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Tópico: O Retorno

  1. #1
    Avatar de Manteiga
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    Padrão O Retorno

    O Retorno

    Não tem banner porque o autor não tem habilidades artísticas.

    Spoiler: Sumário


    Prefácio

    E, naquele instante, havia apenas o fogo. Mas logo surgiu também o crescente medo. O pavor. O pânico. O calor gerado pelo fogo maltratava sua pele mucosa e fina, a luz brilhante produzida pelas chamas que dançavam cegava seus olhos momentaneamente. No fundo da sua mente, ele podia ouvir as gargalhadas sinistras de sua oponente, martelando seu raciocínio e afugentando seu juízo. Seja racional, ele pensou, tentando encontrar uma saída do labirinto de chamas. O esqueleto demoníaco que ele conjurara jazia impassível ao seu lado, completamente alheio ao calor, aguardando por uma ordem que ele não sabia dar. Ela tem que estar aqui em algum lugar.

    Um estrondo próximo indicou que alguns galhos que compunham as paredes do recinto estavam se desprendendo devido ao incêndio. Eu tenho que dar um jeito de sair daqui! Em um movimento rápido, ele virou-se e avançou alguns metros em direção ao ponto onde estivera ainda há alguns minutos, evitando por muito pouco um pedaço do teto, que se desprendera e desabara sobre seu esqueleto, arrancando-lhe o crânio, que saiu rolando pelo assoalho agora em chamas.

    - Indo a algum lugar? – Chamou uma voz inebriante, fantasmagórica, doce como o um veneno letal. Desviando a atenção do seu servo agora inútil, ele mirou seus olhos, todos os cinco, na direção de onde ouvira a voz. Emoldurada pela parede de fogo, sua oponente encarava-o com ar de riso, sua pele bronzeada brilhando diabolicamente perante às chamas.

    Imediatamente, ele disparou uma esfera de energia escura gerada por um feitiço mudo, a qual atingiu o exato ponto onde a mulher estivera. Entretanto, a figura, ágil como uma serpente, saltou para o lado no instante exato e jogou-se para longe do buraco gerado pelo feitiço, que aumentou com o poder das chamas e abriu um rombo no assoalho, por onde agora caíam mais alguns pedaços do teto.

    O feiticeiro piscou várias vezes os quatro olhos que tinha na ponta de quatro longos e nodosos tentáculos verdes, e um segundo esqueleto surgiu ao seu lado. Indicando o ponto onde a mulher pousara com um dos tentáculos, o Bonelord afastou-se para trás, flutuando sobre o chão que desabava, enquanto seu lacaio saltava sobre sua vítima, que golpeou-o na cabeça com um dos pés, livrando-se do abraço da morte do morto-vivo.

    - Você pode fazer melhor que isso, meu querido! – Caçoou a mulher, sua voz provocando um rebuliço no interior da consciência do Bonelord, arranhando sua mente e impedindo-o de raciocinar.

    - Eu não tenho medo de morrer aqui, sua desgraçada! – O Bonelord rugiu, sua voz soando inesperadamente suave e melodiosa, algo deveras incomum para um monstro com aparência tão medonha. Sua pele macilenta suava em excesso graças ao calor, sua respiração ia ficando cada vez mais pesada e sua mente estava em disparada, tentando encontrar uma forma de escapar daquela prisão de fogo. O cheiro de enxofre inebriava-o. – E se eu tiver que arrastar você para o inferno comigo, tanto melhor para mim, tanto pior para você!

    A gargalhada sinistra que a mulher soltou ao ouvir suas palavras arrepiou-o, fazendo tremer até o interior de sua alma. Ela combatia seu lacaio com grande habilidade, defendendo-se de seus golpes e atingindo-o nas juntas com uma pequena faca escura que trazia em mãos. Não demorou até que o esqueleto se desmontasse. O som de madeira estalando ali perto chamou a atenção do Bonelord, que enfim percebeu que quase metade do piso já fora consumido pelo buraco aberto pelo seu feitiço. As paredes eram fogo puro, e o estalar do teto sobre sua cabeça indicava que a torre não aguentaria mais muito tempo.

    - Pois então que assim seja, Batráquio. – Ela aproximou-se, permitindo que o Bonelord visse seu rosto anguloso, seus longos cabelos negros e lisos caindo pelos ombros como o manto da noite, seus olhos tão frios que pareciam congelar o fogo que consumia o farol.

    - Não se atreva a me chamar assim, humana imunda! – O Bonelord grunhiu, seu corpo tremendo, sua mente em polvorosa, mas seu olho central, verde como um esmeralda, cravado em sua oponente enquanto os olhos laterais prestavam atenção à torre que desabava.

    As chamas dançavam mais altas do que nunca. O teto parecia prestes a cair. Em algum lugar, talvez muito longe, alguém gritou. O cheiro de enxofre era insuportável. Entretanto, o gelo que emanava dos olhos da mulher parecia consumir o recinto como um todo. Seus lábios moveram-se lentamente, tão lentamente que pareceu que o tempo havia parado.

    - Batráquio. – Ela disse, finalizando a palavra com um sorrisinho debochado.

    O Bonelord gritou. Seus tentáculos voltaram-se na direção da mulher, seus cinco olhos cravados nela como estacas. O teto vibrou uma última vez, e então tudo explodiu.


    Certeira como uma flecha, uma gelada gota de chuva despencou dos céus escuros e acertou-o no topo da cabeça coberta por um capuz, despertando-o de seu devaneio. Seu corpo sacolejava desajeitadamente enquanto o burrinho que montava caminhava vagarosamente pela campina, ofegando seguidamente, demonstrando seu cansaço.

    O homem que ele trazia nas costas parecia ser baixo, mas seu tipo físico estava oculto por uma longa capa de viagem verde garrafa, que espalhava-se pelo lombo do bicho, cobrindo parte dele. Suas mãos, apenas uma delas coberta por uma luva de couro, seguravam as rédeas com tanta força que os nós dos dedos da mão visível já estavam brancos. Sua respiração também era ofegante, sinal da longa viagem que ele enfrentara para chegar até ali.

    O burro deu mais alguns passos, mas logo seu cavaleiro deu-lhe um breve tapinha na lateral do pescoço, pedindo-lhe para parar. Então, em um gesto que pareceu consumir o que lhe restava de energia, ele saltou de sua montaria e colocou-se de pé ao seu lado enquanto ajeitava sua sacola sobre o corpo do animal, que parecia aliviado de ter enfim recebido permissão de parar. O homem respirou fundo e virou-se para encarar o caminho que estava à sua frente enquanto seus ouvidos captavam o som de mais gotas caindo do céu e molhando a grama rala que havia sob seus pés.

    Alguns setenta metros à sua frente, quase no horizonte, erguia-se um suntuoso par de árvores de aparência antiquíssima, talvez mais antiga que o próprio tempo, cujos troncos eram tão largos que poderiam ser confundidos com pequenas montanhas. Ambas as árvores erguiam-se imponentes como as torres de um castelo, delimitando uma pequena passagem de uns seis metros, limitada acima por um aparentemente muito pesado portão de madeira. Além das árvores, existia uma vasta e belíssima florestaverde e cheia de vida, cujas árvores de diversas alturas perdiam-se no horizonte. Poucas edificações destacavam-se em meio àquela floresta, a mais notável delas era uma grande torre localizada na extrema direita da floresta, próxima ao mar, quase no limite da vista do forasteiro. No alto da torre, brilhava fraca a luz do fogo de um farol. O viajante suspirou longamente ao vê-la.

