Resultados 1 a 5 de 5

Tópico: Historie: coletânea de contos

  1. #1
    Avatar de Edge Fencer
    Registro
    06-09-2016
    Localização
    Vitória
    Posts
    342
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas CitizenEstagiário
    Prêmios Abóbora Framboesa - Participante no concurso Divinos Doces e Terríveis Horrores I
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão Historie: coletânea de contos

    Opa. Enquanto eu tento recuperar o ânimo pra terminar as coisas que deixei pela metade aqui na seção, resolvi escrever uns contos pra recuperar a forma e desenferrujar minha escrita (ta foda bicho, meses sem abrir o word hahaha).

    A ideia inicial é que cada conto dure 1 capítulo só e que cada um deles seja independente. Caso algum precise de mais capítulos pra ser desenvolvido eu avisarei, mas essa não é a intenção. Ah, e eles serão fortemente influenciados pela obra do brilhante Inio Asano (Solanin e Subarashii Sekai, mais especificamente).

    Espero que se interessem em ler e, caso lerem, espero que gostem. Boa leitura!



    ~~



    HISTORIE



    ÍNDICE:

    Prólogo: neste post;
    Primeiro cenário: Marionetes neste post;
    Segundo cenário: O salto;



    Prólogo

    Historie: do alemão, termo que é usado genericamente como significado de "história", mas em sua origem se refere a "narrativa daquilo que aconteceu". É um termo poético, subjetivo, plural. Historie é o cotidiano, os lugares, as pessoas. Também é os acontecimentos, tragédias, conquistas, batalhas. Historie é a vida, é você, sou eu. Acima de tudo, é a forma como as histórias são contadas. O objetivo dessa coletânea é tentar se aproximar ao máximo desse conceito: retratar a vida, as pessoas e tudo o que acontece em volta delas. Se há algo a ser narrado, historie estará presente.




    ~~




    Primeiro cenário: Marionetes



    O homem secou o suor da testa com as costas da mão. A chuva fina do lado de fora da casa trazia consigo o cheiro aconchegante de terra molhada; porém, a situação ali era tudo, menos aconchegante. Ele olhou de relance para o garoto desmaiado a alguns metros dele – ele deveria ter no máximo cinco anos. “Preferia não ter que nocautear crianças”, pensou, balançando a cabeça negativamente e desviando o olhar.

    — Arrependido, senhor?

    O homem voltou sua atenção para a mulher agachada ao seu lado. A senhora, já num caminho bem avançado para a terceira idade, vestia roupas simples e bem limpas, e tinha uma expressão neutra e apática no rosto. Ela era uma espécie de governanta da casa, responsável desde a faxina até a criação do garoto. Com a ausência dos patrões naquele dia, apenas ela e a criança estavam na casa além do homem.

    — Eu não faria isso se o garoto ficasse calado. Não tive escolha.

    — Você não tem que se justificar com uma simples refém como eu, senhor.

    O homem bufou, desviando o olhar dela. Odiava ter que manter pessoas em cárcere, mas ele precisava fazer aquilo. “Será que ele já entrou?”, pensou, observando o céu escuro da noite pela janela entreaberta ao lado deles.

    Ele agora se lembrava do momento em que seu comparsa havia contado a ele sobre o plano. Vivendo numa pequena vila portuária ao nordeste de Carlin por algumas semanas, os homens conseguiram coletar informações suficientes sobre os moradores para montarem estratégias e possíveis alvos. O comparsa então veio com um plano ousado: aproveitando que a guarda da cidade era formada majoritariamente por jovens sem muita experiência em crimes, um deles invadiria uma casa e manteria os residentes como reféns, assim chamando toda a atenção dos guardas e da população, enquanto o outro invadiria outra casa e roubaria tranquilamente o que quisesse.

