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Tópico: Jason Walker e o Patrono do Apocalipse

  1. #21
    Avatar de Neal Caffrey
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    27-06-2006
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    No último capítulo: Jason e os outros derrotam Cerberus e Górgon, mas o combate lhes custa a vida de Logan. Rashid revela a Ferumbras que conhece a localização da Túnica Rubra, e ajusta com ele um preço para obtê-la. Entrementes, Randal e Zathroth rastreiam outra relíquia, enquanto o ódio toma conta do corpo de Jason pela morte de Logan.

    CAPÍTULO VI – ARKHOTHEP


    Carl acenou brevemente antes de iniciar o trajeto de volta pela montanha, decidindo seguir por ele a pé. Já haviam sido traídos uma vez, e agora não era exatamente o momento de arriscar. Precisava rastrear a relíquia que conhecia, e os outros precisavam ser breves ao procurar por aquela que não conheciam.

    Durante cerca de duas horas, o grupo restante, composto por Jason, Leonard, John e Eremo subiu a encosta da montanha devagar, rumando para o topo, onde encontrariam a ainda jovem Gewen, alguém que poderia dever a Eremo um favor ou dois. Ela era a responsável pela condução do tapete mágico naquela localidade e, se estivessem pensando adequadamente, Ferumbras estava em Edron, então, quanto mais distante, melhor.
    Fato é que não tinham qualquer pista a respeito da Túnica Rubra. E, se não havia referencial no qual se fiar…

    Novamente, na trilha aberta na montanha, aquela densa fumaça dourada surgiu e, aos poucos, tomou a forma de uma imensa serpente. Jason sorriu para ela, achando-a amigável; era o símbolo da comunicação de Zathroth.

    — Encontramos o Capacete dos Anciãos — disse a voz dele, longe, mas perto. — Não podemos, contudo, chegar lá sozinhos. Precisamos de vocês. Assim, quando puderem, dirijam-se a Ankrahmun e procurem pela Tumba do Petróleo. Vamos nos encontrar no último andar do subsolo. Não demorem, ou perderemos o rastro.

    Eremo assobiou baixinho quando a fumaça se dissolveu totalmente.

    — Eles são competentes.
    — Ela pode nos levar até lá?

    Ele olhou para Jason carinhosamente.

    — Querido, ela fará a porra que eu quiser.

    Leonard riu quando o velhote tomou a liderança do grupo, conduzindo-os pela montanha. Durante um longo momento, John analisava o Cajado de Moisés com devoção, admiração, mas também espanto. Aparentemente, utilizara o equipamento sem conhecer plenamente a força que ele continha, e, agora, conflitava abertamente com esse fato. Não precisava ser um gênio para aprender a somar dois mais dois.

    Cedo demais, o cume da montanha chegou. Secretamente, Jason pediu a Crunor que protegesse Carl em sua missão às profundezas de Goroma, e que, na data e hora marcada, ele estivesse presente no local combinado.

    O topo da montanha de Kazordoon era — e não havia expressão melhor — formidável. O centro, que pretendia ser vazado, continha um lago calmo, cuja superfície era lisa como um espelho. No canto sul, extremo oposto de onde saíram, uma garota com não mais do que 20 anos estava sentada sobre o tapete mágico. Trajava algo muito parecido com uma bandeira azul e branca, e tinha cabelos muito castanhos.

    — Eremo — cumprimentou ela, sem levantar os olhos do livro que lia, quando eles se aproximaram. — Presumo que tenha vindo até aqui para cobrar o que lhe devo.
    — Imagine — ele sacudiu as mãos, fazendo pouco caso. — Isto não é nada perto do que você me deve. Faça e talvez, talvez, eu seja capaz de reduzir sua penitência.

    Ela bateu o livro com força, pondo-se de pé.

    — Não é justo, tio.

    Jason engasgou-se com a água que bebia, cuspindo-a no tapete. Eremo sorriu para ela, benevolente. A garota mal-educada era sobrinha de Eremo e parecia ser bastante mimada, para falar bem a verdade.

    — Sua mãe enriqueceu às minhas custas, então, diria que é muito mais do que justo. Esta joça funciona?

    Ela aquiesceu, de má vontade.

    — Ankrahmun. É possível?
    — Depende. Vai lutar contra… ele?

