Como não posso continuar no mesmo post...
Continuando...
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Capítulo I
Os Ponteiros
Seria simples se não fosse tão complexo.
Os corredores encobertos de trevas só refletiam a escuridão. Aliás, mal refletiam, já que nada estava lá para fazer tal coisa ou até mesmo servir para ser usada e executada. Apenas passos medíocres eram ouvidos, avançando para uma saleta onde existia uma porta paralela, enorme, gigante, poderosa, que cheirava a poder. Era uma criança que andava por ali, por aqueles corredores de uma fortaleza tão manchada de vermelho. Tão manchada por maus sonhos. Os cabelos do garoto eram dourados. Sim, sim, seu ouro era a única coisa que refletia ali. Ele vestia um pijama azul, um simples traje de dormir, um simples traje para lhe trazer bons sonhos.
Bons sonhos ele iria precisar.
O menino do louco cacheado empurrou a maçaneta, abrindo lentamente a porta. Isso, claro, com um grande esforço, já que sua força era exigida naquele momento para passar. Portas grandes sempre inspiraram lugares que provavelmente guardam coisas grandes. Uma sala direcionada a uma cadeira no centro se mostrou, com janelas que mostravam o clarear da Lua adentrando-as.
– O que faz aqui, pequeno Gad? – Dizia a voz de um velho, saindo da escuridão por trás da cadeira.
– Eu não consigo dormir, Daolian... – Respondeu a criança, se aproximando sempre cada vez mais, com seus olhos azuis que inspiravam aquela sensação de ternura fraterna.
– O sono é uma arte... Assim como os sonhos... – E virou-se, apalpando a cadeira e sentando na mesma. Passou a mão na barba, olhando para o pequeno –... Já sei porque você não consegue dormir, Gad. Seria a corrida dos sonhos, amanhã?
– Eu não sei, mestre Daolian... Meu irmão também. Eu não consigo dormir com ele acordado em meu quarto.
– Gaspar está acordado...? – Levantando-se.
– Sim, ele está. Ele diz que não consegue dormir... – Ele olhou para baixo, inocentemente. Daolian sentou novamente na cadeira, passando a mão na barba espessa.
– Volte a dormir. O dia vai ser longo amanhã.
– Sim, sim. Até amanhã – E ele sorriu. Um sorriso singelo, daqueles que ficam na cabeça em momentos em que não se deve sorrir, ou que você sabe que tem que sorrir. Ele sabia que tinha que sorrir? Não, ele sorriu porque gostou das palavras. Gostou das pessoas.
Daolian acompanhou com os olhos a criança saindo de sua sala. Seus olhos cansados de ver, sua barba branca de vida. Sim, a brancura indicava vida. Vida que saiu e foi-se para lugares onde não deveria ficar.
– Amanhã... – E sorriu – Isso se houver amanhã, pequeno Gad...
E ele levantou-se novamente, indo em direção às janelas, que eram primeiramente feitas para serem atiradas flechas, olhando a noite. Noite que era nada mais nada menos que a presença da Lua e a ausência dos sóis. Ao longe, via-se uma luz. Era óbvio que essa luz era não apenas um único foco, mas vários, como que várias tochas acesas.
– Falnus... Você é um maldito.
Colocou a mão na janela e virou-se bruscamente. Andou até sua cadeira, apoiou-se. Parecia estar passando mal. Respirou, mofou, respirou, sentiu o vento noturno. Começou a falar, então, olhando para uma das quatro paredes de pedra da sala:
– Maldito seja você, Tibianus, por nos dar terras mortas para cultivar nossa arte...! – E sentou-se, pela última vez naquela noite na cadeira. Fechou os olhos e adormeceu.