    Ele então levou ambas as mãos ao capuz que cobria sua cabeça e baixou-o, deixando seu rosto à mostra. A brisa suave que vinha acompanhando a chuva pareceu acalmá-lo, e as gotas frias agora atingiam seu rosto branco, um branco doentio, tão branco que parecia ser de marfim. Ele passou a mão nua pelos cabelos negros encaracolados, desarrumando-os ainda mais, e depois coçou sua barba espessa igualmente negra. Engolindo em seco, o homem postou seus dois olhos muito verdes no espaço que havia no meio entre as duas grandes árvores mais próximas a ele, observando atentamente a entrada da floresta.

    - Ab’Dendriel. – Ele disse, sua voz melodiosa e suave chamando a atenção de seu burrinho, que virou-se para encará-lo, como se o entendesse. O homem pareceu levar uma eternidade para pronunciar as próximas palavras, como se aquela frase lhe doesse a garganta. – Finalmente eu estou de volta.

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    Um forasteiro observa a entrada da cidade florestal de Ab'Dendriel

    ~~~~~~~~

    Olá a todos!

    Como acredito que muitos saibam, estamos com um grupo de RP em Luminera, no qual interpreto o deveras carismático e adorado Bonelord-transformado-em-humano Batráquio, um personagem que cresceu em meu imaginário de forma muito mais expressiva do que eu inicialmente previ. A backstory de Batráquio (presente no primeiro post do tópico linkado acima) permite um certo conhecimento geral sobre o personagem, mas ainda há muito a ser explorado, particularmente sobre um capítulo que considero determinante para a formação da sua personalidade e para suas motivações. Assim sendo, resolvi escrever uma ~~breve~~ (ou não) história que servirá tanto para explorar um pequeno pedaço do passado dele (mas um pedaço deveras significativo) quanto para traçar futuras direções ao personagem. Estarei postando esta história aqui; tenho um máximo de 10 capítulos planejados, mas talvez eu os diminua em virtude do tamanho (rs) que muitos terão.

    A história, conforme vocês podem ver pelo prefácio, será contada através de momentos narrados no presente intercalados com flashbacks (os quais são trazidos sempre em itálico, a fim de facilitar sua identificação). Sim, eu assistia Lost pra caramba. Nosso ponto de partida é o retorno de Batráquio à sua amada terrinha natal depois de alguns muitos anos de exílio.

    Enfim, espero que vocês gostem! Esta história, evidentemente, é muito mais interessante àqueles inseridos no grupo de Luminera, mas espero que outros usuários também possam lê-la e, quem sabe, gostar do que veem x)

    Abraços, galere, e até o capítulo um!

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    Última edição por Manteiga; 13-03-2017 às 22:48.
    Nosce te ipsum.

  2. #2

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    Adoro como o encontro entre o nosso querido Bonelord e a bruxa iniciaram essa historia!

    Irei acompanhar, parece muito interessante!

    Boa sorte!

  3. #3
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    AE CARALHO!

    Estava MUITO no aguardo dessa história! Sdds Batráquio <3

    Adorei a escrita, fenomenal! E a batalha com a bruxa realmente foi mais aterrador pro coitado do que o pensado. Caiu feio das tamanca AUEHAUEHAUEHUA

    Aguardo o próximo capítulo!

    Valar leravozdovento. É só ler a retrospectiva plx nunca te pedi nada HAUEHUAEHUAEH


    Abraço,
    Iridium.

  4. #4
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    Show de bola esse início. Seu nível de escrita é exatamente como eu esperei que fosse(Não tinha lido um texto seu ainda, perdão).

    Gostei muito da narrativa. As descrições da luta foram incríveis, deu pra imaginar muito bem cada cena. Demorei um pouco pra notar que era um Beholder ali, mas fez sentido com a linha onde é mencionado um esqueleto demoníaco, afinal, quem em santa consciência invocaria algo assim pra usar num combate senão um desses bichanos verdes?

    Enfim, irei acompanhar. Gostei demais desse início e espero que você continue.


    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  5. #5
    Avatar de Edge Fencer
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    Interessante conhecer mais sobre o nosso (nem tão) querido amigo Batráquio

    O prólogo já deixou a impressão de que a história vai ter uma boa carga emocional... Quem sabe eu simpatize um pouco mais com o olhudo.

    Aguardo o primeiro capítulo!





    Conheçam minha história: Leon, o Covarde xD

  6. #6
    Avatar de Manteiga
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    Obrigado a todos que leram e um especial joinha pra todos que comentaram ! Antes de forçá-los a ler o capítulo um, vou responder aos comentários e fazer algumas considerações sobre a formatação e um aspecto crucial da história:

    Spoiler: Comentários


    Spoiler: Considerações


    Agora, sem mais delongas, vamos ao primeiro capítulo. Não estou certo da frequência com que vou postar, mas como o prefácio era pequeno e não dizia muita coisa, achei preferível postar esse aqui logo para vocês terem o que comentar x) Divirtam-se!

    I

    O ar fresco de Ab’Dendriel carregava a adocicada e delicada fragrância das plantas que brotavam de todos os lados da cidade. Caminhar pela relva era como mergulhar em um universo de aromas: não apenas as flores, mas também as folhas das plantas que cobriam o solo e as paredes das construções desprendiam odores inebriantes, fortes o bastante para fazer aqueles que se aventuravam pela cidade dos elfos esquecerem-se de seus problemas e aceitarem o convite da natureza para apreciá-la com calma e tranqüilidade.

    O homem que caminhava vagarosamente pelo gramado que existia após o portão de entrada da cidade parecia resistir bravamente à tentativa que a natureza empregava de seduzi-lo. Vez ou outra, o viajante fechava os olhos por breves segundos e deixava-se levar pela suavidade do perfume local e pela agradável brisa que corria os dedos por seu rosto e brincava com os cachos do seu cabelo. Eu tinha me esquecido de como essa cidade cheirava... ele pensava enquanto preenchia suas narinas com o ar da floresta. A fina chuva que caía era amparada pelos longos galhos folhosos das imensas e antiquíssimas árvores que compunham a paisagem, permitindo que ele se concentrasse apenas nas fragrâncias que o envolviam. Dentro da floresta, tudo parecia mais calmo, mais puro, mais leve. Ele quase se deixava esquecer dos motivos que o haviam feito atravessar o Continente e adentrar na fortaleza arbórea dos elfos.

    Quase.

    Eu ainda posso sentir o cheiro de enxofre e o calor das chamas, ele pensou ao abrir os olhos repentinamente. Engolindo em seco, o homem seguiu seu caminho, tomando cuidado para não pisar sobre as plantas mais elaboradas que brotavam ao seu redor, enquanto gentilmente conduzia seu burrinho pelas rédeas usando a mão descoberta. Logo, ele se viu contornando um raso e transparente laguinho salpicado de pedras localizado no centro do grandioso gramado que percorria. Seus olhos mapeavam o cenário cuidadosamente, tentando identificar qualquer movimento que pudesse surgir detrás das árvores ou entre as folhagens. Mas não havia nada. Era como se a cidade tivesse sido abandonada... Ou como se ela jamais tivesse sido habitada. E não é essa a marca de Ab’Dendriel? Ele soltou um longo suspiro e parou de caminhar.