    Eremo sorriu, misterioso.

    — Subam nessa merda e segurem-se. O primeiro que vomitar será chutado para fora.

    *

    Sangrando da cabeça aos pés, Zathroth ergueu os olhos para o seu captor, enxergando tudo dobrado. Sofrera a maior punição que já havia sofrido em toda a sua vida e, a bem da verdade, sentia que aquilo era um pouco desproporcional. Tudo que fizera de errado fora invadir os aposentos do faraó mais poderoso da história de Darama.

    Tudo corria muito bem; Randal e ele não haviam enfrentado qualquer problema no caminho, mas não contavam com o fato de que o desgraçado ainda estava vivo, envolto naquelas faixas bizarras e preservando todo o seu tesouro consigo. Aquela merda de túnica azul parecia zombar deles sob a luz bruxuleante dos archotes presos às paredes.

    Agora, tudo que precisavam fazer era aguardar até que Jason e os outros chegassem para ser mortos também.

    Arkhothep tinha mais de dois metros de altura e parecia ter pelo menos o dobro de largura. A pele deteriorada era visível sob algumas das bandagens que pendiam frouxas de seus braços e do rosto, e os olhos verdes eram intensos, mas tão mortos quanto o restante do corpo. E estavam sob o Capacete dos Anciãos.

    Zathroth e Randal lutaram com toda a força e duraram impressionantes dois minutos e meio. Nenhuma arma, magia, feitiçaria ou qualquer outro artefato foi capaz de surtir qualquer efeito. Pelo contrário. A cada vez que tentavam atacar, ele ficava ainda mais furioso.

    Agora, ambos estavam presos pelos pulsos em algemas azeitadas presas às paredes da masmorra ampla, que continha uma quantidade indiscernível de tesouros de valor incalculável. Zathroth fechou os olhos e sacudiu a cabeça devagar, mas parou ao perceber que aquilo também doía.

    — Você, demônio — disse ele, com sua voz grossa e diabólica, apontando para Randal com um dedo esfacelado. — O que quer em minha tumba?

    Randal, ainda mais maltratado do que Zathroth, levantou os olhos. Ora, em verdade, apenas um deles; o outro pendia molemente da face, tamanha a surra que levara.

    — Capacete — disse, baixando a cabeça outra vez.

    O faraó semicerrou os olhos, impressionado.

    — Meu capacete?
    — A não ser que tenha outro.

    Ele aplicou um chute bem colocado no rosto de Randal, desmaiando-o outra vez. Sua cabeça pendeu para a frente, tombada.

    — O que faz em minha tumba?

    Agora, ele apontava para Zathroth. Ele sorriu, sem humor, revelando a ausência de vários dentes.

    — Não vou responder. Não caio nessa.
    — Vai apanhar mesmo assim.

    Ele aplicou o mesmo chute em Zathroth, que também apagou.

    *

    Era o final da manhã quando os quatro chegaram a Ankrahmun, sendo despejados de qualquer jeito no cais por Gewen, que partiu imediatamente. Eremo sacudiu a areia das vestes e ergueu os olhos para o mar de pirâmides que se delineava à sua frente, feliz por finalmente retornar àquela rica cidade.

    — Nomes?

    Um homem usando um turbante azul ridículo se aproximou, segurando uma pena sobre uma prancheta. Tinha uma sobrancelha erguida.

    — Esqueça isso, menino — orientou Eremo.
    — Tenho uma função…

    Leonard o empurrou através da borda do cais, atirando-o na água.

    — Não tem mais.

    Ao descer pelo cais, Jason sentiu-se imediatamente muito confuso. As ruas eram estreitas mas, ao mesmo tempo, muito amplas. E todas, absolutamente todas as casas, tinham sido construídas no formato de grandes pirâmides. Cedo demais, Jason percebeu que várias delas continham inúmeras residências, o que, em si, era uma ideia e tanto. Carlin, por exemplo, já não tinha mais para onde se expandir. Verticalizar a cidade era uma grande ideia, e ele anotou mentalmente o fato para parabenizar o prefeito quando tudo aquilo terminasse.

    Eremo os guiou pelo labirinto de pirâmides até o depósito, que era bem diferente do de Carlin. Comerciantes tentavam trocar coisas sem parar, com grandes barracas montadas por todo o espaço. Ao contrário dos arredores de Carlin, fazia um calor sufocante, e a parte interna do depósito não era muito melhor do que a de fora, apesar de proteger do sol.

