Página 3 de 3 PrimeiroPrimeiro 123
Resultados 21 a 27 de 27

Tópico: O Retorno

  1. #21
    Avatar de Gillex Koehan
    Registro
    25-09-2004
    Localização
    São Paulo
    Idade
    28
    Posts
    216
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas CitizenEstagiário
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Chego chegando, beijo no canto da boca.

    Altas aventuras desse Bonelord trapalhão hoje mesmo, na Sessão da Tarde.
    Gostei bastante desse, mais do que do anterior. Mas já tô apreensivo pro drama do próximo. Que parece que vai entristecer. Risos.

    As descrições dos lugares e das ações desse capítulo foram gostosas demais de ler, sobretudo as do começo. Embora burramente não sabia que árvore era um Bordo, hahaha. Fui procurar. Sempre aprendo uma palavra diferente.
    Eu acho que fica esteticamente bonito quando coloca pretérito mais-que-perfeito no texto, mas eu tenho desgostado um pouco. É um recurso que deveria cair em desuso, porque ninguém fala. E eles normalmente ficam concentrados no começo do texto. Ou fui muito desatento mesmo. Mas enfim, só chatice minha.

    Eu gosto muito da construção da relação do Ícaro com o B, mesmo sabendo do desfecho desde a primeira vez que vi os dois. O sobrenome matou tudo, então fico apreensivo desde já. Espero que eles tenham mais alguns momentos fofos juntos. Nessa história, eu sou team Batrícaro. Nessa. E também tô esperando o desfecho (parece que tô no LDRV, haha) do Batraquinho com o bibliotecário ruguento. Também acho bacana a adaptação que tu faz na leitura dos lugares e livros, sendo o B um BL. Tipo títulos dos livros da biblioteca do HG, haha ;3

    Bom, beijos no coração, que ele tenha doze lados.
    E apesar de eu ficar esperando os capítulos, posta quando puder, haha. Sob pressão não é bom, risos.

    Publicidade:
    .....
    .....
    RPGTibia

    A gente tá te esperando desde que você nasceu!
    .....
    .....
    .....

  2. #22
    desespero full Avatar de Iridium
    Registro
    27-08-2011
    Localização
    Brasília
    Idade
    22
    Posts
    2.391
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenCríticoDebatedorAdepto do Off
    Prêmios Guardião do GF - pelos serviços prestados à comunidade
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Saudações!

    De novo, tornei a demorar a comentar, apesar de ter lido esse cap algumas horas após a publicação. O pessoal já disse muito do que eu iria comentar, então vamos a alguns pontos: acho as suas descrições fantásticas. A sua capacidade de ambientação é sensacional; a parte dos backgrounds de "Dagobald" e do Ícaro foram, para mim, o toque de mestre. Sutil, simples e crível: históricos de vida que trazem muita empatia. Muito bacana.

    Agora... Eu quero é ver mais desse 1593. O que dizer desse mestre que eu MaL CoNhEçO e Já DeScUrTo PaKaS?

    Aguardo o próximo; e se a demora resulta em capítulos excelentes, então aceito a culpa tranquilamente



    Abraço,
    Iridium.

  3. #23
    Avatar de Manteiga
    Registro
    07-05-2006
    Localização
    Porto Alegre
    Idade
    23
    Posts
    2.883
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenMain CitizenAdepto do OffCrítico
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Spoiler: Comentários


    Bom, apesar de vocês já terem se manifestado quanto às demoras dos capítulos, mesmo assim me sinto na obrigação de pedir desculpas pelo atraso. Realmente pretendi que este saísse mais cedo, mas, como comentei com a @Iridium um dia desses, este capítulo é provavelmente o que eu mais antecipei de todos eles: antes mesmo de postar a história eu já me pegava imaginando como faria para escrevê-lo, de tão determinante que ele é. Acho que me afundei em expectativas e demorei a construir algo que me agradasse. Enfim, seja como for, espero que vocês gostem e que, enquanto o leem, sintam o mesmo que eu senti enquanto o escrevia. Não estou exagerando quando digo que este aqui exigiu muito mais de mim do que todos os outros.

    Spoiler: Música do capítulo


    By the way, em virtude do tamanho um pouquinho... anormal... do capítulo, ele terá de ser dividido em duas partes.
    Bjs amo vocês EHEHEHEHE
    Lembram quando eu disso que o III seria o maior? kkk menti

    VI

    Parte I


    - Utamo vita! – Batráquio conseguiu exclamar antes de ser atingido pela bola de fogo instantaneamente produzida por 486486. Mal houve tempo para sentir o repentino formigamento que se espalhou pelo seu corpo com o pronunciamento do feitiço antes de ser momentaneamente cegado pela excessiva claridade das chamas, a qual ele buscou bloquear cobrindo o rosto com o braço esquerdo. Passados alguns instantes confusos, Batráquio percebeu-se parado no mesmo local, ileso, a magia das chamas contida pelo seu escudo mágico. Entretanto, o leve cheiro de algo queimado e a presença de uma tênue e translúcida fumaça em torno da sua cabeça lhe disse que seu feitiço não fora tão eficiente quanto ele planejara. Talvez tenha queimado alguns fios de cabelo, refletiu ele enquanto debilmente tateava o topo da cabeça em busca de uma clareira inexistente.

    - Ainda está de pé? – Chamou a voz monstruosa de 486486, obrigando-o a voltar sua atenção ao bibliotecário, que, tal qual ele, permanecia no mesmo lugar, sem esboçar qualquer reação diante da falha da sua bola de fogo. – Não seja por isso! Posso produzir uma bola de fogo ainda maior e mais poderosa...!

    - Eu sugiro que você se contenha, velhote. – Batráquio zombou enquanto, em um movimento rápido, estendia o braço direito para a estante ao seu lado e sacava um livro qualquer de uma das prateleiras. 85 formas de se conservar cadáveres, dizia o título escrito em 469. – A menos que queira tacar fogo no seu precioso acervo.

    A fala de Batráquio produziu o efeito desejado no bibliotecário, que, diante da ameaça do forasteiro, pareceu hesitar um pouco antes de responder. Às suas costas, o pequenino Gazer seguia tremendo como se estivesse no meio de uma nevasca.

    - O que você quer aqui, humano? – Ele retrucou, pronunciando a última palavra com tamanho desprezo que os pelos na nuca do feiticeiro rapidamente puseram-se em pé. – Veio surrupiar algum volume raro da nossa mui antiga e valiosa coleção? Sonhe! Jamais conseguirá sair vivo desta cidade, ainda que passe por mim! Os Anciãos já sabem da presença de um invasor! Seu lacaio já foi descoberto e exterminado! Você jamais deixará esta cidade com vida!

    Batráquio engoliu em seco, sentindo uma espécie de caroço formar-se em sua garganta e descer rasgando pelo seu esôfago. Então eles conseguiram derrotar Karina. Ele não esperava que sua fiel escudeira fosse durar muito diante dos esforços coletivos de uma série de Bonelords profundamente versados em magia antiga, mas, ainda assim, obter a confirmação de que sua serva mais leal fora de fato subjugada enquanto tentava criar uma distração para ele produzia uma sensação no mínimo incômoda no seu âmago. E nem mesmo a certeza de que a guerreira elfa estaria sã e salva ao ser mais uma vez convocada parecia atenuar aquele sentimento. Aquela ideia o fez sentir-se estranho. Houve um tempo em que eu não incomodaria com uma questão trivial como esta... Talvez conviver com os humanos na superfície o tivesse mudado mais do que ele havia previamente constatado.

    - Preocupado? Deveria ter pensado nisto antes de se atrever a penetrar em nosso domínio! – Disse 486486, provavelmente interpretando erroneamente a expressão de desconforto que surgira na face do feiticeiro ao ouvir suas provocações. O Bonelord mais velho parecia mais confiante agora, mas seu único olho lateral bom seguia seu movimento frenético, como se denunciasse a rapidez com que o cérebro de seu dono tentava calcular uma solução realmente eficaz para se livrar daquele invasor

    Batráquio piscou algumas vezes para afastar aquelas ideias bobas da cabeça e voltou sua atenção ao bibliotecário, que agora sorria ameaçadoramente. Os Anciãos já sabem da presença de um invasor, dissera 486486. Seu tempo havia se esgotado. Não havia mais motivo algum para sustentar aquele disfarce.

