Spoiler: Respostas


No capítulo anterior: Jason e os outros abatem o penúltimo general de Ferumbras, Chimera, pagam Rashid e obtêm informações parcas sobre a Túnica Rubra em contraprestação. A infame Bellatrix se junta ao grupo e eles planejam o próximo movimento. O feiticeiro ameaça destruir Venore e matar Heloise e Daniel Steelsoul, e os amigos enfrentam um paradoxo sobre como prosseguir. O tempo está se esgotando.

Ação para enjoar neste capítulo.

CAPÍTULO XII – LINHA DE SANGUE


Morfeu desfilava livremente diante da maior parte do que remanesceu do exército de Carlin e da rainha, todos postos de joelhos defronte ao depósito. Daniel Steelsoul estava ali, e também Ferumbras. Carlin se parecia mais com um cemitério.

Quando o relógio marcou seis horas, Ferumbras fechou os olhos bisonhos, irritado demais para falar. Jason Walker não apareceu, ao contrário do que ele havia imaginado, e Leonard Saint também não havia se dirigido até Edron, como ele determinara. O exército encontrou a residência oficial de Crunor em Venore, vazia, mas com sinais de uso recente. Chegara o momento de cumprir com a sua promessa e decidir sobre o que faria com a cidade pantanosa onde perdera seu penúltimo general.

— Que decepcionante — Ferumbras comentou, manejando o cajado.
— Nem tanto.

Surpreendentemente, Jason Walker, Leonard Saint, John Walker, Zathroth, Randal e uma mulher rechonchuda surgiram pela viela ao sul de Carlin, apresentando-se diante do depósito. Heloise abriu um sorriso nervoso para Jason, que retribuiu como pode. Daniel Steelsoul sequer levantou a cabeça.

— Jason Walker — disse Ferumbras, arrebatado. — E Leonard Saint. Finalmente.
— Não é a única novidade do ano.

Agora, ele via. Jason Walker utilizava o Capacete dos Anciãos e trazia consigo a Espada de Crunor. Leonard Saint, com a Lança do Destino embainhada, manuseava o Arco dos Elfos, equipado com o Bracelete de Anúbis. O demônio chamado Randal carregava consigo a Varinha Mestra, usando o Colar de Contas. O Anel Finalíssimo vinha preso a um cordão, no pescoço de Zathroth. John Walker segurava o Cajado de Moisés e tinha o Livro das Ciências Ocultas. A julgar pelo fato de que a mulher gorducha não tinha qualquer relíquia consigo, eles não haviam encontrado a Túnica Rubra.

— Falta uma — observou Ferumbras. — Mas o Patrono do Apocalipse está perto. Posso senti-lo. Quem diria. As relíquias nunca estiveram tão próximas de se reunir.

Jason sentiu um solavanco ao ouvir falar sobre o Patrono. Era o maior dos enigmas até então. Se ele estava próximo, precisavam descobrir quem era. Mas, no momento, tinham problemas mais imediatos sobre os quais discutir.

— Liberte a todos — exigiu Jason. — Estamos aqui. E as relíquias também.

Ferumbras balançou a cabeça, como quem dissesse “pode ser”.

— Não posso ignorar o fato de que matou quatro dos meus cinco melhores homens, Jason. Mas, a exemplo do que fiz há poucos dias, serei condescendente. Escolha alguém, e esse alguém morrerá. Se não fizer a escolha… bem, você já viu isso acontecer antes.

Jason franziu os lábios, compreendendo.

— Certo, então.

Ferumbras aguardou, leniente.

— Escolho Zeus.

Um raio inesperado desceu dos céus e estourou a poucos centímetros de Ferumbras, que saltou para trás, pego de surpresa. Quando o exército de Carlin se levantou e começou a lutar contra o exército de Ferumbras, Jason entendeu que a situação estava se convertendo, enfim. Não seria como da primeira vez.

Zeus surgiu, com sua impecável túnica, irretocável. Morfeu, que ameaçou avançar contra o grupo, foi contido imediatamente por ele, que o empurrou para fora da balbúrdia. John avançou e começou a disparar feitiços contra Ferumbras, que se abrigou no interior do depósito no mesmo momento em que o restante da população de Carlin chegava ao local, segurando pedaços de pau, barras de ferro, espadas, clavas, machados, arcos, bestas e lanças, atacando ferozmente qualquer oponente que usasse aquela bizarra armadura vermelho-sangue.