Histórias de emoção e glória de heróis. Os invencíveis sempre triunfaram desde os tempos remotos. Espada cravada em peito do bem é apenas um acaso. Espada cravada no peito do mal é o anjo da vitória. Belas noites sempre atraíram, em todas as belas histórias heróicas, sangue e morte. Sim, as noites sempre foram símbolo de tristeza, aqui também. Mas a tristeza é diferente. Uma tristeza que não existe, já que o mundo que cito não existe. Nenhuma das coisas, no fundo existe. Já fora pensado a possibilidade das coisas mortas na verdade nunca terem nascido? Você estar aqui seja uma coisa de certo ponto vista esquizofrênica? Eu particularmente não acredito que você exista.
De qualquer forma, existindo você ou não, no meu mundo havia um homem dormindo. Obviamente, num dormitório, nem tanto assim daqueles que dormem soldados. Era o quarto dos soldados de guerra. Mas numa noite assim, apenas um lá dormi. Serenamente. Cabelos castanhos, barba mal-feita, sua aparência física é a característica de um soldado. Um soldado da Ordem. Olhe, que lindo. Gostei de falar “Ordem”. Pena essa não corresponder ao mesmo termo de “progresso”. Naquela sala, alguém abrir a porta. Um guerreiro armado de uma lança e com uma armadura. O soldado segurou no ombro do homem que estava dormindo:
– Endulos! ... General Endulos!
–... O quê...? –Disse ele, abrindo os olhos e incomodado com a luz da vela que fora acendido na sala – Não vê que estou dormindo?
– General, acorde! A Irmandade está batendo à nossa porta!
– A Irmandade dos Ossos... O que está esperando? Vamos, logo ou eles vão derrubar o portão! – Disse o homem, nome Endulos, levantando-se ligeiramente e já correndo para fora do dormitório.
– Sim, sim, senhor – Gaguejou o soldado, seguindo o outro.
Barulhos horríveis eram ouvidos do lado de fora da fortaleza. Para alguns pobres domadores de som, aquilo seria como batidas de um sino enferrujado. Não, era a pressão, alguém, alguns, milhares queriam entrar. Os barulhos eram acompanhados de gritos melancólicos, como se pessoas gemessem por lá. Pessoas gemeriam porquê? Talvez por estarem fora de seu lugar de descanso? O descalço frígido. Um vento frio soava lá fora também. Durante esse momento de descrição poética, porém, Endulos já tinha pegado sua espada. Espada forte, ah sim. Espada de general. Era bonita apenas, com um potencial comum se comparado com as demais armas dos guerreiros.
– Vamos, posicionem os arqueiros no alto das torres para atirar. Os defuntos não devem agüentar muito – Disse Endulos, se aproximando dos soldados. Imediatamente alguns já seguiram para as escadarias.
Não se passou tempo ao certo. Todo aquele barulho citado a dois parágrafos atrás cessou. Não se ouviu nem mesmo mais um ruído de grilo. Os soldados olharam entre si, olharam para os lados, olharam para as paredes. Apenas piscaram quando um estrondo enorme ecoou em uma potência titânica, abalando totalmente a fortaleza.
– Sigam para os jardins, rápido! – Gritou o general, conduzindo as tropas para o lugar onde eles deviam estar se concentrando para algum ataque simultâneo – É inacreditável, como os mestres dos sonhos não conseguiram prever esse ataque da Irmandade? – Pensou o general, correndo.
No pé da escada, porém, que ligava os jardins suspensos com resto da fortaleza, alguém foi visto. Talvez inesperado. Endulos olhou e em uma das fendas estava escondido Gad.
– Gad! O que você está fazendo aqui, garoto? É perigoso!
– Eu não consigo dormir, tio Endulos...
– Onde está seu irmão?
– Acho que está nos dormitórios... Os outros feiticeiros não vieram ainda, eu acho. O mestre dos sonhos disse que eles não poderiam vir.
– Mas que diabos... – Murmurou o general – Corra para os dormitórios junto de seu irmão, vá que é melhor...
Talvez fosse uma mensagem, ou até mesmo uma simples bobagem, mas algo vez aquele homem anexar mais algumas palavras, dizer algo a mais, quem sabe.
– E tenha bons sonhos – E ele sorriu.
E ele correu.