    O homem foi convencido a fazer o papel mais perigoso, afinal, seu comparsa também era seu grande amigo de infância. O outro prometeu que daria um jeito de salvá-lo após realizar o roubo. O homem duvidava, mas não conseguia recusar nada para o comparsa. Assim, ele acabou naquela situação: Numa das maiores casas da vila, agredindo uma criança, mantendo uma senhora como refém e com dezenas de guardas ao redor do lugar, hesitando para tomar alguma atitude.

    — Senhor...

    A mulher seguia com o semblante inerte, mas seus olhos passavam uma leve expressão de curiosidade.

    — O senhor tem alguma experiência com assaltos?

    O homem refletiu por alguns instantes. “A resposta é não. Mas eu...”, pensou.

    — Alguma.

    — Entendo. Achei um pouco estranho o senhor não ter roubado nada. E não parece que tem alguém te ajudando.

    A mulher estava certa, mas o homem não pôde deixar de se sentir frustrado. Era única e exclusivamente uma isca. Uma isca que agride crianças e senhoras.

    — Posso ser inexperiente, mas esses guardas são mais. — Disse, tentando manter a expressão calma. — Se fossem bons já teriam invadido e me prendido.

    O homem ergueu o corpo lentamente, se aproximando um pouco mais da janela para tentar observar a formação dos soldados. Esticou a cabeça por alguns instantes, recuando-a bruscamente assim que uma flecha atirada por um dos guardas passou a pouquíssimos centímetros de seu rosto.

    — Pelo visto a mira deles não depende de experiência.

    O homem, ofegante, voltou a se abaixar para a posição que estava; aos poucos foi normalizando sua respiração. “Ela tem razão. Subestimei demais esses guardas.”, pensou. Por vários minutos em seguida o silêncio tomou conta do ambiente. O som da movimentação dos soldados do lado de fora podia ser ouvido claramente, mas dentro da casa ninguém fazia nenhum barulho. O homem começou a ficar ansioso, incomodado com o clima tenso.

    — Senhor...

    Ele virou o rosto para a direção da senhora, indicando com a cabeça para que ela prosseguisse.

    — O senhor não vai mesmo roubar nada?

    O homem suspirou. Não tinha nenhuma razão para contar o plano para ela, mas também não havia nada que o impedisse de dizer. Para tentar amenizar a pressão do ambiente, resolveu falar. A senhora escutava atentamente a história do plano, mas seu rosto seguia inexpressivo.

    — Você não parece ser um homem tolo o bastante para acreditar que vai conseguir escapar livre daqui. — A senhora voltou o olhar para o homem, arqueando as sobrancelhas e balançando a cabeça suavemente para os lados. — Seu comparsa te sacrificou, senhor.

    O homem desviou os olhos da mulher, virando-os para cima e observando a escuridão quase absoluta que havia na altura do telhado da casa. Manteve-se em silêncio por alguns segundos, respirando lentamente, até que fechou os olhos e abriu um pálido sorriso de canto.

    — Eu sei.

    Sua voz soou tão débil quanto o semblante que ele assumia no momento. A senhora ouviu aquelas palavras com um longo suspiro, voltando em seguida a assumir a expressão neutra que a acompanhava durante todo o cativeiro.

    Outro período de silêncio se estendeu entre os dois, enquanto do lado de fora da casa os guardas seguiam tentando se organizar para dar uma resolução ao cárcere da mulher. O homem agora observava firmemente a pequena fresta da janela que o permitia ver algo de fora sem arriscar-se a ficar na mira das flechas dos guardas, mas tudo o que era possível enxergar dali eram os pés impacientes de alguns poucos soldados da linha de frente. Tentou estimar rapidamente se seu comparsa já estaria finalizando o roubo e saindo de cena, mas ele não sabia ao certo há quanto tempo os guardas estavam ali; decidiu que seguraria aquela situação o máximo possível. “Melhor errar pra mais do que pra menos, nesse caso”, pensou.

    — Então. Eu acho que já sei por que não estou com medo.

