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Tópico: O Pardal

  1. #1
    Avatar de Trasgo Caolho
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    Padrão O Pardal

    Eu criei o personagem Sparrow para a segunda edição das Justas Tibianas (na verdade só adaptei um personagem que já uso na mesa de D&D5 que jogo atualmente de vez em nunca) e pretendo utilizá-lo apenas para Justas, sem desenvolver (muito) sua história fora delas. Mas devido as limitações impostas pelas regras das justas, eu sinto que os textos ficaram em algumas partes meio truncados. Então resolvi criar esse post para ser uma espécie de versão do diretor, corrigindo pequenas passagens e amarrando melhor os textos. Pretendo também colocar um epílogo inédito pra fechar esse arco da história. Pra começar, nesse post mesmo, coloco um prólogo, que foi o texto enviado para a @Iridium como inscrição.

    **********

    Prólogo


    - E por que quer saber, menina? Não me diga que pretende se juntar a qualquer uma dessas corjas.

    O rapaz estava sentado em um precário banco de madeira, em uma precária sala da precária sede das Irmãs de Kirana, um abrigo para meninos e meninas órfãs como ele mesmo. A sua frente um grupo de crianças escutando fascinadas as aventuras e desventuras do bardo. Volta e meia alguma delas não conseguia segurar a curiosidade e implorava por mais detalhes. Como fez Ollia agora.

    - N…Não! Eu… eu… só queria saber qual delas você acha mais legal! E se existem mesmo…

    - Rá, então acha que estou inventando? - Sparrow riu alto, jogando a cabeça para trás e batendo as mãos nas pernas. A tensão criada pela pergunta foi quebrada e as outras crianças riram também.

    - Sim, elas existem, essas três que você falou e outras. Ou vocês acham que só Thais, Venore e Carlin tem coisas pra esconder? Essas tais agências podem parecer legais, bacanas, cheias de aventuras e agentes secretos. Mas não se enganem! - Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e aproximou o rosto das crianças, um tanto ameaçador, mal contendo o riso. - Elas escondem terríveis segredos. Soube que uma delas mantém um laboratório secreto para fazer experiências com criaturas terríveis. E nas profundezas de Thais existe toda uma cidade de monstros escondida e o TBI sabe, mas esconde dos habitantes da capital.

    A tensão voltou ao rosto das crianças. Era sempre assim quando Sparrow visitava o orfanato improvisado, histórias que iam das gargalhadas ao espanto e terror. Logo a tensão havia passado de novo e as crianças riam com gosto. Na entrada da sala uma senhora observava com um leve sorriso no rosto. Era mais baixa que a média, provavelmente devido as costas curvadas pelo peso de longos anos. Seu vestido era simples, azul claro, sem adornos ou qualquer sinal de que fosse ela a matrona da Ordem das Irmãs de Kirana. Quando as risadas diminuíram um pouco ela se aproximou.

    - Muito bem, crianças, já é tarde e a cama está esperando vocês.

    - Ahhhhhh, só mais uma históia, pur favô! - disse um garotinho que mal conseguia pronunciar as palavras.

    -Outra hora, agora já é tarde. Vamos, vamos, já para cama.

    Resignadas as crianças foram dormir. Ao sair, cada uma delas beijou a mão da senhora. Finalmente sozinhos, Sparrow se pôs em frente a matrona, se apoiou em um joelho, reverente, e também beijou a mão.

    - Sua benção, Madrinha. - Se levantou e gentilmente a abraçou.

    - Senti sua falta, garoto. Não demore tanto da próxima vez. Todos sentiram sua falta.

    - Ah, tive que ir mais longe dessa vez. Mas estou melhorando! Você precisava ver como me aplaudiram em Edron! E olha que aqueles esnobes não se impressionam fácil. - O sorriso não deixava passar qualquer dúvida de que ele dizia a verdade. Mas era mentira. Não estava fácil arrecadar qualquer moeda com suas apresentações. Não que fossem ruins. Longe disso. Só não eram excelentes. Mas o sustento do orfanato fora obtido com sucesso. Os nobres de Edron podiam ser difíceis de impressionar, mas seus bolsos eram fáceis de aliviar. A matrona não sabia, claro. Jamais aceitaria o dinheiro se não fosse obtido de forma honesta. Mas ele era um bardo, afinal, ou gostava de acreditar que era. E a mentira é o ofício desses aventureiros. Não que ele tivesse colocado os pés em Edron, de qualquer forma.

    - Já viu sua irmã? Já é tarde e ela logo vai estar dormindo.

    - Sim, já vi. - O rosto dele mal escondeu o pesar. - Mas quero me despedir dela, pretendo viajar ainda essa noite. Com sua licença. - Deu mais um beijo na matrona e saiu.

    Enquanto isso, no quarto das crianças, Ollia terminou sua prece e subiu na cama. Esperou que todos estivessem dormindo e pegou um pergaminho velho, meio sujo, apenas um pedaço rasgado, que estava escondido no seu travesseiro. Pé ante pé, sem que um ruído escapasse, foi até a janela onde uma fresta deixava a luz bruxuleante de um poste próximo entrar. Leu pela centésima vez o pedaço de papel e foi deitar novamente. Enquanto o sono chegava, já quase sem consciência, ela repetia em sua mente a única frase inteira que sobrou de um cartaz maior: “Venore Precisa de Você, Junte-se a Nós na AVIN.”

