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Tópico: Bloodoath

  1. #11
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
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    Padrão Capitulo 3 - Akumonogatari II

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    Caralho, que desgraça. Quando eu tinha começado a gostar do personagem, você o matou. Infeliz.

    Este é um capítulo bastante reflexivo, afinal. Redeater deambula por alguns aspectos interessantes da própria consciência e consegue extrair algumas boas informações de Lana, mas ela é muito vaga, mesmo assim. Fica um quê melancólico nesse final. No fim das contas, parece a estadia do detetive em St. Olias vai se estender por mais tempo do que ele gostaria, ainda mais agora que ele se afeiçoou com uma das pacientes e, repentinamente, ela apareceu morta.

    No mais, parece um capítulo que cumpre com as suas expectativas. Ainda introdutório, como os demais, mas parece já fornecer feições para a história.

    Em tempo: sua escrita com relação ao capítulo anterior evoluiu. Apenas alguns pequenos pontos com relação à norma culta, mas, afinal, é bom não engessar o texto. Fluido no que precisava ser e preciso no que dependia dele. Dou-lhe os parabéns pela evolução.

    Mais: existe uma certa qualidade nos seus textos que gostaria que os meus tivessem também. É que, sempre que formulo uma fala, sinto a necessidade de descrever a reação dos personagens em tempo real. Por exemplo:



    Entende o que quero dizer? Teria sido suficiente se fosse tão somente:



    O problema é que não consigo fazer isso. O fato de que você consegue me faz refletir sobre como, especificamente. Gostaria de ter essa habilidade.

    No mais, aguardo pelo próximo, irmão.

    Abraço!
    Cara, a respeito da habilidade, eu sempre foco em deixar o imaginativo do leitor trabalhar em certas cenas, os diálogos são onde isso está mais evidente. Embora eu goste de descrever tudo, as vezes é bom deixar o leitor imaginar, de forma que ele consiga imergir com mais facilidade na história.

    Redeater ficará algum tempo no manicômio, mas acredito que logo ele o deixará. E como eu disse, essa história terá um caráter mais investigativo, então não acho interessante esperar ação e sangue jorrando em breve como na história anterior. Só espero que isso não a comprometa.

    E eu ainda vou ver você reclamando de personagens morrendo assim muitas vezes


    Agradeço a presença irmão, tamo junto.












    Vamos seguindo com o mistério de St. Olias. Esse capítulo está um pouco mais curto que os demais, mas isso é apenas um teste. Quero que digam suas impressões sobre, se devo continuar dessa forma.


    Espero que gostem!



    No capítulo anterior:
    Redeater encontra a mulher peculiar de cabelos negros e conversa com ela. Ele tenta conseguir mais informações sobre ela com o gerente, apenas pra perceber que nem ele conhece muito a respeito dela. Quando ele decide ir atrás dela, acaba a encontrando num quarto sendo despedaçada por uma criatura estranha.





    Capítulo 3 – Akumonogatari
    Parte 2




    O detetive se vê em dúvida.

    Ele está agora no pátio do manicômio, no fundo deste, reunido com vários outros pacientes mais moderados. No dia anterior, ele entrou numa sala e viu o que parecia ser Lana sendo devorada por uma criatura enorme, mas ao invés de entrar lá, sua mente pareceu ter sido controlada, e ele foi dirigido até o seu quarto sem que ele percebesse. Quando recuperou o controle do seu corpo, ele foi até lá de novo, mas não encontrou a sala.

    Desde então, ele esteve pensando no que viu. Aquilo é certamente incomum pro que ele tem lidado nos últimos anos. Parece mais um caso de um manicômio cheio de anormalidades e bizarrices, com fantasmas e ilusões esquisitas por toda parte, e não um caso envolvendo o Credo de Sangue.

    Com tantas dúvidas, não resta opção senão ir ver Uldin novamente e perguntar sobre pacientes semelhantes à Lana. Ele não considera explicar o que aconteceu, entretanto.

    Ao chegar na sala, ele sente uma energia estranha devorar seu corpo por apenas um segundo. No seguinte, ele percebe algo diferente lá dentro.

    Uldin não está na sua cadeira atrás da escrivaninha. Ao invés disso, há um homem peculiar logo ao lado dela. Negro, de idade avançada, possui uma barba branca pra fazer, cabelo há muito vitimado pela calvície, mas mantendo-se de pé, e usa uma camisa do campo simples, junto de uma calça com suspensórios, ambos escurecidos pelo tempo. Parece um trabalhador comum do campo, mas não há motivo para alguém assim estar ali.

    O detetive mantém sua aparência de Joseph, e agradece a coisa misteriosa que o fez pensar que era melhor esperar chegar na sala antes de despir-se do seu disfarce.

    — Você não é o gerente Uldin. — Dispara sem rodeios Joseph, com um olhar inquisitivo.

    O velho vira a cabeça à sua direção com uma expressão desinteressada.

    — Talvez eu tenha me perdido um pouco.

    Joseph nota seus olhos. O homem é cego.

    — E você também não parece ser daqui.
    — Como eu disse, me perdi um pouco.
    — Um pouco? Tem certeza?
    — Sim. Assim como você.

    Joseph não entende direito o significado dessa resposta e decide ignorá-la.

    — Onde está Uldin?
    — Clark Uldin... Ele é meu amigo. Disse que ia visitá-lo hoje, mas ele saiu para a cidade. Não apareceu nenhum funcionário aqui desde então.
    — Você chegou aqui sem ninguém te acompanhando?
    — Conheço o caminho.

    O velho começa a parecer mais estranho ainda.

    — E você... É um paciente, certo? Sinto o cheiro de ervas medicinais em você. É normal aqui, já que há tantos druidas trabalhando nas redondezas.

    Joseph não responde. Pensa apenas em sair dali, mas há algo de errado com o velho.

    — Devo dizer que os pacientes daqui são curiosos... Eu já ouvi e senti tantas coisas estranhas vindo deles. Sussurros, lamentos, múrmuros. Pessoas sofrendo com suas próprias mentes, caçadas por fantasmas criados por suas imaginações, por devoradores de homens, e as vezes sendo pegos por esses...

    O final da frase chama a atenção do detetive.

    — Devoradores de homens...?
    — Oh. Falei um pouco demais. — Disse o idoso, começando a caminhar até a janela, com um riso fraco e triste. Redeater se aproxima mais dele em contrapartida.
    — Velho. O que quer dizer com isso?

    O homem põe o dedo indicador sobre a janela, olhando para baixo.

    — Devoradores... Não sei de onde me veio essa palavra. Mas sim, Joseph Kamina, há algo de podre em São Olias. O próprio Olias vomitaria ao saber o que é. Ele fundou esse lugar e morreu pouco depois, mas se tivesse sobrevivido, teria evitado as tragédias que vieram depois.
    — Mas que inferno. Fale de uma vez o que você sabe, agora!
    — Pra quê? Você é um detetive. É o seu dever descobrir por conta própria.

    O homem desliza o dedo pelo vidro, e conforme o faz, ele se desmancha em pó, como se voltasse a ser apenas areia. Quando toda a janela desaparece, o homem também some.

    Irritado, Redeater percebe que seu disfarce atingiu seu tempo limite e se desfez. Não sabe se aquele ser acabou vendo o que estava por trás do paciente conhecido por Joseph, mas o pior é ele saber que ele é um detetive.

    Curioso a respeito do que o velho esteve observando desde que parou na janela, ele anda até onde ele estava posicionado antes, e tenta ver alguma coisa. O que vê é um pouco decepcionante: Trata-se apenas do gerente voltando para o manicômio, passando pelo pátio de entrada. Decide esperá-lo por ali mesmo, mas repõe o disfarce, pra evitar problemas.

    No entanto, ele fica esperando por pouco mais de uma hora, chegando ao ponto de simplesmente cochilar na cadeira que pertence ao gerente.


    Ao abrir seus olhos novamente, ele se vê num sonho.

    Tudo que ele vê adiante é um campo vasto e verde, iluminado pela lua de uma noite intensa e sem estrelas. Há uma mulher um pouco ao topo de uma colina, próximo de onde ele está. Ela observa o horizonte melancolicamente, seus cabelos negros e longos balançando com o vento. Usa um vestido branco e fino e um chapéu de aba larga, simples, com uma rosa fixa nele. Ele não está sendo segurado por suas mãos, mas recusa-se a cair.

    A mulher vira-se para a direção do detetive. Seus olhos azuis, sua expressão um pouco vazia e melancólica e sua pele clara fazem seu coração acelerar. O detetive sabe quem ela é.

    Ela sorri por um momento para ele.

    — Você está perto. Continue.


    Redeater acorda num pulo. O por do sol dá um ar sombrio para a sala que não viu ninguém senão o rapaz nela desde o começo da tarde.

    Irritado e incomodado, ele levanta-se e sai da sala a passos largos. Direciona-se até o quarto andar mais uma vez, e toma o mesmo caminho que tomou antes para encontrar Lana. Mas ao chegar lá, ele não encontra ninguém no banco, tampouco nos dois caminhos da bifurcação.

    Ele tenta procurar a mesma porta de antes. Está determinado em encontrar Lana e fazer várias perguntas, e estava disposto a fazer isso hoje, se não tivesse cometido o erro de dormir em serviço. Sua raiva não o faz pensar direito sobre onde passou, então ele começa a passar pelos mesmos lugares mais de uma vez.

    Ele para por um instante e tenta se acalmar. As informações que tem são escassas, e ele ainda não está conseguindo entender o que está acontecendo no manicômio. Pelo que lembra, Stanni’al mencionou que provavelmente há membros do Credo ali, mas até agora ele não detectou um sinal sequer de que eles estão por perto. Dessa forma, ele decide pensar como escapou tantas vezes dos vermelhos.

    E, de repente, ele lembra-se do quinto andar.

    Andando rápido pelos corredores, ele vai direto para a escada branca que leva ao quinto andar. Não encontra nada de diferente. Os corredores são os mesmos. Mas o que o detetive consegue sentir de diferente é a atmosfera, que é estranhamente pesada.

    Caminhando adiante, ele toma um caminho aleatório, checando algumas portas. Encontrou alguns pacientes perturbados, que decidiu não incomodar. Havia muitos consultórios e depósitos. Achou também uma sala de reunião. Mas nada incomum.