Como em Venore, o chão tremeu por alguns segundos quando um homem alto e musculoso, usando vestes gregas antigas, mas simples, e um capacete cheio de espinhos, apareceu. Aos poucos, mortos-vivos e cães infernais começaram a surgir do chão, no meio do nada, avançando contra os soldados de Ferumbras, mas poupando os cidadãos de Carlin.

Hades disparou feitiços contra os combatentes mais próximos, e logo Carlin se tornou uma verdadeira praça de guerra.
De pé, Heloise sacou sua varinha e também entrou no combate. Na meia distância, Jason percebeu que Daniel Steelsoul não deixou por menos, e também atacava tudo que se movia com sua imensa espada prateada.

Parte da fachada leste do depósito cedeu, e Ferumbras saltou para fora, disparando feitiços com seu cajado contra John, ao mesmo tempo que tentava disparar fagulhas contra Leonard, que saltava para lá e para cá, divertindo-se. O antigo incandescente de Crunor contratacava, replicando os movimentos de Ferumbras e tentando atingir Josh, que tinha avançado contra Heloise mas fora contido por uma flechada na perna, disparada por Leonard logo atrás.

Agora, a balbúrdia estava instaurada, definitivamente. Quando Zeus e Morfeu se destacaram do combate, um atacando com feitiços, o outro com seu imenso raio-mestre, Poseidon surgiu, ingressando na luta de John e atacando Ferumbras com tudo que tinha.

Não demorou para que um imenso dragão, negro como a noite, sobrevoasse Carlin. Jason sorriu, tenso. Sabia que a aparição de Ares significava um acréscimo intenso no pelego, mas tinha consciência de que seu desengonçado animal de estimação destruiria algum edifício em breve ao tentar pousar.

Dito e feito. O templo de Carlin a Crunor veio abaixo, ao leste do depósito, quando o dragão sentou seus imensos quartos no topo da construção. A druida chamada Arlia disparou para fora, em desespero, mas Ares a conteve, pedindo a ela, por algum motivo, para que ficasse de olho no bicho.
Surpreendentemente, apesar de ser um feiticeiro, a Varinha Mestra se moldou com perfeição às mãos de Randal, que batia recordes dentro da luta, derrubando tantos adversários quantos fosse possível.

Aos poucos, os amigos foram se reunindo na parte central da intersecção entre as duas ruas principais de Carlin, de norte a sul e de leste a oeste. Jason havia matado alguns deles, mas não se engajara totalmente no combate. Precisava manter a estratégia firme. John, Heloise, Randal, Zathroth, Daniel, Leonard e Bellatrix, juntos de Jason, armaram um círculo no local, um de costas para o outro, repelindo com tranquilidade os soldados que avançavam. Adiante, Zeus e Morfeu travavam um duelo todo particular, mas Ferumbras não estava em local algum visível. Se tivesse batido em retirada, facilitaria o desenlace do plano traçado.

Logo, no entanto, Morfeu conseguiu atingir Zeus, que rolou pela estrada principal, chocando-se contra uma coluna na loja defronte ao depósito. A estrutura cedeu e o soterrou. O corpo inconsciente de Ares foi atirado diante do depósito, no mesmo tempo em que Ferumbras retornava à cena, trazendo Poseidon sob a mira do seu cajado. Hades não estava presente, e seus mortos-vivos acumulavam-se ao longo das ruas, seus corpos mágicos se decompondo aos poucos e desaparecendo.

Jason engoliu em seco quando Poseidon foi atirado diante dele, e não demorou para que todos se rendessem, embainhando suas armas. Ferumbras bufou, irritado, chutando um soldado morto para o lado e olhando de frente para o grupo, que se encolhia. O coração de Jason estava descompassado. Pelo menos, ninguém morrera. Ao menos não por enquanto.

— É oficial — murmurou Ferumbras, ao que Morfeu se juntou a ele, absolutamente inteiro. — Chegamos ao fim do mundo.

Jason olhou para o céu, tentando mensurar a posição do sol, que já ia se pondo.

— Antes de qualquer coisa — respondeu, tentando manter a calma —, gostaria de lhe fazer uma pergunta.

As atenções de Ferumbras, que estiveram voltadas para o rosto impassível de Leonard, voltaram-se para Jason.

— Sua ousadia é inebriante, especialmente quando estou prestes a matá-los.

Ele fez um gesto, orientando Jason a prosseguir.