    A súbita quebra de silêncio que a fala calma da senhora trouxe afastou o homem de suas conjecturas. Ele se limitou a observar a mulher com olhos inquisidores, inclinando a cabeça levemente e aguardando que ela concluísse o raciocínio.

    — Sabe, eu tenho... — ela interrompeu a fala bruscamente, assumindo em seguida um tom de voz mais sóbrio — tinha um filho. Era um bom rapaz, mas sonhava alto demais. Resolveu que seria soldado e, já que o exército de Carlin não recruta homens, foi tentar a sorte em Thais. Conseguiu entrar para a tropa só pra ser morto por um bando de orcs em sua primeira batalha. — Seu semblante murchava como uma planta fora do vaso a cada palavra dita. Ela fez uma longa e reflexiva pausa após a última frase, seus olhos pesados fitando o chão de forma dispersa.

    — Continue. — O homem disse, curioso com a mudança de atitude da mulher.

    Ela o olhou de relance, logo desviando o olhar novamente. Ajeitou-se no chão e apoiou seu rosto na parede, como que tentando encontrar as palavras para continuar.

    — Hoje a noite é o funeral dele em Thais. — Disse finalmente, com a voz retraída e baixa. — Meus patrões também estão na cidade para um baile na casa de algum nobre de lá. Disseram que gostariam muito de me levar para despedir-me do meu filho, mas a criança deles teria que ficar aqui. Eu não posso deixá-lo sozinho, eles disseram. O garoto só fica quieto comigo, eles disseram. O túmulo do meu filho vai continuar lá para sempre, posso vê-lo a qualquer hora que puder, eles disseram. Sim, senhora... Eu disse.

    O homem ouvia atentamente as palavras densas que a senhora dizia, sentindo o peso de cada uma delas nos sentimentos daquela mulher. Era raro para ele sentir empatia com outras pessoas, mas, naquela situação, era como se ele conseguisse entender perfeitamente a angústia que ela carregava consigo. Desviou o olhar dela, coçando a cabeça e refletindo se deveria dizer algo naquele momento.

    — Seus patrões são uns desgraçados.

    Para a surpresa do homem, a mulher riu breve e nervosamente após ouvi-lo.

    — Eu sei. — Ela manteve o sorriso débil e baixou ainda mais o tom de voz.

    O homem não conseguiu evitar assumir uma expressão de piedade, e preferiu não olhar diretamente para a senhora. “É isso”, pensou, “nós somos iguais”.

    Do lado de fora parecia que finalmente a impaciência dos guardas havia superado a falta de experiência dos mesmos. O som de passos e vozes diversas deixava claro que eles estavam mudando a formação, talvez se preparando para invadir a casa a qualquer momento. O homem franziu o cenho, levantando-se com cuidado para não ficar exposto e tentando ter uma visão melhor dos soldados. “Merda”, pensou, “ainda está cedo demais”. A mudança de posição não o ajudou em nada: ele seguia praticamente às cegas quanto aos movimentos dos guardas. Tendo apenas a audição como aliada, o homem ainda conseguiu perceber que os soldados se aproximaram da casa, embora ainda hesitassem para invadir. “Se eu estivesse numa cidade grande já teria sido pego há muito tempo”, refletiu, sentindo-se um pouco aliviado com o tempo que ganhou pela indecisão dos guardas; porém, esse tempo não duraria muito mais.

    Desistindo de ver algo pela janela, o homem encolheu-se na parede, sentindo que agora só poderia aguardar e ser capturado, além de torcer para que seu comparsa tenha terminado o roubo a tempo.

    — Senhor.

    A tensão havia feito com que ele se esquecesse momentaneamente da mulher. A voz dela retornara ao tom calmo de antes, e trouxe de volta a atenção do homem.

    — Ainda dá tempo de melhorar sua situação.

    — Melhorar? — O homem franziu as sobrancelhas, confuso e ansioso ao mesmo tempo.

    — Sim. É melhor se entregar antes que eles precisem invadir e acabem te matando.

