com tanto entusiasmo e sentiu os livros escorregarem de seus braços. Por sorte, não teve o mesmo destino que estes. Então, exclamou:
— Pelas barbas dos sábios, Tíenor! Deuses! Por que tanto alarde? Meus pobres livros... — disse o mago, preocupado, esticando as mãos em direção ao chão para alcançar seus livros. — Matilda vai me matar! Mal peguei estes livros emprestados e olha o que me ocorre! E pensar que ela brigou comigo por umas poucas orelhas em alguns... — suspirou e virou os olhos para cima.
— Não temos tempo para pensar em livros, em barbas... Que seja! Venha comigo! - falou Tíenor abruptamente agarrando o amigo pelo braço de forma tão veloz que ele não teve tempo nem de socorrer seus pertences. — Prometo que será rápido.
Tíenor guiou Sendir que tropeçava na própria barra de sua túnica, através das ruas de Edron. Chegando em sua casa pegou o livro, causa de todo o mal, e o entregou nas mãos do feiticeiro.
— Então? O que me diz? — perguntou Tíenor ofegante e curioso.
Sendir colocou seu chapéu e os
oclinhos de meia lua no lugar e, após isso, passou os olhos pela capa do livro, depois olhando-o por todos os ângulos, disse: — O quê? Uma ficção muito bem elaborada. Um ciclope escrevendo? Você só pode estar brincando — passava a mão na longa barba escura que encobria a boca que estava prestes a gargalhar.
— Sei que é um absurdo, mas só me preocupei porque os nomes dos meus avós estão escritos bem
aqui — o cavaleiro abriu o livro nas mãos do mago e mostrou o trecho que citava o nome dos seus avós.
O feiticeiro refletiu enquanto colocava o livro sobre uma mesinha de madeira que estava a sua frente e então finalmente disse:
— Você deveria prestar maior atenção aos detalhes, meu caro amigo. Preste atenção, é evidente que a capa desse livro foi feita do mesmo material dos manuais de forja que os ciclopes ferreiros de Cyclopolis utilizam para construir suas armaduras e armamentos. É claro que se comunicam por desenhos, sendo completamente estranho que saibam escrever e, pior, escrevam memórias pessoais. Tirando esse “detalhe”, vejo muitas dessas capas em bibliotecas que visito — disse Sendir com a maior naturalidade, adorava exibir seus conhecimentos. — Se é o que quer saber, encontrará mais respostas, suponho eu, em Cyclopolis. Onde mais poderia ser?
Quando Tíenor, que estava olhando o livro durante o falatório de seu amigo, foi se virar para vê-lo, apenas o que viu foi a ponta da túnica de seu amigo, este já tinha saído pela porta e dizia lá de fora:
— Agora se me permite... Tenho que socorrer meus livros. Já ouço... Já ouço... Como se suplicassem por ajuda. Afinal, um insensível fez com que se separassem das mãos de seu senhor.
O cavaleiro apoiou a mão sobre a mesa perto do livro e, olhando a porta, esboçou um sorrisinho. Que fanático era seu amigo...
Desviou o olhar para o livro e se recordou do mistério que, ainda, não tinha descoberto. Pensou em deixar para lá, mas como poderia? Aventureiro como era... Não! Com certeza iria até lá e descobriria do que se tratava. Nem que tivesse que comprar briga com os ciclopes.
Foi até o quarto e colocou sua armadura reluzente. Já fazia algum tempo que não a usava, pois preferia usar sua armadura velha para caçadas. Agora, porém, iria a usar, pois tratava-se de uma aventura diferenciada.
Colocou a armadura e sua espada em mãos e sentiu a adrenalina percorrer pelo seu corpo. O que o aguardava? Sentia-se um aventureiro.