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  2. #2
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    Bacana o prólogo, gostei desse foco nas agências secretas. Assumo que não vejo muita importância nelas, mas elas podem dar boas histórias se bem trabalhadas.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  3. #3
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    Trasgo, eu já tinha adorado esse texto e continuo adorando! Aguardo mais, caso venha a fazer



    Abraço,
    Iridium.

  4. #4
    Avatar de Trasgo Caolho
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    Spoiler: Comentários



    Capítulo 1 - As minas de sal


    Com uma barra de sal marcou na parede um risco que indicava o fim do terceiro mês. Três longos meses e a pena apenas começava. “Droga”, pensou, “de todos os lugares… por que tinham que me pegar logo em Ankrahmun?”. A cidade dos mortos tinha fama de ser inclemente em sua justiça, mas a verdade é que ele teve sorte. Normalmente um furto pequeno seria punido com a perda de alguns dedos ou até uma mão inteira (lá a morte é considerada uma benção). Como não havia prova concreta, apenas acusações e a certeza arrogante de um comerciante (”Sim, foi aquele maldito bardo!”), Sparrow foi condenado a três anos de trabalhos forçados nas minas de sal. Uma pena considerada branda, pois era grande a chance do condenado ser abençoado com a morte durante seu cumprimento.

    O bardo era jovem, ainda aprendia o ofício, ou melhor, os ofícios: músicas e furtos. Não se considerava realmente um ladrão, porém tinha consciência de que suas atividades não estavam exatamente dentro da lei. Se apresentava tocando bandolim e cantando nas tavernas que aceitavam sua performance. Quando faltava um lugar apropriado, fazia das praças públicas o seu palco. Não tinha realmente talento, mas era esforçado. E melhorava a cada apresentação. Do pouco dinheiro que conseguia, a maior parte era destinada ao orfanato que lhe abrigou quando seus pais morreram e onde sua irmã ainda vive. Um lar para as crianças vítimas da crescente violência de Venore. E essas doações eram o verdadeiro motivo de seu segundo ofício. Não pretendia roubar para sempre, só até ficar bom o bastante como bardo. Depois abandonaria a carreira de crime sem olhar para trás.

    Agora o quarto mês de prisão começava e seu corpo dava sinais de desgaste. Suas mãos estavam ressecadas por lidar diariamente com as pedras de sal. Seus olhos marcados com rugas. Quando tudo ao seu redor é sal o brilho dos sóis é multiplicado e fere da manhã até o entardecer. Sua mente, por outro lado, continuava afiada. Logo começou a perceber os padrões dentro da prisão. Apenas os guardas de patente mais baixa ainda estavam vivos. Os superiores já haviam sido abençoados. Toda semana algum prisioneiro morria, quase sempre um dos que trabalhavam nos níveis inferiores. Apesar da retórica religiosa que permeava Ankrahmun, ele não achava que qualquer desses prisioneiros voltasse da morte. E por isso aquela manhã trouxe, junto com Fafnar e Suon, desespero. Havia sido designado para substituir um cadáver recente na parte mais profunda da mina.

    O primeiro dia nas profundezas não foi tão ruim. A escuridão trouxe alívio aos olhos. Claro que haviam lanternas, mas nem de longe lembravam a luz do dia. Entretanto, passada esta pequena alegria veio a dura realidade. Na superfície o sal queimava sua pele, o ar salino tornava difícil respirar. Fundo dentro da caverna o peso do ar era insuportável e forçava o sal nos pulmões. Estava queimando por dentro. A cada inspiração sua garganta implorava pelo fim. Foi na terceira semana no escuro, talvez quarta (ele já não marcava), que a picareta revelou um brilho diferente em meio as pedras.

    O pequeno objeto estava sujo, mas seu metal estranhamente intacto apesar de sabe-se lá quantos anos (séculos? milênios?) enterrado sob toneladas de sal. Nenhum amassado, nenhuma corrosão. Era uma lâmpada, como aquelas que heróis de lendas encontravam e mudavam suas vidas. Moradas de djinns. Ele escondeu sob seus trapos, pretendia invocar o gênio essa noite e escapar daquela maldita prisão. Sua sorte havia finalmente mudado.

    Na cela, enquanto esperava a última ronda dos guardas se recolher, imaginava como iria contar essa história para as crianças. Claro que teria que inventar uma desculpa para ter sido preso, elas não poderiam saber que ele havia roubado. Diria que foi uma armação de um vizir ciumento, irritado com os olhares apaixonados de uma princesa para o charmoso bardo. Bem melhor que contar que falhou ao se esconder depois de roubar uma bolsa de moedas de um comerciante. Pelo menos não fora pego com o dinheiro. Fugindo trombou com um mendigo cego e tentou disfarçar como se fosse outro pedinte apenas conversando. Quando percebeu os guardas em sua direção deu a bolsa para o velho e tentou correr. A conversa até tinha sido interessante, achava que poderia transformar a vida daquele comerciante avarento que encontrou os djinns e perdeu tudo em uma música para suas apresentações. Incluiria as trapaças do velho, como fora descoberto, como tivera seus olhos arrancados. Finalizaria com o mendigo cego lhe ensinando que precisava de uma saudação... uma saudação... saudação! Quase havia esquecido da palavra certa para saudar um djinn, como pôde ser tão burro? Se invocasse o gênio sem lembrar da palavra seria morto, certamente. De qualquer forma havia lembrado - djanni'hah - e os guardas já não estavam perto. Chegara a hora.