    — Não. Eu tenho que ganhar o máximo de tempo possível para...

    — Seu comparsa escapar. Eu sei. — A mulher o interrompeu, seu rosto tinha uma expressão firme e resoluta. — Você não precisa fazer isso.

    Ele não conseguiu responder imediatamente às palavras da senhora. Parte dele concordava com a mulher e tinha consciência de que não era sábio continuar com aquilo. Outra parte simplesmente não cogitava a possibilidade de trair seu comparsa, mesmo que o próprio houvesse traído primeiro. Elas estavam em conflito naquele momento. O homem olhava para várias direções alternadamente, sem focar em nada específico; confusão era o que sintetizava seu rosto.

    — A gente sai por aquela porta e você denuncia o roubo do seu comparsa. Tenho certeza que vão diminuir sua pena com isso.

    — Eu... Não consigo. — Sua expressão confusa se alterou para um sorriso amarelo. Ele cruzou os braços e fitou a mulher com um olhar sem brilho, inerte. — Eu vou esperar até invadirem e ganhar o máximo de tempo que der pra ele escapar. No fim, eu sou apenas uma marionete dele. Patético, não?

    A senhora, pela primeira vez desde o começo do cárcere, sorriu sinceramente para o homem.

    — Não... Tudo bem. Não se culpe por isso.

    O homem, mais uma vez surpreendido pela reação da mulher, sorriu involuntariamente de volta para ela.

    — Sabe... Eu vou tentar conversar com os guardas. Ao menos posso conseguir que poupem sua vida, rapaz. — Ela mantinha o sorriso, seu tom de voz agora era quase maternal.

    O homem relaxou o corpo com as palavras gentis que recebeu. Retribuiu o sorriso da melhor forma que pôde, e voltou a desviar o olhar para cima. A noite havia se clareado um pouco, e alguns tímidos feixes de luz da lua atravessavam as frestas do telhado da casa. “Talvez ainda haja esperança”, pensou.

    — Depois de tudo a vida me manda essa... — Disse, voltando o olhar lentamente para a direção da mulher. — Senhora, obriga...

    Ele não conseguiu terminar a frase. A senhora aproveitou-se do seu momento de distração e jogou o corpo na direção do homem, empurrando-o para frente da janela e, consequentemente, para a mira dos soldados. Dois segundos bastaram para um dos guardas reagir. Não bastaram para o homem entender o que houve e se mover dali. Quando deu por si, já havia flechas atravessadas em seu peito.

    A mulher se abaixou, aproximando-se do corpo caído do homem. O som de passos mostrava a ele que os soldados entrariam em poucos instantes para concluir o resgate: era fim de jogo. A senhora aproximou-se do rosto dele, seu semblante voltara a ser impassível e sóbrio como esteve na maior parte do cativeiro.

    — Perdão. — Ela sussurrava. — Eu sou tão patética quanto você. Não consigo perdoar alguém que invadiu a casa dos meus patrões e agrediu a criança deles. Posso odia-los, mas... Eu não consigo. Nós somos iguais, senhor. Adeus.

    A consciência do homem aos poucos desaparecia, e sua visão embaçada só enxergava a sombra da mulher se afastando lentamente. Pensou no passado, de sua infância, de seu amigo... “Desde quando ele deixou de ser meu amigo e virou meu comparsa?”, pensou, sentindo-se ridículo por pensar algo assim em seus últimos momentos. “Espero que ele consiga”. Num último fôlego, conseguiu dizer algo para a mulher, mesmo sabendo que ela não o ouviria.

    — Obrigado...



    ~~

    Publicidade:
    Última edição por Edge Fencer; 12-05-2018 às 21:50. Razão: Atualização do índice
    Son of a submariner!

  2. #2
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
    Registro
    23-03-2012
    Localização
    São Paulo
    Posts
    2.191
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenAdepto do OffCríticoDebatedor
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Belo retorno, Edge. Gostei desse conto, interessante como você conseguiu desenvolver uma simples situação de conversa entre refém e sequestrador dessa maneira, só dessa conversa dá pra entender melhor a personalidade de ambos e de como são parecidos. E o final foi bem surpreendente, não tava esperando por isso, muito menos esse sequestrador. Heheh.