    Exceto por uma porta dupla de correr de bambu.

    Vinte minutos perambulando pelo andar deram em algo. Ele encontrou o lugar próximo do extremo daquele andar, na direção norte. Não fica no final do corredor, mas é possível fitar o por do sol sombrio por trás da janela ao fundo, que ilumina vagamente o lugar. Com isso, ele se desfaz do seu disfarce outra vez e puxa a porta.

    Um. Dois. Quatro. Seis.

    Dezesseis. Dezenove. Vinte e três.

    Trinta e oito. Cinquenta e seis.


    Corpos.

    Redeater engole em seco e dá alguns passos pra trás. Nunca viu cena igual. O quarto está recheado de mortos pelo chão, com uma incontável quantidade de sangue ao redor. A pouca iluminação só torna a cena mais terrível de se ver.

    A vontade de botar o almoço sem gosto do manicômio pra fora surge, mas ele resiste. Ele começa a olhar para os lados, tomado por sentimentos caóticos, buscando apoio. Algo pra voltar a ser o que ele é. Um detetive frio e calculista, que não se importa com esse tipo de coisa e que pensará em como aquele quarto tem tanta gente morta e Uldin nem mesmo reparou em algo tão estranho.

    Ele olha pra sua direita mais uma vez. O que vê era esperado, no fundo.

    Lana, com as mãos juntas nas costas, fita-o com preocupação.

    — Moço... Você está no lugar certo? Tem roupas tão peculiares que parece um nobre um pouco excêntrico. — Disse Lana, gentil e serena, disfarçando um riso.

    Redeater olha pra direção do quarto e vê apenas uma porta de madeira marrom no lugar.

    Ele a abre, mas vê apenas um armário de limpeza.

    — Aí é o armário de limpeza... Os funcionários estão organizando algo hoje? Sua fantasia é muito legal!

    Mais uma vez, Redeater respira fundo.





    Próximo: Capítulo 3 – Akumonogatari III

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  2. #12
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    Padrão

    Cara, vou fazer um primeiro apontamento: este capítulo é curto e efetivo. Parabéns por isso. Muito mais eficaz para manter alguém concentrado nele.

    O final deixa uma dúvida: Redeater ainda está sonhando ou Lana não morreu? Agora, eu diria mais: Redeater é uma espécie de paranormal. Tem as habilidades para revisitar um determinado ponto da história de forma a reconstruir a cena dos crimes que investiga. Lana, obviamente, sempre esteve morta. Ele a viu assim, como viu os milhares de corpos quando subiu. E, agora, ela surge outra vez. Morta, provavelmente. Finalmente, o ar de melancolia de Lana parece justificado. Esse é um aspecto do caralho deste capítulo.

    É claro que posso estar enganado. Na verdade, Redeater pode estar louco, como aqueles que costumavam ocupar o manicômio que, de verdade, agora está vazio, sobrevivendo do eco dos espíritos que ali habitam, oriundos dos corpos daqueles que costumavam ali habitar.

    Gosto disso. Múltiplas interpretações para um mesmo episódio. Acertou de mão cheia.

    Aguardo pelo próximo, irmão! Fez um excelente trabalho neste capítulo e tem condições de mantê-lo por muito tempo.
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  3. #13
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    Padrão Capítulo 3 - Akumonogatari III

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    Cara, vou fazer um primeiro apontamento: este capítulo é curto e efetivo. Parabéns por isso. Muito mais eficaz para manter alguém concentrado nele.

    O final deixa uma dúvida: Redeater ainda está sonhando ou Lana não morreu? Agora, eu diria mais: Redeater é uma espécie de paranormal. Tem as habilidades para revisitar um determinado ponto da história de forma a reconstruir a cena dos crimes que investiga. Lana, obviamente, sempre esteve morta. Ele a viu assim, como viu os milhares de corpos quando subiu. E, agora, ela surge outra vez. Morta, provavelmente. Finalmente, o ar de melancolia de Lana parece justificado. Esse é um aspecto do caralho deste capítulo.

    É claro que posso estar enganado. Na verdade, Redeater pode estar louco, como aqueles que costumavam ocupar o manicômio que, de verdade, agora está vazio, sobrevivendo do eco dos espíritos que ali habitam, oriundos dos corpos daqueles que costumavam ali habitar.

    Gosto disso. Múltiplas interpretações para um mesmo episódio. Acertou de mão cheia.

    Aguardo pelo próximo, irmão! Fez um excelente trabalho neste capítulo e tem condições de mantê-lo por muito tempo.
    Salve Neal. Gostei das teorias cara, aparentemente o arco chamou bastante a sua atenção. A intenção aqui é introduzir o leitor a uma dinâmica diferente da de Bloodtrip, então ao menos pra você isso está funcionando.

    Fazer um capítulo curto como esse foi meio estranho também, então esse de agora pode estar um pouco grande também; Mas fiz o possível para que ele fosse dinâmico e fluído, como em todos os outros.

    Não vou manter esse arco por muito tempo pois tenho muitos planos pra história, então não posso ficar muito tempo na mesma coisa. Mas fico feliz que esteja gostando. O arco estava me desagradando um pouco por algum motivo.


    Espero que goste desse capítulo!












    Vou jogar mais teorias no ar com esse capítulo, mas não se preocupem, logo serão sanadas.

    Eu acho que depois desse arco a história entrará num pequeno hiato por razões pessoais, mas não tenho certeza. Veremos.




    No capítulo anterior:
    Redeater tenta descobrir mais a respeito do que viu no quarto indo falar com o gerente, mas encontra um velho misterioso que não diz nada com nada. Depois, tenta procurar pelo quarto que encontrou antes, mas encontra outro diferente, este cheio de corpos. E encontra Lana logo depois.





    Capítulo 3 – Akumonogatari
    Parte 3





    De volta ao pátio, cheio de dúvidas.

    O detetive, no dia anterior, encontrou um quarto cheio de corpos que sumiu no momento seguinte, e Lana acabou aparecendo logo depois, mesmo após ele a ver sendo devorada por uma criatura enorme. Ele a nocauteou e a deixou no mesmo banco de antes, mas não voltou ao lugar de novo, por algum motivo.

    Por alguma razão, ele ao mesmo tempo sente que não deveria ter feito aquilo. Mas não houve noticias de alguém encontrando um corpo no meio de um corredor, despedaçado por um monstro, então tudo deve ter corrido nos conformes.

    Mas mesmo agora, ele não sabe se deve ir atrás da sala de novo, ou tentar a sorte e encontrar o mesmo lugar onde ele encontrou Lana morta. Deveria, ao menos, tentar encontrar uma caixa de música em algum lugar, pois seria a melhor pista para encontrar qualquer coisa a respeito daquela paciente.

    Redeater, ou Joseph, põe-se de pé novamente e vai em direção da sala do gerente. Não sabe se o mesmo está ali, mas ele é a sua melhor chance.

    Como esperado, ele não encontra ninguém na sala do gerente. A janela, no entanto, está inteira e entreaberta, sugerindo que alguém esteve ali antes. Sem alguém para impedi-lo de fazer seu trabalho, mesmo que este seja significantemente invasivo, ele começa a investigar as estantes, observando as muitas pastas de couro recheadas de papiros com arquivos e tentando encontrar as mais recentes para achar algo sobre Lana.

    Ele novamente passa horas dentro daquela sala, e por sorte ou destino, ninguém entrou ali durante todo esse tempo. Observando os registros meticulosamente, ele esforça-se para conseguir encontrar o que precisa, mas como esperado, a Lana que esperava encontrar ali simplesmente não existe. Não há descrições sobre a paciente que Redeater conversou naquele dia. Mas algo chama a atenção: Também há uma falta imensa de pacientes que aparecem em registros de pelo menos dois à seis meses atrás, que sumiram dos registros recentes. Ele reúne esses nomes em um único papiro e o guarda para uma analise mais aprofundada.

    No entanto, ele amaldiçoa o fato de Tibia não ter evoluído o suficiente para possuir algo que registrasse os rostos das pessoas em papiros de forma mais rápida do que um desenho ou uma pintura. Tornaria seu trabalho muito mais fácil.

    Ele guarda todas as pastas novamente, e é nesse momento em que ele repara que esteve sem seu disfarce por todo aquele tempo.

    Ou eu ando muito sortudo ou muito azarado. Pensa ele ao recapitular tudo que aconteceu desde que entrou em St. Olias.



    ~*~



    Nada sobre Lana e um súbito desaparecimento de pacientes.

    Uma sala cheia de corpos que aparece e some do nada. Uma criatura que lembra mais um cão dentro daquele edifício devorando pacientes.

    E, pra piorar, o gerente está ausente há mais de um dia.

    Redeater reflete sobre tudo isso enquanto se dirige ao banco do quarto andar. Não viu Lana na sala de antes, mas não pretende esperar para saber se a encontrará na sorte. Ele simplesmente espera que será possível encontrá-la, embora tenha visto ela morta dois dias atrás.

    E lá está ela. Sentada na cadeira, sozinha com seus pensamentos, tão distraída que nem percebe a aproximação de Redeater. Ou Joseph, já que ele está devidamente disfarçado.

    — Está sempre aqui, não é?

    Lana olha pra sua direção com alguma surpresa. Mas ela o esperava, de qualquer maneira.

    — Você parece ter ganhado o costume de vir aqui também.
    — Só apareci aqui naquele dia.
    — Mas pode acabar aparecendo nos próximos também. Não é?
    — Não diga coisas assim com tanta certeza.

    A mulher sorri. Joseph chega a evitar olhar para o seu rosto, mas decide sentar ao lado dela novamente. Embora seu método não seja arrancar respostas rapidamente de seus alvos, ele sabe que não pode perder tempo naquele manicômio. Há uma alta possibilidade de pessoas estarem morrendo e o culpado permanece oculto. Dessa forma, terá que ser mais direto com Lana.

    Mesmo que seu rosto belo dificulte um pouco as coisas.

    — Lana, há quanto tempo está nesse manicômio?
    — Ah... — Lana põe a mão no queixo, como se fizesse um esforço para lembrar — Acho que já tem três ou quatro anos. Talvez cinco. Mas tenho a sensação de que sempre estive aqui.
    — E como exatamente você veio parar aqui?
    — É... Uma boa pergunta. Eu paro pra pensar aqui todos os dias.

