Há uma discreta queda-de-braço ocorrendo nas entranhas das companhias de todo o mundo. Numa era em que aparentemente as liberdades individuais são invioláveis, o mundo corporativo esforça-se para enquadrar seus funcionários em padrões rígidos de comportamento e fidelidade – seja dentro, seja fora de fábricas e escritórios, numa espécie de Grande Irmão corporativo.
É briga antiga. Desde sempre, as empresas procuram ampliar as fronteiras profissionais tomando espaço da
vida pessoal de seus funcionários.

Estes tentam resistir e se movimentam na direção contrária. Nunca se chegou a um consenso sobre quais seriam os limites razoáveis para cada um dos lados – e provavelmente nunca se chegue. Esse embate em geral acontece em silêncio, mas, volta e meia, se manifesta de forma mais eloqüente, como ocorreu em uma fábrica da Ford, em Dearborn, Michigan (EUA). Lá, a empresa determinou que funcionários que possuem carros da Ford têm o direito de ocupar as melhores vagas do estacionamento, em detrimento dos colegas com veículos de outras marcas.


Ora, os automóveis são de uso particular, adquiridos com o dinheiro próprio, de acordo com suas necessidades ou as de sua família. Como, então, uma empresa determina o que seu funcionário deve ou não deve comprar? Parece óbvio que existe aí um abuso. Alguns especialistas não concordam. “Hoje, o papel profissional ganhou uma relevância enorme na sociedade. As pessoas carregam um sobrenome empresarial, o que as torna uma espécie de “vendedores” das companhias onde trabalham”, avalia Almiro dos Reis Neto, da Franquality, consultoria em recursos humanos. “Seu comportamento, então, passa a ser um componente da imagem da corporação.” Reis Neto lembra que fabricantes como Coca-cola e Ambev não aceitam que seus empregados consumam bebidas de concorrentes. “Por que isso não aconteceria com uma montadora?”, pergunta ele.

O caso revela, ainda, os efeitos da difícil situação financeira da Ford. Com prejuízos constantes, cortes de pessoal e poucos investimentos, os laços entre empresa e empregado tornam-se mais frouxos. “O compromisso entre as duas partes enfraquece”, afirma Reis Neto. Assim, os funcionários já não sentem orgulho em utilizar e expor os produtos da marca. Diante disso, a empresa reage impondo regras e incentivos para acabar com a “traição”.

A vigilância sobre a vida dos funcionários fora do expediente se tornou mais estreita depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 e dos escândalos corporativos protagonizados por Enron e Worldcom. “A partir desses episódios, os controles dentro das organizações se tornaram mais rígidos e, com o tempo, extrapolam os limites das fábricas e escritórios”, analisa o consultor Robert Wong. Com o enxugamento de pessoal e aumento do desemprego, os funcionários não têm força para resistir à investida dos empregadores. A saída, aponta Wong, seria estabelecer regras mais claras e transparentes. “Algumas corporações possuem códigos de conduta escritos. Esse material ajuda a orientar o comportamento dos funcionários”, afirma ele. O consultor também defende a existência de comitês formados para debater esse tipo de assunto. Formados por profissionais de diversos níveis hierárquicos, esses grupos indicam parâmetros de comportamento e discutem casos concretos, para depois divulgar as conclusões. “Isso vai criando uma cultura dentro da organização e evita o caminho da imposição”, diz Wong.

O maior desafio é estabelecer os limites da empresa nesse assunto. “As fronteiras são tênues”, lembra Reis Neto. Nada provoca mais polêmica nesse departamento do que o relacionamento amoroso entre dois funcionários. Em tese, trata-se de um assunto particular, restrito à vida de duas pessoas. Mas e se houver uma relação de subordinação entre eles, o que possibilitaria favorecimentos? Mesmo que trabalhem em áreas diferentes, as conseqüências podem ser trágicas. Há duas semanas, uma ex-estagiária da Petrocoque mandou assassinar uma colega de trabalho para conquistar sua vaga e voltar a ficar mais próxima do amante que tinha na companhia. Uma intervenção mais firme da empresa poderia ter evitado o desfecho traumático do caso, mas iria ferir duramente um dos mais sagrados direitos individuais.