    - Sinceramente, 486... Eu sei que muito tempo se passou, mas eu estava esperando que pelo menos a minha voz você fosse reconhecer. – Ele falou pausadamente enquanto dava um passo à frente, como se tivesse o intuito de permitir que o outro melhor pudesse analisar suas feições, apesar de saber que isso de pouco ajudaria.

    - Como se atreve! Eu jamais me recordaria de um humano imun... – A cavernosa voz do Bonelord mais velho sumiu repentinamente no instante em que seu grande e amarelado olho central fixou-se no rosto do feiticeiro, mais especificamente em seus olhos muito verdes. Batráquio quase pode ouvir as engrenagens da mente de 486486 girando furiosamente enquanto o Bonelord vagarosamente flutuava em sua direção, sua boca aprisionada no que parecia a eterna pronúncia de uma exclamação que jamais sairia.

    O grande e flutuante corpo de 486486 estacionou apenas a alguns centímetros do rosto do feiticeiro, seu olho central vidrado sendo agora acompanhado pelo único olho lateral sadio, que finalmente havia parado de girar. Enquanto o bibliotecário despia-o com o olhar, Batráquio sentiu um longo e penoso arrepio descendo pela sua espinha e, involuntariamente, engoliu em seco. Ele quase pode definir a espectral sombra do reconhecimento perpassando o olho central do Bonelord, que piscou algumas vezes antes de voltar a falar, sua voz sepulcral agora ainda mais baixa do que antes, mal passando de um irritante sussurro.

    - Eu não acredito... Não acredito... – A expressão de 486486 permaneceu surpresa por apenas uma fração de segundo antes de voltar a assumir sua aparência amuada habitual. O silêncio na biblioteca, apesar das palavras do Bonelord, era tão intenso que Batráquio teve certeza de que as batidas do seu coração eram perfeitamente audíveis do andar debaixo. – É muito, muito atrevimento seu vir desfilar essa sua cara feira aqui embaixo, 4669.

    - Você e eu claramente temos definições bastante divergentes de beleza. – Ele retrucou infantilmente enquanto sentia suas vísceras congelarem de uma forma inexplicável.

    Seguiu-se um silêncio desconfortável em que ambos os Bonelords estudaram-se cuidadosamente com o olhar, como se buscassem corrigir em suas memórias os eus um do outro. 486486 parecia ainda mais velho do que Batráquio conseguia se lembrar, se é que aquilo era possível. Suas rugas pareciam mais fundas, seu olho central demonstrava um cansaço que não possuía anos atrás e agora contava com três olhos leitosos, superando o único olho cego que apresentava da última vez que o feiticeiro o vira. Além disso, da parte inferior do seu corpo brotavam aqui e ali longos fiapos escuros do que qualquer humano interpretaria como uma barba muito rala e assimétrica, o que, normalmente, era uma característica exclusiva apenas dos Anciãos mais antigos. 486486, entretanto, jamais chegara àquele posto, e o verde da sua pele macilenta tinha um aspecto doentio e passado, como se tivesse desbotado com o tempo. O Bonelord respirava com dificuldade, produzindo ruídos abafados enquanto o ar se movia pela sua boca, a qual parecia ficar permanentemente aberta agora, exibindo seus dentes escuros e gastos. De modo geral, o bibliotecário da gloriosa biblioteca da Necrópole estava em um estado muito além de deplorável. Batráquio sentiu algo próximo a piedade enquanto o observava com um caroço na garganta e um aperto no peito. 486486 sempre foi velho, mas isso... Isso é deprimente.

    - Você não devia ter voltado. – O velho voltou a dizer, sua voz rasgando o silêncio entre eles violentamente. Seu rosto tinha uma expressão indecifrável, mas Batráquio pensou ter visto em seu olho algo que o lembrou a pena que ele próprio sentia do outro naquele instante.

    - Também senti sua falta, 486. – Ele se ouviu dizendo sofregamente, como se pronunciar aquelas palavras fosse um suplício insuportável. Engolindo em seco mais uma vez, Batráquio assistiu enquanto o outro girava o corpo para trás em um movimento lento e se distanciava alguns metros em direção ao Gazer, que permanecia silenciosamente a observá-los, ainda apavorado. O bibliotecário deve ter dito algo em 469 para ele, pois, no instante seguinte, o Gazer tremeu-se todo com ainda mais intensidade e disparou pelo corredor escuro, sumindo de vista e certamente desabando escada abaixo, grato por ter sido salvo do humano mas aterrorizado demais para agradecer a figura soturna do curador do acervo.

    - Você realmente não deveria ter regressado a este local, 4669. Você não é bem-vindo aqui. – Disse 486486 enquanto voltava a girar o corpo para fixar seu olho central na figura do homem, mas, dessa vez, sem se aproximar. Sua voz voltara a ficar um pouco mais audível agora, e seu olho lateral, mais uma vez, começou a rodopiar para todos os lados, como se fosse uma espécie de tique nervoso.

    - Não me diga! Fui tão bem recebido na entrada, quase pensei que estivessem me esperando. – Batráquio ironizou, incerto de como proceder naquela situação espinhosa, enquanto sentia suas mãos formigarem com tal intensidade que ele achou que elas fossem cair.

    - Pode debochar o quanto quiser, garoto. Mas quando o Conselho descobrir que você é o invasor... Ah... Você não terá tempo para fazer mais nenhuma piadinha. – O bibliotecário retrucou asperamente enquanto olhava o outro dos pés à cabeça com uma expressão inconfundível de asco no seu rosto coberto de rugas.

    - Garoto? Não tenho mais idade para ser chamado assim, 486. Mas vou tomar como um elogio. – Ele caçoou, sentindo que estava indo longe demais mas incapaz de se conter. O outro rangeu os dentes pontiagudos e soltou um bufo de descontentamento, e Batráquio teve certeza de que, se não fosse o pesado livro que ele tinha em mãos, mais uma bola de fogo teria sido lançada na sua cabeça naquele momento.

    Ele decidiu então tentar retomar o controle da conversa.

    - Vai dizer que não sentiu saudades de mim também? Vai dizer que não estava doido pra me ver de novo?

    - Eu preferiria ter o que me resta de visão extirpada do que voltar a pousar os olhos em você, 4669. – 486486 disse enquanto virava o corpo e começava a passar os olhos, os dois que ainda lhe restavam, pelas estantes ao seu redor, muito provavelmente procurando irregularidades no seu perfeitíssimo e incompreensível sistema de organização. Batráquio tomou aquele gesto como um bom sinal, provavelmente indicando que o outro estava, ainda que minimamente, mais confortável em sua presença naquele instante do que estivera a princípio. – Ainda mais sob esta sua condição atual.

    - Já que tocou no assunto... Você não pareceu exatamente surpreso ao me reconhecer nesta forma. – Ele disse lentamente enquanto acompanhava os movimentos do outro com o olhar, desconfiado. De muitas formas, aquele retorno não estava saindo como ele havia planejado, mas havia algo na recepção de 486486 que o incomodava em demasia. O espanto dele foi por eu ter voltado, não por ter voltado como humano! Talvez, ele imaginava, os acontecimentos do passado remoto tivessem causado um baque tamanho no velhote que acabaram por comprometer suas faculdades mentais.

    - Você parece se esquecer do quanto nós penetramos nas sociedades da superfície, 4669. O Conselho tem... Olhos... em todos os lugares. – Batráquio ergueu levemente as sobrancelhas ao ouvir o trocadilho de 486486, que, no entanto, não pareceu esboçar reação alguma à sua pequena piadinha. O bibliotecário falava casualmente, assumindo um tom mais brando e controlado, como se quisesse deixar claro para Batráquio que não havia nada que ele pudesse dizer para voltar a tirar-lhe a calma. – Há muito que os Anciãos já sabem do seu encontro infeliz com a feiticeira chamada Aletéia. Seu infortúnio não é surpresa para ninguém.

