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Tópico: Jason Walker e a Relíquia do Tempo

  1. #51
    Avatar de Neal Caffrey
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    CAPÍTULO 17 – ALEISTER CROWLEY


    Jason, Leonard e Rafael chegaram a uma clareira aberta no coração da floresta devastada, exatamente às margens do rio que serpeava pelo purgatório de fora a fora. Ali, uma fumaça densa saía pela chaminé de um casebre de madeira e surpreendentemente bem cuidado. Logo a porta se abriu, e Randal marchou para fora, olhando para eles com evidente interesse.

    Rafael e Leonard não conheciam o aspecto de Randal, mas Jason estava certo de que aquele não era o homem a quem procuravam. Ele sacudiu levemente a cabeça para o arcanjo, que compreendeu o sinal.

    O Randal de quem Jason se lembrava era totalmente diferente e visualmente muito mais inofensivo. Aquele homem diante deles tinha a pele muito negra e os cabelos cuidadosamente arrumados em tranças que iam até os ombros. Embora os olhos fossem vermelhos, as íris eram claras; mesmo
    que não houvesse dúvidas de que era um demônio, dava a impressão de ser, por algum motivo, pacífico.

    — Um arcanjo e dois seres humanos, um deles portando uma relíquia histórica de Crunor.

    A voz do homem era ressoante e grave, mas aveludada. Quando ele sorriu, revelou dentição perfeita. Algo não estava certo.

    — A que devo a honra? – prosseguiu, diante da falta de resposta.

    Rafael girou a cabeça de lado, raciocinando.

    — Dizem que, com o pagamento correto, você é capaz de realizar um certo tipo de trabalho – começou o arcanjo.

    O homem franziu o cenho.

    — Pagamento – ele pensou por um instante. – De que pagamento estamos falando?

    Rafael respirou fundo. Precisava prosseguir com cautela, o que passava necessariamente pela verificação de se aquele homem era Randal ou não.

    — Transporte – limitou-se a dizer. – Carona.

    Ele marchou para fora da casa e torceu a cabeça de lado. Naquele instante, finalmente Jason apreendia o quão peculiar era aquela figura: musculosa dos pés à cabeça, trajando calças de linho muito limpas, sem camisa, o corpo torneado à mostra, um colar de contas pendurado no pescoço.

    — Digamos que talvez – respondeu ele, igualmente desconfiado.

    Rafael virou-se para Jason.

    — Pergunte-lhe algo que somente ele possa responder.
    — “Ele” sou eu? – perguntou o homem, confuso.

    Jason raciocinou rapidamente.

    — Você se juntaria ao Anjo Caído se ele estivesse solto? Se sim, quais seriam suas expectativas?

    O homem arqueou as sobrancelhas, em sinal de surpresa. Seus olhos adquiriram um tom de vermelho um pouco mais vívido antes de retornarem ao normal. Ele flexionou os braços imensos, relaxando os ombros.

    — Com certeza é a resposta para a primeira pergunta. Quanto à segunda, qualquer coisa que não me obrigue a prestar atenção demais em coisas demais.
    — Há boas chances – argumentou Jason, sacudindo a cabeça em sinal positivo.

    O arcanjo avançou meio passo.

    — Qual é o seu nome?
    — Não sei – o homem balançou a cabeça. – Todos me chamam de Randal. Deve ser esse o meu nome.

    Jason semicerrou os olhos. Precisava se decidir depressa.

    *

    O suposto Randal os levou até um ponto, poucos metros adiante de seu casebre, em que a mata não estava queimada. Pelo contrário; tudo florescia de uma forma bastante singela, como se, naquele pedaço de menos de cinco metros quadrados, a natureza tivesse decidido simplesmente seguir seu curso natural.

    — Conhece-me? – perguntou Randal a Jason, enquanto caminhavam.
    — Talvez. Mas sua aparência não me diz nada.

    Randal fez sinal de compreensão.

    — Troco de casca constantemente. Somente por tempo suficiente para que o hospedeiro termine seus dias com dignidade.

    Jason relanceou um olhar para o demônio, sem responder nada. O que tinha de suspeito, tinha de peculiar.