    Logo à sua frente jazia uma gigantesca árvore de incontáveis metros de altura, cuja notável largura certamente permitiria que ela fosse escavada e habitada. E, de fato ela era: o viajante reconheceu o belíssimo depósito da cidade, uma edificação de seis andares embutida no interior de um colossal carvalho. Aquele era o ponto de encontro dos habitantes da cidade, razão pela qual a visão das janelas - habilmente escavadas nas laterais da madeira – vazias e do interior escuro do prédio provocaram certa preocupação ao recém-chegado, apenas mais uma a ser somada ao imenso temor que ele já trazia dentro de seu peito. Para onde foi todo mundo? Ele tratou de se livrar daquele pensamento tão logo o mesmo se formou. Todos devem estar em suas casas ou trabalhando ou caçando... Talvez fosse melhor mesmo que ele não encontrasse ninguém enquanto estivesse na superfície.

    - Quatro-seis-seis-nove. – Chamou uma voz harmoniosa às suas costas, fazendo-o sobressaltar-se e xingar baixinho enquanto virava o corpo rapidamente para encarar o seu dono. – Ou será que é mais apropriado chamá-lo de Batráquio Azrael?

    Ele estava diante de um elfo alto, esguio, de pele branca e longos cabelos igualmente alvos que desciam pelas suas costas na forma de uma trança. Vestia uma longa túnica vermelha e carregava, no braço direito, um grosso livro arroxeado de aparência muito antiga. Tinha no rosto uma expressão serena, mas seus olhos cinzentos faiscavam como as nuvens de uma tempestade.

    - Acredito que é assim que você tem sido chamado nas últimas décadas. – Prosseguiu o elfo, seus olhos cravados no rosto do estranho, cuja respiração acelerara consideravelmente, tal qual a batida de seu coração. Como foi que ele se aproximou tão sorrateiramente?!, ele pensava. Eu não o ouvi se aproximar! – Ou pelo menos é com este nome que tem assinado os ensaios que anda publicando. Li-os todos. Interessantíssimos, por sinal. Mas todos têm um quê de amargura que é difícil de ignorar...

    - Eroth. – Batráquio disse, sentindo-se levemente desconfortável pela sequidão de sua garganta. – Não achei que fosse encontrá-lo.

    O elfo sorriu com os lábios, sem exibir os dentes.

    - Por favor, Batráquio. Você não seria tão tolo a ponto de acreditar que entraria nessa cidade sem meu conhecimento, seria? Apesar do que alguns imaginam, tolice jamais foi uma marca do seu caráter.

    - Tem razão. – Respondeu o homem enquanto desviava os olhos do elfo para uma árvore qualquer. Sustentar o olhar de Eroth exigia um esforço que ele não esperava ter de realizar tão cedo. – Quis dizer que não achei que nos encontraríamos tão cedo. Acabei de chegar.

    - Razão pela qual resolvi abordá-lo de imediato. – Disse Eroth. O livro em sua mão direita parecia realmente pesado, mas o elfo não exibia qualquer sinal de cansaço ou intenção de passar o objeto para seu braço livre. – Faz muito, muito tempo desde que você esteve por aqui, Batráquio... Achei que seria prudente da minha parte...

    - Me impedir antes que eu fizesse alguma coisa estúpida?

    - ... Ter uma agradável conversa de boas-vindas com você, naturalmente. – O sorriso de Eroth alargou-se. Batráquio engoliu em seco, sentindo suas palpitações acalmarem-se e o nervosismo oriundo do susto ser gradualmente substituído pela impaciência. – Como de costume, você pressupõe o pior naqueles com quem conversa.

    - Ah, lamento muito se não estou muito... Receptivo no momento. – Retorquiu o homem de verde, segurando as rédeas do seu companheiro de viagem com mais força do que era realmente necessário. – Mas estou com pressa e não tenciono perder meu precioso tempo com você.

    Seguiu-se um silêncio denso como uma rocha, no qual o burrinho de Batráquio, como se entendesse a tensão erguida pelas palavras de seu mestre, movia seus rápidos e escuros olhinhos do elfo para o forasteiro, como se não quisesse perder nenhum detalhe do que viria a seguir.

    - Vejo que o tempo deixou-o mais doce e gentil, meu caro. – Ironizou o elfo, seu sorriso alargando-se.

    - E você ficou mais velho. – Caçoou Batráquio. – Achei que os elfos envelheciam lentamente...?

    - Tal qual os Bonelords, acredito eu. Você, entretanto, também já aparenta sinais de mais idade, permita-me dizer. Embora, perdoe-me, você esteja igualzinho ao que me lembro.

    Novamente, o homem de verde engoliu em seco, sentindo seu coração voltar a acelerar ao ouvir as palavras de Eroth. Como se mergulhasse em um poço de memórias, Batráquio podia sentir algumas relutantes lembranças aflorarem no fundo da sua mente...

    O homem que o encarava no vidro do espelho era relativamente baixo para os padrões humanos. Devia medir cerca de um metro e setenta e tantos centímetros, menos do que os mais fortes cavaleiros do Continente. Seu rosto redondo era magro, seus olhos eram verdes como esmeraldas e sua cabeça era coberta por cabelos muito negros e muito encaracolados, tão negros quanto a barba que mal cobria a metade inferior do seu rosto. Aparentava uns vinte e tantos anos, e sua aparência era jovial e saudável.

    É impressionante, pensou 4669. Ele sabia que fora imprudente ao tentar aquele feitiço, ainda mais sem a supervisão dos feiticeiros mais experientes da Necrópole. O livro onde o encontrara era tão antigo quanto a própria cidade, e o Bonelord que o escrevera era conhecido por sua demência. Entretanto, ele deixara-se levar mais uma vez por sua desmedida curiosidade e, por que não, por sua incomum e inaceitável fascinação pela raça dos humanos. Se 486486 me visse agora, ele certamente fritaria meu cérebro...

    Ele tinha consciência da gravidade do que fizera e das eventuais conseqüências que suas ações poderiam ter se ele fosse descoberto. Entretanto, ele sabia também que não tinha outras alternativas. A missão que ele recebera era deveras funesta para que fosse cumprida sem alguma arbitrariedade. Suas tentativas de espionar o alto escalão dos Cenath – os quais, segundo o Conselho dos Anciãos, estavam perigosamente próximos de desvendar formas extremamente poderosas e complexas de magia – usando seus servos defuntos provaram-se infrutíferas, e ele sabia que teria de fazer aquele trabalho sozinho. 486486, no entanto, prevenira-o contra o uso de feitiçaria humana, restringindo suas opções de ação.

    - Invisibilidade! Feitiços ilusórios! Ora essa, você é um Bonelord ou o quê, 4669? – Repreendera-o 486486, o bibliotecário, quando o pegara tentando aprender a executar feitiçaria humana na biblioteca em certa ocasião. Como era usual para sua raça, comunicara-se usando seus cinco olhos, que piscavam furiosamente em uma sintonia perfeita, mas deveras confusa para aqueles que desconheciam aquela linguagem. – Use dos instrumentos fornecidos pela sua própria raça! Como se atreve a confiar o sucesso dessa importantíssima missão em... em... em magia inferior?

