Esse é um livro que fala sobre a revolta dos adolescentes, e conta histórias (não sei se são reais) bem cômicas. Vou postar aqui a primeira história pra vocês entenderem melhor
ATO UM
O Macarrão da mamãe é mais gostoso
Foi logo depois de começar a falar em Vandalismo & Barbárie mais seriamente que um amigo apareceu com a idéia dos pique-niques em supermercados. A princípio achei pouco prática: os seguranças logo nos colocariam para fora com chutes e pontapés. Eu estava equivocado, é preciso ser esperto para subverter a ordem cotidiana. Quando se fala em pique-nique logo vem à memória aquela imagem da toalha estendida ao chão, cheia de frutas, doces e salgados.
Quem disse que pique-niques tem de ser assim? Essa foi a primeira pergunta que me ocorreu. Depois foi o seguinte: o que, realmente é um lugar público? Supermercados são lugares públicos? É proibido comer dentro de uma supermercado? Pra mim, estas são perguntas inspiradoras. Por exemplo, é perfeitamente normal sentar em banco de praça, tirar da bolsa um sanduíche e comê-lo em paz. Mas fazer o mesmo em uma loja de departamentos pode ser diferente.
De repente lá estava eu imaginando estas coisas acontecerem. De repente lá estava eu entrando em contado com amigos Delinquentes & Doentes e pronto: uma inconsequente ação dos Novos Bárbaros estava sendo arquitetada, descobrimos que sim, podámos criar situações que subvertessem a rotina cotidiana e turbinasse a realidade banal com um pouco mais de arte. O material utilizado foi o mais básico e prosaico possível: marmitas de alumínio e a sobra da comida do fim de semana. O mundo moderno e seu tabus ocultos permite ótimas diversões pra quem curte criar situações.
Domingo à tarde já estávamos com tudo pronto: quarto marmitas cheias macarronada. O alvo: a C&A na segunda à tardinha, assim que todos tivessem abandonado seus trabalhos forçados. Faríamos uma operação sicronizada. Cada um levaria uma marmita e estaria com um relógio marcando a hora corretamente. Cada um abriria sua marmita em um setor diferente da loja com uma diferença estratégica de cinco minutos, o suficiente pra deixar os funcionários doidos em sua correria.
Seis e meia eu sento no setor de calçados, logo depois de dizer à atendente que estava apenas olhando os modelos e puxo minha marmita de macarrão. A funcionária fica visivelmente constrangida sem saber se fala algo ou não. De canto de olho vejo que ela se dirige ao segurança e pergunta algo. O segurança fala ao walk-talk e cochixa ao ouvido. Foi mais rápido do que eu esperava.
- Moço, eu sinto muito, mas aqui não é o lugar adequado pra fazer uma refeição.
- Porquê?
- Sabe como é, tem os outros clientes e pode ser que alguém não se sinta muito à vontade.
- Sentir-se muito à vontade? Quem não está se sentindo muito à vontade aqui sou eu.
- Senhor, procure entender...
- Moça, preste bem atenção, se o filho daquela mulher de vestido vermelho que está experimentando as sandalhas, quiser comer as batatinhas fritas que a mãe dele tem na bolsa, não vai poder?
- Mas senhor, é diferente...
- O que é diferente? Pelo que me consta aquelas batinhas tem muito mais cancerígenos que esse belo macarrão feito com todo amor e carinho por minha mãe.
A discussão estava se prolongando por mais tempo que a pobre funcionária planejara e o segurança logo se deu por conta disso e veio em seu auxílio.
- Algum problema?
Nem deixei a moça responder.
- Claro que estamos com um problema, um problemão! Parece que o filho daquela mulher ali de vermelho não está podendo comer seus salgadinhos.
- Não é isso, o problema não é com o menino... (a funcionaria começou a ficar realmente nervosa)... esse senhor aqui não quer entender que isso aqui é uma loja de departamentos e não um restaurante!
- É claro que isso não é um restaurante, não comprei essa macarronada aqui, não roubei ela de lugar algum e não vejo porque não comê-la.
O segurança era um daqueles típicos grandalhões seguros de si e sem medo algum que as discussões descambem pra violência.
- É o seguinte seu panaca, acho bom você levantar daí meio logo antes que as coisas se compliquem de verdade pro teu lado.
- As coisas não podem se complicar muito, comer macarronada é uma tarefa extremamente simples.
- Rapaz, eu não tô aqui pra conversa fiada não, tenho mais o que fazer.
Nisso começou a me puxar violentamente pelo cangote; pelos meus cálculos o Jean já estaria abrindo sua marmita no setor das calçinhas e sutiãs. Hora de chamar pelo gerente, sem esquecer da salutar dose de escândalos, para que não só o gerente deixe de vir e ainda leve umas porradas na saída de serviço ou no depósito.