    "Raios! Por que não funciona?" ele esfregava e esfregava a lâmpada. Já brilhava como nova, mas nenhum gênio apareceu. A frustração logo foi substituída pelo desespero. Havia confiado cegamente que funcionaria. Era assim nas histórias. Tentou arrancar a tampa, inútil. Olhou pelo bico, escuridão total. Escondeu o objeto no meio da palha em que deitava e tentou dormir. E, pela primeira vez naquele período que esteve preso, chorou.

    Estava mais uma vez no fundo da mina quando a algazarra começou. O guarda que estava junto correu para a superfície, abandonando os prisioneiros ali. Para onde fugiriam, afinal? Sparrow não sabia o que estava acontecendo, mas poderia ser sua chance. No mínimo seriam alguns minutos sem garimpar, o que não era ruim. Também correu para superfície. Chegando lá os sóis cegaram seus olhos, levou alguns instantes para ver qualquer coisa. Primeiro foi o azul do céu. Então o céu ficou cada vez mais perto, mais sólido. Quando acostumou a visão percebeu que na verdade era o corpanzil de um gênio. Um Marid, achava. Lutava contra os guardas junto de outro prisioneiro que havia chegado pouco mais de um mês antes. Um estranho com quase metade do rosto coberto por ataduras, cara de poucos amigos e muitas histórias. Fosse outra época e outro ambiente o bardo teria tentado uma aproximação em busca de material para novas músicas. Sendo aquele o tempo e lugar que estava, simplesmente o ignorou.

    Percebia que aquele estranho devia ser um guerreiro veterano, visto que agora que tinha uma espada em mãos no lugar de uma picareta os guardas caiam como moscas ao seu redor. O gênio matava outros tantos e alguns prisioneiros também, não por vontade, mas por negligência. Quando se viu encurralado e prestes a receber um golpe, gritou:

    - Espere! Eu te libertei! Fui eu que achei a lâmpada! Espere! DJANNI'HAH!

    O djinn apertou os olhos, desconfiado, e desceu sua cimitarra em um golpe fatal. O guarda ao lado do bardo caiu sem vida. Na luta um trecho do muro desmoronou e alguns prisioneiros fugiram apressados. A maioria morreria no deserto. Mas o bardo não viu isso de imediato, estava mais preocupado em respirar com a grande mão azul em seu pescoço.

    - Que lâmpada? Fale, humano.

    - A... a... s-sua lâmpada. Que estava enterrada. Eu esfreguei, te libertei...

    - Hahaha! Pois certo que acha isso. Eu não sou nem nunca fui prisioneiro para ser libertado. Me entregue essa lâmpada. - ordenou o djinn, soltando seu pescoço.

    O bardo correu até a cela, pegou a lâmpada e escondeu em sua calça. Voltou ao gênio, engoliu seco e disse:

    - Se quiser a lâmpada me ajude a escapar.

    - Você é divertido e tolo, humano. O muro já não prende ninguém, basta caminhar para fugir. - o djinn pegou o bardo pelas pernas e o sacudiu até que a lâmpada caísse.

    - Basta, Umar, já tenho o que preciso. Não temos tempo para jogar fora. - o estranho chegava carregando algo enrolado nos trapos que antes envolviam sua cabeça, saindo de um trecho das minas que Sparrow não sabia onde levava, pois estava interditado fazia muito tempo. Agora era possível ver que as ataduras eram apenas um disfarce, pois o rosto que escondiam não tinha sido ferido. Pelo menos não recentemente. Havia um tapa-olho com cicatrizes antigas escapando pelas bordas.

    Umar largou o bardo e recolheu a lâmpada. Olhou rapidamente para o objeto brilhante e o guardou. Quando passava com o caolho pelas ruínas do muro, o bardo os alcançou e implorou:

    - Se eu for sozinho pelo deserto vou morrer. Por favor, me deixe acompanhá-los!

    - Não abuse da sorte, humano. Se eu fosse você começaria a correr, os guardas logo voltarão. – e, olhando para seu companheiro, perguntou - O que você acha?

    O outro deu de ombros e respondeu:

    - Agradeça pela lâmpada.

    E enquanto atravessava o deserto voando carregado por um gênio, o bardo chorou pela segunda vez. Estava livre. Na viagem as apresentações devidas foram feitas. O bardo explicou o motivo de sua prisão e a razão de seus roubos. Deixou claro o destino nobre do dinheiro, foi sincero e não omitiu quase nada. Não mencionou sua irmã nem sua infância, mas de alguma forma o gênio sabia e era solidário. O caolho estava em uma jornada auto imposta para salvar toda a existência. Se deixou prender de propósito para resgatar um objeto escondido nas minas. Umar era um guarda dos Marid que havia entendido a importância daquela missão e decidido ajudar. O bardo ensaiou uma oferta de se juntar a eles, mas logo percebeu que suas habilidades eram muito limitadas frente aquele guerreiro e o gênio. Acabaria atrapalhando muito mais que ajudando. Estava errado. A ajuda do bardo seria importante algum tempo depois. Mas ele não tinha como saber, e por enquanto seus caminhos realmente se separaram.