Acontece que com os pensamentos no porvir, se distraiu a ponto de se desequilibrar com o peso da armadura que não estava acostumado. Ficou de pé com apenas uma perna o sustentando, tentava recobrar o equilíbrio, quando falou com sigo mesmo:
— Calma aí... Calma aí... EeeeEE... Aii – gemeu o jovem que havia se desequilibrado e caído deitado, tendo se sentado, massageou a cabeça. — Espero que nada como isso aconteça enquanto eu estiver lidando com os ciclopes. Que todos os deuses olhem por mim e pelo meu desastre! — bradou Tíenor levantando com um só pulo e brandindo a espada — À Cyclopolis! Lá vou eu!
Nosso aventureiro pegou sua mochila, que já estava cheia de carne preparada para a próxima caçada, e rumou em direção às montanhas que ficavam à norte de Edron. Sabia, já ouvira falar, que esta tal de Cyclopolis ficava depois das montanhas beirando o rio, muitos peregrinos e aventureiros já viram ciclopes andando perto de uma construção de pedras que escondia um buraco no chão, do qual entravam e saíam.
Tíenor andou com firmeza durante todo o percurso decidido a descobrir o que significava aquele livro, até o levou dentro da mochila.
Se alimentou da carne que levara e matou alguns lobos no caminho, juntando a carne destes para que não lhe faltasse o alimento. Não dormiu enquanto não chegou ao esconderijo dos ciclopes, estava ansioso por isso.
Quando avistou a construção de pedras que os peregrinos falavam, se escondeu atrás de alguns arbustos e árvores e viu um ciclope. Era tão grande que o fazia sentir-se um gafanhoto. Olhava de um lado a outro vigiando se nenhum estranho espreitava a morada sua e de seus camaradas.
O cavaleiro sentiu seu coração bater acelerado dentro do seu peito. Sabia que teria que atacar se não, como poderia adentrar aquele local? Reuniu suas forças e desembainhou sua espada. Levantou e foi em direção ao ciclope com a espada em punho.
O ciclope que vigiava de um lado a outro logo avistou seu oponente que vinha veloz segurando a espada ao lado do corpo com as duas mãos.
— Você pensa que passará, humano? — disse o ciclope debochando de Tíenor. O ciclope falava, mas o que dizia era quase indiscernível. — Venha — disse, com sua voz desengonçada e com o olho vidrado no cavaleiro. Percebeu que Tíenor colocou a espada de volta na bainha.
Tíenor jogou algumas pedrinhas esfarelantes, que encontrou no chão, no olho do ciclope. Que disse algo como:
— Seu inseto, o que jogou em meu olho...
O cavaleiro investiu com uma rolada em meio às pernas do inimigo, que se encontrava com as pernas abertas, e, aproveitando-se da fragilidade do oponente, deu um grande salto e bateu com o cabo da espada na cabeça, quase calva, do ciclope com toda a força que reunia.
O gigante, que estava tentando limpar seu olho com as mãos, com a pancada que levara desmaiou no chão causando um grande som abafado.
Tíenor pensou, imediatamente, que não devia ter feito tanto barulho, talvez os ciclopes podiam ouvir. Não sabe o que ou o porquê, a única coisa que sabia é que algo o havia levado a poupar a vida daquele ciclope, um sentimento dominador e irresistível.
Logo nosso nobre cavaleiro ouviu um som vindo de dentro do buraco, como que muitas vozes juntas. Pensou em tentar se explicar, perceberiam que não tinha agido de má-fé, já que não havia matado um dos seus companheiros.
Desceu no buraco já dizendo:
— Vejam bem... Não fiz mal ao ciclope lá em cima... Só quero saber sobre este... — Tíenor foi mexer na mochila para pegar o livro. Todos os ciclopes o observavam boquiabertos e alguns até falavam em alta voz abafando a voz do cavaleiro:
— Um humano! Um humano!
Até que todos se apercebessem do que estava acontecendo, bem diante dos seus olhos, levou um tempo. Tempo suficiente para que Tíenor chegasse a conclusão de que não iria conseguir, assim tão fácil, a confiança dos ciclopes.
