Spoiler: Respostas


No último capítulo: Jason e os outros derrotam Cerberus e Górgon, mas o combate lhes custa a vida de Logan. Rashid revela a Ferumbras que conhece a localização da Túnica Rubra, e ajusta com ele um preço para obtê-la. Entrementes, Randal e Zathroth rastreiam outra relíquia, enquanto o ódio toma conta do corpo de Jason pela morte de Logan.

CAPÍTULO VI – ARKHOTHEP


Carl acenou brevemente antes de iniciar o trajeto de volta pela montanha, decidindo seguir por ele a pé. Já haviam sido traídos uma vez, e agora não era exatamente o momento de arriscar. Precisava rastrear a relíquia que conhecia, e os outros precisavam ser breves ao procurar por aquela que não conheciam.

Durante cerca de duas horas, o grupo restante, composto por Jason, Leonard, John e Eremo subiu a encosta da montanha devagar, rumando para o topo, onde encontrariam a ainda jovem Gewen, alguém que poderia dever a Eremo um favor ou dois. Ela era a responsável pela condução do tapete mágico naquela localidade e, se estivessem pensando adequadamente, Ferumbras estava em Edron, então, quanto mais distante, melhor.
Fato é que não tinham qualquer pista a respeito da Túnica Rubra. E, se não havia referencial no qual se fiar…

Novamente, na trilha aberta na montanha, aquela densa fumaça dourada surgiu e, aos poucos, tomou a forma de uma imensa serpente. Jason sorriu para ela, achando-a amigável; era o símbolo da comunicação de Zathroth.

— Encontramos o Capacete dos Anciãos — disse a voz dele, longe, mas perto. — Não podemos, contudo, chegar lá sozinhos. Precisamos de vocês. Assim, quando puderem, dirijam-se a Ankrahmun e procurem pela Tumba do Petróleo. Vamos nos encontrar no último andar do subsolo. Não demorem, ou perderemos o rastro.

Eremo assobiou baixinho quando a fumaça se dissolveu totalmente.

— Eles são competentes.
— Ela pode nos levar até lá?

Ele olhou para Jason carinhosamente.

— Querido, ela fará a porra que eu quiser.

Leonard riu quando o velhote tomou a liderança do grupo, conduzindo-os pela montanha. Durante um longo momento, John analisava o Cajado de Moisés com devoção, admiração, mas também espanto. Aparentemente, utilizara o equipamento sem conhecer plenamente a força que ele continha, e, agora, conflitava abertamente com esse fato. Não precisava ser um gênio para aprender a somar dois mais dois.

Cedo demais, o cume da montanha chegou. Secretamente, Jason pediu a Crunor que protegesse Carl em sua missão às profundezas de Goroma, e que, na data e hora marcada, ele estivesse presente no local combinado.

O topo da montanha de Kazordoon era — e não havia expressão melhor — formidável. O centro, que pretendia ser vazado, continha um lago calmo, cuja superfície era lisa como um espelho. No canto sul, extremo oposto de onde saíram, uma garota com não mais do que 20 anos estava sentada sobre o tapete mágico. Trajava algo muito parecido com uma bandeira azul e branca, e tinha cabelos muito castanhos.

— Eremo — cumprimentou ela, sem levantar os olhos do livro que lia, quando eles se aproximaram. — Presumo que tenha vindo até aqui para cobrar o que lhe devo.
— Imagine — ele sacudiu as mãos, fazendo pouco caso. — Isto não é nada perto do que você me deve. Faça e talvez, talvez, eu seja capaz de reduzir sua penitência.

Ela bateu o livro com força, pondo-se de pé.

— Não é justo, tio.

Jason engasgou-se com a água que bebia, cuspindo-a no tapete. Eremo sorriu para ela, benevolente. A garota mal-educada era sobrinha de Eremo e parecia ser bastante mimada, para falar bem a verdade.

— Sua mãe enriqueceu às minhas custas, então, diria que é muito mais do que justo. Esta joça funciona?

Ela aquiesceu, de má vontade.

— Ankrahmun. É possível?
— Depende. Vai lutar contra… ele?

Eremo sorriu, misterioso.

— Subam nessa merda e segurem-se. O primeiro que vomitar será chutado para fora.

*

Sangrando da cabeça aos pés, Zathroth ergueu os olhos para o seu captor, enxergando tudo dobrado. Sofrera a maior punição que já havia sofrido em toda a sua vida e, a bem da verdade, sentia que aquilo era um pouco desproporcional. Tudo que fizera de errado fora invadir os aposentos do faraó mais poderoso da história de Darama.

Tudo corria muito bem; Randal e ele não haviam enfrentado qualquer problema no caminho, mas não contavam com o fato de que o desgraçado ainda estava vivo, envolto naquelas faixas bizarras e preservando todo o seu tesouro consigo. Aquela merda de túnica azul parecia zombar deles sob a luz bruxuleante dos archotes presos às paredes.

Agora, tudo que precisavam fazer era aguardar até que Jason e os outros chegassem para ser mortos também.