    - Você sabe muito bem que a missão que recebi do Conselho é absurda! Esses elfos são peritos em esconder seus segredos... E se não devo praticar estes feitiços, então por que temos livros ensinando a usá-los aqui? – Ele retrucara, utilizando a mesma forma de comunicação.

    - Por que é importante que conheçamos aqueles que são inferiores a nós para melhor superá-los quando necessário for! É preciso que estejamos preparados para o dia em que retomaremos o controle deste mundo! Já erramos demais no passado ao subestimar as demais raças, 4669, então é preciso que saibamos o máximo que podemos sobre elas! É por isso que você foi enviado para espionar aqueles boçais amantes da natureza!

    - Não enxergo a diferença entre conhecimento teórico e prático, 486.

    - Isso é porque sua mente, apesar do que sua idade e experiência sugeririam, é deveras infantil e limitada, 4669.

    - Não acho que seja a minha mente que seja limitada, 486.

    Ele não teve tempo de desviar-se da bola de fogo que rapidamente fora disparada pelo bibliotecário. Sentindo sua pele queimar enquanto executava um feitiço de cura, 4669 se viu forçado a desviar o olhar e engolir a humilhação que viera com o fogo.

    - Você é atrevido demais, 4669. Isso ainda lhe causará mais problemas do que já causou. Eu esperaria que, depois do que aconteceu com 1208, você teria aprendido sua lição. Mas, aparentemente, você continua inconseqüente como sempre. – Esbravejou 486486 enquanto observava o mais jovem curar-se de seus ferimentos. Usando a mente, o bibliotecário devolveu os livros retirados pelo outro aos seus locais de origem. – Sinceramente, não compreendo como 1593 pode acreditar que você um dia fará parte do Conselho. Você às vezes parece se esquecer de que é um Bonelord, 4669. Vivo dizendo a 1593 que ele errou ao enviá-lo tantas vezes à superfície. Você devia ter ficado aqui até completar seu treinamento, como seria de bom tom. Do jeito que está, jamais chegará a fazer parte do Conselho.

    - Que nem você?

    Dessa vez ele estava pronto. Esquivou-se rapidamente da segunda bola de fogo e desapareceu entre as estantes, dando a volta no grande salão e flutuando para fora da biblioteca, contrariado, mas não derrotado. Horas depois, quando 486486 retirara-se para cumprir outros afazeres, 4669 regressou em segredo à biblioteca e encontrou um livro que o bibliotecário, já muito velho e esquecido, certamente deveria ter destruído em algum tempo passado. “O Livro das Transmutações, de 56689 (ou Dagobald, o Insano)”, dizia o título da obra, escrito na tradicional linguagem numérica dos Bonelords. A curiosidade de 4669 fizera-se mais forte do que a prudência. Será que aqui encontrarei algo que me ajude a cumprir minha missão?

    Agora, tantos e tantos dias depois, 4669 encarava o humano que se tornara com ares de riso, como sempre fazia quando sentia o agradável aroma do perigo. Talvez, se ele tivesse pensado como os Anciãos queriam que ele pensasse, ele teria encontrado outra alternativa para resolver aquele quebra-cabeças. Mas seu anseio de desafiar 486486 e os velhos dementes do Conselho, somado à curiosidade e ao desejo de melhor compreender aquela fascinante raça fizera-o bater o martelo. Aquele certamente fora o encantamento mais complexo e demorado que ele jamais realizara, mas ele tinha certeza que fizera tudo corretamente. Afinal, ele se parecia com um humano, cheirava como um humano, e, assustadoramente, até mesmo pensava como um humano.

    4669 estendeu seu novíssimo braço esquerdo e admirou-o por alguns minutos. Seu conhecimento de anatomia humana era limitado, mas a ele parecia que aquele era um órgão extremamente saudável e perfeito. Lentamente, ele se pôs a mover os cinco dedos que tinha, experimentando o quanto podia dobrá-los. A sensação de tê-los era absurdamente fascinante, tal como a de ter cabeça, corpo e pernas. Claro, a ausência de três olhos era deveras perturbadora – ele sentia-se exposto e limitado. Mas, ainda assim, sentia que um vasto mundo de possibilidades se abria diante da sua mente insaciável.

    - Exori flam – Ele pronunciou enquanto estalava os dedos da mão esquerda. Para sua surpresa e deleite, sua mão foi logo engolfada por uma bola de fogo, a qual, graças à magia inerente ao encantamento, não podia queimá-lo. Sorrindo largamente, ele estalou novamente os dedos, fazendo a bola de fogo sumir. Isso é realmente muito mais fácil de se fazer quando se é um humano, ele pensou, imaginando que outros feitiços ele seria capaz de realizar agora que dispunha de uma nova forma. Entretanto, ele não tinha tempo a perder com trivialidades: ele tinha uma missão a cumprir, e o desejo de mostrar aos Anciãos que ele não fracassaria novamente ardeu em seu peito ainda mais intensamente do que a bola de fogo que ele acabara de conjurar.

    - Então você não está surpreso com minha... Condição atual. – Batráquio se ouviu dizendo enquanto seus pensamentos voltavam do passado. As feições de Eroth pareciam mais afáveis do que nunca, mas seu olhar deixava claro que ele ainda não havia descartado a possibilidade de fulminá-lo ali mesmo.

    - O vento pode dizer muito àqueles que sabem ouvi-lo, Batráquio, como estou certo que você já deve ter aprendido. Há muito que sei do seu infeliz incidente com a feiticeira no pântano em Venore e das conseqüências que ele trouxe. Desde então, devo dizer, eu tenho, de certa forma, esperado que você fosse aparecer por aqui.

    - Então suponho que você saiba o que vim fazer?

    - Os humanos têm um ditado bastante interessante, que estou certo que se aplica de forma muito eficaz à presente situação. Como é mesmo...? Ah, sim! – Eroth fez uma breve pausa enquanto analisava as feições do humano, que parecia agora uns vinte anos mais velho do que ele se lembrava. – “O bom filho à casa torna”. Você está aqui para revisitar a Necrópole.

    Não era uma pergunta, mas uma afirmação. Batráquio, sem assentir ou negar, deixou que o silêncio reinasse após as palavras de Eroth. A chuva parecia ter engrossado naqueles minutos que ele perdera trocando palavras com o elfo, e a água conseguia agora vencer a resistência das folhas e atingir o chão. Eroth observava-o impassível, seus olhos nublados ocultando o que ele realmente pensava do Bonelord e de sua situação atual.

    - O que você quer, Eroth? – Ele finalmente disse quando o silêncio pareceu insustentável. – Você pretende me impedir?

    - Oh não, longe de mim, Batráquio. – Eroth respondeu, sua voz soando anormalmente pouco convincente. – Há muito tempo que não intervenho nos assuntos dos Bonelords e da Necrópole. Na realidade, acho que a última vez que isso aconteceu teve estreita relação com sua última estada nesta cidade... Não, não tenciono impedi-lo. Eu estou aqui apenas para alertá-lo, meu amigo.

    Batráquio não soube exatamente o que alertou seu ceticismo mais rápido: a intenção de Eroth ou o fato de ele ter usado da palavra “amigo” para referir-se a ele.

    - Alertar-me? – Ele disse, arqueando as sobrancelhas e cruzando os braços. No instante em que ele soltou as rédeas, o burrinho deu alguns passos para longe da cena, como se quisesse fugir dali antes que as coisas ficassem feias. – E que tipo de alerta o grande e poderoso Eroth teria para me dar? Digo, para você se dar ao trabalho de descer da sua casinha na árvore e me parar no meio do caminho, esse seu alerta deve ser algo de proporções colossais e...