    E o que te levou a ficar esse tempo todo ausente da seção? Tem que continuar Leon O Covarde, cara. Parou numa ótima parte.

    Em tempo:

    — Eu sei. Ela manteve o sorriso débil e baixou ainda mais o tom de voz.
    Deslize que normalmente acontece com a gente, mas ajeita aí.


    Aguardo os próximos contos. E mantenha-se na seção, ela tá precisando de mais pessoas.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~ Bloodoath ~ ◉ ~~ ◉

  3. #3
    Avatar de Neal Caffrey
    Registro
    27-06-2006
    Idade
    26
    Posts
    2.991
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Adepto do OffSagaz CitizenMain CitizenCrítico
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Grande Edgar! Parabéns pelo retorno e, diria, triunfante.

    Acabei de comentar com o Carlos no privado e vou repetir: fiquei muito satisfeito ao perceber o quanto a sua escrita se assemelha à minha. Identifiquei algumas linhas no seu texto que me lembram a minha própria forma de escrever. E esse ambiente, à la "La casa de papel", cria uma sistemática interessante pra um kick-off. Diria mais: o prólogo, como foi construído, destoa um pouco dos costumes da seção. Gosto. Em outras palavras, quanto mais variações tivermos, melhor. Não é todo dia que vemos um conto ambientado em Northport, especialmente considerando diferenças entre castas sociais em Thais, Carlin e sua administração. Foi uma grande sacada.

    É uma pena que o imbecil tenha dado vazão à Síndrome de Estocolmo. Quase nunca acaba bem. Exceto pra Monica e Denver, talvez. Pro Berlin, não foi muito interessante, e pro nosso protagonista/antagonista, tampouco.

    Em tempo: fico feliz de ver uma nova história nascer na nossa devastada seção. Carlos e eu conversamos com frequência a respeito disso, especialmente pelo fato de que somos capazes de sustentar o que sobrou de nós, se mantivermos o nosso ritmo. É bom ver a postagem de uma história nova, especialmente quando todas as atenções encontram-se focadas num só tópico e as histórias têm sido sistematicamente relegadas e deixadas de lado.

    Conte com a minha presença sempre. Embora não fale pelo Carlos, estou certo de que ele se sente da mesma forma.

    []'s
    Última edição por Neal Caffrey; 01-05-2018 às 12:00.
    O Exorcismo de Alyssa Amber
    Acompanhe o piloto do thriller mais recente da seção Roleplay!

    Jason Walker e o Patrono do Apocalipse

    Acompanhe a quinta e última história de Jason Walker na seção Roleplay!

  4. #4
    Avatar de Edge Fencer
    Registro
    06-09-2016
    Localização
    Vitória
    Posts
    342
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas CitizenEstagiário
    Prêmios Abóbora Framboesa - Participante no concurso Divinos Doces e Terríveis Horrores I
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão Segundo cenário: O salto.

    Spoiler: Comentários passados


    Segundo cenário: O salto



    O brilho intenso dos sois num céu sem nuvens cobria completamente a área de uma pequena zona rural a leste de Thais. Se dentro dos muros da capital do reino a cidade era efervescente e movimentada, seus arredores eram marcados pela pobreza, pela vida monótona e pela constante insegurança a respeito de bandidos, trolls e todo tipo de criatura hostil que habitava as planícies daquele continente.

    Numa dessas pequenas áreas miseráveis, numa fazenda quase completamente improdutiva, dois jovens irmãos terminavam a confecção de um rústico caixão, usando lascas de troncos e palha torcida.