Arkhothep tinha mais de dois metros de altura e parecia ter pelo menos o dobro de largura. A pele deteriorada era visível sob algumas das bandagens que pendiam frouxas de seus braços e do rosto, e os olhos verdes eram intensos, mas tão mortos quanto o restante do corpo. E estavam sob o Capacete dos Anciãos.

Zathroth e Randal lutaram com toda a força e duraram impressionantes dois minutos e meio. Nenhuma arma, magia, feitiçaria ou qualquer outro artefato foi capaz de surtir qualquer efeito. Pelo contrário. A cada vez que tentavam atacar, ele ficava ainda mais furioso.

Agora, ambos estavam presos pelos pulsos em algemas azeitadas presas às paredes da masmorra ampla, que continha uma quantidade indiscernível de tesouros de valor incalculável. Zathroth fechou os olhos e sacudiu a cabeça devagar, mas parou ao perceber que aquilo também doía.

— Você, demônio — disse ele, com sua voz grossa e diabólica, apontando para Randal com um dedo esfacelado. — O que quer em minha tumba?

Randal, ainda mais maltratado do que Zathroth, levantou os olhos. Ora, em verdade, apenas um deles; o outro pendia molemente da face, tamanha a surra que levara.

— Capacete — disse, baixando a cabeça outra vez.

O faraó semicerrou os olhos, impressionado.

— Meu capacete?
— A não ser que tenha outro.

Ele aplicou um chute bem colocado no rosto de Randal, desmaiando-o outra vez. Sua cabeça pendeu para a frente, tombada.

— O que faz em minha tumba?

Agora, ele apontava para Zathroth. Ele sorriu, sem humor, revelando a ausência de vários dentes.

— Não vou responder. Não caio nessa.
— Vai apanhar mesmo assim.

Ele aplicou o mesmo chute em Zathroth, que também apagou.

*

Era o final da manhã quando os quatro chegaram a Ankrahmun, sendo despejados de qualquer jeito no cais por Gewen, que partiu imediatamente. Eremo sacudiu a areia das vestes e ergueu os olhos para o mar de pirâmides que se delineava à sua frente, feliz por finalmente retornar àquela rica cidade.

— Nomes?

Um homem usando um turbante azul ridículo se aproximou, segurando uma pena sobre uma prancheta. Tinha uma sobrancelha erguida.

— Esqueça isso, menino — orientou Eremo.
— Tenho uma função…

Leonard o empurrou através da borda do cais, atirando-o na água.

— Não tem mais.

Ao descer pelo cais, Jason sentiu-se imediatamente muito confuso. As ruas eram estreitas mas, ao mesmo tempo, muito amplas. E todas, absolutamente todas as casas, tinham sido construídas no formato de grandes pirâmides. Cedo demais, Jason percebeu que várias delas continham inúmeras residências, o que, em si, era uma ideia e tanto. Carlin, por exemplo, já não tinha mais para onde se expandir. Verticalizar a cidade era uma grande ideia, e ele anotou mentalmente o fato para parabenizar o prefeito quando tudo aquilo terminasse.

Eremo os guiou pelo labirinto de pirâmides até o depósito, que era bem diferente do de Carlin. Comerciantes tentavam trocar coisas sem parar, com grandes barracas montadas por todo o espaço. Ao contrário dos arredores de Carlin, fazia um calor sufocante, e a parte interna do depósito não era muito melhor do que a de fora, apesar de proteger do sol.

Eles subiram as escadas do depósito e chegaram a um requintado restaurante, todo dividido em pequenos closets. Aqui e ali, xeques com turbantes almoçavam e falavam de dinheiro como se estivessem falando de louça suja. Nenhum deles pareceu reparar a presença dos quatro ali, quando o maître os conduziu até o closet mais afastado de todos.

— Cardápios? — ofereceu, profissionalmente.
— O do dia — Eremo respondeu, atento a todos os cantos.
— Então, carpaccio ao molho de ervas.
— Sim, sim, tanto faz.

O restaurante era um pouco mais arejado do que o restante da cidade, mas era muito quente mesmo assim. Jason passou alguns minutos pensando em Melany, tentando adivinhar onde ela poderia estar, agora que a deusa Ártemis retornara para auxiliar as caçadoras, embora tudo aquilo, é claro, viesse com um preço.

Tradicionalmente, as amazonas tinham um voto de castidade, e Melany, como a líder do Acampamento do Meio-Oeste, não poderia quebrá-lo. Decidira se afastar de Jason, cedo demais, muito antes que fosse possível criar uma suficiente despedida. Já se iam quase seis meses desde a última vez em que a vira, e ele se sentiu um pouco chocado ao parar para pensar no fato de que, provavelmente, ela não fazia ideia de que eles haviam perdido Cotton, Gibbs e Catarina naquele fatídico momento em que pisaram no Olimpo.

O maître retornou depressa, trazendo carne e peixe crus e uma terrina com molho de ervas diversas. Tudo cheirava muito bem, mas John torceu o nariz.