    — Há um certo tempo, iniciei o cultivo de algumas especiarias peculiares neste pedaço do purgatório – explicou Randal, parando diante de 10 ou 11 mudas de plantas enterradas. – É o que chamamos de soil, no inferno. São esferas de energia que garantem determinados acessos.

    Rafael agachou devagar, as sobrancelhas franzidas e os olhos fixos no plantio. O arcanjo já tinha ouvido falar dos soil, uma espécie de planta mágica fertilizada no solo com o objetivo de limitar o alcance a alguns pontos da Criação. Nunca, contudo, tinha obtido acesso a um deles; Crunor os banira muitos milênios antes, quando demônios utilizavam a energia dos soil para realizar passagens proibidas.

    O fato de que Randal tinha livre acesso ao cultivo dos soil era um ponto extremamente fora da curva, do qual Rafael achou que deveria se ocupar em um futuro próximo. Naquele instante, era necessária a mistura correta.

    — Qual deles leva para onde? – perguntou o arcanjo.

    Randal riu, achando graça.

    — Sério? Assim, de graça?

    Rafael endireitou-se e revirou os olhos.

    — Nós o carregaremos conosco quando retornarmos à Terra – disse, de muita má vontade. – Embora você tenha acesso aos soil, imagino que, se pudesse utilizá-los para retornar, já o teria feito. Uma presença pura pode ser necessária para realizar a passagem.

    O demônio fez que sim.

    — Precisamente, minha nobre e dinâmica criatura celestial. Para onde precisam ir, antes de mais nada?

    Jason e Leonard trocaram um olhar receoso.

    — Inferno.

    Randal levantou a cabeça de uma só vez, estalando o pescoço.

    — Inferno? Vão fazer o que no inferno?

    Rafael sacudiu a cabeça.

    — Não faz parte do serviço esse tipo de informação. Transfira-nos para lá e, quando voltarmos, vamos viabilizar seu transporte de volta conosco.

    O demônio não fez maiores perguntas e puxou pela raiz a planta que se encontrava na extrema direita no cultivo. Atrelado a ela havia uma esfera de energia violácea, brilhante e que espiralava conforme o vento lhe tocava. Era muito pequena, talvez do tamanho do bulbo de um cogumelo comestível.

    — Toquem nela. Vocês têm duas horas.

    Rafael, Leonard e Jason trocaram mais um olhar, sem bem saber o que esperar. No instante seguinte, todos tocavam a esfera, que lhes devolvia somente um brilho pulsante, com insolência.

    — Só isso? – perguntou Jason.

    Randal sorriu.

    — Boa viagem.

    *

    Jason rolou pelo chão e logo sentiu um cheiro insuportável de ovo podre. Quase ao mesmo tempo, o dedo mindinho de sua mão direita começou a ferver e queimar, como se ele tivesse colocado a mão em uma panela de água fervente.

    Por puro reflexo, o garoto se jogou para trás, rolando um pouco mais. Adiante dele, havia um pequeno filete de água, escuro como a noite, correndo para a esquerda. Não havia dúvidas de que estava na antecâmara de uma imensa caverna rústica e tosca, como se tivesse sido aberta no coração de uma grande montanha.

    Leonard e Rafael chegaram segundos depois, passando mais ou menos pela mesma experiência, à exceção do arqueiro, que acabou aterrissando no pequeno córrego de bunda. Embora sua reação tivesse sido muito engraçada, Jason não via motivos para rir naquele momento.

    A caverna, na verdade, era muito intencional, no final das contas. A abóbada do teto disparava em todas as direções, mas não havia dúvidas de que era circular. O córrego que avançava para a esquerda e vinha da direita era constante, e vez ou outra borbulhava. Seu conteúdo era muito espesso.
    O cavaleiro olhou para o arcanjo, que assentiu uma vez, confirmando. Agora, era questão de saber onde estaria John. Randal lhes dera duas horas, para que retornassem exatamente ao ponto onde aterrissaram, ou ficariam presos pela eternidade. Era hora de agir.

    Os amigos seguiram o curso do rio no sentido da esquerda, por uma questão de escolha livre. Adiante, o córrego era interrompido abruptamente pela borda do planalto, desaguando lá embaixo, onde havia uma grande clareira preenchida por um líquido de cor transparente. Rafael torceu o nariz.