    A lâmpada não estava vazia, mas o djinn que a habitava estava em um tipo de hibernação profunda. Aparentemente era algum parente de Umar, pelo que o bardo entendeu. Em agradecimento o djinn o deixou perto da passagem para Darashia quando se despediram. Antes de procurar uma forma de voltar para casa, sentou-se sob uma pequena sombra fornecida por um cacto para ponderar o que faria a seguir. Estava meses longe e todos deviam estar passando fome. Talvez devesse caçar algo, levar pelo menos alguma comida. Foi quando notou um peso diferente em sua cintura. Uma pequena sacola. Estava cheia de ouro e joias e vibrava com a magia do gênio.

    As lágrimas escorreram pela terceira vez.

  5. #5
    Avatar de Edge Fencer
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    Trasgo, preciso reiterar os elogios que já te fiz durante as Justas. Você escreve maravilhosamente bem, seus textos tem uma leveza e uma profundidade quase paradoxais. Muito bom mesmo.

    Li esse texto das minas de sal de novo e me diverti tanto quanto na primeira vez (com o bônus dos acréscimos que você fez na narrativa). O Sparrow é o tipo de personagem que merece uma história bem elaborada e completa, então espero ler muito ainda sobre ele, mesmo que seja só nas próximas Justas.

    Ah, e fiquei bem curioso com a Ollia kkkk, adoraria ver uma história focada nela.

    Abraço!





    Son of a submariner!

  6. #6
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    Estarei acompanhando, fiquei ansioso pelo que vem a seguir,
    Spoiler: :P
    ... =D'

    Achei a história bem fluida, curti bastante a questão do Secret Service... agora que li sua história fiquei pensando "sera q o Secret Service é o lado dos mocinhos ou dos inimigos?" afinal eles escondem as coisas do povo... seria pra proteger ou pra tirar vantagem?
    Última edição por alokk; 16-03-2017 às 10:07.

  7. #7
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    @Trasgo Caolho, desculpe a ausência! Quanto mais leio, mais maravilhada fico! Achei Sparrow fascinante quando li pela primeira vez, e continuo o achando assim. Quando eu entregar as Cartas (juro que entregarei em julho), espero vê-lo novamente!


    Abraço,
    Iridium.

  8. #8
    Avatar de Trasgo Caolho
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    Capítulo 2 - Uma magnífica criatura


    Estava ainda sentado à sombra do cacto. Havia separado algumas poucas joias para vender assim que chegasse a Darashia. Por enquanto guardaria a maior parte, lhe doía se desfazer do belíssimo presente do djinn. Com o dinheiro compraria alguma roupa e passagem para Venore. Seu sofrimento como prisioneiro havia deixado a lembrança das crianças no fundo de sua mente, escondida atrás de preocupações mais imediatas. Não morrer, por exemplo. Mas agora, liberto e alimentado, o orfanato não saia de sua cabeça por mais que alguns minutos.

    Estariam bem? Todos vivos? Sua madrinha? O pássaro? Tinha saudades de todos, mas quem lhe fazia falta era a ave. Tinha sido sua carta na manga em inúmeras aventuras, mas não ousara trazê-la para o deserto. Tinha ficado nas árvores de Venore. Talvez já tivesse lhe esquecido. O pensamento veio com pesar, mas foi interrompido por uma mão esquelética em seu pescoço.

    - Que a maldição de Horestis caia sobre você!

    A mão pertencera a uma espécie de guarda, mas isso foi há muito tempo. A carne já havia deixado aqueles ossos, somente mágica poderia explicar a força sem músculos daquele braço apertando o pescoço do bardo. Ao seu lado outro esqueleto bradava por vingança. Contra o que ele não sabia, mas também não importava. Não tinha armas, mas não iria morrer ali, depois de fugir das minas de sal, sem voltar para casa.

    O trabalho forçado maltratara o seu corpo, mas também o deixara mais forte. Usou as mãos ainda livres para segurar firme nas costelas expostas do esqueleto. Com um impulso único empurrou com ambos os pés no peito da criatura, arrancando os ossos e caindo de costas no chão. Usou as armas improvisadas para alavancar o joelho do outro oponente, dividindo sua perna e o derrubando. Aproveitando a surpresa causada se jogou sobre a maça que o guarda caído segurava e arrancou-a de sua mão. De joelhos golpeou repetidamente o crânio exposto até que só restassem fragmentos misturados a areia do deserto. O primeiro oponente, já meio recuperado, meio desengonçado pela falta de simetria no peito, vinha em sua direção balançando incerto. Em outra época poderia representar um real perigo ao bardo. Agora estava morto (em definitivo) depois de dois golpes.

    O bardo acalmou a respiração e escrutinou a sua volta. O deserto, antes vazio, oscilava com centenas de outros esqueletos vagando. Não tinha ideia de como teriam surgido assim, de repente. Ao longe, uma caravana de Ankrahmun dava seus últimos suspiros. Precisava chegar a Darashia logo e escapar desse inferno. Juntou o pequeno saco de joias e a maça. Não era sua arma favorita, mas era adequada para quebrar ossos. Não havia como se esconder nas areias, então seguiu seu caminho em linha reta, desviando dos grupos maiores e esmagando os esqueletos erráticos que cruzavam a sua frente. Calculava que estaria na cidade em uma hora. Se nada o atrasasse.

    Já perto da passagem pelas montanhas viu um homem batendo com um tipo de cetro no que parecia uma escultura de areia. Chegando mais perto percebeu que tinha o formato de um escorpião gigante e se movia. O homem, roupas nobres apesar de um pouco sujas, suava pelo calor e esforço. Parecia acostumado ao deserto, mas não a fazer força. Puxava a "estátua" por uma espécie de cabresto, e batia em sua cabeça com o cetro dourado.