    Redeater já esperava por isso. Ele respira fundo e continua.

    — E o que você lembra da sua vida antes desse lugar?

    Lana demora a responder essa pergunta. Seu olhar é muito nebuloso, difícil de se ler.

    — Quase nada, Joseph... É muito ruim. Os tratamentos eram pesados no começo, e as pessoas que me colocaram aqui... Esqueceram da minha existência. É, acho que essa é a melhor possibilidade. Podem ter morrido, também. Me lembro de ter sido colocada aqui um pouco após a guerra, então... Acho que eles não devem ter falecido.
    — Mas você não se lembra de quem eles são?
    — Eu tento lembrar sempre, mas... Não passam de borrões. Nem mesmo sei se tive um pai ou uma mãe. Toda a minha vida se resume a esse manicômio.
    — E sendo assim, você nunca reparou nada de estranho aqui?

    Lana fita-o com curiosidade.

    — Você acha que há algo de estranho aqui?
    — Acho. Não, eu tenho certeza.
    — Então você está quase consciente o suficiente pra deixar esse lugar, Joseph.

    Aquilo deixa Joseph estranhamente tenso.

    — O que quer dizer?

    Lana levanta-se de forma incomum. Ela tenta suprimir um bocejo com a mão, e dirige-se para o corredor à direita.

    — Você vai entender em breve.
    — Onde pensa que vai? Ainda tenho perguntas.
    — Ver uma velha amiga. Hoje nossa conversa não irá durar muito.

    Joseph se levanta rapidamente.

    — Deixe-me ir contigo.
    — Mas...
    — Sem objeções. Eu devo acompanhá-la. Eu não sinto que você está segura.
    — E o que poderia me ameaçar aqui dentro, Joseph? — Disse ela, sorrindo e torcendo levemente a cabeça para o lado — É um lugar construído para gente como nós, para ficarmos seguros do mundo cruel que nos aguarda do lado de fora.
    — E quem disse que eu sou como vocês?

    Lana dá as costas para Joseph ao ouvir essa resposta.

    — É por isso que eu disse que você está quase consciente. Só precisa acordar.

    Uma resposta dura para Joseph. Pois mesmo aquele detetive mal sabia responder aquilo, tamanha a confusão que está sentindo.

    — Ah, você está aí!

    Uma voz chama o detetive através do corredor, não tão longe das escadas. Ele olha para a direção dela e vê o gerente Uldin vindo. Só que um pouco diferente.

    Embora ainda tenha o mesmo corte afetado, ele está bem arrumado de um terno e calças amarelos estranhamente modernos, cheios de linhas negras, retas e finas. Ele parece alegre, com uma pasta de couro embaixo do braço esquerdo, enquanto balança o direito, chamando a atenção de Joseph.

    Quando este olha para o outro corredor, Lana já está do outro lado, seguindo para outro corredor. Sua agilidade é estranha, mas foi uma visão melhor do que vê-la sumindo do nada.

    — Clark Uldin. — Disse Redeater, desmanchando seu disfarce, com alguma irritação. Ele o faz sem olhar para a sua direção.
    — Hã? Algo errado... Coveiro?

    Redeater finalmente passa a olhar para o senhor.

    — Eu que pergunto. Que... Visual é esse?

    Uldin ri a toa e continua se aproximando de Redeater.

    — Ah, rapaz, você nem iria acreditar! Fui para a cidade e encontrei o melhor bordel que já vi na minha vida, tinha até elfas ali! Elfas! Era um lugar tão viciante que eu só consegui voltar pra cá hoje. Veja, nem sei como arranjei essa roupa. É tão moderna, não? E me serve muito bem!

    Redeater respira fundo.

    — Uldin... Você é completamente incompetente. Ir pra um bordel quando é o gerente de um manicômio desses... Incrível.
    — Quê? Eu não fui porque eu quis! Fui para o Banco Central Carlinídeo resolver problemas com os fundos desse lugar, e por coincidência, encontrei um amigo. Fui beber um pouco com ele, mas ele acabou me levando pra aquele bordel... Ah, aquele bordel. Preciso levá-lo lá, coveiro.
    — Imbecil.

    O detetive ignora Uldin e começa a andar rápido pelo corredor, visando alcançar Lana. O gerente corre atrás dele, um pouco atrapalhado, tentando chamá-lo. Mas Redeater parece enfeitiçado. De novo.

    — Eu tenho aqui os registros de todos os pacientes! Podemos encontrar a tal Lana!

    O mascarado finalmente para. O gerente usa essa brecha pra se aproximar, enquanto abre a pasta e analisa os arquivos.

    — Olha... Lana, não é? Conseguiu o sobrenome e o número de registro?

    O detetive lembra-se de conseguir o número na camisa dela quando a deixou num banco próximo de onde encontrou os corpos, mas não se lembra do sobrenome.

    — Só o número. 566.

    Uldin começa a olhar obsessivamente pelos pacientes de número 500. Enquanto o faz, o mascarado finalmente percebe que não falou a respeito das anormalidades que encontrou. Mas antes que pudesse abrir a sua boca pra falar algo a respeito, Uldin começa a encará-lo com dúvida.

    — Agora que eu reparei... Não tem número 566 aqui, Redeater. Só vai até o 530. Tem certeza que não foi talvez 56? 66? Melhor, vou olhar de imediato.

    Redeater já esperava por isso. Chega a ser clichê.

    — Tire essa roupa de merda, logo voltarei pra sua sala. Eu acabei de falar com ela. Ainda posso encontrá-la e levá-la lá.
    — Bem... Boa sorte. Ficarei esperando.

    Redeater começa a correr a toda velocidade pelo corredor, alheio ao fato de que não está mais disfarçado. Embora seu sobretudo negro pese um pouco, ele consegue superá-lo e manter uma velocidade satisfatória para ele. Sua corrida permite que ele alcance o outro lado do corredor, tomando o lado esquerdo, com pressa. Ele mantém a velocidade enquanto abre várias portas, encontrando alguns pacientes em pequenas bibliotecas ou salas de reunião e ignorando a surpresa dos poucos funcionários daquela área.

    Ele para de achar pessoas por ali quando chega num corredor um pouco familiar. No final deste, ele novamente encontra as portas de bambu.

    Dessa vez, ele puxa algo de dentro do sobretudo: Uma pistola. Seu design é um tanto antigo, lembrando uma pistola de fecho de mecha*, mas com aspectos mais modernos. O cano longo procura dar a potência que ele precisa para o tiro que irá dar no que vai encontrar.

    Ele abre devagar as portas.

    Utevo Max Lux.

    Criando uma iluminação poderosa, ele revela o que há naquela sala escura.

    Caixa de música. Uma mão pálida sobre ela. Mão de uma mulher bela e pálida. Pálida pois está sem vida. Sem vida pois está sendo devorada por um cão de pelo menos cinco metros de comprimento.

    Redeater respira fundo, outra vez.

    Sem hesitar, o mascarado aponta sua arma na direção do monstro. Quando o faz, o bicho some em um instante. Apenas Lana está na sala agora. Ouve um barulho logo ao seu lado, e vira-se também num instante para disparar.

    Ele atira no cão preto e amarelo do seu lado, que some com uma fumaça negra, fazendo o disparo abrir um buraco na parede. Em seguida, ele corre pra dentro da sala e guarda a pistola, ajoelhando-se rapidamente ao lado de Lana. O detetive analisa melhor o que aconteceu, mas mal consegue olhar para o buraco na lateral do seu corpo. Além disso, por algum motivo, a caixa de música não está tocando, e nem estava tocando antes.

    Agora, seus mecanismos começam a se mover. Ele a observa por alguns instantes, e nota que ela é dourada, e bem bonita. Assim como sua melodia.

    — Está tudo bem.

    Redeater escuta a voz de Lana, mas ela não veio de sua boca. Ele começa a olhar para os lados, perdido e confuso.

    — Está tudo bem. Logo isso irá acabar.

    Finalmente conseguiu encontrar a voz, que vem da caixa de música.


    Mas ele não me responde.


    Mais uma vez, Redeater respira fundo.

    Para não gritar de ódio.



    Próximo: Capítulo 3 – Akumonogatari IV




    Notas:

    *Fecho de mecha, ou matchlock, foi o primeiro mecanismo inventado para disparos automáticos.
    Última edição por CarlosLendario; 11-05-2018 às 12:43.



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  4. #14
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    A ambientação tá do caralho, real mesmo. Por isso pedi pra que tu estendesse a estadia do investigador em St. Olias. Acertou, de mão cheia. Parabéns por isso.

    Pareceu mais um capítulo transitório do que qualquer outra coisa. Uldin, aliás, é uma figura peculiar, mas ainda estou tentando encaixá-lo com Redeater e a importante personagem de Lana. E qual é o problema de Uldin querer dar uma bimbada? Deixa o cara aliviar a tensão, bicho. Tá certo que ele é mais imbecil do que aparentava quando apareceu, mas, vá lá. Pode ter a sua importância. Se não morrer ou não estiver morto.

    Prossegue com a mesma pegada, mano. O arco tá legal, mas acho que tu estás se sentindo insatisfeito com ele porque ainda não se desprendeu de Bloodtrip. Tu mesmo salientas diversas vezes que é uma história completamente diferente, então passe a tratá-la como tal. Por ser um conto independente, deve ser distinto, também. Não existe outra coisa pra se concluir.

    Vamo que vamo!
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  5. #15
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    Saudações!

    Passando para deixar AQUELA ward amiga! Estou acompanhando, SIM, mesmo que a faculdade esteja sendo bem tensa esses últimos dias! Segue em frente, escuta os conselhos dos Neal e continua a escrever que é só sucesso!



    Abraço,
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  6. #16
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    Padrão Capítulo 3 - Akumonogatari IV

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    A ambientação tá do caralho, real mesmo. Por isso pedi pra que tu estendesse a estadia do investigador em St. Olias. Acertou, de mão cheia. Parabéns por isso.

    Pareceu mais um capítulo transitório do que qualquer outra coisa. Uldin, aliás, é uma figura peculiar, mas ainda estou tentando encaixá-lo com Redeater e a importante personagem de Lana. E qual é o problema de Uldin querer dar uma bimbada? Deixa o cara aliviar a tensão, bicho. Tá certo que ele é mais imbecil do que aparentava quando apareceu, mas, vá lá. Pode ter a sua importância. Se não morrer ou não estiver morto.