    — Água benta. O córrego traz as almas condenadas. Esse é o primeiro estágio de sofrimento, não deve durar menos do que um milênio.

    Jason pensou naquilo por um instante, antes que uma voz masculina ressoasse às suas costas.

    Diante deles estava um homem careca, de meia idade, usando um cavanhaque bisonho. Seus olhos eram negros como duas opalas. Usava roupas rasgadas.

    — Arcanjos e humanos, no inferno – disse, a voz grave e baixa. – A que ponto chegamos?
    — Aleister – Rafael o reconheceu de pronto. – Ganhou uma promoção? Primeiro no comando? Você está aqui e ele está lá em cima. Não me parece justo.

    O homem chamado Aleister deu de ombros.

    — Cada qual com sua incumbência. O anjo. É quem vocês procuram, correto? John Walker. Um incandescente de primeira. Não entendo qual era a intenção de Crunor ao mandá-lo para cá, mas não posso deixar que o levem.

    Jason tombou a cabeça de lado.

    — Qual a serventia dele? Um condenado que não foi condenado?

    Aleister virou seus olhos para Jason de má vontade e sacou duas armas de fogo, uma de cada lado da cintura. Pistolas.

    — Não sou eu quem condena. O juiz é Crunor. Só faço o papel de executor da pena. Se John Walker está aqui, foi condenado. Se foi condenado, deve pagar sua penitência.

    O cavaleiro sacou a Espada de Crunor e ficou satisfeito ao ver Aleister se retesar por um instante diante do brilho da lâmina. A verdade é que não estava sequer minimamente interessado no julgamento de Crunor. Fora até ali para resgatar John e cumpriria a missão, independentemente de quem o tivesse posto naquela situação ultrajante e torturante.

    — Vai lutar comigo, Jason Walker? – Aleister sorriu, tentando aliviar a tensão que sentia. – Então faremos isso nos meus domínios.

    *

    Jason e Aleister desapareceram, e Rafael e Leonard saltaram para trás, assustados. O arqueiro disparava os olhos para todos os cantos e corria de lá para cá, mais nervoso do que nunca. O arcanjo, no entanto, pôs-se a raciocinar. Aleister tiraria vantagem de lutar em casa e, se não quisesse ser encontrado, ao menos naquele lugar, não o seria.

    Calmamente, Rafael sentou-se no chão de pernas cruzadas e orientou o arqueiro a fazer o mesmo.

    — Aquele feitiço de localização. Ainda sabe usá-lo?

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    Jason Walker e a Sétima Vingança
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  2. #52
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    Da exiva neles rs, Mais um grande capítulo.Minha maior dúvida é porque crunor envio jhon a tortura emfim parabéns neal tamo junto!
    Ameyuri Ringo The Ghost Of Sparta!!!

  3. #53
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
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    Mais um belo trabalho trabalho nesse capítulo, Neal.

    Gostei das descrições que deu do inferno e também da forma de se chegar lá. O jeito como você descreveu Randal deu a parecer que ele realmente é intimidador, mas na verdade, é pacífico. É um personagem interessante até então, assim como Aleister. Curioso pra ver como essa luta será.

    Tô no aguardo do próximo.

    e eu acabo de notar que to há duas semanas sem postar capitulos novos, ta meio complicado ultimamente heheh



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  4. #54
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    Os likes foram dados antes, e agora é hora de comentar! Ah, Aleister Crowley.... <3 maravilhosa aparição, que chega chegando! Agora, Randal... Ele ainda parece ter bem mais pano para aparições ainda pela frente, mas já me cativou. Foi interessante, e de certa forma um alívio ver alguém que não pareceu opor-se diretamente a Jason e sua tchurma. Btw, Randal lembrou-me muito a mítica figura Caronte, e acho que esse fator por si só foi suficiente para que ele me cativasse xD

    No mais, aguardo o próximo, e já dei meu parecer em Rubi de Sangue.





    Abraço,
    Iridium.

  5. #55
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    CAPÍTULO 18 – NÊMESIS

    Tão logo Jason e Aleister chegaram em uma verdadeira arena com chão de linóleo negro, o demônio disparou sua pistola na direção do cavaleiro, que se esquivou por um triz. Era mais provável que Aleister tivesse errado o tiro, mas fazia bem começar em certa vantagem.