    Eles subiram as escadas do depósito e chegaram a um requintado restaurante, todo dividido em pequenos closets. Aqui e ali, xeques com turbantes almoçavam e falavam de dinheiro como se estivessem falando de louça suja. Nenhum deles pareceu reparar a presença dos quatro ali, quando o maître os conduziu até o closet mais afastado de todos.

    — Cardápios? — ofereceu, profissionalmente.
    — O do dia — Eremo respondeu, atento a todos os cantos.
    — Então, carpaccio ao molho de ervas.
    — Sim, sim, tanto faz.

    O restaurante era um pouco mais arejado do que o restante da cidade, mas era muito quente mesmo assim. Jason passou alguns minutos pensando em Melany, tentando adivinhar onde ela poderia estar, agora que a deusa Ártemis retornara para auxiliar as caçadoras, embora tudo aquilo, é claro, viesse com um preço.

    Tradicionalmente, as amazonas tinham um voto de castidade, e Melany, como a líder do Acampamento do Meio-Oeste, não poderia quebrá-lo. Decidira se afastar de Jason, cedo demais, muito antes que fosse possível criar uma suficiente despedida. Já se iam quase seis meses desde a última vez em que a vira, e ele se sentiu um pouco chocado ao parar para pensar no fato de que, provavelmente, ela não fazia ideia de que eles haviam perdido Cotton, Gibbs e Catarina naquele fatídico momento em que pisaram no Olimpo.

    O maître retornou depressa, trazendo carne e peixe crus e uma terrina com molho de ervas diversas. Tudo cheirava muito bem, mas John torceu o nariz.

    — Comida crua?
    — Chama-se sushi — disse Eremo, sorrindo. — Aprecie. A culinária oriental é a melhor que existe. Foi-nos trazida por ninguém menos que Rashid.

    Jason endireitou-se, interessado.

    — Rashid, o comerciante?

    Eremo fez que sim, com a boca cheia do tal sushi.

    — Sabe — ele engoliu ruidosamente —, Rashid é um daqueles homens interessantes. Ele não é bom ou ruim, simplesmente é o que é. Pague-o adequadamente e ele fará o que você pedir.
    — Parece-me um mercenário, como qualquer outro — respondeu Leonard, o sushi dançando em suas bochechas para lá e para cá.

    Jason puxou um daqueles filés de salmão, mergulhou no molho de ervas e levou à boca. Na realidade, tratava-se de uma verdadeira mistura de emoções; o molho era muito salgado e apimentado, mas o salmão oferecia a quebra perfeita para o sabor. Se na primeira vez parecia um pouco nojento, a partir da segunda já causava água na boca.

    O maître retornou no minuto seguinte trazendo uma apetitosa limonada suíça.

    — Com limões sicilianos — comentou, distribuindo os copos de cristal.

    Leonard levantou a mão, engolindo com desgosto a carne crua.

    — Tenho uma pergunta.
    — Estarei satisfeito em responder.

    Ele franziu o cenho.

    — Como é que você consegue ser tão bicha?

    Por algum motivo, o maître pareceu ofendidíssimo.

    — Não sou bicha, sou homossexual — ele corrigiu, suavemente. — Meu marido se chama Johnny e somos muito felizes.

    Leonard fez que não com a cabeça.

    — Não estou perguntando por que você usa a retaguarda desse jeito, porque isso verdadeiramente não me interessa. Pergunto-lhe por que você é bicha.

    O maître ergueu as sobrancelhas.

    — Quem “usa a retaguarda desse jeito” é Johnny, se é que me entende. E você também deveria tentar, qualquer hora dessas. Quem sabe, assim, deixa de ser tão amargurado?

    E marchou de volta à recepção, de nariz em pé. Jason riu, achando muita graça.

    — Bem feito — comentou, comendo outro sushi. — Preconceituoso de merda. É isso que você merece.

    Leonard estava prestes a responder quando um menino, com não mais do que 10 anos, aproximou-se apressado da mesa deles. Eremo ameaçou levar a mão à varinha, mas ele simplesmente entregou um bilhete a Jason, dando-lhe as costas e disparando para fora do restaurante outra vez.

