Capítulo IX – O plano de vôo das andorinhas
Arion devia estar ficando cansado de tanto fugir – lembrando inicialmente nos incidentes ocorridos em Kazzordon e na rota até Ab`dendriel. Depois de perder cerca de duas horas descansando sobre a copa de um pessegueiro, os dois elfos haviam arranjado um belo cavalo e há esta hora cavalgavam pela amarelada paisagem do sul da cidade élfica. Enquanto dava pequenos saltos no dorso do animal, Efhel observava seu companheiro, pareciam sempre franzidas dando aparência de um individuo irritado e calculista. Afinal era isso que ele havia se tornado. Guerra muda às pessoas, muda suas vidas e seus destinos.
Efhel se lembrava vagamente de seu passado. Lembrava bem de um livro que tinha sobra às migrações das andorinhas. Quando fazia frio – perto do começo de Janeiro e fim de Março – elas voavam para o sul do continente. Do sul, quando o calor dominava migravam para o Norte. Ficavam nesse vai e vem até encontrar a morte no meio do caminho. Viver para estes seres era como ficar preso em uma sala que a cada momento tem suas paredes se aproximando do centro a fim de esmagá-lo.
Os dois se encontravam perto de uma fazenda de criação de gado. Pelas aquelas alturas Arion comentou com Efhel que precisava urinar. Depois de alguns minutos a mais cavalgando a passo rápido, o corcel parou próximo a um riacho esverdeado.
O cardeal saltou da montaria em um pulo e debandou para o meio do mato. “Efhel não devia se meter em encrencas” pensou enquanto se aliviava em um pinheiro “ela não pode acabar morrendo numa guerra bastarda como essa”.
***
Tomando a pura água do riacho a elfa lavava a garganta dos últimos restos da essência que antes fora usada contra ela. Notou que uma erva vermelha crescia próxima a uma pedra. Arrancou uma pequena folha da planta e levou-a até seus delicados lábios, sentiu o sabor doce e percebeu que se tratava de uma Lecèbef. Algo que misturado com sangue se tornava um excelente antitoxina. Efhel podia identificar qualquer tipo de erva apenas por seu aroma e sabor, certamente que se ela observasse algo que indicasse veneno, não levaria a sua boca. Era tocante uma criatura tão cheia de conteúdo e inteligente perdesse tempo ali, quando podia estar estudado, desenvolvendo curas e vivendo sua vida. Inevitável era estar sempre em seguro, à violência estava por toda parte. Que mundo para se viver. O medo de vez em vez surgia em sua face, assustava e partia novamente.
Sentiu uma dor na barriga o que indicava que seu organismo já havia feito digestão de todo o veneno do Hafic. De repente veio-lhe a lembrança de Fex. Ela também notou que Arion já havia sumido a cerca de vinte minutos. Ficando preocupada, ela se enfurnou no meio da folhagem, chamando por seu amigo. Olhou curiosamente para a copa de uma árvore. Ela parecia se desfazer em pequenas partículas, nisso ela sentiu suas pálpebras se fechando e seu corpo ficando pesado. Suas narinas estavam entupidas. A única coisa que ouviu antes de cair em sono profundo fora palavras em élfico arcaico dizendo:
— Descanse.
***
Fex se encontrava apático. Ele parecia estar sozinho. Lembrava-se apenas de ouvir o general Hiestalau pestanejar algo, mas isso parecia ter ocorrido há uma hora atrás, sua memória estava ruim, branca. Não se lembrava o porquê, porém sentia uma terrível dor de cabeça, provável efeito de uma pancada. Enquanto aliviava-se da dor esfregando a nuca com suas mãos ele notou que uma grossa algema de aço prendia seus pulsos de tal forma que o sangue parecia não correr. Visivelmente paralisado, Fex deu uma rápida olhada no recinto em que se encontrava. Uma espécie de circulo cercado por alguns lençóis azuis escuros colocados de uma forma que ele não via nada ao redor.
Será que estava a sós? Parecia que sim, até ouvir o som de bota batendo.
— Não adianta resistir. Fim da linha, Fex — a voz não era de Mazu. Desta vez era uma voz mais sutil e frágil. Atrás de um dos lençóis, por um manto de sombra surgia uma figura branca dos pés a cabeça, de cabelos loiros manchados. Um homem de porte mediano, vestido num sobretudo preto, separado por duas malhas, uma mais escura, com os detalhes trabalhados em fios de algodão dourado, algo muito chamativo surgia de trás da veste, uma armadura cor de fogo, com incrível intenção ameaçadora e assassina o que combinava cinicamente com as feições daquela figura.
Seu semblante vislumbrava um ser indiferente. Possuía um sorriso debochado de ponta a ponta. Fex notou que trazia junto a sua mão esquerda uma luva de aço. Ele não conseguia reagir a nada, apenas notou que este ser colocava a luva repleta de ferrões de ferro enferrujados em sua mão. Uma dor aguda o atingiu de repente. Ele gemeu de dor e seu grito ecoou pelo salão entregue as sombras. Aquele homem fez um sinal com os dedos e logo após isto Fex estava novamente só.
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É isso, espero que gostem. Capítulo X deve sair perto do dia 16.







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