— Comida crua?
— Chama-se sushi — disse Eremo, sorrindo. — Aprecie. A culinária oriental é a melhor que existe. Foi-nos trazida por ninguém menos que Rashid.

Jason endireitou-se, interessado.

— Rashid, o comerciante?

Eremo fez que sim, com a boca cheia do tal sushi.

— Sabe — ele engoliu ruidosamente —, Rashid é um daqueles homens interessantes. Ele não é bom ou ruim, simplesmente é o que é. Pague-o adequadamente e ele fará o que você pedir.
— Parece-me um mercenário, como qualquer outro — respondeu Leonard, o sushi dançando em suas bochechas para lá e para cá.

Jason puxou um daqueles filés de salmão, mergulhou no molho de ervas e levou à boca. Na realidade, tratava-se de uma verdadeira mistura de emoções; o molho era muito salgado e apimentado, mas o salmão oferecia a quebra perfeita para o sabor. Se na primeira vez parecia um pouco nojento, a partir da segunda já causava água na boca.

O maître retornou no minuto seguinte trazendo uma apetitosa limonada suíça.

— Com limões sicilianos — comentou, distribuindo os copos de cristal.

Leonard levantou a mão, engolindo com desgosto a carne crua.

— Tenho uma pergunta.
— Estarei satisfeito em responder.

Ele franziu o cenho.

— Como é que você consegue ser tão bicha?

Por algum motivo, o maître pareceu ofendidíssimo.

— Não sou bicha, sou homossexual — ele corrigiu, suavemente. — Meu marido se chama Johnny e somos muito felizes.

Leonard fez que não com a cabeça.

— Não estou perguntando por que você usa a retaguarda desse jeito, porque isso verdadeiramente não me interessa. Pergunto-lhe por que você é bicha.

O maître ergueu as sobrancelhas.

— Quem “usa a retaguarda desse jeito” é Johnny, se é que me entende. E você também deveria tentar, qualquer hora dessas. Quem sabe, assim, deixa de ser tão amargurado?

E marchou de volta à recepção, de nariz em pé. Jason riu, achando muita graça.

— Bem feito — comentou, comendo outro sushi. — Preconceituoso de merda. É isso que você merece.

Leonard estava prestes a responder quando um menino, com não mais do que 10 anos, aproximou-se apressado da mesa deles. Eremo ameaçou levar a mão à varinha, mas ele simplesmente entregou um bilhete a Jason, dando-lhe as costas e disparando para fora do restaurante outra vez.

Um pouco estarrecido, ele desdobrou o bilhete, em que somente duas linhas estavam escritas.

Solicito urgência máxima. Ele nos matará. O Capacete está aqui. Não há outra forma de obtê-lo. Preparem-se para enfrentar o impossível. É uma armadilha. Estamos encrencados. Randal.

Jason levantou-se de um salto, largando uma bolsa cheia de ouro na recepção do restaurante e correndo no sentido das escadas, os outros em seus calcanhares. Se estavam em apuros, o último desejo dele seria saber como Randal conseguira lhes mandar aquela mensagem. Secretamente, tinha suas suspeitas, mas não era o momento de levantá-las contra o amigo e, certamente, não o julgaria.

Estava na hora de socorrê-los.

*

Randal retornou ao seu corpo, respirando fundo e despertando outra vez. Tinha sido um plano audacioso, deixar sua casca, procurar por outra e entregar uma mensagem às pressas para Jason e retornar ao corpo que tanto amava. Zathroth relanceou um olhar para ele, lançando outro para o faraó, que, no canto oposto da suntuosa sala, lixava preguiçosamente um machado imenso.

— Sei o que fez — cochichou, preocupado. — Jason não vai julgá-lo.
— Ele pode me julgar o quanto quiser — respondeu Randal, no mesmo tom de voz do outro. — Não me importo, desde que chegue logo aqui.
— Silêncio — gritou Arkhothep.

Randal calou-se instantaneamente, atitude sabiamente espelhada por Zathroth, que também não aguentava mais tomar chute na cara. Feliz ou infelizmente, agora, não tinham nada mais o que fazer, exceto aguardar pela chegada de Jason e dos outros, na certeza de que ambas as mensagens, contendo a localização e o pedido de socorro, haviam sido entregues adequadamente.

Mas, também, que ideia, praguejou Zathroth, amaldiçoando-se por caçoar das lendas que envolviam aquele lugar. Havia somente uma razão pela qual ossos acumulavam-se pelo chão e ninguém sabia o que existia ali dentro. Quem quer que já tivesse entrado, nunca conseguira sair.

— O demônio cristão linguarudo morrerá primeiro — gritou o faraó, sem, contudo, se mover.

Randal sacudiu a cabeça, também questionando a própria sanidade. Jamais cogitara deixar Zathroth sozinho naquele lugar, mas, agora, achava que retornar para a sua casca somente significava ter assinado sua sentença de morte.

Sabia, contudo, que Jason se negaria. Não permitiria.

E em suas mãos estava a esperança pela salvação. Novamente.

Próximo episódio: CAPÍTULO VII – O LUGAR MAIS SEGURO DA TERRA