Pegou a espada pela bainha e usou da mesma artimanha que tinha utilizado com o primeiro ciclope, sem as pedrinhas, utilizando apenas sua velocidade. Assim tombou dois ciclopes, mas ainda restavam três e estes haviam percebido, com o cair de seus parceiros, o que estava acontecendo.
— Peguem esse rato! — gritou Toot, um ciclope que tinha uma cicatriz perto do grande olho estalado.
— Sim... — gemeram os outros dois.
Vendo que Tíenor estava entre eles, viraram-se para pegá-lo, mas Tíenor novamente rolou por entre as pernas do ciclope mais gordo e fez com que batessem as cabeças. Estes caíram sentados passando a mão na cabeça atordoados.
O cavaleiro distraiu-se com a cena, achando tudo muito engraçado, e deixou-se ser pego por Toot.
— Viram, inúteis? É assim que se pega um camundongo – Toot segurou-o com as duas mãos, mantendo seus braços presos e bateu sua cabeça na de Tíenor com um sorriso desdentado.
Foi a última coisa que nosso amigo descuidado viu antes de desmaiar. Provou do próprio remédio.
Os ciclopes o levaram para um cômodo abaixo de onde estavam. Amarraram suas mãos por detrás do corpo e deixaram-no sentado no chão com as costas apoiadas em uma rocha que havia no centro do local.
Ficou atordoado, apenas vendo que tinha vários ciclopes à sua volta, pareciam discutir seu destino, o que fariam com ele. Não conseguia entender, apenas via borrões e já era difícil de entender o que eles falavam quando estava lúcido, imagine, então, atordoado como estava.
Quando sentiu-se um bocado melhor, ouviu que alguns queriam simplesmente matá-lo e empilhá-lo em meio aos demais humanos ousados que tentaram entrar lá. Outros, menos sanguinários, diziam que deveriam deixá-lo ir, porquanto não havia matado nenhum dos seus irmãos. Uns, com maiores requintes de crueldade, sugeriam que levassem Tíenor para o cômodo onde havia um buraco de lava com uma prancha de madeira. Deveriam empurrá-lo lá, afinal, eles detestavam os humanos.
Enfim, decidiram queimar Tíenor vivo e colocar seus restos mortais como troféu junto aos outros humanos mortos.
Mesmo contrariados, a minoria dos ciclopes que queria deixar Tíenor ir, acabou por concordar. Levaram-no para o local que tinha esse buraco de lava. Dois ciclopes o seguravam, cada um segurava um de seus braços.
Tíenor já estava despertando e por isso começou a debater-se, apesar de estar cansado da viagem e com sono. Os ciclopes abriam suas bocarras formando semblantes medonhos enquanto o cavaleiro gritava:
— Me soltem! Seus monstros! Bárbaros!
Um dos ciclopes mais atrás dos que levavam Tíenor, Piffo, remexia em sua mochila e os ciclopes que o levavam, Fedo e Bano, fizeram questão de mostrar ao cavaleiro o que estava acontecendo com suas coisas.
— Ei! Não mexa nas coisas dos outros! Sua mãe não te ensinou a não mexer nos pertences alheios?
Todos ciclopes gargalharam juntos. Piffo pegou um bom pedaço de carne da mochila de Tíenor e mordeu com gosto, comendo de boca aberta, deixando transparecer toda a comida em sua boca. Tíenor balbuciou:
— Nojento...
Foi quando Piffo, com a mão suja de carne, pegou um livro de dentro da mochila do cavaleiro. O cavaleiro a essa altura já havia até esquecido do tal livro e do porquê estava lá.
Fedo e Bano, se apressaram a colocar Tíenor na prancha. Bano disse:
— Temos que dar um fim logo nesse humano, antes que os anões e os outros percebam o que está acontecendo e queiram também discutir o que vamos fazer com ele.
