Guarda-chuva
Cristina olhou pela janela as nuvens cinzas, que deixavam ainda mais escuro o céu daquela tarde. Imaginava se não seria melhor levar consigo o seu guarda-chuva, na televisão, a previsão do tempo dizia que provavelmente iria chover, mas Cristina estava decidida que não voltaria pra casa naquela noite, hoje ela finalmente sairia daquela abstinência, após terminar um namoro de dois anos.
Começava a anoitecer. Havia marcado hoje um jantar na casa do seu atual namorado, dessa vez um homem um pouco novo, com seus 28 anos. Haviam se conhecido no mercado, foi amor à primeira vista quando viu aquele homem de bela aparência que a ajudou, carregando todas aquelas sacolas pesadas até seu carro. Já havia se derretido toda quando olhou fundo naqueles olhos azuis penetrantes, imaginando-se presa por aqueles braços, com músculos bem definidos, não pode impedir que alguns pensamentos mais impuros passassem por sua cabeça.
Agora já fazia um mês que estavam namorando e ele finalmente havia convidado-a para ir em seu apartamento. “É apenas um jantar”, ele havia dito. Mas ela não planejava deixar que fosse apenas um jantar. Hoje seria o dia. Preparou-se da melhor maneira que pode, enquanto atendia um pedido estranho, mas o qual ele fez questão de enfatizar. “Só por favor, não use nenhum perfume ou maquiagem... Eu prefiro te ver ao natural.” disse após o convite, sorrindo calmamente.
Após pronta, saiu de casa, pegando logo o ônibus no ponto da esquina. A casa dele não era longe, ficava apenas a três pontos de distância da sua. Poderia ter andado até lá, economizaria o dinheiro que estava um pouco escasso, mas não queria arriscar chegar suada. Alguns minutos depois já estava entrando no prédio. Um pouco nervosa, ignorou o boa noite do porteiro, entrando logo no elevador.
Ele morava no sétimo andar, 728, era a última porta no fim do corredor. Tocou a campainha, sendo logo atendida por aquela figura familiar, trocaram um curto beijo antes que ela entrasse. Ele a guiou pelo pequeno hall de entrada, chegando logo na sala de jantar. As luzes estavam apagadas, o pequeno cômodo iluminado apenas por algumas velas no centro da mesinha redonda. Um prato e um copo, ambos vazios, apenas de um lado da mesa. Um facão de carne também estava ao lado do prato, cuidadosamente colocado ali.
‒ Cheguei cedo? ‒ perguntou, observando a mesa que claramente não parecia pronta.
‒ Não, chegou no momento exato. ‒ ele sorria, acariciando com a ponta dos dedos o cabo da lâmina sobre a mesa ‒ Eu já estava ficando com fome.
‒ Mas... você só colocou um lado da mesa. ‒ ela ria um pouco, enquanto olhava aquilo, ele não era realmente um dos homens mais inteligentes do mundo, mas não era estúpido a esse ponto ‒ Além disso, cadê a comida?
Ela observou enquanto o sorriso no rosto dele ficava maior, deixando à mostra os dentes, os seus olhos se enchiam de brilho, enquanto olhava para ela como um cachorro faminto olha para um pedaço de carne. Ele salivava um pouco, lambendo os lábios.
‒ Só um prato vai ser suficiente... e sobre a comida... ‒ ele finalmente segurava o cabo da faca, retirando ela de sobre a mesa, olhava bem fundo nos olhos da moça ‒ ela acabou de chegar...
Cristina se surpreendeu quando finalmente entendeu a sua situação. Olhou então pela janela, vendo a chuva cair forte lá fora, mas no final das contas ela estava certa. Não precisaria do guarda-chuva.