    A garota, mais velha, tinha cabelos loiros tão pálidos quanto a palha que cobria a base do caixão, além de usar roupas surradas e cheias de remendos; seus olhos, no entanto, eram grandes, negros e brilhantes. Com seus apenas quatorze anos, precisava enterrar o próprio pai e assumir o controle da fazenda. Apesar da situação pesada, ela mantinha a expressão firme e se concentrava agora em acomodar o caixão num buraco previamente cavado, cobrindo-o de terra com a ajuda de uma pequena pá.

    — Mana, que que a gente vai fazê?

    O irmão mais novo era um garoto franzino e de pele bem clara, uns três anos mais jovem que a irmã. Suas roupas eram tão surradas quanto as dela, e seus cabelos eram negros, num tom idêntico ao do seu falecido pai.

    A garota olhou de canto para o irmão, mas continuou no ritmo lento com o qual enterrava o caixão improvisado. O menino tinha os olhos inchados e avermelhados pelo choro, e seu pequeno corpo parecia ainda mais mirrado e encolhido do que de costume.

    — Chora tudo agora, mano. Daqui pra frente é só nois dois sozinho. — A garota tentava manter sua postura firme, mas a voz engasgada e as mãos trêmulas que seguravam a pá mostravam o contrário.

    — Tá. — O menino tentou imitar a irmã, secando as lágrimas e ajudando a jogar terra na pequena cova com as próprias mãos nuas. No entanto, seu corpo era mais sincero ainda quanto aos seus sentimentos, e logo a terra abaixo dele ficou úmida com suas lágrimas.

    — Deixa que eu termino aqui. Vai comê alguma coisa, saco vazio num para em pé.

    Em silêncio, o garoto obedeceu a irmã. Dando uma última olhada para o pedaço do caixão que ainda estava à vista, ele se levantou e saiu andando lentamente. A garota, assim que o menino saiu de seu campo de visão, deixou grossas lágrimas rolarem no seu rosto, enquanto cavava a terra com mais força.

    O garoto pegou um dos raros pedaços de pão minimamente comestíveis na despensa e subiu no telhado por uma abertura entre as telhas, sentando-se na beirada com as pernas suspensas. Do outro lado daquele telhado, na mesma altura, mas separado por um vão, ficava o teto de um antigo galinheiro, que naquele momento só guardava a pequena produção de milho que a fazenda teve na última colheita. O menino e sua irmã costumavam tentar pular de um telhado para o outro, aproveitando-se que as construções eram baixas e o chão era de terra fofa, tornando as quedas seguras. Nunca, porém, eles conseguiram atingir o outro teto com um salto apenas.

    Ainda em meio às lágrimas, o menino terminou de comer o pão seco, forçando-se a engolir cada pedaço dele. Depois, retirou do pescoço um cordão de prata que seu pai costumava usar, o qual era o único bem de algum valor que eles possuíam; a luz solar refletia nos elos do cordão, maximizando seu brilho. Ele observava aquele objeto de forma fixa, a luminosidade dele agindo de forma quase hipnótica na mente do garoto. Seu fascínio era tão forte que ele quase não percebeu alguém subindo até o telhado.

    A garota subiu rapidamente pela abertura, colocando-se de pé e com a cabeça abaixada no lado oposto ao que o menino estava sentado.

    — Mana?

    O menino, com a voz fraca, tentou chamar a atenção da irmã, mas ela não pareceu escutar. A garota cerrou os punhos e, de forma bem ágil, correu todo o comprimento do telhado em um segundo, saltando um momento antes de seus pés tocarem a última telha, ao lado do irmão. O menino observou, surpreso, o instante em que a irmã tocou a ponta dos pés no limite do telhado do lado oposto, endireitando o corpo e se colocando de pé sobre as telhas, triunfante.

    — A gente vai dá conta, maninho. O pai vai tê orgulho da gente de onde ele tiver, pode apostá! — A menina disse, enquanto erguia a cabeça na direção do irmão, os olhos ainda cheios de lágrimas e um sorriso largo brotando no rosto.