    Um pouco estarrecido, ele desdobrou o bilhete, em que somente duas linhas estavam escritas.

    Solicito urgência máxima. Ele nos matará. O Capacete está aqui. Não há outra forma de obtê-lo. Preparem-se para enfrentar o impossível. É uma armadilha. Estamos encrencados. Randal.

    Jason levantou-se de um salto, largando uma bolsa cheia de ouro na recepção do restaurante e correndo no sentido das escadas, os outros em seus calcanhares. Se estavam em apuros, o último desejo dele seria saber como Randal conseguira lhes mandar aquela mensagem. Secretamente, tinha suas suspeitas, mas não era o momento de levantá-las contra o amigo e, certamente, não o julgaria.

    Estava na hora de socorrê-los.

    *

    Randal retornou ao seu corpo, respirando fundo e despertando outra vez. Tinha sido um plano audacioso, deixar sua casca, procurar por outra e entregar uma mensagem às pressas para Jason e retornar ao corpo que tanto amava. Zathroth relanceou um olhar para ele, lançando outro para o faraó, que, no canto oposto da suntuosa sala, lixava preguiçosamente um machado imenso.

    — Sei o que fez — cochichou, preocupado. — Jason não vai julgá-lo.
    — Ele pode me julgar o quanto quiser — respondeu Randal, no mesmo tom de voz do outro. — Não me importo, desde que chegue logo aqui.
    — Silêncio — gritou Arkhothep.

    Randal calou-se instantaneamente, atitude sabiamente espelhada por Zathroth, que também não aguentava mais tomar chute na cara. Feliz ou infelizmente, agora, não tinham nada mais o que fazer, exceto aguardar pela chegada de Jason e dos outros, na certeza de que ambas as mensagens, contendo a localização e o pedido de socorro, haviam sido entregues adequadamente.

    Mas, também, que ideia, praguejou Zathroth, amaldiçoando-se por caçoar das lendas que envolviam aquele lugar. Havia somente uma razão pela qual ossos acumulavam-se pelo chão e ninguém sabia o que existia ali dentro. Quem quer que já tivesse entrado, nunca conseguira sair.

    — O demônio cristão linguarudo morrerá primeiro — gritou o faraó, sem, contudo, se mover.

    Randal sacudiu a cabeça, também questionando a própria sanidade. Jamais cogitara deixar Zathroth sozinho naquele lugar, mas, agora, achava que retornar para a sua casca somente significava ter assinado sua sentença de morte.

    Sabia, contudo, que Jason se negaria. Não permitiria.

    E em suas mãos estava a esperança pela salvação. Novamente.

    Próximo episódio: CAPÍTULO VII – O LUGAR MAIS SEGURO DA TERRA

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    O Exorcismo de Alyssa Amber
    Acompanhe o piloto do thriller mais recente da seção Roleplay!

    Jason Walker e o Patrono do Apocalipse

    Acompanhe a quinta e última história de Jason Walker na seção Roleplay!

  2. #22
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
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    Que capitulo, cara. Vários momentos cômicos que quase me fazem esquecer do quão Randal e Zathroth estão fudidos. Leonard sendo Leonard e Eremo mandando um momento memorável:

    Ele olhou para Jason carinhosamente.

    — Querido, ela fará a porra que eu quiser.
    Não consigo imaginar aquele velhaco daquela ilhota falando isso, tu faz mágica com esses personagens, cara.

    Leonard também mandando um momento melhor que o outro, e todos eles me fazem questionar o que seria dessa história sem ele. O mesmo vale pro Jason. Acho que ele não teria feito metade do que fez sem ele. Eu espero que salvem agora a dupla do faraó pica grossa e mostrem mais uma vez como são a melhor dupla. E eu sinto que o Cajado de Moises ajudará bastante nessa luta.

    Segue na atividade aí parceiro, que tô sempre acompanhando.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~ Bloodoath ~ ◉ ~~ ◉

  3. #23
    Avatar de Ameyuri Ringo
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    Kkkkk esse leonard e de mais, parabéns neal gramde capítulo, ps: arkohtep merece um couro !
    Ameyuri Ringo The Ghost Of Sparta!!!