    - Você não encontrará o que procura lá embaixo. – O elfo interrompeu-o enquanto ignorava as ironias do Bonelord. Batráquio, ao ouvir isso, calou-se momentaneamente, deixando que o som do vento e da chuva, que agora ficavam cada vez mais intensos, povoassem o espaço que havia entre os dois.

    Entretanto, o silêncio durou pouco, e logo o Bonelord soltou uma risada debochada.

    - Não acha que é muita pretensão sua se comportar como se soubesse o que eu estou procurando, Eroth?

    - E você? Não acha que é pretensioso demais achar que eu não sei? – Eroth retorquiu, seu rosto mascarando-se em uma expressão de piedade que inflou ainda mais os ânimos de Batráquio. Controle-se, pensou ele enquanto aguardava que o elfo continuasse seu discurso. Você não quer criar confusões agora. Deixe isso para depois. Se ele estivesse certo, e ele provavelmente estava, era imprescindível que ele poupasse todas as suas energias para o que esperava por ele nos próximos passos da sua viagem. – Eu não sei se existe alguém nesse mundo que possa encher a boca para falar que conhece o mínimo sobre você, Batráquio... Mas se esse alguém existe, ele deve ser eu. Ou você se esquece de tudo que eu vi? De tudo que eu ouvi?

    O homem de verde virou-se de costas para o elfo, levando a mão descoberta para o rosto para alinhar o bigode enquanto fechava os olhos e fingia ignorar as palavras do outro. Era justamente por isso que eu não queria encontrar esse infeliz! Ele deveria ter sabido que não seria possível evitar aquilo.

    - Uma vez alguém me disse que só há duas formas de verdadeiramente conhecer alguém: quando você o vê rir e quando você o vê chorar. – Eroth continuou, aparentemente alheio ao movimento do outro. – Eu o conheci no momento em que você esteve mais exposto, Batráquio. Eu o vi chorar, eu o vi sofrer. Eu o consolei. Você não pode negar para mim o que veio...

    - Cale a boca, sim? – Batráquio disse rispidamente enquanto girava o corpo para voltar a encarar o elfo, que emudeceu com um muxoxo de desaprovação. Seus olhos, entretanto, pareciam indicar que ele esperava aquela reação. – O que eu vim fazer aqui não tem absolutamente nada a ver com... com aquilo. Aquilo ficou no passado, Eroth. E por mais incrível que isso possa parecer a você, não foi o passado que me reconduziu a Ab’Dendriel, mas o futuro.

    - Passado e futuro são nomes que os homens usam para se referir à mesmíssima coisa, apenas de pontos de vista diferentes. Você ficaria surpreso com a forma como os dois costumam se entrelaçar... – Os olhos de Eroth pareceram se desanuviar um pouco, como se ele enfim tivesse decidido permitir a estadia do Bonelord em sua cidade. – E se você deixou mesmo o passado no passado... Então eu me pergunto o porquê de você assinar como Batráquio Azrael hoje em dia. Você não pode achar mesmo que eu me esqueceria do sobrenome, meu amigo. Eu já lhe disse: tolice não é uma marca do seu caráter.

    Soltando todo o ar que prendera nos pulmões, o recém-chegado, mais uma vez, girou o corpo para expor as costas ao elfo, mas dessa vez ele não deixou-se ficar no mesmo lugar. Em movimento ágeis, Batráquio alcançou seu fiel amigo alguns passos adiante e voltou a passar a mão direita nas rédeas. Certificou-se de que suas coisas estavam bem presas ao lombo do animal, levando o máximo de tempo que pôde para fazê-lo. Só então ele virou o rosto para Eroth.

    - Era só isso? Ou tem mais alguma bobagem que você precise muito me dizer? Eu tenho mesmo que ir.

    Eroth fez uma longa pausa enquanto analisava Batráquio com os olhos. Sempre que olhava naquele tom cinzento tão incômodo, o Bonelord tinha a sensação de estar tendo sua mente invadida e profanada. Ás vezes eu tenho a impressão que Eroth é um telepata disfarçado, ele pensou. A forma como aquele elfo sempre parecia saber o que ele escondia em sua mente era assustadora.

    - O túmulo dele fica perto do templo, ao norte do farol. – Eroth disse, sua voz embriagada de pesar. Batráquio sentiu um arrepio na espinha enquanto o elfo falava. – Ninguém jamais o procurou... Acho que ninguém nunca o visitou, para ser sincero. Mas está lá, intacto, exatamente como eu o deixei no dia que o enterrei. No dia em que você foi embora.

    Batráquio engoliu em seco e sentiu um leve incômodo no fundo da sua garganta, que pareceu repentina e inexplicavelmente pesada.

    - Eu... Eu agradeço a sua preocupação, Eroth. – Ele retrucou com a voz rouca. – Mas a última coisa que pretendo fazer é chegar perto daquele túmulo.

    Pela primeira vez, Eroth desviou o olhar do homem de verde, como se quisesse evitar enxergar tamanha mentira.

    - Você descobrirá que o passado sempre encontra uma forma de nos reconduzir a ele. Boa sorte em sua jornada, Batráquio Azrael, e que os deuses o guiem com segurança.

    E, dizendo isto, Eroth virou-se e caminhou rapidamente para longe, deixando Batráquio a sós com seu burrinho, as gotas da chuva e o pesar que crescia em seu peito.

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    Batráquio vaga por Ab'Dendriel, sem saber que Eroth o observava atentamente
    Não tem imagem melhor porque quando eu fui tirar print Ab foi invadida por Spectral Scums e foi isso aí que eu consegui rs

    ~~~~
    Espero que tenham gostado e achado informativo x) Comentários, críticas e sugestões são sempre bem-vindos e os espero no próximo capítulo, que um dia deve sair!

    Abraços.
    Última edição por Manteiga; 26-01-2017 às 18:29.
    Nosce te ipsum.

  7. #7
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    Pode já deixar a caixa de lencinhos à mão? AEHUAEHUAEHUA

    Excelente capítulo! Estou adorando ver essa parte do passado do 4669 sem cortes e sem censuras rs. Sdds 4669 </3

    Enfim, quanto aos flashbacks e talz, gostei da divisão comi está sendo feita. Vai levar um tempo para eue acostumar, mas dá certo kkkkkkk

    No mais, aguardo o próximo capítulo!


    Abraço,
    Iridium.
    Última edição por Iridium; 22-01-2017 às 16:16.

  8. #8
    Avatar de Gillex Koehan
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    Aaaaaaaaaa.
    Vou ter que esperar alguns próximos textos para desvendar alguns pontos de curiosidade despertados ;3
    Ahazou. Espero o restante da história do Bestaquinho e suas vestes verde garrafa.

    O burrinho tem nome?
    .....
    .....
    RPGTibia

    A gente tá te esperando desde que você nasceu!
    .....
    .....
    .....

  9. #9
    Avatar de Manteiga
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    Spoiler: Comentários


    E cá estamos com mais um nem-tão excitante capítulo desta sofridíssima história! Como verão, este capítulo é um pouco mais parado e menos tenso que o anterior, mas trata-se de uma construção para o próximo, que será deveras importante em muitos, muitos aspectos. Espero postá-lo no sábado ou domingo; quero acelerar a postagem dos capítulos, uma vez que essa história é apenas um tie-in para alguns eventos ocorridos ingame, além de ser, de certa forma, um background expandido do Bestáquio. Conto com a compreensão e paciência (rs) de vocês x)!