    Prossegue com a mesma pegada, mano. O arco tá legal, mas acho que tu estás se sentindo insatisfeito com ele porque ainda não se desprendeu de Bloodtrip. Tu mesmo salientas diversas vezes que é uma história completamente diferente, então passe a tratá-la como tal. Por ser um conto independente, deve ser distinto, também. Não existe outra coisa pra se concluir.

    Vamo que vamo!
    Salve Neal. Infelizmente St. Olias só irá até o próximo capítulo, pois já planejei a maioria das partes da história e já existe um final pensado. Mas não se preocupe, acredito que veremos cenários como St. Olias no futuro mais vezes, vamos ver o que o futuro nos guarda.

    Redeater é um cara sério, não iria aceitar algo assim enquanto está trabalhando. É parte da personalidade do detetive, que será bem visível durante a história, e que se mostrará diferente do antigo detetive.

    E de fato eu não estou 100% desprendido de Bloodtrip, mas a razão disso é que não dei tempo suficiente entre Bloodtrip e Bloodoath, então minha intenção de mudar a atmosfera de uma história pra outra pode acabar mudando um pouco em consequência. Mas não se preocupe, nada que afete a história. Conforme as coisas vão se desenrolando você vai entender porque eu não quero me manter só nesse manicômio.

    Espero que goste desse capítulo!

    Citação Postado originalmente por Iridium Ver Post
    Saudações!

    Passando para deixar AQUELA ward amiga! Estou acompanhando, SIM, mesmo que a faculdade esteja sendo bem tensa esses últimos dias! Segue em frente, escuta os conselhos dos Neal e continua a escrever que é só sucesso!



    Abraço,
    Iridium.
    Opa Iri, agradeço a presença e fico feliz em saber que ainda está acompanhando. Tome seu tempo.













    Esse capítulo tem muitas coisas importantes pro futuro da história, fiquem ligados aos pontos. Eles aparecerão no futuro.





    No capítulo anterior:
    Redeater procura o gerente e não o encontra, e decide procurar nos seus arquivos qualquer coisa a respeito de Lana, sem sucesso. Ao ir procurar por ela, ele a encontra e faz algumas perguntas, mas não consegue tirar nada dela. O gerente aparece e revela onde esteve, e também tenta ajudá-lo a encontrar registros sobre Lana, mas ele não encontra nada e ela some. Ao encontrá-la de novo, ela está sendo devorada pelo cão gigante mais uma vez.





    Capítulo 3 – Akumonogatari
    Parte 4





    Dúvidas. Dúvidas. Muitas dúvidas.

    Redeater corre manicômio adentro disfarçado como Joseph, alheio ao por-do-sol lá fora. Agora ele lembra do caminho para a sala, mas precisa encontrar o gerente antes. Algo está muito errado.

    Já estava entardecendo e a noite logo chegaria. É mais ou menos a hora em que ele viu Lana sendo morta da última vez. Agora, ela foi morta da mesma maneira, e dessa vez, ele conseguiu reagir a isso, embora não tenha certeza de ter feito algo contra a criatura. O mais provável é que nada tenha acontecido a ela.

    Joseph chega à sala do gerente como uma manada de elefantes. É questão de vida ou morte contar o que está acontecendo e o que descobriu.

    Ele chega nela só para encontrá-lo morto.

    Nem Joseph acredita naquela visão. A visão do gerente, sem o terno ridículo, mas com seu jaleco habitual e uma camisa social por trás, indicando que a única coisa que ele tirou foi o terno. Seu corpo está sentado em sua cadeira, e metade de seu torso está estirado sobre o seu gabinete. Sangue sai de sua cabeça e provavelmente do seu peito também, e a baixa quantidade deste indica que ele foi morto há poucos minutos.

    O mesmo gerente que encontrou antes, todo animado, agora está ali, na sua sala, morto. É algo surreal.

    Mas aquele detetive já se acostumou com essa sensação.

    — Não é culpa sua.

    Joseph olha para sua esquerda e nota um homem ali. É o mesmo velho de antes, com as roupas de fazendeiro, a pele negra e a mesma barba grisalha e malfeita. O homem não responde, ao ponto que esse velho precisa prosseguir.

    — Eu sei... Estou numa cena de crime. É, estou cometendo um erro. É o que eu normalmente pensaria se não fossem as circunstâncias.
    — Quem é você?
    — Não é assim que você deveria perguntar a meu respeito.
    — Certo. O que é você?

    O velho sorri.

    — Um conceito.

    Redeater abre em partes o seu disfarce, tornando-se algo entre ele mesmo e Joseph, apenas para sacar sua pistola e atirar contra a figura. E, para a sua surpresa, ele acerta o tiro, que acerta a área entre as suas sobrancelhas. Entretanto, o velho nem sai do lugar, tampouco cai no chão.

    — E conceitos são imortais. Até que seja decidido o que será desse mundo. Você está pronto para quando esse dia chegar?
    — Você já sabia desde o começo quem eu sou.
    — E eu não sou quem você pensa. Não estou do lado deles. Mas sirvo a um propósito.
    — Não está? Então desembuche sobre Lana. Agora. Neste momento.
    — Oh, céus... Eu não disse que esse é o seu trabalho? Descubra, detetive.

    O velho desaparece do mesmo jeito que antes. Mas agora, na parede atrás de onde ele estava, está o que parece o desenho de uma adaga. E, ao olhar para o gabinete, nota alguns outros símbolos parecidos ao redor do gerente, bem como um de alguém sendo crucificado.

    Redeater parece perdido outra vez, mas não há o que fazer. Ele refaz seu disfarce e tenta analisar a cena próxima do corpo. Não se preocupa em deixar digitais, pois sua magia não as deixa.

    Embora tenha analisado o que pudesse nas circunstâncias em que ele se encontra, a causa da morte parece estranhamente simples. Um assassinato com uma faca que não está presente ali. E que provavelmente pertence ao velho de antes.

    Frustrado, ele tenta pensar em algo para fazer naquela situação. Se o gerente for encontrado morto, é mais do que certo que o manicômio acabará sendo fechado e os pacientes serão transferidos para outro lugar. Isso acabará com seus planos para descobrir o que Stanni’al apontou antes, e não permitirá que ele descubra o culpado pela morte de Lana. Além disso, não há lugar por perto que permita ocultar seu cadáver e esconder seu odor.

    Joseph cruza os braços e começa a bater com o pé no chão, tentando pensar da melhor forma possível nos lugares que viu no manicômio e como esconderia aquilo sem ser visto. Tem pouco tempo. Se o gerente está presente, isso significa que as enfermeiras aparecerão para dar os relatórios nos horários comuns. E a julgar pelo entardecer do lado de fora, logo uma dará as caras.

    Ele está quase aceitando seu destino quando percebe algo. As batidas do seu pé. Elas estão fazendo um barulho. Um eco.

    Um alçapão debaixo dele.

    Ele procura por trancas ou qualquer coisa que ajude a ocultar a entrada para poder abri-lo, e consegue em alguns segundos. Ao abrir, nota que ele é mediano, um tanto pequeno, e que esconde apenas um monte de livros velhos e arquivos. Por algum motivo, há algumas ferramentas quebradas formando um “N”, mas Redeater não faz ideia do que isso signifique.

    De qualquer maneira, ele suspira, aliviado. Vendo todo aquele trabalho pra fazer, ele tranca a porta e começa.


    ~*~



    Já anoiteceu. Redeater está andando pelo quinto andar há quase uma hora. Ele deixou os fichários que encontrou no seu quarto para analisar durante a madrugada, algo que o ajudaria a encontrar o paradeiro dos pacientes desaparecidos, e também sobre Lana.

    Enquanto anda, ele tenta pensar no motivo dele estar tão obcecado por Lana. Talvez fosse por ela ser a única chance dele descobrir o que está errado ali, mas ele sente que há algo a mais nela. Algo grande. Além disso, ela lembra alguém importante do passado desse detetive, então não é pra menos que ele deseja assegurar que ela esteja livre daquele inferno.

    Há muitas histórias onde detetives se apaixonam por alguém envolvido em seu caso. Mas Redeater nem de longe deseja se dar a esse luxo.

    Embora a cada momento em que permanece naquele lugar, ele se sinta mais atraído por ela, embora não perceba isso. Lana lembra, de fato, alguém. Seus cabelos negros, sua aura calma e suave, suas palavras com tom gentil. Talvez não fosse atração, de fato. Pode ser seus próprios instintos tentando dizer outra coisa. Mas é tudo tão confuso que Redeater prefere não pensar a respeito daquilo.

    Em meio aos seus devaneios, ele mal percebe que chegou ao final de um corredor em que já esteve presente antes. Aquele onde encontrou os corpos. Mas tudo que está ali agora é uma porta simples de madeira, do qual ao abri-la, tudo que ele vê são materiais de limpeza.

    Ele dá meia volta e deixa o lugar para trás. Decide olhar em qualquer uma das portas que vier a seguir pra ver se encontra algo relevante, pois ele acredita que as noites possam mostrar algo que ele não consegue ver de dia.

    Ao abrir, ele acha uma sala relativamente pequena, com algumas estantes. Trata-se de uma pequena biblioteca. As janelas estão abertas e a luz da lua ilumina o lugar. Ele fecha a porta atrás dele para começar a sua investigação.

    Ele vai checar as estantes. Numa das seções, o detetive nota uma súbita falta de livros em uma estante próxima. Vê uma lamparina pendurada próximo dali, e a acende para poder analisar melhor. Tudo que encontra é um único livro, grande, aparentemente ilustrado. Ao pegá-lo, vê que seu título é “Inertes”. A capa ilustra homens de chapéu e capas longas e escuras andando sobre uma campina clara, iluminada pelo pôr-do-sol.

    Ao começar a lê-lo, se surpreende. Ele é de fato ilustrado, mas não há nada escrito. Há vários símbolos, mas nenhum deles é familiar para o detetive. Há cenas de homens de chapéu, iguais aos da capa, em vários lugares diferentes, como em fazendas, mercados, lojas, portos, acampamentos, todos com várias pessoas aleatórias fazendo suas atividades diárias, mas com esses homens os observando.