  4. #24
    Avatar de Neal Caffrey
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    No último episódio: Randal, preso na tumba de Arkhothep com Zathroth, faz um pedido de socorro desesperado para Jason, violando, inclusive, várias normas que ele mesmo criou quando decidiu conviver com os seres humanos. Os amigos se dirigem à tumba para salvá-los, mas mal sabem o que os espera.

    CAPÍTULO VII
    O LUGAR MAIS SEGURO DA TERRA


    Ferumbras dispensou Rashid com um gesto, pagando-lhe exatamente aquilo que haviam combinado. Trinta milhões de peças de ouro era uma bagatela por aquilo que ele trouxera.

    Ele desenrolou a Túnica Rubra com um par de luvas, evitando tocá-la, analisando-a com cuidado e devoção. As lendas ao seu respeito eram verdadeiras; ela tinha aquela aura demoníaca que devia ter, mesmo porque fora fabricada pelo próprio diabo. Jason Walker não teria estômago para empunhá-la, mesmo que soubesse que era desnecessário, mas, ele, Ferumbras, sabia muito bem o que fazer com ela. Não precisava de relíquia alguma para ser mais poderoso do que todas elas juntas. Bastava mantê-la fora das mãos de Jason Walker e dos outros.

    Ele fechou os olhos e, ao abri-los, estava no Castelo de Carlin, diante do cansado Morfeu. Os olhos dele arderam por um instante ao vislumbrar a Túnica.

    — Qual é o lugar mais seguro da Terra?

    Morfeu sabia que o questionamento era retórico. Ele lhe deu um meio sorriso.

    — Eu o conheço.

    Não era uma conversa aleatória.

    — Sabe que não posso pisar naquele lugar maldito.
    — Eles também sabem.
    — Sim.
    — E ninguém precisa saber que é um lugar interessante e que desperta curiosidade.
    — Não.

    Ferumbras depositou a Túnica Rubra dentro de um baú e o selou magicamente, não sem que antes Morfeu a tocasse, sentindo verdadeira devoção pelo poder que ela exalava.

    — Farei o que for necessário.
    — Se fosse diferente, não precisaria de você.

    E desapareceu.

    *

    Arthur levantou a cabeça quando aquela criatura andrógina nefasta ingressou na sala do trono em Thais, trazendo consigo um cão infernal amarrado numa coleira tosca. Era difícil de dizer se era homem ou mulher; o corpo era esguio e tinha seios fartos, mas a cabeça careca e os traços masculinos – para não falar no gogó – eram bastante confusos naquela paisagem toda.

    O rei de Thais já tinha visto aquilo por mais vezes do que gostaria. Procusto era cruel e gostava bastante de colocar fogo nas coisas, mas, para ser sincero, a presença dele ali só incomodava por causa da aura insuportável que exalava. Nenhum dos seus atos tinha sido sistematicamente violador até aquele momento, e Thais seguia um curso natural, independentemente da sua estadia na cidade.

    O basset pequeno chamado Noodles escondeu-se sob o trono quando Procusto marchou para dentro, trazendo seu cão consigo.

    — Arthur — cumprimentou.

    O rei tentou evitar torcer o nariz. Não bastasse a mistura de emoções que era sua aparência, a voz também não sugeria muita coisa.

    — Procusto.

    O servo de Ferumbras deu uma boa olhada nos arredores. A escadaria que dava início à sala era simples, mas o local, em si, era suntuoso. Aquele grosso carpete vermelho se estendia desde a escada, ao sul, até o trono, ao norte, e quatro colunas de pedra sustentavam o teto, como leviatãs surgidos das profundezas. Os dois guarda-costas ao lado do trono não sugeriam qualquer ameaça, mas, se faziam o rei se sentir melhor…

    — Em que posso ser útil?

    Procusto deu de ombros, erguendo uma sobrancelha.

    — Vim até aqui para ver como estão as coisas.
    — Exatamente como estavam antes de vocês retornarem. Pessoas vivendo, riqueza girando… nada de excepcional.

    O outro assentiu, dando-lhe um meio sorriso.

    — Assim está bom.
    — Quando poderemos executar nosso acordo?

    Procusto umedeceu os lábios, pensativo.

    — Quando estiver disposto a cumprir com a sua parte dele.

    Arthur assentiu mecanicamente.

    — Assim que Jason Walker me procurar.
    — Não deve tardar.

    Ele ia deixando a sala quando Arthur o chamou outra vez.