- Ô seu macacão, eu quero falar com o gerente!
- Cala a boca rapaz!
- Calo a boca o cacete!! (eu já estava começando a gritar) Compro nessa loja à anos, nunca atrasei um pagamento e exijo a presença do gerente!!!
Nisso alguém chamou ele pelo rádio e me tranquilizei sabendo que o Jean tinha se manifestado. O grandalhão me soltou pra falar no rádio e pude me recompôr. O gerente já estava vindo. Finalmente eu veria como se saem os gerentes quando os problemas saem da rotina.
- Com licença, posso saber o que está acontecendo aqui?
Nessas horas um bom arruaçeiro deve saber se comportar dignamente e utilizar aquela cartinha bem educada que estava guardada na manga.
- Senhor, está ocorrendo um grande equívoco.
Nisso uma pequena multidão de curiosos já começava a se formar ao nosso redor.
- Essa funcionária, que me atendeu muito bem, diga-se de passagem, confundiu tudo e não permitiu que eu desse uma leve enganada no estômago antes que escolhesse um par de tênis, estava realmente me interressando por aquele Nike de 349 Reais.
- Mas senhor, tudo bem que você esteja um pouco faminto, nesse caso era só comunicar algum de nossos funcionários que prontamente conseguiríamos um lugar mais resevado para fazer sua refeição, o senhor concorda?
- Não! Não concordo não! Quer dizer que o menino vai ter de sair da loja pra comer seu salgadinho?
- Creio que o senhor não está entendendo.
- Do meu lado eu creio que alguma coisa muito errada está acontecendo aqui, este não é um ambiente em que eu, como cliente em potencial, não deveria estar me sentindo em casa?
- Mas senhor...
E aí começou toda uma ladainha gerencial cheia de palavras bem colocadas & chavões de bom atendimento & aquele velho papo furado de que "o direito de um acaba onde começa o direito de outro". O Jean devia estar se saindo bem, pois uma funcionária veio falar ao ouvido do gerente e os seguranças (agora eram três) desciam apressadamente as escadas em direção ao setor de moda masculina. Era o Vinicius e olha que o Vinicius é muito mais sarcástico e panfletário que eu.
O gerente gaguejou pela primeira vez, pediu pra funcionária que tinha me atendido que ficasse um pouco comigo e pediu licença prometendo voltar em poucos minutos. A menina ficou comigo sem dizer uma palavra, totalmente indignada pela situação. E eu contendo a vontade de rir; bem que alguém podia chamar a polícia para as coisas começarem a realmente ficarem grandes. Grande dia! Grande dia!
O combinado era que assim que a quarta marmita fosse aberta pelo Fábio no térreo, quinze pra sete, todos fossem para lá e daríamos abraços e beijos em todos. Foi um plano perfeito, diga-se de passagem, devíamos ter filmado a coisa toda, mas tudo bem, essas coisas vão ficar fotograficamente registradas em nossas memórias para o resto de nossas vidas.
O gerente estava demorando e a funcionária estava muito inquieta.
- Querida, pode dar uma volta pra relaxar que não tem perigo de eu voltar a comer, quer um pouco?
- Não, obrigada, respondeu ela, com a melhor cara de nojo que conseguira.
- De nada, baby.
Nisso bateu as sete e quinze e levantei-me de onde estava sentado. A funcionária deu um salto assustada de onde estava e logo voltou a sentar-se, reconhecendo o ridículo da situação. Triunfantemente dirigo-me ao térreo onde o Fábio estaria sem enxergar um segurança sequer, deviam estar todos ocupados. Encontrei a galera toda reunida com o Vinicius ainda discutindo com o gerente sobre o conceito de lugar públicos e privados e uma considerável multidão em volta. Eu tinha panfletos no bolso. Gosto de carregar certos panfletos no bolso. Jamais esquecerei a cara de tacho que o gerente fez quando o Vinícius fez uma cara de bravo, falou que não discutiria mais e catou nossas marmitas e jogou no lixo mais próximo.
- Realmente vocês tem razão! Este é um sagrado lugar de comprar onde não se deve nunca, jamais, cometer a heresia de não gastar. Senhor gerente! Estes três delinquetes juvenis são meus irmãos e o senhor pode ter ser certeza que contarei tudo, tim-tim por tim-tim para nossa mãe e esses três marginaizinhos ficarão pelo menos um mês sem comer macarrão.
Então começamos a nos dirigir para a saída da dando tchaus e beijinhos em todos os curiosos que estavam com algum sorriso no rosto. Disturbios Cotidianos são aquilo que eu considero mais divertido ultimamente. Antes de sair, virei-me para trás e joguei todos os panfletos com a frase "Seja realista, exija o impossível" que tinha no bolso, falando em alto e bom tom:
- Um forte abraço para todos vocês!!!!
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