Apesar da desanimadora falta de comentários, resolvi insistir e postar o segundo capítulo. Ai vai, divirtam-se (Ou não):
Capítulo dois - Conversa no bar
Os telhados das casas refletiam a luz do sol rachante do meio-dia na minúscula cidade de Cátir, satélite da metrópole Tsahua. As ruas de pedra da cidade, em geral pouco movimentadas, pululavam de pessoas que iam agitadas às casas dos amigos e parentes, para comentar a grande notícia recebida ainda nas primeiras horas da manhã.
Aconteceu que mensageiros correram por toda a cidadezinha gritando a plenos pulmões que o governador de Tsahua, Cryus Anvet, fora encontrado morto em sua mansão, junto com a mulher e os dois filhos pequenos, na véspera. A maneira da morte era o que mais chocava as pessoas. Os quatro tinham ganchos enormes perfurando o crânio, suspensas a alguns centímetros do solo por cordas presas aos ganchos e amarradas à uma viga no teto. Todos se perguntavam o motivo que levaria alguém a não poupar nem crianças de uma morte tão brutal, se é que havia um motivo.
Apesar da fatalidade, os habitantes de Cátir não poderiam deixar de gostar da saída de Anvet do governo. Nunca fora muito popular na cidade, pois não dava a mínima para ela, o que deixava seus incautos habitantes sob a mercê de toda a corja de bandidos, ladrões e vigaristas, que exerciam seus ofícios ao bel prazer e quase sempre sem nenhuma punição.
Um desses seres, por acaso, passava na rua naquele momento. Usava uma capa rota marrom, e tinha cabelos castanhos curtos e espetados. Todos o olhavam com medo quando ele chegava perto, mas o homem não parecia dar a mínima para as outras pessoas. Andava vagarosamente, passando pelas casas de madeira idênticas rua acima, absorto em seus pensamentos. Só parou ao chegar na frente do único bar da cidade, que, estranhamente, era chamado de “O Andarilho”. Um homem e uma mulher conversavam na frente da entrada do bar. Pararam quando viram o sujeito se aproximar da entrada.
- Belo roubo o de ontem, hein, Chad? – Perguntou o homem com um sorriso afetado, enquanto balançava uma bolsinha cujo conteúdo tilintava, e sua companheira dava uma risadinha.
O ladrão chamado Chad respondeu com um aceno de cabeça e um esgar, e empurrou a rústica porta de ébano para entrar no bar. Estava bem iluminado e limpo, além de lotado. Chad lançou olhares pelo bar procurando cadeiras vazias e rostos conhecidos. Havia vários, o que é comum em cidades pequenas, mas ele não cumprimentou ninguém, e nem os outros o fizeram. Dirigiu-se para uma mesa perto do balcão, que ficava do lado oposto à entrada, e ocupava quase toda a extensão do bar. Uma prateleira com vários tipos de bebidas ficava ao fundo. Despiu a capa, deixando-a sobre uma cadeira, revelando uma espingarda que pendia ao lado de seu corpo, e um sabre no outro. Várias pessoas olharam a arma de fogo com medo, e um homem chegou a perguntar:
- Precisa trazer esse troço até aqui no bar?
- Claro. Sei bem que vocês iriam me linchar se eu estivesse vulnerável – Respondeu ele, sacando a arma e engatilhando –a, apenas para amedrontar o homem que perguntou.
Então sentou – se e ficou observando o interior do bar, à toa. O estabelecimento era todo forrado por uma tapeçaria vermelha e amarela. Alguns homens berravam enquanto jogavam cartas a um canto, e um grupo em outra mesa lançava olhares de censura a eles. Dois sujeitos bebiam uma bebida preta de uma garrafa de metal sentados ao balcão.
Nesse momento, mais duas pessoas entraram no bar, e Chad reconheceu Ferus, um companheiro de ofício, acompanhado por um estranho. Suas aparências eram contrastantes. Ferus tinha cabelos loiros muito curtos e uma cara carrancuda, além de um enorme bigode e a barba por fazer. O estranho tinha cabelos muito negros e mal cortados, que lhe caíam até os ombros, visíveis por cima do chapéu marrom que usava. Seu rosto era melancólico e os olhos cinzentos muito tristes. Tinha uma saca amarrada nas costas e suas botas de couro estavam gastas e sujas, indicando que ele era um viajante.
Ferus reconheceu Chad e dirigiu-se para a mesa dele, com o estranho em seus calcanhares.
- Posso me sentar? – Perguntou Ferus. Chad deu de ombros, e os dois puxaram cadeiras e se sentaram.