    O menino, ainda bestializado pela irmã ter saltado tão longe pela primeira vez, enxugou as lágrimas com a manga da camisa, forçando um sorriso e acenando positivamente com a cabeça para ela.


    ~~


    Dois anos depois...


    — Vai demorá dessa vez, mana?

    — Nada. Três dia e eu tô de volta, maninho. Cuida dos milho direito.

    — Tá. — O garoto disse, enquanto tirava a corrente de prata do seu pai do bolso e a colocava em volta do pescoço da irmã. — O pai vai cuidar docê.

    A garota sorriu, passando a mão na cabeça do irmão de forma suave, e logo depois se virou, seguindo a estrada que ia em direção a Thais.

    O menino observou a silhueta da irmã até ela desaparecer no horizonte com o coração apertado. Desde que o pai dos jovens morreu por uma doença súbita, a mesma que levara a mãe deles alguns anos antes, a garota buscava fundos para sustentá-los de uma forma perigosa: trabalhando para um grupo de mercenários. De tempos em tempos ela saía em missões, ora a serviço do governo de Thais, ora para organizações obscuras. Mesmo que ela sempre tenha voltado ilesa, o garoto não deixava de ficar aflito todas as vezes que via a irmã saindo para os serviços.

    — Num adianta pensá nisso. Logo ela volta. — O menino disse em voz alta, como que tentando se convencer daquilo que falava.

    O céu estava nublado naquele dia. Por alguma razão o menino gostava daquele clima encoberto, por isso foi para o telhado de casa observar o céu. As nuvens eram tão densas que ele não conseguia distinguir onde uma começava e a outra terminava, porém o ar não transparecia que iria chover em breve. “Pai, manda uma chuvinha pra gente aí. Os milho tão precisando”, o garoto pensou, enquanto olhava para as nuvens com o rosto esperançoso. Depois que se cansou de observar o céu, o menino levantou-se, andando até a borda oposta do telhado e se virando, encarando o teto do galinheiro do outro lado do vão.

    Ele ajeitou o corpo e correu na direção do vão, pegando impulso e saltando em busca de alcançar o outro lado. Entretanto, como aconteceu todos os dias desde que sua irmã conseguira o feito, ele falhou, caindo desajeitadamente na terra fofa logo abaixo.

    — Ainda tô um ano mais novo que ela quando deu conta de pulá. Uma hora consigo. — Ele disse em voz alta, rindo da própria falha enquanto ajeitava o corpo na terra. Ele adormeceu ali mesmo, sentindo-se mais tranquilo quanto à saída da irmã.

    Semanas se passaram. A colheita de milho, graças ao bom volume de chuvas, foi surpreendentemente farta naquela estação; o pai dos jovens atendera bem ao desejo do filho. Entretanto, a garota ainda não havia voltado.

    O menino, quando não estava cuidando da colheita, passava os dias e noites a fio sentado no telhado, observando o mesmo horizonte por onde vira sua irmã pela última vez. Já havia chorado todas as lágrimas que possuía e perdido quase todas as esperanças de ver a irmã novamente, mas seguia ali, aguardando por ela.

    Num dia ensolarado, o clima idêntico ao dia da morte de seu pai, o menino finalmente viu uma silhueta se aproximando por aquele caminho. Logo ele notou que não era sua irmã, mas sim um homem de meia-idade de aparência rústica e mancando de uma perna. O garoto desceu dali de forma lenta, indo ao encontro do visitante com a expressão inerte.

    O homem se apresentou como o líder do grupo de mercenários que sua irmã fazia parte. Pelo seu relato, a última missão foi mal sucedida, e a maior parte dos membros acabou morta. Sua irmã não foi uma das exceções. O menino ouvia aquilo de forma apática, parecendo já saber cada uma das palavras que o homem dizia, porém, um objeto brilhante que o homem retirou do bolso fez com que seus olhos lacrimejassem.