    — Sabe o que significa matar Eremo, certo? — conjecturou. — Jason Walker não descansará até arrancar minha cabeça.

    O outro assentiu devagar, compreendendo.

    — Até onde combinamos, este… é um problema seu, e não meu.

    Arthur mordeu a língua várias vezes enquanto Procusto descia as escadas lentamente, seu cachorro deixando um grande rastro de enxofre pelo caminho. Convenientemente ou não, não tardou até que um anu feito de fumaça dourada entrasse pela janela, batendo suas asas e chamando a atenção do pequeno Noodles.

    — Sei o que está pensando em fazer — disse com urgência a voz etérea de Heloise. — Não faça. Não discordo das suas motivações, mas ele não cumprirá com sua parte do acordo e Jason irá matá-lo. Guarde minhas palavras. Não o protegerei. Não ouse me procurar quando recebeu tantas orientações no sentido contrário.

    O rei abaixou a cabeça enquanto a fumaça desaparecia por completo, sopesando suas opções. Poucas opções.

    — Se me permite, alteza — disse o pomposo Henricus, subindo as escadas e alisando seu colete brega. — Devo dar certo crédito à opinião da rainha. É um acordo de risco, sem prova de bilateralidade.
    — É por isso que você é o clérigo, e o rei sou eu — repetiu Arthur, como havia dito quando Jason o procurou para enfrentar Lúcifer.
    — Se assim o senhor diz…

    *

    A porta preta, simples, sem maçaneta, parecia zombar deles. Ela refletia de forma difusa e infinitamente a imagem do archote preso à parede de pedra, bruxuleando ao longo dos nódulos da madeira, como se dançasse para o grupo.

    De Espada em punho, Jason analisava aquilo, sentindo, pela primeira vez, certo receio de enfrentar o desconhecido. Se Randal achara necessário possuir alguém para lhe entregar uma mensagem, parecia certo que, por trás da porta, a surpresa não era das melhores. Atrás dele, Leonard empunhava o Arco dos Elfos, e o Cajado de Moisés estava nas mãos de John, junto do Livro das Ciências Ocultas. Eremo também mantinha sua varinha em riste, aguardando pelo movimento do afilhado.

    Jason respirou fundo e tocou a porta, enquanto todos os outros tocavam o seu ombro. Por um instante, nada aconteceu; no segundo seguinte, todos estavam sendo sugados e atirados para o outro lado, onde a visão, por falta de expressão melhor, era estarrecedora.

    O aposento era perfeitamente quadrado, e, no centro, havia algo que se parecia muito com um caixão dourado, cheio de tudo que se pode imaginar. Espadas ancestrais, escudos medievais, colares, anéis, brincos, pulseiras, machados, clavas, arcos e bestas, tudo feito de ouro e prata.

    Por um instante, esse foi o aspecto existente na sala que atraiu o olhar dos amigos. No segundo seguinte, contudo, puderam notar que o chão estava forrado de esqueletos já em avançado estado de decomposição. A luz dos archotes de dentro era tão infinita quanto a dos archotes de fora, e sob dois deles, presos pelos pulsos em grossas correntes com algemas, estavam Randal e Zathroth.

    Demorou um certo tempo para que eles pudessem discerni-los, dada a surra que haviam levado. Os dois lhes deram meios sorrisos quando puderam, mas o momento seguinte foi de absoluto terror.

    Um imenso homem, todo coberto de bandagens e usando uma bizarra túnica azul, materializou-se diante de Randal, arrancando-lhe a cabeça com um imenso machado. Jason sentiu seu coração se descompassar; não tinha havido a menor chance de salvar o amigo. Quando o enorme faraó avançou também contra Zathroth, no entanto, todos agiram ao mesmo tempo, disparando feitiços, flechas e até um punhal puído e gasto contra a criatura, que deixou cair o machado quando rolou pela sala.

    Jason pegou a cabeça do morto Randal e juntou-a do corpo antes de avançar contra o faraó de Espada em punho, deixando para pensar no funeral do amigo mais tarde. Ele se levantou devagar, mas moveu-se depressa para aplicar-lhe um soco bem dado na altura do estômago e chutar-lhe o rosto, atirando-o pela sala antes que pudesse se defender.