    Logo, ele encontra uma ilustração menor do que as outras. Nela, há uma casa de dois andares e uma escada do lado de fora dela, por onde um homem comum desce por ela. Logo atrás, um dos homens de chapéu observa ele descer, e há uma faca fina em sua mão. Há um símbolo de alguém crucificado desenhado na parede da casa próximo do homem, e este homem carrega duas mesas de forma tão peculiar que parece formar um H. Do lado direito, Redeater finalmente vê símbolos que reconhece. Um idioma específico e incomum.

    "Ele não quer mais lutar, pois eles já deixaram esse mundo há muito tempo.

    O meu Deus deixa que eles andem sobre a terra. Os deuses tibianos deixam que eles pratiquem de sua heresia livremente pois eles têm medo do deus dos hereges.

    No meio disso tudo, eu só poderia contar com os lendários Van Mena, mas todos eles deixaram esse mundo após o falecimento da
    gigantesa. Talvez os filhos da estrela pálida conseguissem fazer algo a respeito. Os cultos do sol. Os caminhantes dos sonhos. As crias de Banor. Os falcões esquecidos. Qualquer um.

    Sobrou mais alguém para combater os de vermelho?

    Será esse o legado do miserável das mil linhas do tempo?"


    Redeater não encontra mais nenhuma ilustração depois daquilo, apenas páginas em branco. Ele não entendeu muito bem o texto nem a utilidade dele, mas parece os augúrios de um conhecedor da existência do Credo de Sangue, a julgar pelo “os de vermelho”. Guiado pela curiosidade do livro, ele acaba guardando-o, pois pode lhe ser uma pista valiosa sobre St. Olias.

    Redeater se dirige a saída. Mas antes de chegar na porta, ele nota algo à sua direita com o canto dos olhos. Mas antes que pudesse reagir, já estava desfalecendo no chão.



    ~*~



    Redeater acorda, mas é de manhã. Está sentado num banco, ausente de seu disfarce. Não se lembra de como foi parar ali.

    Na verdade, ele lembra-se de ter sido vergonhosamente nocauteado ao tentar sair da biblioteca. Lembra-se de por aquele livro curioso dentro do seu sobretudo, mas ao checar, percebe que ele não está mais ali. Como esperado.

    Ao olhar para os lados, reconhece onde está. É o mesmo banco onde Lana costuma se sentar. A luz distante do sol, vinda do oeste, lança uma iluminação forte no lugar. À esquerda, ele repara que a própria está vindo com um livro verde-escuro em mãos, e está distraída. Redeater tem tempo de recolocar seu disfarce antes que ela notasse que ele está sentado ali.

    Lana surpreende-se com a presença do rapaz. Os pacientes não costumam andar por aí tão cedo como naquela hora. Ainda assim, ela sorri.

    — O que faz aqui tão cedo, Joseph?
    — Pergunto o mesmo pra você.
    — Manhãs são boas. E positivas. Não parece seu habitat.
    — E não é mesmo. De qualquer maneira, sente-se.
    — Tem mais perguntas? — Questiona Lana, pressionando o livro contra o peito, apreensiva.
    — Algumas.

    Lana aceita a derrota rapidamente e senta-se ao seu lado. Ela põe o livro sobre as coxas, e mantém as mãos juntas. Não dá pra saber o título nem do que se trata, mas é totalmente diferente do livro que o detetive encontrou na noite passada. Ainda apreensiva, mas com um pequeno sorriso no rosto, parece gostar da presença de Joseph por ali. É a única pessoa que a compreende melhor em todo aquele manicômio.

    Joseph levanta o rosto com irritação.

    — O que é você?

    Lana encara as próprias mãos por vários minutos. Vários minutos sem resposta. Sem reação. Que tentam vencer a poderosa paciência de Redeater, um detetive de muitos anos, que viu mais coisas que um humano normal poderia ver, e que aventureiros odiariam ter a oportunidade de olhar.

    Finalmente, a moça olha-o com uma expressão quase aterrorizada. Põe tanta força no livro que não seria surpresa se ele começasse a se desfazer.

    — O que eu sou? — Disse Lana, num tom de pergunta.
    — O próprio manicômio, tentando falar comigo.

    A expressão da mulher muda para algo vazio e indescritível.

    — Ah. Faz sentido.


    Tudo ao redor do detetive muda de repente. As paredes, antes de madeira, brancas e marrons, parecem dar a impressão que o detetive está dentro de um corpo. Veias e circulações seguem pelas paredes como num corpo humano. O banco também é feito de carne. Todas as áreas ao redor estão vivas, vermelhas, e o sangue é abundante, assim como os inúmeros gritos de várias direções do manicômio.

    Lana não está mais ali. Apenas o livro, que o detetive toma para si, enquanto retira seu disfarce mágico mais uma vez.

    Ele abre-o na última página, por instinto. Vê algo escrito a mão, provavelmente por Lana.

    “Olias viveu o suficiente para ver eles controlarem nosso mundo pouco a pouco.

    Deve ser por isso que eles estão aqui agora.”


    Ele o fecha com uma única mão. No corredor, logo adiante, está o gerente. Ou o que parece ser ele, já que mesmo que ele esteja com a roupa amarela de antes, ele tem um sorriso que cobre quase metade do seu rosto, além da outra metade da sua cabeça estar coberta por uma espécie de capacete. Seus braços estão nas costas, e suas mãos seguram uma marreta de combate enorme.

    — Bem vindo, Redeater.






    Próximo: Capítulo 3 – Akumonogatari V
    Última edição por CarlosLendario; 15-05-2018 às 20:15.



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  7. #17
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    Salve, quebrada. Carlos, desculpe pela demora, irmão. O que você tá sabendo, já tá sabendo, então não vou chover no molhado.

    Por vezes, fico curioso. Existem os momentos em que encaro o detetive como um paciente do sanatório. Em outros tantos, entendo que ele está ali pra trabalhar. Ele sai da cena da sanidade e retorna pra cena da sanidade em transições muito sutis. Esses são os pontos altos desses últimos capítulos: não sabemos se Redeater está ali ou não, se ele está sóbrio ou não, se ele sofre as influências do local ou não, se ele está morto ou não. Como disse pra ti em inúmeras outras oportunidades, são circunstâncias interessantes que tornam os seus capítulos sempre muito únicos, apesar de a temática, sempre rica, manter a mesma linha. Parabéns por isso.

    Gostaria de realçar a questão da narrativa no presente. Já disse antes, mas vou repetir: não consigo fazer isso, e tu fazes muito bem.

    Aguardo pelo próximo, irmão. Desculpe pela ausência, mais uma vez.
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  8. #18
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    Padrão Capítulo 3 - Akumonogatari V

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    Salve, quebrada. Carlos, desculpe pela demora, irmão. O que você tá sabendo, já tá sabendo, então não vou chover no molhado.

    Por vezes, fico curioso. Existem os momentos em que encaro o detetive como um paciente do sanatório. Em outros tantos, entendo que ele está ali pra trabalhar. Ele sai da cena da sanidade e retorna pra cena da sanidade em transições muito sutis. Esses são os pontos altos desses últimos capítulos: não sabemos se Redeater está ali ou não, se ele está sóbrio ou não, se ele sofre as influências do local ou não, se ele está morto ou não. Como disse pra ti em inúmeras outras oportunidades, são circunstâncias interessantes que tornam os seus capítulos sempre muito únicos, apesar de a temática, sempre rica, manter a mesma linha. Parabéns por isso.

    Gostaria de realçar a questão da narrativa no presente. Já disse antes, mas vou repetir: não consigo fazer isso, e tu fazes muito bem.

    Aguardo pelo próximo, irmão. Desculpe pela ausência, mais uma vez.
    Grande Neal. Devo salientar que essa sensação de você não saber se o Redeater está são ou não deve durar mais do que você imagina. Ademais, essas impressões são causadas simplesmente por causa do cenário que é esse manicômio. Mesmo ficar lá por pouco tempo o faz questionar a própria sanidade, e eu diria que também tive a intenção de passar isso pro leitor.

    Obrigado por todos os elogios e espero que goste desse final de arco!









    Vamos seguindo. Estamos chegando perto de revelações importantes, mesmo pro começo da história. Sei que estava tudo muito oculto até agora, mas os horizontes logo vão se abrir. Adicionar o arco do manicômio agora no começo, quando não sabemos direito como é o cenário da história, foi uma jogada minha pra tornar esses primeiros capítulos mais imersivos. Espero que tenha dado certo!


    Espero que gostem do capítulo!





    No capítulo anterior:
    Redeater encontra Uldin morto em sua sala e o mesmo homem velho de antes, falando coisas confusas para o detetive. Mais tarde, ele busca respostas a respeito de Lana e encontra uma pequena biblioteca com um livro estranho com declarações a respeito do Credo, e tenta levá-lo consigo para investigá-lo, mas é nocauteado no processo. E ao perguntar no dia seguinte para Lana o que ela é, ele é jogado a um outro lugar, onde se encontra com um Sangrento.






    Capítulo 3 – Akumonogatari
    Parte 5




    O manicômio de St. Olias era uma armadilha.

    Redeater está de frente para um dos sangrentos mais poderosos que já foi obrigado a enfrentar. Embora não sentisse nervoso, medo ou apreensão, seu próprio corpo dizia inconscientemente que uma luta é inevitável, e que essa luta o deixaria em sério risco de morte. Está no território inimigo e qualquer movimento em falso será o fim de tudo.

    A sua frente, está algo que muito provavelmente não pode ser chamado de homem. É alto, tem o mesmo capacete peculiar que cobre seus olhos e nariz, e os poucos resquícios de pele ao redor da sua boca são pálidos e sem cor. Embora esteja vestido como o gerente estava antes, com o terno e calças amarelas com listras finas e escuras, seu físico é muito mais trabalhado que o de Uldin. A marreta intimidadora em suas mãos, que estão juntas nas suas costas, confirma ainda mais que aquilo não é humano.

    As respostas chegam pouco a pouco para Redeater. O quebra-cabeça começa a se resolver.