    Naquele local, Jason sentia suas energias se esvaindo suavemente, como que destinadas a drená-lo aos poucos, fazendo-o perder as forças no campo de batalha. Talvez, estivesse inserto em uma situação em que seria obrigado a utilizar os mesmos instintos que utilizara nas arenas de Zathroth, Sirius e Bellatrix, o que parecia ter acontecido tantos anos antes. Uma vez mais, ser-lhe-ia exigido mais do que força bruta para sair daquela inteiro e vivo.

    Aleister disparou outra vez com a pistola, acertando a perna direita de Jason de raspão. O cavaleiro se retesou somente por meio segundo, tempo suficiente para que o outro vencesse a distância até ele, agora brandindo uma clava imensa e de aspecto letal.

    Jason gingou para a direita e estocou, e Aleister desviou seu golpe com facilidade. O demônio pendeu o corpo para a esquerda, fintou um golpe curto e chutou, o golpe passando no vazio diante da esquiva em dia de Jason. No instante seguinte, Jason girou a Espada e desferiu um golpe horizontal, encontrando o vazio novamente; Aleister saltara para trás.

    Por alguns segundos, os dois giraram no centro da arena de batalha, os olhos de um fixo nos do outro. Quando um deles dava um passo à frente, o outro dava um passo atrás; quando o passo era para a esquerda, o outro seguia à direita. Jason estudou brevemente os movimentos do seu oponente, tentando encontrar uma brecha em seu jogo, mas era um guerreiro competente, difícil de se bater.

    Aleister soltou um golpe pesado e Jason adiantou-se na hora errada. A maça acertou seu ombro direito e o cavaleiro deixou cair a Espada, que deslizou pela arena, longe do alcance.

    Jason sentiu uma dor excruciante tingir seus sentidos, os dedos da mão direita fechando-se sozinhos pelo choque que lhe fora aplicado nos nervos do braço. Por algum motivo, a Espada de Crunor não retornara para suas mãos.

    O demônio distanciou-se de costas e tomou a Espada nas mãos, analisando-a longamente. Somente após foi que Jason percebeu: fora desarmado, perdera a Espada. Ela não obedeceria mais aos seus comandos, exceto caso conseguisse conquistar sua lealdade novamente.

    O menino se amaldiçoou pela própria estupidez, sacando o pequeno punhal de emergência que trazia na cintura e analisando a arena por um instante, buscando um ponto de referência no qual se fiar, mas não havia nada. Tudo era muito plano e muito semelhante. A ilusão não seria sua parceira naquela batalha enfadonha.

    Aleister sorriu e soltou a maça pesada, que se cravou no chão, rompendo o linóleo. Manuseando a Espada de Crunor, ele estava prestes a dar números finais ao combate.

    Um pouco mais confiante, o demônio avançou, estocando com a Espada, buscando o contato com Jason. O cavaleiro dançou para lá e para cá como pode, mas não conseguiu evitar todos os golpes. Aqui e ali, a Espada enterrou-se em sua carne, abrindo ferimentos agudos, dos quais vazava uma profusão de sangue.

    Por um momento, Jason sentiu-se impotente, encarando com certa resistência o fato de que estava próximo de morrer. A Espada de Crunor servira-lhe com fidelidade desde que a conquistara, mas, agora, sua maior aliada voltara-se contra ele. Não tinha nada nem ninguém que olhasse por ele naquele instante. Morreria, e não podia culpar ninguém exceto a si mesmo. Perdera a Espada. Perdera a maior das suas vantagens em um combate franco.

    Ele saltou para trás quando Aleister avançou novamente, escapando de um golpe com certo atraso. A Espada abriu-lhe outro talho no braço esquerdo.

    Céus, pensou, tentando aparar um dos ataques com a medíocre adaga. Estou frito.

    *

    — Direita – disse Leonard, orientando.

    Rafael seguia adiante, segurando o arco de Leonard, que caminhava de olhos fechados, a mão esquerda pousada no ombro direito do arcanjo. Inicialmente, o arqueiro imaginou que Rafael desejaria assistir o combate de Jason, mas ele tinha um plano ainda mais audacioso do que aquele: utilizar o vínculo criado não entre Leonard e Jason, mas entre Leonard e John, e encontrar o incandescente enquanto Jason dava cabo de Aleister.