Ferus, notando o olhar indagador de Chad ao estranho, disse com sua voz rascante:
- Este é o Umeth, ele me pareceu uma boa pessoa, por isso o trouxe para tomar um drinque no bar. Ele está apenas de passagem, como você deve ter notado. – Então chamou o dono do bar, um velho careca, encarquilhado e corcunda. – Três cervejas para nós aqui, Fargos!
- Então ele sabe o que fazemos? – Perguntou Chad, levantando uma sobrancelha.
- Sabe, mas eu lhe garanti que não ía roubá-lo, além do mais, o pobre rapaz não tem quase nada para se roubar. – Completou Ferus com uma gargalhada.
- Sim, estou a caminho de Tsahua , a oeste, e parei aqui para comprar mantimentos, mas não encontrei nenhuma construção na cidade que não fossem casas e esse bar. – Disse Umeth, enquanto desamarrava sua saca e depositava-a no chão. Não parecia se importar com o fato de estar sentado numa mesa com dois bandidos.
Chad sorriu.
- Não, você não vai encontrar nada aqui mesmo. Quase não há comércio na cidade, as pessoas exercem seus ofícios e fazem suas compras diretamente em Tsahua. Mas a cidade é bem perto, você aguenta até lá.
Nesse momento, Fargos trouxe as três garrafas de cerveja e três copos, e se afastou rapidamente, olhando apreensivo para Chad.
- Notei que a maioria das pessoas, sejam elas bandidos ou não, o olham com medo ou raiva – Disse Umeth, olhando para Chad com um olhar indagador, enquanto se servia da cerveja.
Chad riu de novo.
- Apenas os bandidos me olham com raiva. Os habitantes normais temem isso – E mostrou a espingarda.
- Por quê? - Perguntou Umeth, franzindo as sobrancelhas. – É uma arma incomum, mas não tanto assim.
- Ah, mas aqui nesse fim-de-mundo, é. Sou o único na cidade que tem uma dessas. Os habitantes viram, há uns dois anos, um viajante como você matar outro homem com um tiro na testa, no meio da rua. Desde então sentem medo das armas de fogo.
- Então, onde você compra a munição?
- Onde compro? – Perguntou Chad com uma risada, tomou um longo gole de sua cerveja e falou num susurro, para que ninguém nas outras mesas ouvisse: – Eu não compro. Já está sem balas a muito tempo, por isso uso também este sabre por precaução.
Umeth arregalou os olhos com a surpresa, e Ferus entrou na conversa dos dois:
- Mesmo assim, acredite, tem nos ajudado muito a roubar os ladrões. – Então viu o olhar atónito de Umeth para ele. – Ah, sim, não lhe contei. Não somos ladrões comuns. Para que roubar os cidadãos normais se podemos esperar os saqueadores fazerem o trabalho sujo e depois exigirmos deles a nossa parte? Se recusarem, basta meter a espingarda em suas caras. São tão ignorantes quanto as pessoas normais.
Umeth parou um instante, seu rosto inescrutável. Bebeu o que restava de sua cerveja e logo em seguida disse:
- Bem, tenho de ir. Quero chegar em Tsahua ainda hoje. Será que algum de vocês pode me mostrar a saída da cidade? – E levantou-se.
- Eu o levo. - Disse Chad, que também se levantou, e apanhou sua capa, mas não a recolocou. – Vai ficar aí, Ferus? –Perguntou ele, vendo que o outro não se levantara da cadeira.
- Vou, não tenho a intenção de sair da cidade agora, não com ela tão agitada por causa da morte do nosso querido ex-governador. – Respondeu ele. Neste momento, três seres encapuzados usando túnicas pretas levantaram-se de uma mesa próxima e saíram do bar.
- Você vai à Tsahua também? - Perguntou Umeth a Chad. Depois da conversa que tiveram, seu rosto recobrou a aparência melancólica.
- Não, vou apenas acompanhá-lo até a saída da cidade. Não tenho nada melhor a fazer.
Umeth disse um adeus a Ferus, e então ele e Chad partiram para fora do bar, Chad um pouco a frente.
Andavam em silêncio, até virarem e irem por uma ruela deserta. Andaram um pouco e então Chad parou, nervoso. Sacou seu sabre. Umeth, que não carregava nenhum tipo de arma visível, não pôde fazer o mesmo. Apenas olhou para os lados nervoso. De repente, Chad virou-se, mas já era tarde.
Três vultos encapuzados haviam descido dos telhados das casas próximas a eles, e um deles bateu com o cabo de uma arma estranha com força do lado da cabeça de Umeth, que caiu no chão e não levantou mais. Um segundo depois, uma pancada muito forte do lado de sua cabeça indicou que lhe fizeram o mesmo. Chad viu estrelas por um momento, então caiu no chão, de borco, e sobreveio a escuridão.
Comentem, nem que seja pra dizer que a história ta uma merda, mas digam alguma coisa. :)