    — Masgaratt. Dispenso as boas vindas.
    — Não estou surpreso que tenha resolvido isso daqui. Bem, tem anos que eu conheço você, detetive. Somos quase como irmãos separados, conhecendo tão bem um ao outro. Então eu estava esperando que conseguisse.
    — Deixa eu ver se entendi... — Disse Redeater, cruzando os braços, e pondo uma das mãos no queixo logo em seguida — Isso tudo é uma ilusão criada para capturar alvos, pessoas deixadas aqui. Elas seriam usadas para alimentar o Órgão e deixá-lo ativo por mais tempo. Estou certo?
    — Totalmente. Como esperado.
    — E Lana foi basicamente a isca para que eu descobrisse isso. Se não fosse por ela, eu jamais iria reparar nessas sutilezas.

    Masgaratt balança seu corpo de um lado a outro, enquanto mantém-se pensativo.

    — Essa... “Ilusão” foi criada com um esforço significativo. Nós não somos mais tão fortes quanto antes, mas somos melhores em muitos pontos. E menos agressivos.
    — E eu fui o único que percebeu esses detalhes.
    — Graças a mim. Olha só! Pareço até um agente infiltrado, trabalhando pro meu irmão mais novo. Você descobre tantas coisas através de mim que eu fico até encabulado. O que meus irmãos diriam? Que sou um traidor? Que trai o viajante?

    Redeater fica atento com a última palavra, e mais em dúvida.

    — Quem é o viajante?
    — Uau! Nós nos conhecemos há quase dez anos e eu não te contei ainda? Bem, regozije-se. Contarei agora mesmo a respeito dele.

    O detetive está mais atento ainda, mas se esforça em não colocar toda a sua atenção em Masgaratt. Não pode cair em outra armadilha de novo.

    — Assim que você me contar quem é Lana.

    Finalmente o mascarado se vê surpreso, depois de tudo que já viu.

    — Maldita cria sem dono, você e todos os outros. Não há como vocês terem sido criados por Zathroth, e pra ser sincero, eu já estou de saco cheio de vocês. — Disse Redeater, puxando sua pistola de dentro de seu casaco, e realizando ao mesmo tempo que não possuía mais das runas que permitia que ele assumisse a forma de outra pessoa. Belo timing, pensa ele, por um instante.
    — Finalmente te deixei nervoso?
    — Quem sabe. — Disse, apontando sua pistola para Masgaratt — Agora, vá pro vazio.
    — Isso não existe para nós. — Responde o outro, finalmente tomando posição de ataque.
    — É o que veremos.

    Redeater atira mais de uma vez contra Masgaratt, que desvia da maior parte dos disparos de chumbo, sendo um deles defendido por sua marreta. Quando ele finalmente consegue chegar perto do detetive, o próprio realiza que não vai conseguir desviar do golpe que irá levar na lateral esquerda do seu corpo.

    Entretanto, o golpe atravessa seu corpo, indo parar na parede, sem uma gota de sangue sequer.

    Surpreso, ele se afasta devagar, apenas pra reparar que Masgaratt está ignorando-o. Quando olha para os lados e para trás, vê o mesmo cenário das paredes de carne, veias e articulações, mas também vendo ele mesmo lutando, desviando dos golpes da marreta de Masgaratt, enquanto recarrega sua pistola e atira precisamente, errando por pouco. Ao olhar pra frente de novo, o corredor está exatamente do jeito que estava antes de perceber a armadilha onde caiu.

    Ele olha pra trás mais uma vez e não vê mais os corredores de carne, tampouco ele mesmo lutando contra o Sangrento. Está de volta no que parece ser a ilusão de antes. Mas não sabe se é uma ilusão, o mundo real, ou se o lugar onde viu Masgaratt que era a verdadeira ilusão.

    Confuso, ele olha para a própria mão e vê a sua pistola de design pouco moderno, e pelo cano e câmara quentes, ele realiza que realmente atirou antes, mas não consegue ver os buracos das balas que disparou nas paredes.

    — Deixe-me explicar, detetive.

    Redeater vira-se para trás em menos de um segundo, apontando sua arma na direção da voz. Ele vê o homem negro de antes, com sua barba grisalha e mal feita e sua quase ausência de cabelos, totalmente estragados pela calvície, bem como as suas vestimentas surradas, compostas de uma calça marrom com suspensórios vermelhos e uma camisa branca e velha.

    — Aquilo era uma ilusão. Estamos em Tibia agora. Posso explicar mais coisas, mas seria melhor se você abaixasse sua arma e se acalmasse.
    — Pra quê? Não vai te matar mesmo. — Responde o detetive, de forma atravessada e agressiva. O camponês velho respira fundo.
    — Dessa vez, irá. E pra você entender o porquê, precisa se acalmar e me escutar.

    O detetive, obviamente, está em dúvida. Não sabe em quem acreditar, e mal acredita que está tão preso e afundado até o pescoço como está agora. Desde o começo, nada daquilo passou pela sua cabeça, e nem nos seus maiores devaneios ele pensaria naquela situação. De fato, tudo aquilo desafia seu intelecto e capacidades investigativas, principalmente sua capacidade de se manter concentrado no que está acontecendo.

    — Explique, então. — Disse o detetive, na tentativa de não se perder.
    — Não aqui. Peço que me acompanhe, mas, por favor, abaixe essa arma antes. Não gosto desses dispositivos modernos e tenho medo que possam acabar gerando um acidente.
    — Não vai. Ela foi reconstruída por mim. E sou bem competente no que eu faço.

    Mesmo preocupado e desconfiado, o homem concorda e levanta as mãos enquanto passa pelo detetive, buscando não ser atingido. Ele anda pelo corredor com os braços ainda levantados, buscando mostrar sua falta de intenções ruins.

    Ambos descem as escadas para o terceiro andar. Eles pegam outro corredor, um tanto familiar para Redeater. O detetive parece saber pra onde está sendo levado, e não se surpreende.

    Só se surpreende quando o velho abre as portas de correr e percebe quem está lá dentro: Lana. De pé, ao lado do sofá onde o detetive a viu passar pela primeira vez. Ela está aflita, mas luta para esconder isso. Afinal, ela provavelmente não sabe quem é Redeater, nem porque ele ameaça o velho. Ele manda o outro sentar-se no sofá, mantendo ambos sobre seu olhar.

    — Comece. Não estou com muita paciência, então seja rápido.
    — Certo. — Murmura o velho, um pouco decepcionado e triste. Ele mexe no suspensório de sua calça e ajeita sua camisa, tudo buscando conseguir tempo pra saber como começar a falar.

    Redeater trava e destrava sua arma, buscando mostrar sua impaciência e ao mesmo tempo apressar o homem.

    — Você sabe quem é São Olias, não é? Ele se tornou um santo, canonizado pela mesma igreja que costumava apenas casar tibianos, mas que ganhou uma influência assustadora nos últimos anos nas regiões centrais dos impérios que aceitaram o estilo de casamento que chamam de “cristão”, e que eu particularmente desconheço a origem. Eles se referem a um homem que foi crucificado injustamente no passado, e que todas as pessoas, mesmo que não devotas a crença de sua santidade, mas que tiveram fins injustos como o dele, acabam tendo a chance de serem canonizadas também, desde que entrem com um pedido por isso.
    — Tenho alguma ciência a respeito.
    — Quem pediu pela canonização dele foi o pai de Olias. Ou seja, eu.

    Redeater engole em seco.

    — Veja... Posso ter parecido uma criatura estranha ou algo do tipo antes, mas isso é culpa de algo que levou meu filho a se afastar de mim... Meu transtorno de personalidades. Eu possuo três. Você viu uma. Está vendo outra agora, e provavelmente não verá a terceira, pois ela morreu comigo, e não veria de qualquer maneira, pois ela desperta em certas condições. Enfim, de forma resumida... Sou um espírito.

    Redeater faz uma careta. Ouviu falar muito de pessoas com condições assim, mas nunca viu uma de perto.

    — Entendo. Uma anormalidade, assim como Lana.
    — Lana é um caso a parte.
    — Velho... Não me enrole.

    Lana aperta cada vez mais o vestido oliva-claro que utiliza com as mãos.

    — Lana... É o próprio manicômio. O desejo de Olias, quando morto na guerra.
    — Uma filha?
    — Exatamente.

    O silêncio cobre a sala por algum tempo.

    — A criatura que surgia pra matá-la sempre que você ia atrás dela é um contra-ataque do falso manicômio de São Olias, ou seja, criado por aquelas criaturas vermelhas, o tal Credo de Sangue. Ele responde apenas a eles e não pode ser morto a menos que estejamos no mesmo mundo que o deles.
    — Então ele quebrava a barreira entre as ilusões apenas para matá-la sempre que o sol estava se pondo? Isso pouco faz sentido. Se Lana não morria independente das tentativas, ele deveria ter parado em algum momento.
    — O que não aconteceu, pois ele já foi esquecido por seus donos. — Responde Lana, a contragosto.

    O homem pega algo de seu bolso esquerdo e mostra para Redeater. É um cilindro roxo que possui algo parecido com um relógio no meio dele, nos dois lados.

    — Este item é chamado de Iludio. É uma arma roubada por alguém do Credo que permite criar uma ilusão e invertê-la de forma imperceptível. A pessoa pode ser até mesmo o mais poderoso dos magos que jamais irá perceber que entrou numa ilusão e que pode cair dentro da armadilha a qualquer momento. Ela não é tibiana, e sabe-se lá como eles conseguiram algo assim.

    Redeater está se esforçando para acompanhar o ritmo das revelações, mas está se mostrando cada vez mais difícil.

    — Mas quando você entrou dentro da ilusão por conta própria, descobrindo a verdade sozinho, você inverteu a ilusão que eles criaram sem que eles percebessem. Agora, o manicômio é exatamente como era antes: Abandonado, mas inteiro.
    — Espera aí. E os funcionários? As enfermeiras? Os druidas? E Uldin?
    — Ilusões criadas pelo Credo.
    — Eu conheço Uldin há muitos anos. Como ele pode ser uma ilusão?
    — O verdadeiro Clark Uldin morreu há dois anos atrás. O manicômio foi construído durante a guerra, mas ele só recebeu o nome de Olias como santo quando foi finalizado. Em 504, pra ser mais exato, que é o ano em que a Grande Guerra Tibiana chegou ao fim e quando Olias foi canonizado. Um amigo dele assumiu o comando antes do Credo chegar aqui, matar a todos e os transformar em objetos do Iludio. Você ainda pode encontrar as manchas de sangue deixadas pelos seus corpos pelo manicômio inteiro, mas não vai encontrar ninguém senão nós dois.