    Seu próximo alvo foi Eremo, enquanto Zathroth, com o fôlego que lhe sobrava, lutava contra as correntes que o amarravam, lacerando os próprios punhos. Mas Eremo, que era muito mais velho, muito mais inteligente e muito mais dispensável, podia se dar ao luxo de ser incauto e dançar para lá e para cá, disparando feitiços contra o monstro e pondo fogo em suas bandagens. Leonard disparou várias flechas contra a cabeça dele, sendo incapaz de penetrar seu capacete denso.

    Zathroth finalmente se libertou e rastejou para o fundo da sala, num canto oculto pelas sombras. Jason estava de volta, e partiu para cima do faraó com todo o ódio que pode reunir, estocando-o na altura da coxa e assistindo escorrer o sangue – surpreendentemente – verde e leitoso.

    O faraó, contudo, não deu mostras de ter sentido qualquer coisa. Pelo contrário, usou a mesma perna para chutar a cabeça de Leonard, que despencou e desmontou no mesmo lugar, desmaiado. A um canto, John folheava febrilmente o Livro enquanto Eremo e Jason tentavam atrair a atenção da criatura para si, o que, por si só, não era boa ideia; um quarto de passo dela vencia qualquer meia distância, e era difícil de mantê-la quando podia ser suprimida tão facilmente.

    Finalmente, ele alcançou Eremo. Puxando o velho pelos braços, atirou-o no ar, ameaçando socá-lo em pleno voo. Jason, no entanto, fora mais rápido, e conseguira cravar a Espada na altura do cotovelo do bicho, aparando seu ataque. O sangue esguichou do ferimento e lavou Jason da cabeça aos pés, mas o cavaleiro tinha outras preocupações agora: enquanto Eremo aterrissava dolorosamente no chão, a múmia se virava contra ele, caminhando como uma fera faminta.

    Ele sacou a Espada do braço e atirou-a pela sala, cerrando os punhos e jogando-os contra Jason, que somente fazia desviar, sem fazer ideia do que faria quando a sala finalmente terminasse.

    Tawaquf[1] — murmurou, finalmente, a voz de John.

    Fosse o que fosse aquilo, exerceu poder imediato sobre o faraó. Ele parou na metade de um ataque, girando o corpo totalmente e olhando para John como se o visse pela primeira vez na sala. Ele arriscou caminhar em sua direção.

    Yjb alaitizam[2] — continuou John, muito seguro.

    Jason piscou duas vezes, tentando compreender.

    — Árabe — sussurrou Eremo, sorrindo conforme podia e trazendo a Espada de volta para ele. — Você tem que assistir isso.

    O faraó baixou a cabeça por um instante e ergueu-a novamente.

    Nem, saydi[3] — respondeu o faraó, leniente.
    Wadaeat ealaa khawdhat alkhas bik wahafiz hayat aljamie[4].

    Agora, Jason estava positivamente surpreso. Tinha muita vontade de rir até a exaustão, mas John estava levando aquele trabalho com muita seriedade.

    Finalmente, o faraó simplesmente tirou seu capacete e atirou-o pelo chão, acertando a cabeça de Leonard, que vinha acordando, mas voltou a desmaiar.

    Nem, saydi.
    Aleawdat 'iilaa alnuwm waeadam muhajamat 'ayi shakhs akhar[5].

    O faraó raciocinou por meio segundo e assentiu uma vez.

    Nem.

    Ele arrastou-se preguiçosamente até o caixão cheio de raridades, deitando-se sobre elas. Com a mão sadia, puxou a tampa do caixão e selou a si mesmo, de forma surpreendente e absolutamente inesperada.

    John respirou fundo e segurou nos joelhos, sentindo uma imensa vontade de vomitar. Finalmente, Zathroth voltou se arrastando, engolindo em seco.

    — Podem consertar meu corpo? — perguntou. — Não quero mais ficar aqui.

    Jason arqueou as sobrancelhas para ele, incrédulo.

    — Randal? Saltou para dentro de Zathroth?
    — Bem em tempo, eu diria — ele respirou fundo. — John, diga-me que há um feitiço para juntar cabeça e corpo nessa joça.

    John riu, um pouco nervoso.

    — Com certeza, há.

    [1] Pare.
    [2] Você deve obedecer.
    [3] Sim, senhor.
    [4] Entregue o capacete e poupe a vida de todos.
    [5] Volte a dormir e não ataque mais ninguém.