    Eles já haviam passado por uma sucessão de ramificações dentro da caverna, saindo, em diversas ocasiões, em pontos muito estreitos e praticamente invencíveis, tamanha terra acumulada. Apesar disso, os amigos tinham conseguido vencer as adversidades até ali, mas embrenhavam-se tão profundamente no inferno que não sabiam como, nem quando, conseguiriam sair.

    — Esquerda – continuou Leonard.

    Rafael tomou o caminho da esquerda e seguiu reto, uma esfera de energia já parca flutuando diante dele. Até aquele momento, tinha entendido um pouco da organização do ambiente. Diversos corredores continham salas fechadas e portas seladas com magia. Não era impossível escutar os gritos dentro delas. Com certa apreensão, o arcanjo acreditava que alguns dos condenados mais ilustres acabavam indo parar na solitária, onde eram criados certos infernos particulares para atormentá-los pela eternidade.

    A circunstância recentemente descoberta não atenuou a tensão que Rafael sentia a respeito de John Walker. Muitos deles eram incapazes de entender os desígnios de Crunor, mas, agora, o arcanjo os entendia ainda menos. John fora um grande anjo e cumprira seu papel beirando as raias da perfeição. Não compreendia por que motivo fora parar ali, no caminho da danação, em vez da iluminação.

    Na oportunidade em que John fora encaminhado para o inferno, pela primeira vez os arcanjos decidiram questionar Crunor. O Criador os escutara até a última das palavras, mas respondera que seus planos eram seus planos, e que deles os arcanjos não participavam como mentores, apenas como executores. E os dispensara logo na sequência. De uma forma ou de outra, ele parecia saber o que fazia, e o assunto fora esquecido depressa.

    — Aqui – disse Leonard, de repente.

    O arqueiro soltou o ombro do arcanjo e analisou longamente uma porta negra de ferro, sem maçaneta mas com portinhola. Reconheceu imediatamente a voz de John quando o incandescente gritou lá dentro.

    — Parece-me óbvio que precisamos abri-la – disse Rafael, tocando a porta cuidadosamente, procurando por falhas.

    Leonard baixou a cabeça. O tempo estava correndo.

    *

    Jason disparou pela arena mancando, relanceando olhares por sobre o ombro enquanto era cruelmente castigado por Aleister, que parecia invencível. Conseguira escapar de alguns golpes, mas sofrera outros tantos, e agora tinha avarias severas por todo o corpo. Embora tivesse conseguido tempo para raciocinar um pouco, aquele tempo, por si só, parecia insuficiente. Precisava pensar mais rápido.

    Contrariando as expectativas, a Espada de Crunor realmente não registrava mais a propriedade de Jason. De outro modo, amoldara-se com perfeição nas mãos de Aleister, que era um carrasco de maior competência. Aquele fato ainda torturava o garoto.

    Jason parou, virando-se totalmente. Aleister, um pouco confuso com a mudança repentina de atitude do cavaleiro, também estacou, a Espada firme nas mãos. Dois passos à direita, a maça negra reluzia com a luz bruxuleante que dominava a sala. O cavaleiro acabara de ter uma ideia.

    — Pronto para se render? – perguntou, sorrindo de canto.

    O garoto semicerrou os olhos, franzindo o cenho.

    — Esse pensamento cruzou minha mente.

    Vamos, morda a isca, pensou Jason, colocando-se de joelhos e atirando o punhal diante do corpo, em sinal de desistência. Vamos, mentalizou, observando Aleister vencer a distância devagar e posicionar-se diante dele, dividido entre a satisfação e a desconfiança.

    — Você se entrega? – perguntou, empunhando a Espada.

    Jason jogou os braços para o ar, exasperado.

    — Que outra escolha tenho? Combato sem armas e em evidente desvantagem. Morrer depressa parece ser uma opção mais palatável.

    Aleister respirou fundo. Seu coração disparou quando ele levantou a Espada, prestes a fazer o que tantos outros tinham sido falhos em tentar: matar Jason Walker.