    — Ela pediu pra te entregar antes de morrer. — O homem disse de forma indiferente, entregando o cordão de prata para o garoto e logo se afastando. — Boa sorte, moleque. Seja forte igual sua irmã. — Ele acenou e seguiu lentamente pelo mesmo caminho por onde chegara.

    O menino ficou parado ali por vários minutos. O sol potencializava o brilho daquele cordão que ele pensou que nunca mais veria, e agora estava em suas mãos. Mesmo com a confirmação da tragédia que no fundo ele já previa, a simples presença daquele objeto aqueceu seu coração. O garoto secou os olhos e seguiu de volta para o telhado.

    Ele ficou de pé sobre as telhas, olhando fixamente o telhado do galinheiro além do vão. Atrás dele era possível enxergar a silhueta do homem que trouxera o cordão desaparecendo lentamente. O garoto fechou os olhos e respirou fundo. Segurando o cordão firmemente, correu o mais veloz que pôde na direção da borda do teto. Sem abrir os olhos, ele parecia sentir a presença de cada telha ali como se fossem velhas conhecidas, indicando o caminho para ele. O garoto saltou, num impulso quase desproporcional ao seu corpo franzino, mas não aterrissou firmemente no outro lado; seus pés tocaram as telhas, mas escorregaram. Ele não desistiu. Jogou o corpo contra a parede, esticando os braços ao máximo e agarrando-se com força nas telhas da beirada. Num impulso, jogou o corpo para cima, quebrando as telhas onde havia segurado, mas conseguindo se alçar para o teto.

    Ofegante, ele deixou o corpo dolorido se esparramar sobre o telhado, abrindo os olhos lentamente. A luz ofuscante dos sois machucou-os, fazendo com que ele lacrimejasse. Mas o menino sorriu. O sorriso mais sincero desde a morte de seu pai.

    — Tá vendo, mana? — Ele disse, com a voz trêmula, enquanto erguia o cordão de prata para cima, na direção do sol. — Eu também consigo!


    ________
    Son of a submariner!

  5. #5
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
    Registro
    23-03-2012
    Localização
    São Paulo
    Posts
    2.191
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenAdepto do OffCríticoDebatedor
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Peguei achando que era sobre suicídio

    Ótimo conto Edge, sua escrita está boa, segue no ritmo que é sucesso. Aparentemente, você lê bastante, então sua escrita não será muito afetada se ficar muito tempo sem escrever. Mas cuidado pra não folgar.

    Gostei do diálogo informal que os irmãos tem, você fazia o mesmo em Leon O Covarde, mas a maneira de como estava me incomodava um pouco. Tudo ficava entre aspas e não funcionava muito bem. Devo ter falado algo a respeito de como não é exatamente uma boa prática.

    Enfim, segue com os contos. Ah, se está curtindo Bloodtrip, Bloodoath será ainda melhor.








    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~ Bloodoath ~ ◉ ~~ ◉



Tópicos Similares

  1. Mini-Coletânea de joguinhos velhos!
    Por Sirm~ no fórum Fora do Tibia - Off Topic
    Respostas: 26
    Último Post: 05-11-2007, 04:54
  2. [Taverna] Coletânea de vidios de batidas
    Por Guiigg no fórum Fora do Tibia - Off Topic
    Respostas: 4
    Último Post: 03-12-2006, 22:42
  3. Antologia de Contos e Crônicas do TibiaBr
    Por Augustus Sigma no fórum Roleplaying
    Respostas: 25
    Último Post: 23-06-2006, 20:40
  4. Coletânea de Videos Annihilator !
    Por Rising Power no fórum Tibia Videos
    Respostas: 18
    Último Post: 17-11-2005, 19:25
  5. Coletâneas de Videos (rec.)
    Por Samaritanu no fórum Tibia Videos
    Respostas: 22
    Último Post: 28-06-2005, 03:40

Permissões de Postagem

  • Você não pode iniciar novos tópicos
  • Você não pode enviar respostas
  • Você não pode enviar anexos
  • Você não pode editar suas mensagens
  •