No jardim, tudo parecia normal se não fossem os defuntos subindo pela muralha. Ah, sim. Uma cena linda invocada pelos necromantes, que deviam estar por aí, fazendo qualquer coisa, rindo da cara dos humanos vagabundos que sacavam suas armas pateticamente mortais e se dispunham a desencantar a magia. No meio do jardim tinha uma árvore, ser cheio de vida da mãe Tibia. Era outono, e suas folhas estavam espalhadas por aí, não mortas, mas semiprontas para um dia renascerem e voltarem a tingir aquele lugar de verde. Mas por enquanto só se viam ossos ambulantes e ossos e carne.
– Vamos, não os deixem entrar! – Gritou Endulos, correndo em direção a eles, segurando sua espada com duas mãos. Parecia estar mastigando um pedaço de carne. Diziam que isso trazia sorte às pessoas que lutavam em batalha. Talvez funcionasse melhor quando a carne fosse do oponente.
Os outros o seguiram, expelindo gritos de guerra e coragem de suas bocas imundas, com suas armaduras sujas indo a combate. Provavelmente elas seriam espatifadas no chão. Se não fossem destruídas pelos mortos, seriam desmanchadas com uma única brisa de vento quente. Os mortos se aproximaram. Alguns golpes e eles iam para o lugar de onde nunca deveriam ter saído, mas talvez aí que estava o problema: quantidade...? Eram muitos. Mortos que ali viviam, mortos que não foram para o além-mar, além-céu e repousaram durante séculos nas Planícies do Caos. As espadadas dos soldados eram efetivas, mas não dava. Nada dava. Nada daria. Desistir? O que seria isso na linguagem deles? Nada.
Endulos avançou contra aquela horda, fatiando os corpos dos esqueletos e dos defuntos que andavam como bocós. Infelizmente, ao entrar no meio de tantos, acabava de assinar seu próprio atestado de óbito, tinha assinado a estada no mesmo hotel daquelas criaturas. Morte. Elas se juntaram em volta dele, começando a devorá-lo. Ele sentiu as mordidas, dentadas inexistentes. Sentiu e gritou. Seres providos de vida real poderiam derrotá-los? Não, não era esse o sonho de batalha que ele e os Cavaleiros do Pesadelo queriam. Em um impulso, Endulos emanou de seu corpo uma energia, lançando os defuntos para longe, fazendo-os em pedaços de carne e ossos inúteis. Mas a energia emanada foi demais. Um homem não consegue tanto e fica intacto. Endulos fechou os olhos e caiu de cansaço, com as forças esgotadas.
Enquanto isso, futilmente alguns soldados matavam os zumbis, enquanto os arqueiros no alto das muralhas semidestruídas atiravam setas e bestas nos necromantes que enfeitiçavam por trás das colinas ralas das Planícies do Caos. Eles riam e se vangloriavam por tal feito, desabando humanos, a raça de Banor com apenas alguns encantamentos. Mas algo vinha por trás das colinas. Era uma nuvem negra, uma nuvem feita por seres voadores. Dragões, dragões mortos. Eles voavam com suas asas tortas e de puro ossos, indo em direção à fortaleza. Montado em um dos dragões, o dragão que voava mais alto de todos, um homem encapuzado vinha, tendo em punhos um livro de magia e um cajado com uma lua na ponta. Era o rei dos necromantes, o ser que era a segunda voz no Tibia dos mortos-vivos, o mortal que julgava a vida.
Imediatamente, ao terem consciência daquilo, alguns homens buscaram abrigo voltando para dentro das quatro paredes, outros poucos avançaram ainda mais contra as hordas de cadáveres. Apenas via-se no centro do jardim em pleno outono Endulos, olhando para o céu sem estrelas de uma noite com uma Lua tão bonita. Olhando para cima ainda, apenas viu os dragões mortos pousando e atacando as muralhas, derrubando os atiradores no solo. Quando estava para fechar os olhos, fatigado, algo o tirou do solo. Uma mão o segurou pelo pescoço, levantando-o acima de seu rosto. Essa mão era do senhor encapuzado.