    - Vamos sua besta! Parece uma mula! Ande, ande, sou seu mestre!

    A criatura era movida por magia, certamente, mas quem visse suas feições teria certeza que estava viva. Tinha em seu rosto uma expressão de tristeza e incerteza, até onde o bardo conseguia decifrar um ser tão diferente. Foi chegando mais perto, verificando a ausência de esqueletos.

    - Boa tarde, meu senhor. Posso me aproximar?

    O aparente nobre notou a presença do bardo com um sobressalto.

    - Hein? Oh, que susto me deu, rapaz... essas roupas!

    Puxou sua cimitarra. O bardo notou que a empunhadura estava errada e a mão tremia. Estendeu as mãos em gesto de paz.

    - Calma, não quero lutar e nem pretendo. Já estive preso, é verdade, mas fui liberto. Esta maça é tão somente para me defender de esqueletos.

    O homem pareceu incerto por um instante, mas logo deu de ombros.

    - Sim... não esperava que isso fosse acontecer – apontou em volta com um gesto amplo, sem direção definida - Mas eu precisava desta maravilhosa criatura da magia. Só não achei que fosse ser tão cabeça dura. Me disseram que iria obedecer ao cetro. Paguei caro por ele.

    Olhava desconsolado o objeto em sua mão. Após alguns segundos pareceu ter uma ideia.

    - Escute, quer ganhar algum dinheiro? Me ajude a levar esse construto até o barco.

    - E o que vai fazer com ele?

    Estufou o peito com orgulho.

    - Será a nova atração de minha arena particular. Testará os maiores gladiadores de Tibia. E quando for derrotada sua sucata enfeitará um de meus jardins.

    Sparrow escondeu seu horror e falou de forma casual.

    - Mas não é só um construto. Pode ver a inteligência em seus olhos. Vai condenar tal maravilha a morte?

    - Não se engane, meu rapaz. Esse é um produto de magia, pura e simplesmente. Por mais ancestral que seja tal magia, não merece melhor tratamento que um golem. Vamos, me ajude aqui.

    - Se é tão rico para ter uma arena particular e jardins... onde estão seus guardas?

    Hesitação. Torceu as mãos, indeciso. Por fim falou.

    - Não quero morrer no deserto. Trouxe magos poderosos e guerreiros valentes. Todos mortos, na tumba de Horestis. Já ouviu falar? Bem, não importa. Eu mesmo só sobrevivi por milagre e magia de teleporte. Não me olhe assim, eles foram bem pagos pelo serviço. E suas famílias serão compensadas. Aquelas que me procurarem, pelo menos.

    - Você tem alguma participação nessa infestação de esqueletos?

    - Consequência da morte de Horestis, acho. Nada que qualquer guerreiro não possa resolver no seu caminho normal.

    - Pessoas estão morrendo! Há pouco vi uma caravana ser atacada.

    O nobre deu de ombros.

    - Deveriam ter contratado guardas. Mas esqueça, aqui estamos livres deles. Venha, me ajude logo.

    O bardo tocou de leve a cabeça do escorpião. A criatura pareceu sentir algum conforto, o olhou nos olhos, na alma. Implorava ajuda ou a clemência de uma morte rápida. Ele não podia ignorar. Não queria matar o homem, mas sentia certo nojo da sua indiferença com a morte de inocentes. Tampouco podia abandonar o magnífico animal a seu futuro terrível. Iria ajudar, por enquanto. Seus pensamentos foram interrompidos.

    - Qual seu nome estranho? Para quem deposito o pagamento?

    - Não tenho conta. Mas aceito que me pague em ouro, quando chegarmos a cidade. Quem devo cobrar?

    - Adim Al Katiff, ao seu dispor.

    - Olhe, esse bicho não parece querer te obedecer, mas acho que gostou de mim. Me empreste o cetro.

    Inseguro, ponderou as opções.

    - Mas que droga, sozinho não vou mesmo conseguir. Pegue.

    Com o cetro nas mãos do bardo a criatura mudou prontamente sua atitude. Baixou o corpo a frente e esperou seu cavaleiro. Ele olhou para Adim com um meio sorriso.

    - Precisa de uma carona?

    Adim abriu a boca entre um assombro e um sorriso. Deu um tapa no ombro do bardo.

    - Seu canalha! Venha trabalhar para mim. Pode ser mestre de feras na arena.

    Um sorriso, cabeça baixa.

    - Talvez, talvez. Mas agora temos de nos apressar. Suba.

    E subiram. Com a direção do bardo chegaram rapidamente a Darashia. Contaram suas histórias durante a viagem. Como Adim havia nascido em Darashia, mas preferia os ares mais amenos de Edron. Filho de rico comerciante, herdara fortuna e vivia uma vida de prazeres. Mas como tudo na vida lhe era fácil, logo veio o tédio. Assim teve a ideia de uma arena. A princípio com guerreiros aos quais prometia muitos lucros. Logo mais com outras criaturas. Por fim buscando as bestas mais exóticas. Nas últimas vezes estava indo junto com o grupo que capturava as criaturas, estava pegando gosto pela caçada. O bardo falou um pouco de sua infância humilde em Thais, como filho de oleiro e costureira. Como tinha pegado gosto pela música e viajava cantando em tavernas por todo o mundo, ou pretendia fazê-lo, pois até agora só passara por Carlin, Darashia e Ankrahmun. Contou de sua aventura com uma princesa e por isso fora injustamente preso nas minas de sal. Havia sido libertado após cumprir sua pena, mas inconformado com a recusa do bardo em morrer, o pretendente da princesa arranjou para que fosse liberto no meio do deserto. Por milagre sobrevivera e por destino encontrara Adim.