    *

    O homem diante de Morfeu tinha uma certa aura que chegava a assustá-lo. Seus cabelos médios e lisos caíam até a altura dos ombros, e a barba cheia, branca como os cabelos, cobria-lhe todo o rosto. Tinha aquele ar jovial que era comum aos incandescentes, embora não o fosse, assim como os olhos azuis. O corpo torneado se destacava sob as roupas frescas de linho. Por alguma razão, fazia um calor quase insuportável do lado de fora do castelo.

    — Samuel — cumprimentou, incerto.
    — Oblivion, para você.

    Sua voz era grave e reconfortante.

    — Confesso que Senja é muito diferente do que eu imaginava.
    — Ela costumava ser exatamente como você imaginava. A essa altura, já deve saber que Jason Walker nos libertou, há três anos. Como pode ver — ele fez um gesto amplo, abrangendo toda a ilha —, a prosperidade retornou. Estações do ano como devem ser, solo arejado e forte, pessoas se desenvolvendo.

    Morfeu aquiesceu, contrafeito.

    — O feitiço é muito consistente. Ele sempre quis pisar aqui, neste castelo.

    Foi a vez de Samuel sorrir.

    — Simplesmente não acontecerá.
    — Talvez sim, talvez não. Trata-se somente de uma visita de rotina. Não se acostume com a minha presença, porque não tornará a vê-la.

    Samuel estreitou os olhos.

    — Morfeu, realmente não tornarei a vê-la. Pois da próxima vez que ousar cruzar esse limite, advirto-lhe que as consequências podem ser… desastrosas.
    — Espero que não me esteja ameaçando.
    — Para um bom entendedor, meia palavra basta.

    Morfeu umedeceu os lábios, desejoso de entrar em um confronto contra Samuel aqui e agora. A experiência, contudo, lhe dizia que não era uma boa ideia. Fora ele quem o trancafiara tantos milênios antes, logo que Ferumbras fora derrotado por Crunor, e o período que passara enjaulado não lhe dera sabedoria o suficiente para derrotá-lo agora.

    — Compreendido.
    — Encontrou o caminho para entrar, estou certo de que encontrará o caminho para sair.

    E sumiu.

    Próximo episódio: CAPÍTULO VIII – O SELO É ROMPIDO
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    Jason Walker e o Patrono do Apocalipse

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  5. #25
    Avatar de Ameyuri Ringo
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    Que susto neal kkk não estava apto para ver randal morre rs e Arthur deve ta sendo very hard as coisas em Thais para ele toma esse caminho John mostrando seu valor de posse de duas relic fica easy rs Boa ambientação como de costume! Excelente cap parabéns e um abrcss! Graaatz!





    Ameyuri Ringo The Ghost Of Sparta!!!

  6. #26
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    Saudações!

    Eu ainda estou relendo os capítulos anteriores por conta de toda a correria em que estive na RL (e que ainda estou, mas estava com muita saudade de ler e comentar nas histórias, então fiz o possível para tirar um bom tempo para ler), e cara... COMO EU AMO ANKRAHMUN E TUDO O QUE ELA TEM E REPRESENTA, BICHO! Eu estou absolutamente encantada com os últimos dois capítulos e louca para ver a continuação!

    Sua história continua excelente, Neal, e eu aguardo com uma pontada de tristeza a continuação; mesmo sabendo que será um final épico, ainda não me caiu a ficha que a saga de Jason Walker está chegando em seu fim.



    Abraço,
    Iridium.

  7. #27
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    Puta capítulo bom, cara. Todo mundo tomando um pau de Arkhotep, e John salvando o dia mais uma vez. Esse livro tem tanta coisa que não me surpreenderia se tivesse os números da Mega-sena também.

    E porra, esse Procusto me lembrou daquela Demon Outfit female, tem peito e tal, mas parece um homem. Já conheci umas crias assim, pro Arthur não deve ter sido menos estranho ter essa visão, e ainda acompanhado de um cão infernal. Uma bela aparição de qualquer maneira, bem que você disse que Procusto fará muita merda ainda. Vamos ver. Tô curioso a respeito desse Samuel também.

    Continue, a história segue ótima.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~ Bloodoath ~ ◉ ~~ ◉



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