    Sem mais delongas:

    II

    O grandioso e belíssimo farol-árvore de Ab’Dendriel era considerado, mesmo entre os mais diferentes autores, sem favor algum, uma das mais arrebatadoras maravilhas existentes no Continente. Escavado no interior de uma muito antiga e alta sequóia plantada ainda antes da fundação da cidade, o farol encantava a todos com sua beleza rústica e sua imponência, sendo conhecido como um dos mais fundamentais e extraordinários cartões-postais da cidade. Sendo uma das árvores mais altas das redondezas, o farol-árvore destaca-se junto à costa leste da península, onde a floresta abruptamente encontra seu fim e a vegetação é mais baixa e menos expressiva, configurando-se assim como o elemento de mais notável destaque na paisagem. Em seu ápice, onde outrora estendiam-se os ramos verdejantes da majestosa árvore, jaz atualmente uma pira de bronze onde queima um fogo encantado produzido pelos próprios Cenath, o qual, em condições normais, arde intensamente e projeta sua luz dourada para o oceano, orientando os marinheiros perdidos nas noites de tormenta.

    Naquela noite, o farol parecia brilhar com ainda maior intensidade. A luminosidade dourada produzida pelo dançar das chamas banhava a torre em sua totalidade e dava-lhe um belíssimo efeito trepidante, dando a impressão de que o farol inteiro fora consumido pelo fogo. Ao observar a grandiosa torre incandescente, o homem de verde não podia deixar de sentir um profundo incômodo em suas entranhas. É quase como da última vez que eu estive aqui... Acontece que ao menos dessa vez ele não está literalmente em chamas, pensou o forasteiro enquanto aproximava-se vagarosamente da entrada do farol, perfeitamente escavada junto à base da sequóia, e sentia seu estômago revirar-se repetidas vezes. Eles fizeram um ótimo trabalho reconstruindo este lugar, afinal.

    Ele não planejara vagar até aquele local, mas também não se surpreendera quando, ao sair para um passeio noturno, acabara sentindo-se carregado até a presença daquele que nada mais era senão outro personagem na conturbada história da sua vida naquele lado do Continente. É como se o farol estivesse me chamado, pensou ele enquanto gentilmente tocava a casca da árvore com a mão descoberta e sentia a aspereza da casca correr pela sua pele. Entretanto, ele retirara sua mão da árvore tão logo a pousara ali, como se tivesse sentido-a queimar ao simples toque; ele então virou as costas para a torre e soltou um longo suspiro que se perdeu no silêncio da noite. Isso é tolice. Faróis não chamam as pessoas, e mesmo que chamassem, por que este aqui iria querer me ver de novo? A menos, é claro, que ele quisesse prestar contas...

    Um zurro baixinho ao seu lado chamou a sua atenção, obrigando-o a afastar o farol dos seus pensamentos e voltá-los para seu companheiro de viagem, que parecia encará-lo com um leve quê de impaciência.

    - Ah, perdoe-me, Eliseu. Acabei me distraindo... – Disse Batráquio enquanto caminhava até o animal e abria a mochila que deixara presa em seu lombo. Após alguns segundos, o homem tirou lá de dentro um maço de cenouras e começou a oferecer uma por uma ao burrinho, que as aceitava de muito bom grado. Enquanto o animal deleitava-se com as raízes, seu mestre gentilmente deslizava a mão pela lateral do seu pescoço, afagando-lhe o pelo. – Eu não devia ter vindo até aqui, entende... Este lugar não faz muito bem para a minha cabeça. É como se ele drenasse o que me resta de sanidade...

    Não era de seu feitio apegar-se a outros seres viventes; além de ser este um pressuposto básico da sua raça, aquela era uma lição que ele duramente aprendera mais de uma vez ao longo de sua vida. Não faz sentido apegar-se aos vivos, uma vez que são os mortos que permanecem conosco para sempre, dissera-lhe 1593 há muito, muito tempo, muito antes do farol pegar fogo, muito antes do seu exílio, muito antes dele ter perdido tudo que tinha. Entretanto, Batráquio descobrira-se estranhamente apegado àquele burrinho, ao menos tanto quanto ainda conseguia apegar-se a alguma coisa que não fosse um saco de biscoitos ou um livro de feitiços. Talvez fosse porque ambos, de certa forma, dividiam o mesmo fardo e a mesma algoz.

    Poucas semanas atrás, durante uma ocasional caminhada pelas planícies a sudoeste de Thais, Batráquio acabara, inesperadamente, cruzando caminhos com uma conhecidíssima inimiga do passado. Ele ainda lembrava-se perfeitamente do cheiro pútrido que emanava daquela feiticeira velha, tão velha que parecia que há muito já havia morrido e ninguém havia se dado ao trabalho de enterrá-la. Seus olhos miúdos e quase leitosos tingiram-se com desprezo ao cravarem-se sobre ele, e suas gargalhadas funestas mescladas a ataques de tosse seca ainda percorriam o interior da sua mente. Você acha mesmo que eu vou transformá-lo de volta? Com essa sua atitude, nunca! Tossira-lhe a feiticeira na cara depois que ele, muito educadamente, exigira que fosse revertido à sua forma original. Você vai ter que encontrar outra forma de quebrar a minha maldição, seu atrevido! E, após tais palavras, a feiticeira transformara-se em um abatidíssimo morcego grisalho, sobrevoara as árvores que ali cresciam e sumira no horizonte, deixando para trás um furioso Bonelord em forma humana e uma ampla gama de animais confusos, transformados em um amplo rol de outras criaturas, dentre os quais se destacava Eliseu: uma serpente transmutada em burro.

    - Ainda podemos encontrá-la e forçá-la a transformar a nós dois de volta, se você quiser. – Ele agora dizia ao seu companheiro de viagem enquanto observava-o dar um fim às cenouras. – Mas, sinceramente... Não estou certo se isso daria algum resultado promissor. Aquela vaca parece determinada a infernizar não apenas a minha vida, mas a sua também. Teremos de apelar a outros meios para reverter o feitiço. O que nos traz de volta a...

    Relutantemente, Batráquio voltou a encarar o farol às suas costas. A única razão existente para eu retornar a Ab’Dendriel é para descer até a Necrópole e encontrar um jeito de quebrar o feitiço daquela bruxa, ele repetiu para si mesmo pela enésima vez desde que partira de Thais. Apenas para isso. Não voltei para mais nada. E é bom que eu me lembre disso. Ele já há muito perdera as contas – o que, diga-se de passagem, é muito pouco usual para um Bonelord – de quantos meses haviam se passado desde seu primeiro encontro com aquela velhíssima feiticeira no pântano ao norte de Venore. Um terrível, infeliz encontro que lhe rendera uma nova inimiga mortal para adicionar à sua coleção e uma nova maldição para atormentar-lhe a sua já desgraçada vida.