    - Chegamos ao banco. Cuide da criatura mais um pouco para mim, sim? Vou pegar seu dinheiro e depois podemos discutir melhor a ideia de você ser meu novo mestre de feras. Pode inclusive cantar na arena, será uma boa novidade para meus convidados.

    Entrou no banco, feliz. Finalmente tinha aquele raro espécime, havia encontrado alguém que poderia substituir o último mestre, morto em um acidente com a hidra. E sabia cantar, poderia entreter as senhoras de seus clientes quando os verdadeiros negócios fossem tratados em particular. A arena escondia um segredo bem mais sombrio.

    Saiu do banco. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Ninguém além dos habituais. Aos poucos foi percebendo sua estupidez. Deixara um completo desconhecido tomar conta de uma relíquia. Levou a mão a testa como pudera ser tão burro! E agora notava que ele nem ao menos respondeu qual era seu nome. Dirigiu-se ao porto irritado, mas planejando. Assim que chegasse em Edron acionaria seus contatos. Acharia aquele homem nem que fosse a última coisa que fizesse. Sabia de seu passado. O acharia, não poderia haver tantos filhos de oleiro e costureira em Thais. Por fim um sorriso quase caricato. Havia pegado gosto por caçadas e agora iria caçar.

  9. #9
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    Saudações!

    @Trasgo Caolho eu tava morrendo de saudades de ti! Quando vc volta pra nós no roleplay? Me passa dps sua tag do discord no privado pra eu te add no servidor la xD

    Sobre o capítulo: se houve algo que me surpreendeu muito com o seu persona nas Justas, foi a questão de humanidade e humildade: você não teve medo em implicar falhas e derrotas para Sparrow, e isso fez dele um personagem fácil de se identificar e ter empatia por seus dramas e medos. Sem falar no quanto ele evoluiu durante cada fase e tema dado.

    Eu abrirei em breve as inscrições para a Terceira Edição e mandarei as Cartas de cada um assim que possível for. Conto com a sua participação! Não some, ok?




    Abraço,
    Iridium.

  10. #10
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    Capítulo 3 - A dama de gelo


    Cuidadosamente o bardo seguiu pela passagem nas montanhas, se afastando de Darashia. Não poderia usar o porto da cidade para voltar a Venore, seria impossível esconder um escorpião gigante feito de areia viva. E mesmo tendo salvo a criatura de uma vida de escravidão e lutas na arena de um riquinho mimado, dificilmente escaparia de ser preso novamente por ter roubado a “propriedade” de alguém.

    Voltando as areias do deserto sentiu o calor escaldante em seu pescoço. “Meu chapéu, ah que falta faz. Preciso arranjar outro logo”, pensava enquanto procurava ladear as montanhas o mais rente possível, buscando pelas sombras quase inexistentes. Estava fraco e com sono, na pressa de salvar o construto fora negligente com suas próprias necessidades. Não pensava direito e mais era guiado do que guiava o escorpião. A montaria estava indo bem, não precisava que indicasse o caminho. Pensando bem, ele nem sabia mesmo para onde ir.

    Sentiu como se areia tomasse conta de seus olhos. Era quase impossível mantê-los abertos, como se uma magia estivesse em ação. A sede, o cansaço acumulado, a incerteza do futuro, a angústia de não saber como estavam as crianças, tudo contribuía, precisava urgentemente descansar. Muito sono, não dava para pensar. Pendeu a cabeça, ainda sentado. Ergueu o queixo quase de imediato “Não, preciso ficar acordado, a insolação vai me matar.” Mas suas pálpebras pesavam toneladas. Não notou as rédeas soltas sobre o escorpião. Quando sua saliva ficou áspera soube que havia algo estranho. E onde estava o brilho dos sóis? Tarde demais percebeu a tempestade de areia levantando súbita ao seu redor.

    Debilmente levou os braços a frente do rosto. Tentava respirar em meio àquela nuvem sólida. Já não enxergava nada ao seu redor. A falta de orientação o fez cair da montaria. Por um momento pensou em desistir, ficar deitado e dormir, mas com dificuldade se levantou. Se ficasse ali seria soterrado. Andou a esmo para qualquer direção. Uma mão protegendo o rosto, a outra tateando o espaço à frente procurando a montaria. Foi quando sentiu algo envolvendo sua cintura. Depois do susto inicial percebeu que era a garra do escorpião. O alívio durou pouco, pois o animal o puxou com força para baixo e o derrubou. Com a outra garra tentava se enterrar cada vez mais. O bardo tentou gritar, iria morrer soterrado, mas sua boca encheu-se de areia. Não tinha forças para se livrar do poderoso aperto e viu tudo ficar escuro.