    O demônio baixou a espada num movimento gracioso. Foi a deixa de que Jason dependia.

    Apostando em sua maior velocidade, o cavaleiro puxou o punhal do chão e cravou-o na perna esquerda de Aleister, que dobrou-se imediatamente, em prantos. Jason rolou o corpo para o lado direito e puxou a maça do chão, sofrendo um pouco para manuseá-la devido ao peso.
    Ele a girou no ar e atirou com toda a força que podia, acertando o alvo com maestria. A cabeça de Aleister torceu-se num ângulo bizarro, e o demônio rolou pela arena de batalha, deixando cair a Espada de Crunor. Jason sabia que o tempo era curto, e que precisava reaver a Espada.

    O cavaleiro mancou até onde Aleister tinha parado e sacou o punhal de sua perna, sendo lavado pelo sangue que esguichava do demônio quase dos pés à cabeça. Ele ajoelhou-se ao seu lado e arrancou-lhe a mão direita no exato instante em que a Espada de Crunor retornou a ela, totalmente alheio aos gritos de dor e protesto do oponente.

    No instante seguinte, a Espada desapareceu, ressurgindo embainhada na cintura de Jason. O cavaleiro sorriu, respirando fundo. Virara o jogo e estava prestes a vencer o combate mais difícil de sua vida.

    *

    A porta se abriu com estrondo quando Rafael pronunciou algumas palavras em enoquiano. Ali, John Walker, totalmente mutilado, estava pendurado pelos pulsos em grossas algemas de ferro presas ao teto. Os dois demônios que o torturavam tombaram tão depressa quanto se viraram, cada qual com uma flecha cravada na testa. Leonard baixou o arco por um instante, analisando a figura do incandescente.

    Não foi surpreendente para o arqueiro quando o corpo de John começou a se recompor magicamente, quase ao mesmo tempo em que seus gritos recomeçavam. A eternidade de tortura à qual o incandescente havia sido submetida era indizível, e alguns desses momentos já criavam o efeito de rebote. John sofria mesmo sem ter a carne lacerada naquele momento.

    Quando Rafael rompeu as algemas que o prendiam, o incandescente tombou para a frente, de joelhos, abrindo os olhos vagarosamente. A escuridão só era suprida pela esfera de luz que o arcanjo conjurara. John torceu a cabeça de lado, tocando o corpo devagar, aos poucos registrando a presença de Rafael e Leonard.

    — Não… acredito – disse, a voz rouca, como se tivesse sido utilizada nos seus limites por muito tempo. – Leonard. Rafael.
    — Precisamos voltar – disse Leonard, dispensando os abraços e os beijos. – Nosso tempo está acabando.

    *

    Jason pousou novamente na entrada da caverna e sentou-se, muito ferido. Com devoção e confiança, passou a aguardar pelo retorno dos amigos.

    EPÍLOGO


    Max, o capitão, analisava com gratidão o horizonte, onde céu e mar dividiam seu reino igualitariamente, uma garrafa de rum pela metade nas mãos. Ele lançou um rápido olhar para o relógio de bordo. Faltavam três minutos.

    Naquele tempo, algumas das quaras já haviam colocado as cabeças medonhas para fora da água, registrando a presença da pequena embarcação. Já estava chamando muita atenção. Partiria se os três forasteiros não chegassem em tempo.

    Os três minutos vieram e se foram. Ele respirou fundo, fechando os olhos. Droga. Coloquei fé nestes. Davam a impressão de ser melhores.

    Com a ajuda da manivela do mastro, Max começou a recolher a âncora, devagar e sempre, sentindo-a mais pesada do que o convencional. Por um instante, temeu que alguma quara tivesse tencionado as correntes e prendido a âncora no fundo, mas, embora com menos velocidade do que o normal, estava conseguindo retirá-la da água.

    Aos poucos, eles foram surgindo. Primeiro o espadachim, muito ferido, sustentando-se a duras penas; depois, o arqueiro obtuso, assustado mas inteiro; logo após, o homem negro, de terno e semblante sério. Apesar de se sentir aliviado por vê-los emergindo novamente, todos agarrando as correntes da âncora com firmeza, surpreendeu-se quando outros dois indivíduos também apareceram.