–... O quê...? – Ainda tentou dizer algo, com a respiração fraca.
– O dia do general será hoje – Disse o ser, com voz de homem comum. Grossa, mas de homem, jogando Endulos contra a muralha.
Endulos gemia e olhava para a sombra que tinha sido feita pelo capuz. Aquele buraco negro que tapava os olhos daquela criatura, aquela escuridão que enchia os olhos do general de medo e curiosidade. Seu pescoço estava sendo prensado contra a muralha de pedra, enquanto seus olhos saltavam para fora das órbitas e seu rosto ficava vermelho. Ele resistia segurando na mão fria daquele ser, mas ele apenas segurava o seu pescoço e o apertava, o unhava.
– Onde está o senhor das armas dessa Ordem...? – Perguntou o senhor encapuzado, jogando Endulos no meio do jardim, que caiu de cabeça nas folhas e flores que haviam se espalhado por ali –... Reconhece minha voz, senhor dos exércitos?
– O quê? – Apoiou-se com as mãos o seu corpo ferido, olhando atentamente para o outro, o rei dos necromantes – Eu... Sei quem é você?
Ouviu-se uma risada. Uma risada que parou o jardim naquele momento. Parou toda a Planície, parou todo o mundo. A mão foi lentamente ao rosto, segurando no pedaço de pano negro que cobria o rosto. Um rosto saiu daquilo que parecia uma cova escura, um rosto de homem, homem mortal. Imediatamente Endulos arregalou os seus olhos, olhos castanhos bem claros. Sua garganta gritou seca, gritou com um pouco de angústia, de dor e de surpresa:
–... Falnus?
O homem olhou para o céu. Seus olhos estavam vermelhos. Sua boca abriu em um sorriso um tanto demoníaco, mostrando alguns caninos maiores que os demais dentes. Seus olhos vermelhos arregalaram-se. Uma chuva fina começou. Não houve relâmpagos como os filmes belíssimos de grandes vilões. Apenas uma chuva fina e serena. O homem levantou as mãos para o alto e as enxaguou com a água da chuva, limpando as manchas vermelhas de sangue. Ele secou a mão na túnica que vestia e olhou diretamente para os olhos de Endulos. Esse estava lá, sentado como um coelho no meio da grama.
– É Goshnar.
Foram as únicas palavras do homem, ao ir caminhando em direção ao “coelho”. Coelho, porém, poderia ser algo vulgar demais para ele. O homem ajoelhou-se em sinal de referência a Endulos, abaixou a cabeça. Ah, a cabeça. Endulos olhou para ele de um jeito estranho, da mesma forma que um garoto olha para um dragão gigante. Os dragões estavam ali perto, parados como estátuas, moinhos-de-vento. Até pode ser que eles sejam moinhos-de-vento, não? Imediatamente, o homem que estava ajoelhado levantou sua mão e, num súbito, segurou o pescoço de Endulos, perfurando sua garganta. Ele gritou, gemeu, mas a estada no solo mortal parecia mais curta naquele momento.
– Que os deuses recebam o general da Ordem de braços abertos – E o homem arrancou uma espada de algum lugar, algum lugar que não conhecia o valor ao suspiro, apontando-a para a testa da criança em suas mãos.
Sim, pura criança.
E a lâmina entrou na cabeça de Endulos e ele morreu. Todos os seus sentimentos sumiram. Houve poucos sentimentos durante sua estada. Houve poucos sentimentos depois de sua partida. E o mundo calou-se para ouvir o último ressoar da trombeta.
Os ponteiros do relógio pararam e o mundo acabou.
Não há mais história a partir daqui.
Não há histórias sem mocinhos, não há lendas sem heróis.
E esse foi o fim dos tempos, o tempo que a Babel não conseguiu prever.
A brincadeira acaba aqui.
Fim.
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Não se engane, padawan.
Ainda temos muito o que fazer...







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