    Quando acordou estava em uma caverna. Não, não era uma caverna. Parecia mais um corredor, feito com pedras amareladas, antiquíssimas. Ao seu lado, deitado, como guardando seu sono, o escorpião. O animal não havia tentado mata-lo. De alguma forma ele sabia da existência daquele espaço protegido enterrado. Instinto, talvez. Estavam em uma ponta de um túnel soterrado por areia. Provavelmente foi por ali que o escorpião o arrastou. Impossível saber o quanto de areia o separava da superfície. Restava, então, explorar o espaço que se estendia adiante. Não sabia para que lado caminhava, norte ou sul, leste ou oeste. Embaixo da terra toda sua noção de localização havia sumido. Sentiu mais uma vez a falta do pássaro. Tuna parecia sempre saber para que lado estava indo, não importava se não houvesse qualquer ponto de referência.

    Andou por um tempo indeterminado. O ar era abafado, mas o calor havia cedido. Na verdade, no fim do corredor havia uma passagem que, estranhamente, parecia levar a um lugar mais fresco abaixo. Sem opção, desceu. Foram várias rampas indo cada vez mais fundo no deserto, se é que ainda estava no deserto. Se viu instintivamente puxando seus trapos de roupa para tentar cobrir um pouco mais de sua pele. Poderia isso ser frio? Encostou a mão na pele arenosa do escorpião que seguia a seu lado. Estava quase gelada. E agora estava delirando ou realmente caiu um floco de neve em seu nariz?

    Recebeu o frio quase como um presente após meses no deserto escaldante. Procurou conscientemente seguir pelo caminho de onde parecia vir a brisa suave e refrescante. A neve não havia sido delírio, em pedaços esparsos das paredes havia uma fina camada de geada. Já ouvira falar de tumbas enterradas nas profundezas do deserto e julgava estar em uma, mas nenhum relato mencionava essa temperatura.

    Divagava ainda quando chegou a uma parede completamente coberta de gelo. A sua frente uma estranha moeda estava enclausurada em um bloco de gelo que cobria também parte do pedestal sobre o qual estava. Do lado um portal semicongelado bruxuleava, incerto se deveria ainda existir ou desaparecer. Era o fim da linha daquele caminho, mas voltar só iria levar Sparrow de volta ao túnel soterrado. Inseguro sobre o que fazer, mas sentindo a curiosidade crescer cada vez mais, o bardo tocou o portal. Sentiu seu corpo como que sugado por uma força mágica e em um instante estava do outro lado.

    Sua pele arrepiou com o frio. Ao seu lado o escorpião escorregou em uma dança mal coordenada tentando manter o equilíbrio sobre as pedras congeladas do chão. Agora raros eram os pedaços de parede sem uma camada de gelo cobrindo. O chão lembrava um rio imóvel no período de inverno mais severo. Com passos hesitantes a dupla avançou. Falava com o construto, tentando manter a própria confiança. De sua boca saia fumaça como se uma fogueira ardesse em suas entranhas. Mas o calor de seu corpo não era o bastante e ele tremia agora, com os braços apertados em volta do peito tentando se aquecer o mínimo que fosse.

    Parecia que realmente estavam em uma espécie de templo ou tumba. Corredores se misturavam e intercalavam com salões decorados com estátuas e pilares no estilo antigo de Ankrahmun. Ao fazer uma curva um pouco mais fechada seu coração disparou e a letargia causada pelo frio quase abandonou seu corpo. Um rosto pálido se projetava em sua direção com um esgar de raiva. Os caninos proeminentes se destacavam amarelos. A longa capa, negra como a noite, estava congelada no ar em meio a um movimento esvoaçante. Passado o susto inicial pensou estar em frente a uma estátua como tantas outras que vira no caminho. Mas nenhum artista poderia reproduzir traços tão realistas, aquele não era menos do que o corpo congelado de um vampiro real, em meio a um ataque.

    Continuou o caminho e viu que outros seres também tiveram o mesmo destino. Na verdade, suspeitava que algumas das esculturas pelas quais havia passado também fossem figuras congeladas, apenas não havia percebido até o susto. Conforme o frio aumentava também aumentava o número de estátuas. Até que pela entrada mais adiante viu explosões de luz e centelhas de gelo voando. Sons abafados de um combate. Preponderante um brilho azul onírico. Se aproximou com cautela, fazendo o mínimo barulho. Seja o que for que estivesse lutando, com certeza era mais poderoso do que qualquer coisa que o bardo pudesse enfrentar em seu auge. Olhou aos poucos pela porta.

    O brilho vinha de uma mulher caída, apoiada em uma parede. Seus cabelos loiros eram quase brancos, a pele não era de um tom muito mais escuro. Usava um vestido azul que deixava seus ombros expostos e estava rasgado na altura do abdômen. Ali uma grande ferida, exposta. O seu interior não era vermelho sangue como se esperaria, mas sim de um tom azulado pálido. Havia algo de diferente, mágico. Era impossível, mas o frio vinha de dentro da mulher e se espalhava pelos corredores. Era como se o inverno tentasse escapar de suas entranhas.
    A sua frente uma múmia gigantesca, com vestes também azuis, mas de um tom profano, ornadas com pedras preciosas, parecia tentar um golpe. Mas algo não estava certo, o movimento parecia artificial, lento demais e desacelerando, como se tentasse andar em areia movediça. Uma voz gélida e profunda vinha da monstruosidade.

    - Você não pode escapar da morte para sempre.

    Algumas pontas das ataduras da múmia quebravam a cada centímetro deslocado. Sparrow notou que finos traços de magia saiam das mãos da mulher e envolviam seu inimigo. Com um grito de desespero final, ela fez com que sua magia brilhasse como um sol e a poderosa criatura foi congelada por completo. Ainda tentou forçar seu ataque, mas o corpo não aguentou e se estilhaçou como uma estátua de vidro.