    - ... Bom saber que ela tinha nome, afinal. – Foi tudo que ele conseguiu dizer enquanto cruzava os braços e soltava um leve bufo de impaciência. Então mesmo depois de me chutarem daqui, os velhacos continuam me espionando. Ele não sabia exatamente por que aquela notícia lhe causava tamanho incômodo ou surpresa: ele fora criado naquele meio, ele era um deles, apesar de tudo. Ele deveria saber que o Conselho jamais teria a intenção de deixá-lo vivo sem tomar os devidos cuidados para acompanhar cada passo que ele desse.

    - O que você veio fazer aqui, 4669? – Disse 486486 após alguns segundos de silêncio, nos quais Batráquio ficou a contar as lajotas de mármore negro do chão. O mais velho havia terminado sua inspeção das prateleiras próximas e parecia satisfeito ao encontrar tudo em ordem. Seu olho lateral, entretanto, assumiu uma expressão severa e fixou-se no livro que o feiticeiro ainda carregava aninhado em seus braços. – Você não é bem-vindo nesta cidade. A menos que tenha tido um súbito desejo de conquistar um morte lenta e dolorosa, não vejo que outras razões você teria para se dar ao trabalho de regressar a este local.

    Batráquio cravou seus olhos em 486486 e esforçou-se ao máximo para imprimir uma expressão decidida e confiante no rosto enquanto tentava controlar o impulso de atirar o livro no olho do bibliotecário. Puta que pariu, eu tinha esquecido o pé no saco que ele é! Nos tempos passados, antes de colocar tudo a perder, ele chegou muito perto de considerar 486486 como um amigo, ou pelo menos como um Bonelord relativamente mais suportável do que os demais, apesar de sua aspereza e casmurrice. Entretanto, mais do que nunca, o bibliotecário estava lhe irritando com seus comentários desnecessários.

    - Vim surrupiar alguns livrinhos. Estava ficando meio entediado e senti saudades de ler Rituais Demoníacos I e O Findar da Civilização Élfica. Pensei em fazer uma visita e renovar meu cadastro.


    O desprezo com que 486486 o encarava agora era quase palpável.

    - Vejo que você continua insuportavelmente cínico.

    - E você continua enrugado, metido e, de modo geral, irritante pra cacete.

    - Os anos de exílio não lhe ensinaram nada, 4669? – O curador disse enquanto se aproximava perigosamente, seu olho central faiscando como uma nuvem de tempestade e seus dentes parecendo mais afiados do que antes. – Esse seu amor pelo deboche, sua petulância... Esses seus hábitos já lhe custaram tão caro... Você acha mesmo que não tem mais nada a perder? Esse cinismo ainda será sua ruína... Se é que já não foi.

    - Não me diga. Essa é a parte que você me entrega pro Conselho e volta a cuidar da sua vidinha medíocre? – O feiticeiro retorquiu, descruzando os braços e apontando o dedo na direção do outro enquanto seu rosto assumia uma expressão de profundo rancor.

    - Não me desafie, 4669...

    - Eu lhe digo o mesmo, 486486.

    Os dois permaneceram estáticos trocando olhares intensos e recheados de amargura por alguns instantes. Apenas durante aquele momento Batráquio se deu conta do quão silenciosa estava a biblioteca, parando, pela primeira vez, para pensar onde estaria Ezekiel e o que ele estaria fazendo. Talvez o velhote o tenha encontrado primeiro e dado cabo dele. 486486 pareceu perceber sua distração, pois, no instante seguinte, o feiticeiro sentiu o pesado livro de capa escura que tinha em mãos flutuar para longe do seu toque, sendo direcionado pela mente de 486486 exatamente para o ponto em que estivera antes de ter sido tão rudemente arrancado da estante pela sua impura mão de humano.

    - Minha paciência com você já há muito se esgotou, 4669. – O curador rugiu sem tirar seus dois olhos do feiticeiro, que voltou a cruzar os braços e a encará-lo com uma expressão azeda no rosto. – Sugiro que pare de birra e me diga exatamente o que veio fazer na minha biblioteca antes que eu decida chamar os Anciãos para terminarem o que você começou tantos anos atrás. E eu também sugiro que você não duvide da minha disposição em fazê-lo.

    Nos segundos que se seguiram, Batráquio sentiu um confuso fluxo de emoções passarem pela sua mente e pelo seu corpo. Primeiro veio a raiva, a quase incontrolável vontade de xingar 486486 de todos os nomes chulos que ele conhecia e, em seguida, de atacá-lo com todos os feitiços que ele sabia. Em seguida, uma ira ainda mais forte surgiu brevemente em seu cérebro, uma ira que exigia que ele ateasse fogo naquela biblioteca inteira e mandasse todos eles, 486486 e os outros, se foderem. Entretanto, tais emoções ruíram e esmaeceram, dando lugar para uma sensação de vazio, um desalento, um profundo abatimento que não tinha outra origem se não a percepção de que ele fora tolo demais em acreditar que conseguiria manter sua personagem uma vez que atravessasse os limites da Necrópole. 486486 estava certo em tudo que dizia, e não havia saída para Batráquio senão engolir seu orgulho e admitir de uma vez por todas o que o arrastara até aquele lugar.

    - Eu preciso da sua ajuda, 486. – Ele falou em voz baixa após soltar um longo e penoso suspiro, mas sem dar jeito no azedume do seu rosto. Ele então descruzou os braços e limpou as palmas das mãos suadas nas calças.

    A frase pegou o outro de surpresa. Após um breve momento de incredulidade, 486486 adotou uma postura agressiva já esperada pelo feiticeiro.

    - Como é!? Ajuda!? Você quer a minha ajuda!? – O bibliotecário rugiu um pouco mais alto do que de costume, fazendo com que as suas palavras ecoassem brevemente pelos corredores próximos. – Depois de tudo o que você fez? Você me ofende com sua arrogância, 4669! Como você se atreve a invadir esta cidade, a invadir a minha biblioteca imaculada e pedir pela minha ajuda?! Sua presunção atingiu um patamar risível, 4669!

    - Será que você se importa em ao menos ouvir o que eu tenho a dizer...?

    - Ouvir? Ouvir!? Você quer que eu ouça, 4669!? – O tom de voz de 486486 atingira um volume tal que agora era perfeitamente audível de qualquer ponto da biblioteca, de modo que Batráquio passou a lançar olhares nervosos na direção onde ficava a escadaria, imaginando se ambos não seriam surpreendidos a qualquer momento por um Ancião. O pedido de Batráquio, ao invés de fazê-lo abandonar seu ar rabugento, parecia tê-lo atingido em um ponto crítico que o forçara ao extremo da raiva de uma forma surpreendentemente rápida. O bibliotecário avançou ameaçadoramente na direção do feiticeiro, literalmente cuspindo aquelas palavras na sua face, aparentemente incapaz de segurá-las ou medi-las, como se tivesse esperado tempo demais para dizê-las. – Depois de todas as vezes que eu tentei fazê-lo ouvir a voz da razão e você tão arrogantemente fez questão de me ignorar? Depois de toda a humilhação, de toda a catástrofe que você e seu egoísmo trouxeram para esta cidade? Como você se atreve!? Você não é ninguém, 4669, ninguém, para me pedir qualquer coisa que seja!

    - Humilhação? Catástrofe? Você não acha que está exagerando só um pouquinho...? – Batráquio dizia nervosamente enquanto andava para trás e erguia as mãos em uma involuntária e tosca tentativa de pedir que 486486 se afastasse. Inexplicavelmente, a reação explosiva do curador, embora esperada, estava lhe parecendo imensamente mais temerosa e sufocante do que ele jamais teria esperado.