— Qual é o lugar mais seguro da Terra?

Repentinamente, uma onda gigante invadiu a cidade pelo sul, lavando tudo que via pela frente. Ferumbras deu meio passo para trás, incerto, ao que Morfeu sacou sua espada, sem saber como reagir. No momento seguinte, um imenso navio encouraçado ingressou através da viela, rompendo poços artesianos e sacudindo a estrutura da cidade. Poseidon colocou-se de pé imediatamente, chutando Morfeu na altura do plexo, e o general de Ferumbras rolou para dentro do depósito, sendo prontamente soterrado por muito tijolo de argila.

O deus dos mares e dos terremotos estalou os dedos e, magicamente, todos estavam a bordo do navio. Daniel Steelsoul, contudo, não se satisfez. Tomando uma decisão toda particular, ele saltou pela amurada de espada em punho contra Ferumbras, preparado para tirar sua vida.

O feiticeiro, que já tinha passado por surpresas demais para um espaço de tempo tão curto, simplesmente deu um passo para o lado e cravou seu cajado na altura do estômago de Daniel, ao que o medonho “F” entalhado em seu topo saiu pelo outro lado. Heloise soltou um grito estrangulado, mas ninguém poderia ficar para analisar as reais implicações da morte de Daniel Steelsoul. Tomara sua decisão, à revelia da estratégia que fora delineada pelo grupo que viera de Venore, e, agora, não podiam condená-lo, mas ele também não poderia mais ser salvo.

Era o fim do governante de Edron.

Poseidon tocou no timão com seu tridente e o navio girou 360 graus muito depressa, atirando todos para a amurada, onde se seguraram com dificuldade. Zeus surgiu dentre os destroços, acompanhado de perto por Hades e Ares, que já ia se levantando, e ambos voltaram a atacar Ferumbras e Morfeu, que também retornara, enquanto o navio, depressa demais para ser natural, começou a vencer a distância até a orla, destruindo bancas fixas de venda, pontos de treinamento e arrancando boa parte do calçamento submerso.

O navio entrou no oceano aos trancos, sacudindo-se violentamente, mas Poseidon conseguiu acalmar a maré. Muito rápido, a superfície do oceano começou a impulsioná-lo para a frente no sentido oeste, contornando a costa, enquanto se afastavam rapidamente da cidade.

Secretamente, Jason pediu a Crunor que não permitisse que Ferumbras transformasse Carlin e Edron em duas tumbas no antigo continente. Era a hora, contudo, de garantir que aqueles que não podiam morrer, de fato, não morressem. A fibra moral dos habitantes de cada uma das cidades dependia diretamente disso, e, intimamente, Jason confiava que todos seriam capazes de segurar as pontas, caso fosse necessário.

A última imagem que viram era a de Zeus disparando raios loucamente e batendo em retirada junto do irmão mais novo e do sobrinho, ao que Ferumbras tentava loucamente atingir o navio, protegido pela magia do Olimpo e impenetrável, que ia se distanciando, imparável, rumo ao lugar mais seguro da Terra.

*

Samuel deu um longo abraço em John, recepcionando o restante do grupo e trocando até um aperto de mão com Zathroth e Bellatrix. Senja era muito diferente daquilo que eles haviam visto, alguns anos atrás; ao contrário do excesso de neve acumulada, agora, a ilha se revestia de verdes campos por todos os lados, tendo os cidadãos aberto mão inclusive das lajotas na cidade principal, deixando a natureza tomar conta.

O soldado os escoltou até o castelo, onde a proteção mágica não causou qualquer dano a Zathroth ou Bellatrix. Jason sorriu para eles; significava boa coisa. Segundo as lendas, era impossível de se ingressar dentro da redoma do castelo quem tivesse coração impuro, e aquelas regras foram definidas por Samuel e Zathroth em conjunto, há muitos milênios. Se os dois conseguiram ingressar ali, significava que o seu lado na guerra estava muito bem definido, e que o acordo de paz se transformara também em um acordo de amizade, definitivamente.

Samuel, no entanto, tinha suas atenções concentradas em Randal. O demônio sorriu para ele, um pouco encabulado, enquanto andavam.

— Um demônio cristão — comentou, semicerrando os olhos por alguma razão. — Que interessante que tenha conseguido entrar aqui.
— Não sou mais um demônio — Randal comentou, para a surpresa de boa parte dos presentes. — John me curou naquela barraca próxima de Carlin, há dois dias. Estou novo em folha.