    - É assustador o quanto essa vida pode ser irônica, Eliseu. – Disse Batráquio enquanto passava os olhos do farol para seus braços e seus dedos, os quais começou a mover repetidas vezes, como se experimentasse até onde conseguiria dobrá-los. – No passado, eu me transformei voluntariamente em humano e acabei arruinando a minha vida de uma forma que eu jamais poderia ter previsto. Hoje, fui transformado novamente em humano, desta vez a contra-gosto e tive, mais uma vez, a vida arruinada. E, pela segunda vez, esta transformação culmina com minha presença aqui, nesta cidade, diante deste farol...

    Eu só espero que, desta vez, eu não precise tacar fogo na porcaria da árvore. Ele não precisava se esforçar muito para visualizar a madeira em chamas, para farejar o aroma fétido do enxofre, para sentir o calor roubando-lhe cada gota de suor da carne e para ouvir o teto estralando ameaçadoramente. Ele não precisava se perder muito em suas piores lembranças para voltar a ouvir a debochada risada venenosa de sua maior e mais aintga inimiga, para voltar a vê-la dançar entre as chamas como se fosse parte delas, para voltar a testemunhá-la ceifando o único resquício tolo de paz e alegria que ele tivera naqueles dias tumultuados.

    - Mas eu venci. – Ele disse para si mesmo em alto e bom som, como que para se certificar de que ele prestaria atenção em suas palavras. – Não naquele dia, não aqui, mas eu a venci. Desdêmona está morta e só não está enterrada porque não sobrou muito do seu corpo imundo para enterrar. Eu me certifiquei disso.

    A gélida brisa da noite, que ainda há pouco desaparecera junto com a chuva, voltou repentinamente, passando de raspão pela pele descoberta do seu pescoço e rasgando-lhe uma série de arrepios profundos na espinha, como se quisesse lembrá-lo de quem realmente detinha o poder ali. Enquanto seu corpo tremia, a luz do farol pareceu ficar ainda mais reluzente, e ele mais uma vez teve a nítida e desagradável sensação de que era observado. Ela já morreu, ele repetiu para si mesmo, dessa vez em pensamento. Ela já morreu e nada do que aconteceu daquela vez acontecerá de novo. Desta vez as coisas serão diferentes. O passado não pode mais me afugentar daqui.

    Ele sentiu então um leve puxão na manga da camisa, obrigando-o a sair do seu transe. Eliseu puxava gentilmente seu mestre para longe do farol, como se quisesse levá-lo a um lugar mais seguro, ou, pelo menos, um lugar com uma disponibilidade maior de cenouras para degustar.

    - Sim, sim, você está certo... Eu não deveria ter vindo até aqui. Eu não devo nada para esse farol e tenho mais coisas para me preocupar. – Ele disse enquanto livrava as vestes dos dentes do burrinho, que parecia encará-lo sem confiar realmente no que ele estava dizendo. Soltando um longo suspiro e esforçando-se ao máximo para que suas agonias e dúvidas fossem embora com ele, Batráquio deu uma última olhada para o farol-árvore, tão semelhante mas tão diferente do que ele se lembrava, e tateou às cegas em busca das rédeas de Eliseu. – Vamos embora daqui, Eliseu. É preciso descansar muito antes de partirmos amanhã cedo. Amanhã será um dia longo... Talvez o mais longo de todos.

    Você descobrirá que o passado sempre encontra uma forma de nos reconduzir a ele, ecoava a voz melodiosa de Eroth no fundo da sua mente enquanto ele se distanciava da costa e sentia como se algo o chamasse. Vá se foder, Eroth, ele pensou, decidido, enquanto ignorava os chamados do passado e evitava deixar que seus pensamentos vagassem para um certo túmulo não muito longe dali, o qual certamente, àquela altura, era vivamente iluminado pelo fogo que ardia no topo do farol. Se o passado quiser mesmo que reencontrar, ele terá que descer comigo até o Inferno.

    ***

    Apesar de ser conhecida como a “Cidade dos Elfos”, Ab’Dendriel também concentrava uma generosa população de humanos, em geral druidas que buscavam um maior contato com a natureza ou paladinos que ansiavam por aprender as técnicas milenares da arqueria dos elfos. Um grande número das construções escavadas ou edificadas sobre as árvores que compunham a floresta local era usado como morada pelos humanos, e, como a maioria dos elfos apresentava uma natureza mais reclusa e mantinha o hábito de permanecer recolhida em partes mais ocultas da cidade, a visão de seres humanos transitando entre as árvores não provocava estranhezas a ninguém. Excetuando-se, é claro, no caso daquele homem em particular.

    O sujeito caminhava desengonçadamente, alternando passadas curtas com muito longas, frequentemente quase desequilibrando-se e caindo ao chão. Enquanto caminhava, o homem girava e articulava debilmente seus braços, quase como se quisesse alçar vôo, e dobrava as palmas das mãos em todas as direções como se tivesse perdido o controle do movimento das mesmas. Ao constatar que o pequeno número de transeuntes que encontrava insistia em lançar-lhe demorados olhares de susto e desconfiança, o homem logo optou por conter seus movimentos estapafúrdios e adquirir uma postura mais regular, embora ainda caminhasse com certa dificuldade.

    Acalme-se, 4669, ele pensava enquanto fazia o possível para controlar seus braços. Haverá bastante tempo para testar os movimentos deste corpo. Agora você precisa se focar na sua missão! Ele sabia que, quanto mais rápido obtivesse a informação que precisava, mais rápido ele seria perdoado pelo Conselho pelo fracasso de sua missão no Elvenbane e enfim se livraria dos olhares desdenhosos que lhe eram desferidos pelos demais enquanto ele flutuava pela Necrópole. Como se eu precisasse do perdão deles, pensou 4669 com amargura enquanto tentava se situar em meio às árvores. Eu já paguei um preço terrível pelo meu último fracasso... Ele suspirou longamente enquanto tentava afastar aqueles pensamentos da sua cabeça. Pensar em 1208 e em como ele pusera tudo a perder na última missão que recebera ainda doía demais, mesmo tantos anos tendo se passado.

    Subitamente, 4669 parou de caminhar. Logo à sua frente jazia o grandioso depósito de Ab’Dendriel, cujas janelas enchiam-se com a luz e o som das conversas de seus ocupantes, os quais provavelmente haviam acabado de retornar de excitantes viagens e caçadas e buscavam companheiros para celebrar, conversar ou fazer negócios. Resistindo à tentação de ir se juntar a eles, para assim melhor conhecer os hábitos daquela espécie tão curiosa, ele ergueu os olhos, deparando-se com um vasto entremeado de passarelas de madeiras construídas nos galhos mais longos de várias árvores. Diretamente acima da sua cabeça existia um grandioso teto de madeira delicadamente construído, o qual, dada a escuridão daquela noite em especial, era pouco discernível do infinito ébano que a tudo contaminava. Longos ramalhetes de trepadeiras e mais trepadeiras folhosas serpenteavam por uma série de suportes de madeira distribuídos ao seu redor, os quais erguiam-se muitos metros até encontrar o grande teto de madeira, e uma esguia escadinha de madeira posicionada alguns metros às suas costas dava acesso ao andar superior. A guilda dos Cenath, ele reconheceu. De acordo com as suas fontes, o alto escalão da casta reunia-se perto da guilda nas noites de lua nova para discutir segredos de magia antiga. Deve ser este o lugar.