    - Você não faz ideia do estrago que a sua petulância causou! Você não faz... Ideia... – O bibliotecário parara de avançar contra o feiticeiro e começava agora a ofegar enquanto falava, começando a demonstrar a exaustão causada por aquele estouro emocional. – Você não se atreveria a pedir ajuda... Não... Nem a voltar a aparecer aqui... Se soubesse... Se tivesse visto... O que você fez, 4669... O que você fez...

    Ele se calou enquanto lutava para recuperar o fôlego, deixando Batráquio imerso em uma inquietante sensação de culpa que ele jamais experimentara. Durante todos os longos anos que ele passara exilado, ele evitara ao máximo pensar em como estariam as coisas na cidade que deixara para trás, e, quando não conseguia evitar, ele a imaginava recheada de Bonelords extremamente satisfeitos e contentes com seu destino funesto. Agora que ele enfim estava ali, agora que ele testemunhava a reação de 486486, lhe ocorria que talvez as coisas não tivesse se sucedido daquela forma e que talvez, apenas talvez, o quadro que ele pintara em sua mente da Necrópole após sua partida fosse apenas uma espécie de combustível para alimentar seu rancor. Talvez, no final das contas, as coisas não tivessem transcorrido às mil maravilhas por ali. Batráquio engoliu em seco e só então se deu conta de que sua testa estava suando frio. 486486 o encarava agora com um misto de vergonha pelo seu tom exaltado e triunfo por ter finalmente dito as coisas que, aparentemente, aguardara anos para dizer.

    - Eu preciso da sua ajuda, 486... Eu preciso ver meu Mestre. – Batráquio falou baixinho quando achou que finalmente seria seguro falar outra vez. Jamais, em toda sua vida, pelo menos pelo que ele conseguia se lembrar, ele cultivara qualquer sentimento pelo bibliotecário que se aproximasse do medo. Naquele instante, entretanto, ele não sabia dizer se estava sentindo apenas uma estranha forma de culpa que ele não sabia identificar ou se estava, efetivamente, com receio do que o outro poderia fazer a seguir. – É por isso que eu vim até aqui. Eu preciso da sua ajuda para ver o 1593.

    O velho encarou-o incrédulo por alguns segundos, talvez esperando que o outro dissesse que estava brincando.

    - 1593 não é seu mestre há muito tempo e você sabe muito bem disso! – O curador respondeu de forma ríspida, mas com alguma naturalidade, claramente tentando afastar aquela conversa dos vergonhosos desabafos que ele fizera ainda há pouco.

    - Eu sempre me referi a ele desta forma e ele sempre me tratou como seu aprendiz, e não é agora que eu vou parar de chamá-lo como tal. – Batráquio respondeu impetuosamente, sentindo sua velha confiança voltar aos poucos enquanto suas mãos paravam de suar e seus dedos de formigar. – Eu preciso vê-lo, 486. Eu preciso que ele me ajude a quebrar esta maldição.

    O bibliotecário encarou-o com uma expressão de profundo asco por alguns instantes, e, em seguida, girou rapidamente o corpo para ficar de costas ao visitante e se pôs a flutuar na direção contrária, voltando a checar as estantes e parecendo dar pouca importância à presença de Batráquio ali.

    - Então o todo-poderoso e competente 4669, que se gabava de tanto saber sobre magia, não é capaz de romper uma simples maldição de uma bruxa humana sozinho? – Ele ouviu o outro caçoar ao longe, voltando a assumir seu tom de voz baixo e arrastado. – O que é a soberba, não é mesmo?

    - Eu não vou negar que não consegui encontrar nenhuma forma de...

    - Pois é muito bem feito para você! – 486486 voltou a esbravejar com raiva do outro lado do corredor, mais uma vez girando o corpo em um movimento rápido, dessa vez para voltar a encará-lo com furor e desprezo. Ver a falha de Batráquio parecia dar-lhe uma estranha satisfação. – Parece que toda essa sua prepotência não lhe serviu para muita coisa, não é? De que lhe adiantou comportar-se como se fosse mais esperto do que qualquer um nesta cidade? De que lhe adiantou bater de frente com o Conselho? Veja só quem voltou rastejando para pedir socorro!

    Batráquio ouvia aquelas palavras impassível, sentindo um caroço dançar pela sua garganta e se perguntando para onde haviam ido suas respostas rápidas cheias de desdém e sua costumeira raiva, que, em momentos como aquele, dava-lhe energia suficiente para retrucar. Naquele instante, o Bonelord transformado em humano sentia-se pequeno, tão pequeno quanto um inexperiente e bobo Gazer.

    - Por que você não vai até seu mestre sozinho, 4669? Você certamente se lembra onde ele mora! Por que precisa da ajuda deste Bonelord tão velho e medíocre, como você mesmo gosta tanto de dizer?

    - Você sabe muito bem que não posso sair desfilando pela Necrópole! – Ele retrucou, finalmente saindo do lugar para ir atrás do curador.

    - Deveria ter pensado nisso antes de voltar!

    - Por favor, 486. – Ele enfim falou, expulsando do peito suas sensações de culpa e pequenez. – Por favor. Você e 1593 sempre tiveram boas relações. Se há alguém nessa cidade capaz de arranjar um encontro entre nós, este alguém é você. Eu só preciso que você faça isso. Por favor, 486. Se você ainda tem qualquer consideração por mim, por menor que seja, me ajude. Eu não sou capaz de fazer isso sozinho.

    Aquelas últimas palavras, mais do que tudo, pareceram ser o que surtira o efeito mais dramático sobre 486486. Por breves instantes, pareceu a Batráquio que o velho bibliotecário voltara a vê-lo como aquele inconsequente e enérgico aprendiz que ele um dia fora, quando ambos haviam começado a construir aquela estranha relação de quase amizade recheada de desdém mútuo. O Bonelord idoso, por sua vez, pareceu conflitado até voltar a adotar sua costumeira postura de dar as costas ao visitante e falar baixinho, como se jamais tivesse perdido o controle das suas ações ou palavras.

    - E o que te faz pensar que 1593 irá te ajudar, afinal? – Ele disse, casualmente. – Depois de tudo que aconteceu... O que te faz pensar que ele resolverá auxiliá-lo a reconquistar sua forma original? O que te faz imaginar que ele não o reduzirá a cinzas no instante em que vê-lo novamente?

    - Eu tenho certeza que ele não se negará a me ajudar, 486. – Ele disse com naturalidade, a mesma naturalidade que o fizera assegurar a Elathriel que ele não seria morto ali embaixo e eventualmente retornaria para buscar Eliseu. Se ele conhecia 1593 como achava que conhecia, ou, pelo menos os lados dele que ele chegara a conhecer, não era concebível qualquer cenário em que ele não o ajudaria com seu problema. Se eu não acreditasse nisso, eu não teria vindo até aqui. Entretanto, ele não conseguia deixar de imaginar o que ele diria quando finalmente o visse naquela situação e ouvisse o que ele tinha a dizer. Algo lhe dizia que talvez seria mais difícil convencer 1593 a ajudá-lo do que ele estava realmente imaginando. Ainda assim, Batráquio estava confiante. – Esta é minha última opção, 486. Se 1593 não puder me livrar da maldição daquela bruxa, então eu estou certo de que ninguém jamais conseguirá.

    Ele estava sendo sincero. Talvez ele estivesse sendo excessivamente cego ou burro, mas Batráquio tinha certeza de que seu mestre saberia o que fazer. 1593 era um dos Anciãos mais sábios e competentes da Necrópole, apesar de não ser um dos mais velhos. Eu queria que 486486 entendesse que eu não teria vindo até aqui se não tivesse outra escolha. Ele já tentara de tudo, inclusive rastrear a maldita bruxa e educadamente pedir que ela revertesse o feitiço, mas nada tivera resultado. Ele sabia que toda aquela empreitada era uma insanidade, um completo e profundo desaforo a tudo que a Necrópole e a raça dos Bonelords representava. Mas ele sabia que era o único jeito de se livrar daquela maldição e de voltar a viver em paz. Uma coisa de cada vez, ele pensou. Primeiro eu me livro da maldição, depois eu resolvo as outras pendências. Ele não pretendia deixar que 486486 soubesse, naquele instante, que seu retorno não se pautara exclusivamente na sua necessidade de quebrar a maldição da bruxa que ele descobrira chamar-se Aletéia.