    Um deles era negro como o outro, porém, muito mais rudimentar. Usava tranças e mantinha o peito à mostra, cheio de colares de contas. Por último, um homem de pele queimada pelo sol, repleto de tatuagens nos braços firmes e resistentes. Todos chegaram ao convés em segurança, na medida em que a âncora era recolhida e guardada em seu compartimento.

    — Sei que não temos… muito o que exigir – disse o homem de terno, ensopado da cabeça aos pés, respirando com dificuldade. – Porém, pagamos o dobro se o senhor providenciar um desvio de rota.
    — De que desvio… ic… estamos falando? – respondeu Max.

    O capitão relanceou um olhar tenso para o espadachim, que parecia estar por um fio.

    — Carlin – respondeu o homem.

    Agora, as quaras começavam a surgir com mais frequência, algumas delas mantendo-se na superfície.

    — Oferta… ic… aceita, mas precisamos sair logo daqui. Coloque o cavaleiro na câmara do convés e seque-o. Vou providenciar os primeiros-socorros.
    — Agradeceríamos se nada do que aconteceu aqui fosse…
    — Ei, ei, ei – Max levantou os braços. – O que acontece no mar, fica no mar. Sou… ic… pago para isso.

    O homem assentiu, atirando o espadachim nas costas. Max ajustou o curso e deu algumas instruções ao arqueiro, que pareceu compreender. Era hora de levá-los a Carlin.

    FIM





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    Jason Walker e a Sétima Vingança
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  6. #56
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    Eis que mais uma história esplendida a evolução de jason impressiona, feliz pelo retorno de jhon embora imagino uma brusca mudança de personalidade dele devido a tortura emfim como sempre desde de o incubo uma grande história partiu a sétima vingança, rs espero que não demore! E que seja sintilante kk!!!
    Ameyuri Ringo The Ghost Of Sparta!!!

  7. #57
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    Porra Neal, achei que esse livro ia ser maior

    Um grande trabalho como sempre, cara. Eu estou impressionado que Jason tenha tido dificuldades de sair desse combate vivo e por pouco perdido a Espada de Crunor. Que retardado. Aleister foi mais esperto e desafiador, mas deu um belo vacilo quando realmente acreditou que Jason Walker iria se render. Logo ele? E ainda dando a chance dele se rearmar pra derrotá-lo? Também é outro retardado. Mas pelo menos foi um desafio para alguém que andou dando GG easy pra todo mundo que enfrentou nos últimos tempos.

    Estou curioso a respeito da importância e da futura participação de Randal na história. Parece que a próxima parte será foda.


    Enfim, aguardo o início do novo conto. Não estou de volta ainda, mas ao menos dá pra fazer algo no celular.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  8. #58
    desespero full Avatar de Iridium
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    Rapaz, estou em choque. Precisei me recompor antes de vir comentar.

    Que livro! Uma pena que foi curto, mas cara... Fantástico, de tirar o fôlego, impecável! Tô feliz da vida que o John voltou, Aleister deu aquela vacilada mas foi excelente como final boss! Espero ver mais do Randall em outros contos e... É isso aí, não tenho muito que comentar a não ser: por favor, continue!



    Abraço,
    Iridium.

  9. #59
    Avatar de Neal Caffrey
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    @ameyuri~, John Walker é mais importante pra nós do que você pensa. Você o verá n'A Sétima Vingança (sem spoil), mas vai ver o quanto o incandescente de Crunor é relevante. Valeu pela fiel presença até o fim. Te devo essa.
    @CarlosLendario, faça-me um santo favor e retorne depressa. A forma agonizante como Blood Trip findou parcialmente é incomodante. Aquela história precisa continuar imediatamente. Quanto a Aleister, é um personagem que eu gostaria muito de explorar mais, mas não há mais espaço pra ele. É uma pena. Fico feliz, contudo, que o combate tenha agradado. Como sempre, te espero na sequência.
    @Iridium, gentil como sempre. Espere mais de Randal no futuro, porque ele tem mais a oferecer. A exemplo do Carlos, te espero de volta.

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    Jason Walker e a Sétima Vingança
    Acompanhe a penúltima história de Jason Walker na seção Roleplay!



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