    Valendo-se da crença de que todos os habitantes teriam se recolhido às suas moradas ou seguido para o depósito, 4669 aproveitou-se do sossego daquela fresca noite de verão e esgueirou-se entre os pilares de madeira até alcançar a escada. Algumas poucas lâmpadas entalhadas em madeira haviam sido distribuídas aqui e ali em alguns suportes no andar superior, mas a escuridão da noite ainda devorava a maior porção do seu campo visual. O único jeito de saber o que está havendo lá em cima é subir, ponderou o Bonelord enquanto lançava um olhar desconfiado à escadinha ali perto. Mas e se eles não estiverem aqui? Ou pior: e se eles tiverem erguido alguma forma de proteção mágica para repelir invasores? Suas fontes haviam sido bem claras quanto ao local de reunião dos Cenath, mas agora que ele jazia diretamente embaixo da guilda, parecia-lhe deveras imprudente – e, por que não, improvável – que os mais sábios e poderosos membros da casta fossem organizar seus encontros mais secretos em um local aberto e de fácil acesso como aquele. Preciso parar de confiar nas informações que o Ezekiel encontra. Aquele esqueleto já era inútil em vida, depois que morreu então... De qualquer jeito, não custa nada dar uma olhada.

    4669 agarrou as laterais da escada com suas novíssimas mãos e já se preparava para pousar o pé direito no primeiro degrau quando lembrou-se de um detalhe crucial para o sucesso daquela operação.

    - Utana vid. – Ele murmurou. Um leve arrepio na sua espinha e a estranha sensação de ter todo o ar sugado dos seus pulmões lhe indicou que ele conseguira executar corretamente o Feitiço de Invisibilidade. E, realmente, em questão de uma fração de segundo ele presenciou suas mãos rapidamente desaparecerem de sua vista, apesar de ele ainda poder senti-las no exato local em que as deixara. Não parece um feitiço tão inferior agora, não é, 486?, ele pensou enquanto abria um largo sorriso.

    Enquanto vagarosamente subia pela escada de madeira, o Bonelord disfarçado apurava seus ouvidos a qualquer som estranho, e frequentemente virava o rosto para os lados, para se certificar de que não estava sendo observado. Degrau após degrau, o Bonelord não podia evitar deixar de imaginar se não teria sido mais fácil transformar-se em um elfo e simplesmente infiltrar-se no encontro do Cenath, apesar de saber muito bem a resposta para aquela indagação. Esses elfos conhecem magia demais para se deixarem enganar por um simples feitiço ilusório. Ainda mais os Cenath. E, além disso... É muito mais divertido pensar como humano, ele ria-se enquanto escalava. Ele jamais poderia admitir para qualquer um, talvez nem mesmo para ele mesmo, o quanto a raça dos humanos atiçava sua imaginação. Desde que ele tivera seu primeiro contato com um humano vivo, na primeira missão que recebera de seu mestre na superfície, quando ainda era uma criança, 4669 não podia deixar de sentir uma certa atração por aquelas criaturas tão interessantes.

    Ele já estava quase chegando ao segundo andar quando, por reflexo, acabou por virar o rosto para encarar o chão logo abaixo. Ou quase. A escuridão da noite era tamanha, que o gramado de onde ele há pouco partira parecia o mais profundo e obscuro dos abismos, sensação esta fortemente realçada pela altura da escadaria. A fria brisa da noite agitava seus cabelos e cortava suas mãos nuas com certa severidade. Esta porcaria deve ter uns três metros de altura! Qual a necessidade de se construir uma escada tão longa? Entretanto, o repentino som de vozes abafadas chamou sua atenção de volta à realidade, forçando-o a içar o corpo mais alguns centímetros acima, permitindo que ele finalmente ultrapassasse o chão de madeira da guilda dos Cenath com o topo da cabeça.

    Uma dezena de elfos estava reunida quase ao centro do local, todos sentados no que parecia ser um círculo de cadeiras, todos de cabelos brancos perolados e aparência extremamente sisuda. Uma série de castiçais de bronze havia sido posicionada ao redor dos mesmos para melhor iluminar o seu encontro, e, naquele instante, apenas um dele falava, sua voz tão baixa que, quase sempre, ela não passava de um quase inaudível ruído na silenciosa noite das alturas de Ab’Dendriel.

    - ...Os necromantes de Drefia... Darashia... Estrela... Muito antiga... Alma... Registros de sangue... – Ocasionalmente, 4669 conseguia pescar algumas palavras soltas do que era dito pelo feiticeiro, que, apesar de falar em um tom quase inacessível para ele, mostrava-se extremamente animado em seu monólogo, frequentemente gesticulando em excesso com as mãos, como se tentasse cativar seus colegas para o problema que discutiam.

    - ...Pirâmide... A Irmandade dos Ossos... Rookgaard... – Continuou o animado Cenath. 4669 sentiu um rebuliço no estômago ao constatar que, finalmente, ele conseguira encontrar o ponto de encontro dos Cenath. Eu preciso chegar mais perto! Não dá para ouvir nada assim. Embora hesitante, ele logo decidiu que não podia desperdiçar aquela chance. Ezekiel finalmente conseguira uma informação que lhe fora útil, e ele sabia que em poucos dias a lua nova sumiria dos céus e ele perderia sua chance. É agora ou nunca! O Bonelord puxou o corpo para cima o mais lentamente que pode, tentando ao máximo evitar a produção de qualquer ruído. Quando seus dois braços já estavam no mesmo patamar que o piso, ele buscou o flexuoso caule de alguma trepadeira qualquer que vegetava ali perto para melhor içar o corpo para cima, mas, ao fazê-lo, teve a terrível sensação de algo dera errado.

    O elfo havia parado de falar.
    O elfo, na realidade, estava olhando fixamente para o ponto de onde ele surgia do nada, quase como se pudesse vê-lo parado ali.

    Merda, ele pensou enquanto esperava o que viria a seguir.

    - Estamos sendo espionados. – Disse o elfo em alto e bom som, sem cerimônia. Repentinamente, os demais ergueram-se de sobressalto, todos soltando exclamações de fúria e surpresa, e logo postaram-se todos a procurar por suas armas e pelo invasor. Na confusão resultante, 4669 sentiu o caule da planta que ele agarrara arrebentar graças à desmedida força que ele empregara para manter-se em equilíbrio, e, na tentativa pífia de descer rapidamente a escada antes que algum feitiço o atingisse, o descoordenado Bonelord sentiu os pés resvalando e errando os degraus.

    A última coisa que ele viu antes de despencar foi um par de olhos cinzentos e tempestuosos fuzilando-o à distância. Depois disso, houve apenas o crescente frio na sua barriga e o penoso abraço da escuridão.


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    Batráquio e Eliseu visitam o farol-árvore de Ab'Dendriel, e o Bonelord quase deixa-se consumir por fantasmas do passado
    Última edição por Manteiga; 30-01-2017 às 23:37.
    Nosce te ipsum.

  10. #10
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    Eeeeeee Batráquio HAEHUHUHAUEHUEHUAEHU

    Coitado, falhou miseravelmente HAUEHAUAUEHUEHUEH

    Cara, adorei o capítulo. Você escreve MARAVILHOSAMENTE bem, sério mesmo. É denso, é imersivo, é tenso... É excelente. Continue assim.


    P.S.: Finalmente o nome 1208 faz um cameo aí xD ansiosa pra ver o restante.

    P.S.2: olosco a bruxa foi obliterada AHUEHUEHUAHUH




    Abraço,
    Iridium.

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