— Espere, Bano! — disse Piffo. — Parece que esse humano não é um malfeitor como o julgamos. Talvez ele tenha algum motivo para estar aqui, de acordo com esse livro. Esse livro fala de Ofro, nosso parente.
Piffo pareceu exercer imediatamente sua autoridade sobre Bano e Fedo. Parecia que ele realmente tinha algum poder, porque imediatamente os ciclopes tiraram o cavaleiro da prancha e o colocaram no chão desamarrando as mãos deste.
— Diga humano, o que quer com os filhos de Brog, o Feroz Titã? — disse o orgulhoso ciclope líder.
Tíenor, apesar de não entender por completo o que os ciclopes estavam falando, deduziu que era sua chance de se defender, por isso disse:
— Bem, acontece que achei este livro perto das montanhas, ao sul deste local, e, lendo, vi que o ciclope Ofro se referia aos meus avós. Quis entender de que forma ele os conhecia, o porquê de os ter citado. É por isso que estou aqui, sou neto de Thuriel e Zaria. Me chamo Tíenor.
Os ciclopes ficaram em silêncio olhando uns para os outros até que o silêncio foi quebrado por burburinhos como: “Thuriel e Zaria?”, “Ele? Neto de Thuriel e Zaria?” e “Você ouviu o que ele disse? Eu entendi?”.
Tíenor não entendia como tantos ciclopes conheciam seus avós. Piffo fez com que se calassem e falou:
— Meus caros irmãos, ouviram o que este pequeno humano, acabou de falar? Isso significa que estamos diante do homem que tanto procuramos. Nosso parente Ofro, líder na época de Thuriel e Zaria, teve grande amizade por estas nobres figuras, é por isso que temos que ter grande estima por... Hum...
— Tíenor, senhor — disse o cavaleiro, tímido, vendo que Piffo o olhava tentando lembrar seu nome, que acabara de proferir.
— Sim... Temos que ter em grande estima Tíenor, pois seu avô nos ensinou com grande paciência a falar e a escrever, para que mais facilmente pudéssemos passar nossa arte de forjar para nossos descendentes. Zaria também se esforçou em conquistar a amizade de nossos antepassados, ao lado de seu marido, e não esperou nada em troca, apenas
buscavam nada mais do que a boa amizade. Querem prova maior do que este livro, – disse o ciclope erguendo o livro para que todos vissem – escrito pelo próprio Ofro, e a nobreza desse jovem que arriscou a própria vida para não derramar o sangue de nossos irmãos? Certamente, o que fez com que não erguesse a lâmina contra nós foi o sangue que corre em suas veias.
Bano e Fedo ergueram Tíenor no alto de suas cabeças e todos os ciclopes se alegraram. O cavaleiro fez amizades com os ciclopes e também com os anões e com todos que lá, em Cyclopolis, habitavam. Como o fizera seus avós, Tíenor habitou com os ciclopes certo tempo, dividindo suas experiências com eles e também aprendendo muito, principalmente no que desrespeito às forjas. Os anões também colaboraram com receitas maravilhosas, de cervejas, que somente eles conheciam, é claro. Todos colaboraram com algo durante a estadia do cavaleiro por lá, até que chegou a hora de partir.
Tíenor, já fora do esconderijo, preferiu não olhar para trás. Todos os ciclopes estavam aglomerados para se despedir de Tíenor, acenando com alegria. Tíenor apenas abanava de costas indo embora. Piffo, junto aos seus irmãos, deixou escorrer uma lágrima. Quem diria? Um ciclope chorando...
Tíenor foi ajeitar sua mochila que estava aberta, para por às suas costas, quando viu outro livro fora o de Ofro. Tirou-o da mochila e leu. Intitulava-se “Memórias de Piffo, O Ciclope”. O cavaleiro se emocionou, tinha certeza de que o desejo de Ofro tinha se realizado.