Jason se adiantou e abraçou o amigo, reservando um segundo abraço também para John. Randal havia sido curado e, em meio a toda aquela loucura, o fato havia passado batido, por mais importante que aquele evento podia parecer. Ao que tudo indicava, Randal se sentia um pouco culpado por ter saltado de seres humanos enquanto tentava se comunicar com Jason. Até mesmo Zathroth havia sido possuído. Que momento.

— Sei que não é mais um demônio — prosseguiu Samuel, após o pequeno momento. — Posso sentir sua energia vital. É excepcional. Sobre-humana, se quer saber.

Randal fez que sim uma vez, agora um pouco disperso.

— Estamos dentro da redoma de proteção — Samuel explicou, bem uns 10 metros adiante do marco inicial. — Aqui, Ferumbras não pode entrar. Nem mesmo se dissermos o seu nome. Estamos protegidos em nossa integralidade. Teremos tempo para pensar e nos reorganizar, com tranquilidade.

O castelo de Senja, que antes era um palacete coberto de gelo do piso ao teto, agora transmitia a vibração da vida. Trepadeiras começavam a tomar conta dos muros, e um pomar de macieiras crescia espalhado próximo às portas duplas de carvalho, abertas.

Apesar de ser noite, alguns camponeses ainda aravam a terra ao sul do castelo. Jason ficou feliz em vê-los, no final das contas; a última visita que fizera a Senja fora bastante complexa, quase morrera, e as terras desoladas tinham sempre aquela estranha sensação de devastação perene. Agora, tudo era diferente, e ele não conseguiu deixar de se orgulhar por aquilo. Não tivesse vencido Bellatrix, Sirius e os desafios de Zathroth, talvez não tivessem onde se esconder, hoje.

Samuel conduziu os visitantes por um corredor de pedra à esquerda da entrada, que terminava numa escadaria ampla e adornada que levava no sentido ascendente. Lá em cima, um corredor acarpetado em verde estendia-se em todas as direções, contendo cerca de seis ou sete portas. Eram dormitórios.

Heloise ocupou o primeiro, sentindo-se grata pelo fato de que cada quarto tinha seu banheiro. O restante deles foi se distribuindo nos quartos remanescentes, e Jason e Leonard decidiram dividir o último, cuja porta ficava de frente para o corredor. Era um pouco maior do que os demais e tinha duas camas de casal; Leonard foi o primeiro a ocupar o chuveiro, enquanto Jason abria a janela e respirava agradecido pela brisa que soprava no sentido sul.

Ele se sentou no chão e encostou-se na parede de pedra fria, agradecendo silenciosamente por ainda estar vivo, porque os amigos ainda estavam vivos. Embora não fizesse a mínima ideia de onde encontrar a Túnica Rubra, era importante ter alguns momentos de paz, para variar.

Quando entrou no chuveiro após Leonard, tomando um banho gelado, ele pensou longamente a respeito de Eremo e de todas as vezes em que ele intercedera em favor do grupo, salvando vidas em período sazonal. Agora, o padrinho se fora; os últimos dias haviam passado como um borrão, desde a morte dele até a batalha de Carlin, e, embora estivesse cercado dos seus, sentia-se mais sozinho do que nunca.

Quando retornou ao quarto, Leonard analisava longamente um banner imenso que havia sido afixado na parede ao oeste da porta, que se parecia muito com uma árvore genealógica. Jason aproximou-se e o arqueiro suspirou, permitindo-se sorrir, contrafeito.

— Veja isso.

Ele traçou uma linha com o dedo indicador desde determinado ponto da árvore genealógica até o final. Passou por John e Samuel, cuja descendência abrangia ainda Eremo Walker e, muitas gerações depois, finalmente alcançava Lawton Walker. À sua direita, a mulher, Clarice Specter, e, ao seu lado, sua irmã, tia de Jason, a quem ele não conhecia, chamada Janice Specter. Sob sua linha imediata, descendente dela e de Glover Saint, estava Leonard Specter Saint.

— Disse que seu nome tinha sido escolhido aleatoriamente — surpreendeu-se Jason.
— Parece que escolhi os nomes porque me lembrava deles, no final das contas.

Jason sorriu, maravilhado. Finalmente, uma importante peça do quebra-cabeças que era sua família se encaixava. Era parente consanguíneo de Leonard Saint.

Próximo episódio: CAPÍTULO XIII – NÃO NESTE DIA