    A conduta de Redeater é forte, e resistente mesmo em frente de uma situação em que ele jamais se meteu antes. De certa forma, Clark Uldin era seu amigo, e contribuía com ele de diversas maneiras. Pensar que esteve conversando com uma ilusão tão viva durante todo esse tempo o aborrece bastante, embora isso não seja visível por fora.

    Redeater abaixa a cabeça, mas não a arma. Levanta-a pouco depois para olhar pro objeto nas mãos do homem.

    — Então você se chama Lando Piethary.
    — É... Exatamente. Eu morri em 498, em Northport, que é onde meu filho, Olias Piethary, também vivia.

    Redeater finalmente abaixa a arma, só para pegar o Iludio das mãos de Zack.

    — Como uso isso?
    — Por quê?... Por Uman, não me diga que você quer entrar na ilusão sozinho.
    — Não se preocupe. Matarei o dono da ilusão e farei com que vocês encontrem paz.
    — Isso não é necessário. Eles jamais conseguirão entrar aqui de novo! Você reverteu eles para o mundo próprio deles, agora eles nunca mais irão sair! — Disse o velho, quase gritando.
    — Homem, eu os conheço há muitos anos. Isso definitivamente não irá os parar, principalmente quando perceberem o que aconteceu.
    — Você vai morrer lá!
    — E por que você se importa?

    A aflição de Lana também alcançou Lando e ele nem mesmo percebeu isso.

    — Eu...
    — Detetive. — Disse Lana, finalmente conseguindo dizer algo. Sua voz tem um tom que o homem nunca viu antes. — Você é só um humano comum, e tudo que eu queria fazer era libertá-lo daquilo. Agora você está livre. Por que não vai embora?
    — Porque eles são o meu trabalho.
    — Bobagem! Você é só um detetive!
    — Um detetive independente. — Disse Redeater, guardando sua pistola dentro do seu sobretudo e observando o objeto mágico em suas mãos.

    Lana ainda parece aflita, mas também um pouco irritada.

    — Por favor, trate de voltar vivo. Joseph, ou seja lá qual o seu nome, saiba que não descansarei em paz se você morrer lá.

    Redeater fita-a indiferente, mas entende sua preocupação. É um espírito bondoso, que surpreende por não ser instável como as pessoas de um manicômio normalmente são. Se conseguisse, ele sorriria, mas tirar sua máscara está fora de questão. Expressar sentimentos assim também está.

    — Eu aposto que você sorriria para mim, se pudesse. — Disse Lana, sorrindo mais uma vez como antes, quase obrigando Redeater a desviar o olhar. Uau. Que espírito honesto, pensa ele.

    Ele coloca sua atenção agora em Lando.

    — Certo, velho. Como uso isso?
    — É só girar os dois lados até o ponteiro nesse vidro no centro ir pra baixo.
    — Obrigado, Lando. O que farei lá será pelo seu filho.
    — E pelo mundo, creio eu. Se esses devoradores conseguirem o que querem, será o fim de Tibia.

    Redeater faz o que aquele homem lhe pediu, e antes que notasse, não está mais na sala de antes. Está no que mais parece um estômago, mas sem o ácido em seus pés para desfazê-lo.

    Redeater sai da sala puxando uma porta escura e pegajosa, dando graças a deus por estar de luvas. Ao entrar no corredor, nota figuras estranhas, com clavas derramando sangue no chão em suas mãos, logo a frente. São três delas e não parecem amigáveis. O detetive puxa sua pistola, e na mão esquerda, que não segura a arma, surge uma pequena cruz, de cor alaranjada, semelhante ao poder santo que os paladinos usam.

    — Vamos começar.






    Próximo: Capítulo 3 – Akumonogatari VI
    Última edição por CarlosLendario; 29-05-2018 às 16:39.



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    Padrão Capítulo 3 - Akumonogatari VI

    No capítulo anterior:
    Redeater encontra-se com um membro do Credo de Sangue chamado de Masgaratt e cai numa possível base do inimigo. Eles começam a lutar, mas no meio da luta, o detetive vê ele mesmo lutando com Masgaratt, e em seguida, está de volta ao manicômio, onde encontra um velho que esteve lhe observando, chamado de Lando. Este explica que ele é o pai de Olias, que protege o manicômio e que Lana serve como uma resposta dos desejos do santo de querer alguém para proteger aquilo que criou, ao mesmo tempo, para ajudar as pessoas a não caírem nas ilusões do Credo. Após isso, ele decide ir por conta derrotar todos dentro da base e salvar o manicômio de St. Olias da ameaça dos Sangrentos.




    Capítulo 3 – Akumonogatari
    Parte 6




    As três figuras, com suas clavas com um crânio na ponta, avançam a passos lentos. A iluminação esquisita do lugar, que é baseada nas veias ao redor circulando sangue, que possui luz própria, assim como o sangue no chão, permite ver os detalhes desses que parecem Sangrentos legítimos, sem fraquezas.

    Logo quando eles se tornam visíveis para a luz, eles saltam na direção de Redeater. Ele, sem alarde, aponta sua pistola para cada um e acerta disparos bonitos e precisos nas suas cabeças, deixando-os cair no chão, imóveis.

    O detetive continua seu caminho como se tivesse sido incomodado por moscas. Passa pelos corpos dos inimigos sem se importar que estão ali, mesmo sabendo quem são.

    — Ah, merda. Esqueci de algo. — Disse o detetive, parando por um momento, logo após passar pelos corpos.

    Os três Sangrentos que Redeater derrubou se levantam em um instante. Embora as balas tenham atravessado seus capacetes, eles parecem simplesmente mais irritados.

    — Eles são imortais.

    Uma das criaturas, a que está mais próxima de Redeater, tenta golpeá-lo com sua clava, mas ele se abaixa, por pouco não sendo atingido. Enquanto recua, ele recarrega sua arma, empurrando o cano pra baixo e colocando outro tipo de munição na câmara, diretamente. Ao atirar, seu disparo causa um estouro maior que o outro, acertando o pescoço do mais próximo, mas explodindo todo o resto logo acima, ceifando finalmente o inimigo.

    Um segundo tenta acertá-lo, mas acerta a parede ao invés disso. Redeater prepara, na mão esquerda, a cruz alaranjada de antes, que cresce de tamanho, precisando apenas de um gatilho para ser usada.

    Exori Adav San — Pronuncia o homem, disparando um míssil em forma de cruz contra o Sangrento.

    Ele desvia, mas o golpe acaba pegando seu braço esquerdo, arrancando-o fora. O Sangrento ruge em ódio, enquanto deixa o outro avançar no lugar. Este, que salta com sua clava em mãos, tenta um golpe direto na cabeça de Redeater, mas este reage com a mesma magia, que o atinge no peito e estoura-o de dentro pra fora. Ele dá alguns passos para o lado pra deixar o corpo do inimigo cair no chão, enquanto o outro assiste.

    O último Sangrento não tem tempo de reagir. Baleado sem pudor, ele cai no chão, imóvel.

    Redeater continua para o próximo andar, que tem um caminho igual ao que toma para chegar até o banco onde Lana fica. Recarrega novamente sua pistola no caminho, tomando cuidado com os truques que o inimigo pode realizar contra ele enquanto ele não presta atenção nos arredores.

    Chegando perto do próximo andar, ele sente movimentos nas paredes próximas. Ignora-os apenas para ver três figuras esquisitas, feitas de sangue, mas totalmente sólidas, tentando golpeá-lo ao mesmo tempo com clavas iguais as dos inimigos que enfrentou antes.

    Exori Adav San — Reage o detective, dessa vez, lançando uma magia em cada mão e acertando duas das criaturas, saltando para trás logo em seguida para evitar o golpe da que restou viva.

    Para a que não recebeu a magia, ele simplesmente efetua um disparo certeiro, que a faz desaparecer em sangue, diferente das outras duas, que viraram pó. Seguro, ele continua andando, subindo as escadas.

    Ele pula direto para o próximo andar quando percebe várias mãos quase esqueléticas tentando puxá-lo pra dentro de algo dentro das escadas quando ele está próximo de subi-las por completo. Levanta-se tenso, mas atento.

    Redeater caminha pelo corredor, que novamente mostra-se inofensivo, porém, imensamente perigoso. Ele evita ficar próximo das paredes, mantendo-se no centro. Sua estratégia de ficar próximo das paredes para evitar ser cercado não irá dar certo ali após ver as mãos e as criaturas de antes. O Órgão, como o nome diz, está vivo, e o Coração é o que dá as ordens, agindo como um cérebro, não necessariamente tendo esse nome. E ele já está ciente de quem ocupa esse posto.

    — Oh, pelo viajante dos céus. Não chegamos nem perto de ver tudo que ele é capaz de fazer ainda e isso só me deixa ainda mais empolgado.

    O homem do martelo observa e comenta os movimentos de Redeater a partir da sala onde ele dá as ordens para os Sangrentos fazerem o Órgão atuar como um. Vestido como eles, em um saiote longo e vermelho-escuro e uma cobertura para as partes superiores do corpo que lembra mais escamas, também vermelhas, mas com uma armadura cinza-escura por cima, Masgaratt testa com empolgação o que o inimigo consegue fazer, embora ele já o conheça há um bom tempo.

    Mesmo que os Sangrentos cubram os olhos com aqueles capacetes estranhos, que lembram coroas pela metade, eles são capazes de ver com altíssima precisão os movimentos e atos do inimigo. A tela que observam, que tem o formato parecido com o de uma janela com vidro larga, mostra Redeater andando pelo corredor com bastante atenção. Ele não está apontando sua pistola para frente como qualquer um faria, o que o torna ainda mais peculiar de se ver.

    — Certo. Liberem todos eles.

    Ao mesmo tempo que Masgaratt dá a ordem, Redeater sente um calafrio correr a sua espinha. Ele tem dúvidas sobre seus instintos, mas acredita que algo vai acontecer muito em breve.