    Batráquio então se deu conta de que 486486 voltara a encará-lo, mas, dessa vez, não havia amargura ou raiva em seu olhar, mas algo que ele teve o desprazer de reconhecer como uma profunda e dolorosa tristeza. Ele sentiu uma estranha sensação de frio, algo que certamente não combinava com a atmosfera cálida daquele lugar.

    - Você ficou tempo demais fora, 4669... Tempo demais... Não creio que 1593 vá ser capaz de ajudá-lo agora... – O velho disse em um sussurro fantasmagórico.

    - O que você quer dizer com isso? - Ele retrucou, incerto se realmente desejava obter aquela resposta.

    Batráquio engoliu em seco ao ver que o grande e amarelado olho central de 486486 parecia estar marejado.

    - ... Acompanhe-me, 4669... Eu preciso checar as outras estantes.

    ***


    A atmosfera na Necrópole estava excepcionalmente carregada.

    Talvez fosse o tempo considerável que ele passara longe dali – em geral, quando ele se ausentava por muito tempo em suas missões, ele sentia algo parecido com aquilo – mas 4669 tinha certeza de que havia algo diferente na Necrópole naquele instante. O ar parecia pesado, mais sufocante do que nunca, e ele não se lembrava de tê-lo sentido tão quente quanto naquele momento. Talvez os incontáveis olhares suspeitos que ele recebera em seu caminho da entrada até a pirâmide de 1593 tivessem contribuído para aquela sensação de sufocamento que tomava conta dele. Talvez fosse a amarga sensação de culpa que ele sentia que o impedia de respirar direito. Ou talvez aquele fosse simplesmente um dia mais quente lá embaixo do que o usual.

    A travessia da superfície até ali fora, sem favor algum, a jornada mais penosa que 4669 já tivera de enfrentar. 1593 recusara-se a dizer qualquer coisa, fossem em 469 ou em qualquer outro idioma, e também recusara-se a encarar seu antigo aprendiz mais do que fosse realmente necessário para se certificar de que ele não estava tentando escapar. Na realidade, o único momento em que 1593 dera qualquer indício de realmente perceber a existência de 4669 no mesmo recinto que ele desde que o recepcionara em sua caverna dera-se logo em seguida, quando, usando um encantamento complexo e antigo, ele anulara a transmutação de seu aprendiz e o forçara a reassumir a sua forma original. Ele sequer demonstrou qualquer forma de contentamento por ter conseguido realizar um feitiço daquela complexidade e com sucesso absoluto: simplesmente fez um gesto para indicar que 4669 devia segui-lo e saiu da caverna, iniciando uma longa viagem por uma complexa rede de túneis desconhecida por 4669 e que acabou por levá-los de volta à Necrópole.

    Ele sentira-se inquieto durante todo o percurso, e, quanto mais eles se aproximavam do local onde o solo transformava-se em areia preta e o cheiro e terra convertia-se em cheiro de morte, mais ele sentia que estava flutuando em direção ao seu fim. Eles vão acabar comigo, ele pensava de quando em quando. Aquilo era uma certeza. Mesmo em sua fértil imaginação, não havia qualquer cenário em que aquele regresso não terminaria com sua sentença de morte. E, mesmo assim, 4669 sentia-se incapaz de dar as costas ao seu mestre e simplesmente ir embora. Havia algo em 1593 que o prendia, que o impedia de desafiá-lo de uma forma tão aberta. Eu fui muito idiota por pensar que ele não me encontraria. Para ele, não fazia diferença como 1593 descobrira que Dagobald Tarantella e 4669 eram a mesma entidade. Não fazia diferença como ele conseguira chegar à superfície e encontrar a sua morada sem ser detectado. Na realidade, nem mesmo importava o que aconteceria em seguida. Eu só quero que isso acabe.

    Mesmo naquele instante, em que ele jazia no interior da pirâmide de seu mestre, encarando a parte de trás de seu corpo grande e avermelhado, esperando que ele enfim rompesse o silêncio, 4669 não conseguia deixar de sentir-se tomado de uma ansiedade absurda. Cada centímetro do seu corpo parecia estar formigando, e ele sentia sua respiração cada vez mais acelerada, de modo que ele não conseguia mais manter a boca fechada. A expectativa pelo que aconteceria ao final daquele encontro o corroía por dentro. Havia momentos em que ele queria gritar, queria jogar algo em 1593 e forçá-lo a olhar em seus olhos. Queria insultá-lo, queria que ele o insultasse. Queria que os dois lutassem. Queria que finalmente acontecesse alguma coisa para tirá-lo daquela aflição.

    Então, afinal, 1593 girou seu monstruoso corpo e fixou seus cinco olhos em seu antigo aprendiz, seu semblante estranhamento calmo.

    - Explique. – Disseram seus olhos em algumas simples piscadelas. 4669 engoliu em seco e sentiu o corpo tremer em um longo e penoso arrepio ao ver a única palavra que ele não queria enxergar. Ele preferiria que 1593 o insultasse, o humilhasse, o destruísse. Ele preferiria qualquer coisa àquilo. Não havia como explicar o eu ele fizera. Não de uma forma que 1593 pudesse compreender. Não de uma forma que ele pudesse aceitar. Ele é seu Mestre, sussurrou uma vozinha acanhada em algum lugar na sua cabeça, tentando convencê-lo de que 1593 seria compreensivo. Ele admira os humanos. Foi ele que o incitou a estudá-los. Ele vai compreender! Ela dizia animadamente. Eu não posso falar a verdade para ele, 4669 respondeu para a voz. Ele vai me engolir vivo se eu contar.

    - Isto é uma ordem, 4669. – O Ancião voltou a dizer em 469, seus olhos e pálpebras movendo-se em uma velocidade tal que era evidente que ele estava ficando impaciente com a hesitação de seu aprendiz. Este, entretanto, permanecia no local em que fora deixado quando ambos chegaram na pirâmide, seus olhos vidrados em seu mestre, imóveis. Sua mente, por outro lado, transformara-se no campo de batalha de uma série de vozes nervosas.

    Você precisa dizer a verdade!
    Eu não posso, ele vai me trucidar!
    Você vai ser trucidado de qualquer jeito, pelo menos conte a sua aventura antes disso.
    Isso não tem a menor possibilidade de dar certo!
    Ele já viu no que você se transformou, ele evidentemente já sabe de quase tudo.

    - Se você é incapaz de me explicar as coisas que andou fazendo lá em cima, como espera fazer isso diante do restante do Conselho? – 1593 falou mais uma vez, sua impaciência agora sendo transferida para seu rosto, que adquiria uma expressão de profundo descontentamento. Suas palavras, entretanto, surtiram o efeito desejado: 4669 sentiu como se um balde de água gelada fosse despejado sobre seu corpo, e, piscando algumas vezes, recobrou o controle das suas faculdades mentais.

    - O Conselho... Quer me ver? – Seus olhos piscaram hesitantemente, e 4669 não se orgulhou ao constatar que o arrepio que a ideia de se apresentar diante dos demais Anciãos causara em seu corpo estava interferindo em sua capacidade de piscar os olhos de uma forma inteligível.

    1593 encarou-o profundamente por alguns instantes com uma expressão lívida, como se estivesse tentando se comunicar com algum tipo de idiota, e 4669 teve certeza de que eventualmente iria receber uma bola de fogo ou um míssil de energia no meio da cara.

    - É evidente, 4669. – Ele disse, buscando ao máximo conter a sua impaciência e manter aquela conversa o mais civilizada possível. – Você foi enviado em uma missão oficial e não retornou dentro do prazo para apresentar seu relatório. O Conselho deseja saber o porquê.

