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Algoz dos Mortos
Prólogo
A aparência psicodélica dos edifícios encurvados sobre o asfalto fazia com que as pessoas que passassem sob eles encolhessem os ombros e juntassem as mãos. Enquanto ela caminhava, quase em posição fetal, por aquela rua as janelas de vidro se fragmentam e uma quantidade imensurável de água começa a irromper, engolfando e arrastando-a com violência. A corrente de água impede que a moça estabilize seu corpo; os pulmões tentam inspirar, mas tudo que encontram é água. Morte.
*** 6h10
Ela senta apavorada na cama. O clique mecânico do despertador faz Juliana Branco libertar-se de sua cadeia líquida. A mulher ali presente só ausentou-se de seu transe após o rádio-relógio começar a tocar uma música estridente e alegre demais para o período matinal. Juliana levantou-se, expondo seus robustos seios e mamilos excitados pelo frio através de sua camisola branca, e foi até a cômoda desligar o aparelho.
Seus cabelos castanhos e ligeiramente encaracolados, mantidos cerca de um palmo e meio abaixo dos ombros, aliados à sua pele moderadamente bronzeada dão um toque sensual aos seus grandes olhos cor-de-mel que são acompanhados por grandes cílios negros, é dotada de definidas nádegas e bustos. Sua beleza ocasionava desconforto em seus companheiros de trabalho, além de muitas situações desagradáveis como cantadas e convites excêntricos.
- Merda! – Exclamou para si a doutora enquanto se dirigia ao banheiro a fim de tomar um banho quente, lembrando que hoje seria seu primeiro dia na equipe do doutor Álvaro Abacílio.
O banho havia de ser rápido, teria que tomar o metrô das sete e vinte com intuito de chegar ao hospital antes das oito horas. Vestindo uma calça jeans azul-escuro e uma camisa comprida branca coberta por um casaco de moletom ela vai ao espelho do quarto e aplica lápis nos olhos e batom, seca os cabelos, penteia-os e sai de seu apartamento, seguindo em direção à estação.
No caminho, comprara seu rotineiro café da manhã, um copo de café amargo, mais perfumado que o aroma das baunilhas, e um saboroso pastel assado de frango. Como de habitual a estação estava lotada e pontualmente as sete e vinte Juliana embarcara no metrô que a levaria à Gedeão-Rio. Devido à fluência dos metrôs a hematologista chega ao hospital as sete e cinqüenta e três.
Gedeão-Rio ocupa quase uma quadra e é um edifício composto por janelas alinhadas e tons claros. O caminho que leva a sua entrada é arborizado e fresco, ao longo deste, bancos de madeira e o cheiro de terra umida compõe as pequenas praças onde aqueles que se recuperam podem serenar sob sombra ao som da água corrente dos chafarizes. A estrutura pesada deu espaço a algo menos poluidor e mais aconchegante, embora em seu interior a tensão tomasse o lugar da tranqüilidade.
Enquanto admirava a alameda asfaltada coberta por um fino tapete de pétalas, caminhava até chegar à porta de vidro da entrada principal.
- É incrível, não?
- Hã? Desculpe. – Juliana se assustara com o rapaz que havia abordado-a
- Este edifício é incrível... Oh, desculpe, meu nome é Yoshihiro Akira, sou novo por aqui.
- Ah, não é necessário se desculpar, estava desatenta, prazer Sr. Akira, meu nome é Juliana Branco, também sou nova, por acaso você faz parte da nova equipe do doutor Abacílio?
- Isso mesmo, sou o neurologista e você?
- Ah, me especializei em hematologia... Acho melhor entrarmos ou nos atrasaremos!
Ambos caminharam até a entrada do hospital, a alameda de atendimento era espaçosa, no meio do salão havia um balcão de forma quadrada com quatro atendentes vestidas de branco, no espaço que sobrava havia uma quantidade alta de sofás e cadeiras, alguns dispostos em forma de “U” com uma mesa de vidro ao centro, além de algumas portas, três elevadores e uma larga escadaria. Dividindo a parede externa do edifício os corredores eram formados de forma larga, um para a direita e outro para a esquerda, e ao longo do mesmo era possível visualizar algumas outras portas vai-e-vem.
Àquela hora a movimentação de entes, pacientes, médicos e enfermeiras era assídua, Yoshihiro e Juliana observaram ao redor em busca do Dr. Abacílio, mas logo descobriram que seria impossível encontrá-lo, então se aproximaram do balcão de informações, que estava anormalmente vazio.
- Com licença – Disse Yoshihiro – Você poderia nos informar qual seria o semblante do Dr. Álvaro Abacílio? Somos integrantes da nova equipe dele, avisaram-nos que ele estaria nos esperando.
- Quarto andar, pegue o corredor à direita, é a sexta porta – Respondeu a atendente fazendo um movimento com a cabeça em direção ao elevador.
Os dois entraram no elevador e, silenciosamente, rumaram até o quarto andar. Discretamente os olhos puxados de Yoshihiro fitavam Juliana de modo a delinear suas curvas.
As portas do elevador se abriram para uma recepção mais luxuosa que a vista anteriormente. O chão era recoberto com um piso de látex com aparência de madeira, em frente o balcão de atendimentos era composto por apenas uma mulher uniformizada como as do primeiro andar. Apenas cumprimentando a secretária seguiram para a direita contando as portas. A sexta sala era totalmente de vidro, seu interior, todavia, não era visível graças à veneziana completamente fechada; mais a frente estava a porta.
Dr. Álvaro Abacílio
Clínico Médico
Álvaro Abacílio estava sentado em sua cadeira de couro preta com os pés em cima da mesa de mogno escuro. Enquanto tamborilava a caneta nas costas da mão conversava com outro médico que se mantinha sentado em uma das cadeiras do outro lado da mesa.
Os dois novos membros da equipe adentraram a porta, fazendo-o erguer as sobrancelhas e conferir o relógio num movimento exagerado para afastar as mangas compridas do paletó de seu pulso. Ao compasso que o outro médico, mais alto, de cabelos raspados, pele clara se levanta e estende a mão para cumprimenta-los.
- Olá, meu nom é Cândido Eusébio, imunologista da nova equipe.
- Prazer, doutor Eusébio, sou Yoshihiro Akira, neurologista. E está é...
- Sou Juliana Branco – disse interrompendo o japonês – hematologista.
Quando as apresentações terminaram todos se colocaram a frente de Álvaro, esperando que o mesmo se apresentasse.
- Bem, vamos começar a trabalhar... Vocês já têm experiência em suas áreas então não preciso passar pela parte burocrática do sistema certo?
- Você não vai se apresentar? – Indagou Juliana.
- Eu sou o chefe de vocês, o mínimo que vocês deveriam saber é meu nome, não? E outra, qualquer coisa ele ficou gravado ali na porta.