    Ao chegar na bifurcação, um coro de gritos e lamurias intensas se inicia. Redeater olha para os dois lados e sente tremores. Ouve muitos passos seguidos acompanhados dos gritos. Já sabe o que está por vir.

    De ambas as direções, dezenas de pessoas surgem. Elas correm descontroladas, pisando umas sobre as outras, pulando uma em cima da outra, como animais furiosos disputando comida. Essas pessoas são os pacientes, mas eles estão todos cobertos de sangue, como zumbis. A quantidade imensa deles preocupa Redeater, que sozinho não é capaz de derrotar tantos. Nenhuma pessoa normal seria. Entretanto, ele sabe o que fazer.

    Redeater corre para o corredor à sua direita. Próximo de uma sequência de portas para salas pequenas, ele para e aponta sua arma contra as centenas de almas perdidas vindo em sua direção.

    Utito Tempo San — Pronuncia o mesmo, permitindo que uma aura levemente dourada cubra seus braços — Exori Gran Con!

    Um disparo acompanhado da magia poderosa dos paladinos voa em uma velocidade impossível de se acompanhar com os olhos, indo na direção do grande grupo. Ao atingir o primeiro paciente, ela continua seu caminho atravessando inúmeros corpos e atirando os outros para o lado. Ela atinge a maior parte daqueles que já tinham conseguido entrar no corredor, e mesmo ao chegar na parede do outro lado, ela não para. A magia estoura a parede vermelha, jorrando uma quantidade imensa de sangue no corredor, abrindo um buraco enorme, e permitindo que a luz do lado de fora invada o lugar, o que enlouquece os pacientes mais próximos.

    Redeater sorri por trás da máscara com satisfação. Ele vai até uma das portas e arromba-a, por sorte não lançando nenhuma gota de sangue sobre ele. Ao entrar, vê algo bizarro, mas que já se acostumou a ver.

    É um Sangrento, mas ele não tem o capacete que cobre metade de sua cabeça. Tampouco olhos ou nariz. Ele está ligado ao que parece uma grande raiz cinzenta, emporcalhada com sangue velho, impregnado em sua estrutura. Essa raiz se estende para os lados e para cima, e é possível notar o sangue correndo por ali, bem como suas ligações com as paredes ao redor.

    Em seus registros, aquilo que está na sua frente é chamado de Artéria.

    Redeater ignora a visão terrível na sua frente e recarrega sua pistola com uma munição com três listras brancas. Ele aponta para cima, na direção da raiz, e atira, sem hesitar.

    Em seguida, uma quantidade exorbitante de sangue voa em sua direção.

    — Masgaratt... Ele destruiu uma das quatro Artérias que sustentam o Órgão.

    Masgaratt pôde observar o mesmo entrando na sala onde estava oculta uma das fontes de energia dos Sangrentos, e imaginava o resultado que se seguiria. Ele sorri.

    — Nós não demos desafio a altura dele e agora ele está praticamente do nosso lado. Ah, vacilei muito dessa vez...
    — Então, o que faremos? — Pergunta um dos Sangrentos sentados diante de uma larga mesa de carne, coberta de botões com códigos acima, abaixo do reprodutor de imagens.
    — Reverta essa sala para a original e saiam. Eu e Alutai assumimos.

    Um Sangrento surge de um dos cantos da sala escura. Atrás dele, há vários Sangrentos, que parecem tão poderosos quanto Masgaratt, com visuais distintos. O que caminhou para a luz vermelha é Alutai, que possui patas de lobo no lugar de mãos, com garras longas e afiadas, e usa um capuz por cima do capacete.

    — É um aviso. Não o mate. Ao menos, não ainda. — Disse um dos Sangrentos no fundo da sala. Ele também usa um capuz, mas sua roupa é bem mais clara que a dos outros Sangrentos, e com um formato distinto. Sua voz é difícil de se descrever, lembrando mais um coro de vozes jovens.
    — Demônio. Não me diga o que fazer. Sei exatamente o que farei com a minha presa.
    — É apenas um aviso.
    — Você não é nosso deus nem nosso líder para me dizer o que fazer.
    — Mas basta um estalar de dedos pra eu destroçar você.

    Masgaratt gargalha consideravelmente alto.

    — Vá embora. Já entendi.


    Redeater está um andar acima, tomando o caminho para a sala de corpos que encontrou antes. Ele agradece por sua mente ser boa em memorizar caminhos, não tendo dificuldades em encontrar a sala em questão.

    Ele chega no final do corredor, sem encontrar resistência. Dessa vez, as portas de correr se fazem presentes.

    Sem temer, ele as abre e entra na sala escura, com algum cuidado. O barulho que a porta fez para ser aberta o incomoda, por lembrar alguém rasgando carne. Mas seus pés parecem estar pisando em um piso suave, como o de antes de entrar nessa ilusão.

    Uma luz invade seu campo de visão, obrigando-o a fechar os olhos. Quando os abre de novo, está numa sala semelhante àquela onde encontrou Lana, com algumas diferenças. As cortinas estão bem abertas, e há corpos por ali. Poucos se comparado a quantidade que viu antes.

    Na outra ponta da sala, ele encontra o que esteve procurando esse tempo todo: Masgaratt. Ele está acompanhado de um Sangrento que está sentado desajeitadamente em uma poltrona vermelha. A besta preta e amarela de antes está presente na sala, devorando um corpo à esquerda dos dois Sangrentos, sem perceber a chegada de Redeater.

    O detetive sente como se tivesse entrado naquele lugar pela primeira vez, depois de tudo que viu minutos atrás.

    — Você é realmente incrível. Até mesmo uma ilusão sua conseguiu me dar algum trabalho de matar, e quando eu finalmente penso que consegui matá-lo...
    — Nunca seria tão fácil desse jeito.
    — De fato. — Disse Masgaratt. Ele está com sua marreta repousada sobre seu ombro, despreocupado e nem um pouco intimidado com a presença do inimigo. — Você é realmente uma figura incrível. Persegue o Credo há anos, e já atrapalhou tantos planos nossos. Tudo por um motivo fútil.
    — Se você fosse humano, saberia o significado da minha luta.
    — Bobagem. Pura bobagem! Esses sentimentos, esses significados, dogmas, moral, tantas coisas que prendem os humanos... E você, justamente o mais ascendido deles, é o que mais se prende. É triste. Sinto pena de você. Mal é capaz de enxergar maldade nos outros.
    — O que quer dizer?
    — Bem, se conseguir sair daqui, talvez desvende o enigma que lhe foi deixado quando lhe entregaram o Iludio.

    Redeater está confuso, mas entende que Masgaratt está falando de Lando. Não nega sentir suspeitas a respeito do velho pai de Olias, mas aquele não era o momento de pensar a respeito disso.

    — A propósito, espero que goste de vermelho. Pois essa cor está te definindo muito bem agora. Diria que está bem vestido.

    Redeater percebe que toda a sua pele exposta está coberta de sangue. Embora seja apenas o pescoço e a nuca, a sensação de sangue desconhecido no seu corpo é realmente incômoda. E essa quantidade nas suas roupas pode até deixá-lo mais lento.

    Por isso, ele guarda sua pistola e tira seu grande e bonito sobretudo negro, e joga-o num sofá próximo, revelando uma camisa negra por trás de um colete cinza. O barulho de molhado, o sangue escorrendo e o impacto forte dele sobre o móvel não deixa dúvidas de como permanecer com aquilo o deixaria em séria desvantagem.

    — Uau! Vai deixar sua mala de munições de lado só porque ela tá um pouco molhada? Isso não é um comportamento comum seu.
    — Não cometerei o mesmo erro duas vezes.

    Masgaratt mal tinha notado que ele havia colocado uma soqueira numa das mãos. Feita de ouro. Isso desperta alguma preocupação no mesmo. Em seguida, Redeater abaixa três dos seus dedos, deixando apenas o indicador e o meio. Estes canalizam um feitiço ágil, que alcança a besta ao lado dos Sangrentos e a paralisa, deixando um desenho lembrando o fogo em sua cabeça. Finalmente aquele do lado de Masgaratt parece se incomodar com Redeater.

    O Sangrento abaixa sua marreta e prepara-a para o combate. Redeater aponta sua pistola na direção do oponente, criando a tensão perfeita para aquele momento.

    — Ainda está injusto, mas vamos lá. Estou com pressa.
    — Veio preparado. Mas não será o suficiente.








    Próximo: Capítulo 3 – Akumonogatari VII



    Tive de publicar sem ter algum comentário, mas só fiz isso pois acredito ter começado uma história legal e quero dar um fim para ela. Posso não terminar ela aqui, mas ainda assim eu desejo dar um fim para ela.



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    Irmão, um de cada vez. Li o primeiro que estava pendente, o segundo acabei de finalizar; não vou me justificar novamente porque tu já sabes, então vamos lá.

    I KNEW IT! Sabia que St. Olias tinha lá o seu aspecto fantasioso, que geraria ilusões naqueles que ingressassem em seus domínios. Lando chegou chegando, lançando luzes sobre os mistérios contidos na saga, e de quebra dando aquela orientação ao Redeater, nosso pretenso Nightcrawler.

    Que top esse fato de que alguém se chama "Santo" alguma coisa e dá nome a um manicômio das trevas. Sempre me perguntei de onde partiam essas ideias de nominar os estabelecimentos a partir do nome de santos, mas, vá lá, o pessoal é criativo pra tudo, vide o tanto de nome de santas que são homenageadas por cidades, praças e afins.

    O capítulo ficou violento, curti a parcela de ação mesclada com o pedaço de mistério. Aliás, mistério nunca falta, né, irmão?

    Com relação ao capítulo novo: Masgaratt, nosso representante do Credo de Sangue, parece ser um daqueles anti-heróis que criam um ambiente sensacional, à lá Senzo, embora entenda o seu interesse de transformar Nightcrawler no anti-herói em Bloodtrip. Aliás, parece-me que teremos outro elo de rivalidade, como o estabelecido entre Suzio e Senzo: Masgaratt e Redeater serão nosso Tom Riddle e Harry Potter, respectivamente (perdão pela referência, sei que tu não vai curtir).

    Valeu, irmão. Outra vez, milhões de milhares de centenas de dezenas de pedidos de desculpas. Sei que você entende o que as mudanças recentes representam na minha vida e, especialmente, no que ela se tornou.

    Um abraço!

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