    Apesar de ser algo extremamente óbvio, por alguma razão, aquela notícia atingira 4669 com mais força do que ele teria previsto. Eu vou ter de me apresentar ao Conselho. Eu vou ter de explicar o que andei fazendo. Uma sensação desesperadora começou a se alastrar em seu interior, algo extremamente semelhante ao que ele sentira quando vira um dos servos de 1593 na superfície há poucas horas. Eu estou perdido. Não havia escapatória e ele fora demasiadamente burro por acreditar que havia. Ele estava condenado.

    - Eu quero que você compreenda a seriedade do que está havendo aqui, 4669. – Prosseguiu 1593, e ele teve certeza de que, se estivessem se comunicando verbalmente, seu mestre teria adotado um tom condescendente irritantemente típico de alguém que está tentando explicar a um Gazer travesso por que não se deve atirar ossos na cabeça dos Anciãos quando eles passam. – O próprio 99591 pediu-me que procurasse por você na superfície para que pudéssemos receber seu relatório. Ele está imensamente interessado em conhecer os motivos do seu atraso.

    4669 sentiu que seu sangue congelara em suas veias. Puta que me pariu. Eu estou fodido. Se 99591 tinha interesse pessoal em ouvir seu relatório, ele sabia que não haveria escapatória. O Conselho dos Anciãos regia a sociedade dos Bonelords com punho de ferro, mas como um grupo coeso, onde cada Ancião tinha a mesma importância que os demais. Entretanto, se havia um Ancião com poder e apoio suficientes para se colocar acima dos demais e agir como uma espécie de líder deles, este seria 99591. Provavelmente o Bonelord mais poderoso que já passara pela Necrópole, suas habilidades em magia eram notáveis, e seu controle sobre os mortos era, no mínimo, lendário. Dono de uma personalidade forte e tempestuosa, ainda que justa, 99591 em geral dava a palavra final nas decisões a serem tomadas por ali, e poucos eram tolos o bastante para questioná-las. O temor que muitos sentiam por 99591 era tamanho que chegara a reverberar para outras camadas do subsolo e até para a superfície. 4669 tinha certeza de que até mesmo entre os humanos corriam boatos e lendas sobre um Bonelord excepcionalmente poderoso e impiedoso que vivia no subsolo, o qual os humanos chamavam infantilmente de “O Olho Mal”.

    - Eu estou esperando. – Disse 1593 com uma expressão determinada no rosto, indicando que aquela seria a última vez que ele pediria. Então, engolindo em seco e sentindo-se mais idiota do que jamais sentira antes, 4669 começou a contar tudo que acontecera.

    Uma vez que 1593 flagrara-o, não fazia sentido em suprimir alguns detalhes vergonhosos. Ele contou ao Mestre como entrou sorrateiramente na biblioteca e roubou o livro de Dagobald, o Insano, como a muito custo conseguiu produzir o encantamento que transmutou-o em um humano, como assumiu uma falsa identidade e como passou a viver entre os habitantes de Ab’Dendriel. Entretanto, logo após explicar como havia sido descoberto pelos Cenath em sua primeira tentativa de espioná-los, 4669 percebeu-se paralisando-se, sem saber como continuar. Naquele momento, uma certeza única e poderosa tomou conta do seu ser. Eu não posso contar a ele sobre Ícaro. Ele não conseguira tirar o druida da cabeça desde que se resignara em seguir 1593 de volta para a Necrópole. Como será que ele está? O que será que está pensando de mim? Será que ele vai encontrar a minha caverna, ver o espelho quebrado e achar que algo aconteceu...? 4669 sentiu uma sensação sufocante em seu interior, uma que ele achou não ter nada a ver com a atmosfera densa da Necrópole. Engolindo em seco, o Bonelord forçou-se a continuar sua história, improvisando um final alternativo para seu vexame e insistindo que todas as suas outras tentativas de se aproximar da guilda dos Cenath haviam sido suprimidas pelos elfos.

    - Então, você falhou. – Disse 1593, sua expressão facial convertida em um enigma indecifrável. – Por que então você não acabou com a farsa e regressou à Necrópole como deveria, uma vez que ficou claro que não seria capaz de completar a sua missão?

    4669 baixou os olhos e se pôs a observar o piso de mármore escuro do interior da pirâmide onde vivia o Mestre, como se aquilo fosse a coisa mais interessante que pudesse existir no mundo. Como explicaria a ele o que acontecera sem mencionar Ícaro? Como conseguiria explicar sua permanência sem admitir a vergonhosa verdade, que ele gostara de ser humano e desejara continuar a viver como um? Como ele poderia explicar a 1593 que ficara em Ab’Dendriel por prazer e que chegara a cogitar não uma e nem duas, mas várias vezes largar tudo e ficar lá para sempre, sem nunca mais retornar para a Necrópole?

    - Eu achei que... Eu pensei que encontraria uma solução. – Ele mentiu, perfeitamente ciente de que 1593 era capaz de enxergar a verdade nadando no fundo dos seus olhos. – Eu não queria falhar mais uma vez, então decidi ficar lá em cima até conseguir alguma coisa.

    Os dois Bonelords permaneceram estatizados, encarando-se. 1593 fitava seu antigo aprendiz impetuosamente, ainda sem demonstrar qualquer emoção ou indício que desse a entender o que se passava em sua mente. 4669, por sua vez, sentia seus olhos arderem enquanto ele os forçava a continuarem a encarar seu antigo mestre. Ficar ali em silêncio era doentiamente desconfortável, e o que ele mais queria naquele instante era sair flutuando dali em alta velocidade e ir embora sem nunca mais olhar para trás.

    - Será que você é capaz de compreender a dimensão do que você fez, 4669? – O Ancião reassumiu o controle daquela conversa, mais uma vez procurando ser o mais direto e comedido possível. Entretanto, nuances na forma como ele piscava transmitiam ao seu antigo aprendiz a nítida sensação de que ele estava tomado de uma raiva tão imensurável quando o seu desejo de ir embora. – Será que entram nessa sua cabeça oca as eventuais consequências que a sua insubordinação pode trazer?

    Naquele instante, 4669 apertou os olhos e começou a sentir seus ânimos inflamando-se gradualmente. Ele jamais gritara com 1593 ou o desafiara de qualquer forma, mas algo estava lhe dizendo que, muito em breve, ele o faria.

    - Você desobedeceu uma série de ordens diretas do Conselho, 4669, e descumpriu o prazo que lhe foi dado para retornar! – Continuou o Ancião, aproximando-se lentamente do outro e piscando cada vez com mais força e rapidez. – O seu comportamento é um desacato direto ao Conselho! Você tem ideia da situação em que se colocou?! Como é que você espera explicar ao Conselho que se transformou em um maldito humano e fingiu ser um deles?! Onde você estava com a cabeça quando achou que isso seria uma ideia aceitável?!

    - Eu não sei! – Ele retrucou de imediato, sentindo se corpo ser consumido por uma fúria descomunal. O olhar de censura e extremo desagrado que 1593 lhe dirigiu foi o bastante para fazê-lo interromper seu protesto, mas sua mente continuou a falar em polvorosa. Eu estou farto dessa merda toda! Cansei dessa bosta desse Conselho e das suas regrinhas de merda! Eu quero que você se fodam todos e me deixem viver a droga da minha vida!

    - É evidente que não sabe, 4669! Entretanto, você insiste em se comportar como se soubesse! – Ralhou 1593, finalmente deixando que suas emoções transparecessem e permitindo que seu rosto assumisse uma expressão de fúria extremamente semelhante à de 4669. – Eu não compreendo como funciona essa sua mente! Você já é um Bonelord experiente, viajado e esperto o bastante para saber diferenciar o certo do errado! Você não é mais um aprendiz imbecil para ficar cometendo essas inconsequências! Não entendo por que você teima em se comportar como um! Eu esperaria que depois do que houve com 1208...