    A mulher escorregou um pouco mais até estar completamente deitada, fechou os olhos com um suspiro e ficou estática. Não fosse pelo movimento frágil de sua respiração o bardo teria certeza de que ela estava morta.
    Se aproximou com cautela, tentando a todo custo não fazer barulho com seus dentes batendo. Encostou a mão na testa da mulher e puxou rapidamente. O frio era tão intenso que queimava. Ela abriu parcialmente os olhos e balbuciou.

    - Victor...

    - Shhh... não tente falar, você está muito ferida.

    Ela virou os olhos para o lado e o bardo seguiu seu olhar. Viu um guerreiro congelado com uma espada cravada no peito. Não havia nada a ser feito por ele, mas carregava uma mochila que talvez pudesse ter algo útil, caso o seu conteúdo tenha resistido ao frio. Puxou com cuidado e conseguiu desprender do guerreiro. Dentro havia, entre outras coisas, uma espécie de cantil mágico que mantinha a água líquida apesar do frio. Havia também um grosso cobertor. Usou para embrulhar a mulher e tentar aquecê-la. Tentou conversar, mantê-la acordada. Aos poucos o frio da sala parecia começar a ceder.

    - Qual seu nome?

    - Nora... Nora Friss.

    - Bem, Nora, tente ficar acordada. Eu preciso que alguém me distraia do medo. Você parece ter uma relação intima com o frio, o que faz aqui no deserto?

    - Victor... ele queria – precisava – matar Dipthrah. Mas sua espada era inútil contra o conspirador, minha magia era necessária.

    Com um espasmo fraco ela tossiu. Ele levou o cantil até sua boca.

    - Beba. Você está fraca e precisa de água.

    Com a ajuda do bardo ela ergueu a cabeça e os ombros para beber. Desta nova posição pode ver a imagem do guerreiro congelado. Algumas gotas pingavam nos pontos em que o gelo começava a ceder. Ela arregalou os olhos e puxou o cobertor com força acima do que seu estado permitia, expondo novamente seu ferimento. Imediatamente o frio voltou a inundar a sala e uma gota petrificou no meio do ar, estilhaçando ao atingir o chão. O bardo cambaleou e convulsionou, o frio era maior que antes.

    - Victor não pode derreter. Ainda posso salvá-lo, mas se o gelo ceder será o fim.

    - Você está muito ferida, não pode se mexer.

    - Na mochila tem uma caixa de madeira com runas inscritas, traga para mim.

    A caixa continha diversos frascos, alguns com líquidos, outros com pós. Algumas ervas estavam separadas em saquinhos vedados. Com dificuldade, quase desmaiando, Nora pegou um recipiente e se pôs a misturar ingredientes, murmurando sílabas desconexas e amassando com um bastão curto e grosso. No fim havia uma pasta gelatinosa que ela pediu que ele aplicasse na ferida aberta. Ela não teria a força necessária. Quando a mistura tocou em sua carne exposta, Nora deu um uivo longo e agudo da mais genuína dor. Por um instante o bardo achou que morreria ali, de pura solidariedade. Seu coração esqueceu de bater por um instante.

    No fim a ferida estava selada e a substância tomava uma aparência vítrea. Nora arfava com o esforço, mas parecia se recuperar aos poucos.

    - Obrigada, eu vou sobreviver. Não preciso do cobertor, use-o para se aquecer. Há comida na mochila, eu preciso de alimento, e você também.

    Dividiram um tipo de pão gelado recheado com frango e ervas, coberto com um creme salgado amarelado. Não parecia com nada que o bardo houvesse comido, mas era delicioso.

    - Preciso dormir agora, quando acordar terei forças para nos tirar daqui.

    E assim o fez. Ele vigiou seu sono pelo que pareceu uma eternidade. Dormiu também, por duas vezes. Na terceira vigília ela acordou. Ele calculava que haviam passado alguns dias. O gelo ao redor não cedeu nem uma fração. Ela levantou, ainda fraca, mas forte o bastante.

    - Neste estado minha magia só nos levará até a superfície. Calculo que seja noite agora, mas o calor ainda pode descongelar Victor. Enrole-o no cobertor e o coloque sobre seu escorpião, por favor. No deserto nos apressaremos para alcançar a passagem para Tiquanda, de lá poderei levar Victor para casa.

    E assim foi feito. Com a magia da mulher emprestando velocidade conseguiram chegar ao pé da passagem antes do dia nascer. Não houve pausa para maiores diálogos, mas Sparrow notou a ternura com que Nora cuidava do guerreiro. Se houvesse uma forma de preservar a vida dele, ela iria achar ou morrer tentando. Observando aquela ligação o Bardo sorriu. Queria que suas músicas pudessem expressar tanta emoção.

    - Lhe agradeço pela nossa vida. Fique com a espada de cristal de Victor, ele não vai usa-la por um bom tempo. Daqui consigo chegar a Port Hope sem ajuda, mas você pode vir conosco, se quiser. E sua companhia será mais do que bem-vinda.

    “Não é realmente uma escolha”, ele pensou. Precisava desesperadamente chegar em Venore e estava ao lado da pessoa mais poderosa que já havia conhecido. E ela agora era sua amiga.
    Alargou ainda mais o sorriso para Nora, ergueu a mochila e perguntou:
    - E o que estamos esperando?

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