    O Ancião, entretanto, parou imediatamente com se discurso e ficou olhando para 4669 por alguns instantes, seus olhos vidrados de choque pela sua própria ousadia. Bufando, ele retrocedeu alguns metros ao perceber que se aproximara demais do outro e estava quase chocando-se com ele. Ele então desviou o olhar de seu antigo aprendiz, extremamente constrangido por ter tocado naquela ferida recente e dolorida, e se pôs a observar os incontáveis e robustos ossos que compunham as paredes do recinto amplo e quadrado que ambos ocupavam. 1593 ainda se lembrava muito bem de como 4669 reagira após o fracasso da missão no Elvenbane, e, enquanto todos os demais membros do Conselho questionavam seriamente sua decisão de confiar um aprendiz a ele e enviá-lo em uma missão daquela periculosidade, ele lembrou-se de como permitira que 4669 extravasasse, ali mesmo, toda sua dor e sua frustração pelo trágico destino de 1208. Liberte sua fúria, 4669, ele dissera ao seu antigo aprendiz naquela ocasião, compadecendo-se com a angústia deste, ainda que ciente da inadequação de uma emoção como aquela, mas depois lembre-se de que a morte é uma parte fundamental de nossa sociedade. Você precisará aprender a lidar com esta perda de uma forma mais digna.

    - Eu não deveria ter tocado neste assunto. – Ele disse ao voltar a encarar 4669, que observava-o com uma inconfundível fúria contida contaminando seus olhos.

    - Mas é isso que você pensa, não é? – 4669 se pegou dizendo com os olhos, apenas parcialmente ciente das palavras que estava produzindo. A repentina inversão de papeis que ocorrera naquele momento lhe dera a oportunidade perfeita de descontar sobre 1593 toda sua frustração, toda sua ira. – Que eu me tornei um imbecil irresponsável, principalmente depois da morte do 1208. Aposto que é isso que todos vocês andaram pensando nesse tempo todo!

    1593 se pôs a encará-lo com um misto de surpresa e censura.

    - Eu não disse nada disso. - Seu olho central estava arregalado, como se estivesse vendo o outro Bonelord pela primeira vez.

    - Poupe-me, Mestre! – Ele retorquiu, sentindo-se transbordar de puro rancor e desdém. – Eu posso ver a sua decepção. Eu quase consigo vê-lo imaginando o quanto os meus erros vão contaminar a sua reputação junto aos outros Anciãos!

    1593 continuou a observá-lo inerte, seu rosto agora mais uma vez transfigurado em uma expressão de calma e normalidade estranhamente forçada, como se ele, afinal, estivesse esperando uma reação como aquelas eventualmente.

    - Afinal, é sobre isso que tudo isso se trata, não é mesmo? – 4669 continuou, incapaz de se conter. Se estivesse falando, ele tinha certeza de que, naquele momento, estaria aos berros. – Sobre reputação e sobre manter o Conselho feliz e sobre pensar no que é melhor para todos! Imagine só, o imbecil do 4669 envergonhar a Necrópole inteira mais uma vez! Mais uma vez o antigo queridinho do Conselho prova o quão inadequado ele é e o quão incompetente ele é como Bonelord! Todo mundo o achava tão promissor... Tão talentoso... Uma promessa! Que pena que ele tenha um cérebro do tamanho da porra de uma ervilha!

    4669 percebeu que agora era ele quem havia flutuado na direção do outro, e ele estava a apenas uns dois metros de 1593 quando enfim recobrou o controle das suas pálpebras e conseguiu se conter. Ele então cravou um olhar extremamente severo em seu antigo mestre, o qual foi gradualmente tornando-se cada vez mais difícil de manter enquanto a fúria que antes o possuíra era substituída por uma profunda vergonha.

    - Já terminou? – 1593 retrucou após decorridos alguns segundos nos quais ele permaneceu estatizado diante do outro, sustentando seu olhar, o qual ele esperou murchar até assumir uma expressão de embaraço. – É isso que você pretende dizer a 99591 quando ele finalmente lhe questionar as mesmíssimas coisas?

    Incapaz de responder, 4669 baixou seus quatro tentáculos na direção do solo e deixou que apenas seu olho central continuasse a encarar 1593. A atmosfera dentro da pirâmide ficou mais enfadonha e quente do que nunca. Sua pele verde e mucosa começava a suar em bicas. Ele sentia-se pequeno. Sentia-se fraco, sentia-se tosco, sentia-se ridículo. Sentia-se extremamente idiota por ter acreditado que poderia fugir da sua verdadeira natureza, e sentia-se ainda pior por ter explodido diante de 1593 e exibido o qual imaturo ele ainda era. Se pudesse, ele cavaria um buraco ali mesmo e se enterraria nele para nunca mais ter de sustentar o olhar de seu mestre outra vez. É imprescindível que um Bonelord controle suas emoções, ele se recordava de ter aprendido com aquele Ancião em um passado remoto. Nossa mente avançada e complexa é excepcionalmente adequada para o pensamento racional, de forma que o pensamento emocional deve ser evitado para que não prejudique nosso julgamento. Infelizmente, como consequência de termos um cérebro avantajado, sentimos certas coisas em extremos indesejáveis, os quais devem ser contidos sempre. Mais uma vez ele demonstrara o completo fracasso que era enquanto Bonelord.

    1593 analisava-o atentamente, como se buscasse uma forma de penetrar em sua mente e entender realmente o que se passava ali dentro. 4669 o encarava sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Havia uma parte dele que desejava abrir-se por completo e revelar ao outro tudo que ele sentia. Se há alguém nesse mundo que vai conseguir entender, esse alguém é ele. Por outro lado, ele não queria ter de ver 1593 encará-lo com aquela expressão de desgosto, decepção e piedade que ele tinha quando o encontrara em sua caverna. Ele não queria sentir-se pequeno de novo, e lhe era impossível encontrar uma forma de revelar o que realmente sentia sem parecer ridículo. Ele decidiu então que não conseguiria continuar a encarar o Ancião.

    - Eu achei que você entenderia. – Ele disse, não com os seus olhos, que agora fitavam o chão, mas com sua boca, deixando que sua suave e baixa voz dançasse pelas paredes de ossos e pelo chão de mármore, tão pouco acostumados a testemunharem a voz de um Bonelord.

    - Não se atreva a usar esta linguagem aqui! – Advertiu-o 1593 em um sussurro nervoso, e 4669 instintivamente soube que o olho central de seu mestre lançara-lhe um olhar de aviso enquanto os olhos laterais varriam o recinto, como se buscassem um ouvinte que certamente não estava presente. – Você quer ser ouvido?!

    - Por que você me ensinou se não devo usá-la? – 4669 respondeu, erguendo os olhos carregados de desafio e pousando-os no Ancião, que o observava atônito. – Por que você me ensinou tanto sobre os humanos, se não devo usar o que aprendi? Por que os espionamos, se não devo aprender mais sobre eles? Explique-me, Mestre!

    1593 devolveu-lhe um olhar de pura reprovação, mas recusou-se a responder qualquer coisa. Seus olhos laterais continuavam sua ronda da base da pirâmide, um deles tendo se cravado na escadaria de mármore que se encontrava no centro do recinto.

    - Explique-me por que fez tanta questão de me ensinar tudo sobre eles! – 4669 continuou seu discurso, sua voz melodiosa impregnada com sua conhecida raiva, a qual ele, mais uma vez, descobrira que não era capaz de controlar. – Você me enviou em minha primeira missão para Drefia justamente para observá-los! Me fez viver entre eles, analisá-los, espioná-los, aprender tudo sobre o comportamento deles! Por que, Mestre? Qual foi o meu crime? Aplicar o conhecimento que eu aprendi?

    - Eu o instruí a conhecê-los, 4669, a observá-los! – Protestou o Ancião. – E não a se tornar um deles!

    - Eu achei que, dentre todos, você fosse compreender! Você, que tanto os admira! Você, que insiste que deveríamos conhecê-los melhor!

    - Eu jamais disse que você deveria virar um deles, 4669! – O Ancião repetiu, perdendo a calma e avançando contra o seu antigo aprendiz, seus cinco olhos cravados sobre ele como agulhas, lívidos. – Você ter desertado da sua missão já é uma falta muito grave, imagine o que vai acontecer se eles descobrirem sobre isso! O que você fez vai além da pior das traições, 4669! Você não apenas se tornou um deles, você se aliou a eles também! Não negue, não se atreva a negar! Eu estive lá, eu vi!

    Então, subitamente, 4669 percebeu a verdade. O defunto que ele vira em Ab’Dendriel, que ele tivera certeza absoluta de estar observando a ele e a Ícaro... Não era um simples servo. Era o próprio 1593. Aparentemente, 4669 não fora o único que apelara a um disfarce absurdo para conseguir o que queria. 1593 descobrira tudo de alguma forma e o atraíra para seu próprio esconderijo, para apenas depois tentar forçá-lo a assumir tudo. O Bonelord sentiu suas tripas congelarem. 1593 sabe sobre Ícaro. E se ele sabe... Quem mais pode saber...? Parecia apenas questão de tempo para que o Conselho todo descobrisse a verdade.

    - Você é um Bonelord, 4669. – Ele ouviu o Mestre dizer, arrancando-o de seu devaneio de pavor. Ele piscou algumas vezes e o Ancião voltou a entrar em foco, seu olhar duro como uma rocha. – Já passou da hora de aprender a se portar como um.

    - E se eu não quiser? – Ele descobriu-se dizendo, sem acreditar na sua própria petulância. Ele voltava a sentir seu corpo tremer, mas, dessa vez, não era de nervosismo. – O que você quer de mim, 1593?! Você quer que eu admita que preferiria voltar para lá e viver entre eles do que continuar nesse lugar decadente, obedecendo esse bando de velhotes senis e essas regras sem sentido? O que você espera de mim?!

    O Ancião ficou a fitá-lo tristemente por alguns instantes enquanto ele retomava o fôlego, incrédulo com as coisas que acabara de dizer.

    - O que você acha que acontecerá com você se o Conselho descobrir isso, 4669? – Ele disse por fim, em um tom mais baixo e mais brando, quase suplicante. – Você teve tanta sorte de ter sido eu quem descobriu a sua traição, e não outro qualquer... Mas se isso vazar... Se 99591 descobrir... O que você acha que eles farão com você, 4669?

    O Bonelord mais jovem engoliu em seco, deixando que sua raiva fosse embora. A resposta era óbvia.

    - Eu vou mentir. Eu posso inventar alguma coisa.

    - Você nem mesmo consegue disfarçar suas emoções, meu aprendiz... Como espera enganar todo o Conselho dos Anciãos, se não é capaz de controlar os seus próprios sentimentos?


    4669 sentiu como se tivesse levado uma bofetada em cheio no rosto.

    - O que você quer que eu faça, então? – Ele disse rispidamente.


    Antes que 1593 pudesse responder, entretanto, uma série de ruídos abafados invadiram o recinto, e os dois Bonelords voltaram-se para a escada a tempo de ver um dos servos de 1593, um dos que ele levara consigo até Ab’Dendriel, descendo-a aos tropeços, como se estivesse embriagado. O defunto levou alguns instantes para colocar-se em pé direito e precisou que um de seus braços erguesse sua cabeça pendente para que pudesse encarar seu mestre, que o observava com uma expressão ilegível no rosto. O que está acontecendo...? pensou 4669, e ele quase chegou a proferir aquelas palavras em voz alta se o Ancião não tivesse rapidamente girado um de seus tentáculos para trás e cravado nele o olho que havia em sua extremidade, o qual trazia uma nítida expressão de advertência. Levou apenas alguns segundos para que ele entendesse o que estava acontecendo.

    Um Bonelord grande, tão grande quanto 1593 e com a pele apresentando a mesma tonalidade alaranjada doentia surgiu do buraco no topo da escada, flutuando graciosamente em direção ao andar debaixo. De modo geral, era bastante semelhante a qualquer outro Ancião: muito maior que um Bonelord convencional, com cinco olhos com uma tonalidade avermelhada desconcertante e uma série de fiapos ralos brotando da parte inferior do seu rosto. Seu rosto carregava uma expressão dura e curiosa, como se ele estivesse, ao mesmo tempo, preso a um estado interminável de profunda dor e de extremo deboche. Pela lateral direita do seu rosto serpenteava uma longa cicatriz esbranquiçada, que por muito pouco desviava do seu olho central, herança de um sangrento confronto com um cavaleiro humano no passado e sua característica mais distintiva. Quando o Ancião pousou diante dos dois, passando seus olhos de um para o outro e, então, cravando-os nos dois ao mesmo tempo, 4669 sentiu como se não fosse mais capaz de respirar, e ele não foi capaz de conter uma baixíssima exclamação de surpresa e pavor.

    - Pensei ter ouvido alguns sons... Desagradáveis... Vindo daqui... – Disse o recém-chegado, um Ancião conhecido como 11793, na linguagem dos Bonelords, seus olhos e pálpebras movimentando-se lentamente, como se estivessem em um estado de letargia profunda. – Mas certamente devo ter me equivocado.

    Nem 4669 e nem 1593 foram capazes de responder, ainda paralisados pela surpresa e pela sensação de que por muito pouco haviam escapado de serem pegos cometendo um crime imperdoável. Se 99591 posava como supremo líder do Conselho e era conhecido como o mais poderoso Bonelord de todo o Tibia, 11793 certamente vinha logo depois. Cruel, psicótico e extremamente desagradável, ele era conhecido por todos como o braço direito de 99591 e uma das figuras mais malquistas de toda a Necrópole. Por onde passava, 11793 arrancava olhares de desprezo, e era sabido que, apesar da fama que os Bonelords em geral tinham, poucos compactuavam com seus ideais extremistas e assustadoramente conversadores.

    Sentindo como se fosse acabar se denunciando apenas pelo olhar, 4669 desviou sua atenção para o servo de 1593, que tentava debilmente escalar a escada para retornar ao primeiro andar.
    1593 o deixou lá em cima para ficar de olho, ele pensou. Surpreendentemente, o defunto obedecera e desempenhara bem a função de alertar seu mestre a tempo. Se fosse Ezekiel, eu estaria ferrado.

    - 4669. – Ele percebeu que 11793 voltara a se comunicar pelo canto do olho, e sentiu-se obrigado a voltar a encarar o Ancião. Quando os olhos de ambos encontraram-se, 4669 sentiu como se tivesse levado um choque. – É um grande prazer ver que regressou em segurança aos nossos domínios. O Conselho está ansiosíssimo para ouvir seu relatório. Acredito que 1593 já deva ter lhe explicado os pormenores...?

    - Estávamos tratando disso quando você chegou, 11793. – Disse o outro Ancião após flutuar para o lado e girar o corpo de forma que ambos os presentes pudessem observar seus olhos, como era educado entre os Bonelords. Seu desconforto diante da invasão do outro era visível, e 4669 não pode deixar de perceber que os dois Anciãos nitidamente se desgostavam profundamente.

    - Que bom! Seria de fato deveras lamentável se 4669 perdesse sua audiência por qualquer motivo que fosse. – O visitante disse em seguida, fixando um de seus tentáculos em 4669 e forçando um assombroso sorriso torto em seu rosto, o qual provocou um profundo e incontrolável arrepio sobre a pele do mais jovem.

    - Ele não perderá.

    - Bom, bom... – 11793 fez uma pausa e se pôs a analisar cuidadosamente o recinto em que se encontrava, não fazendo qualquer esforço para esconder o profundo desdém que sentia. – Só passei para avisá-lo, 1593, de que 99591 o está aguardando para uma reunião fechada. Ele gostaria de discutir alguns detalhezinhos sobre sua visita à cidade de Ab’Dendriel hoje mais cedo.

    - Certamente. Diga-lhe que estou a caminho. – 1593 retrucou, impassível.

    - Naturalmente. – O outro respondeu, e ambos os Anciãos se puseram a observar um ao outro com tal intensidade que 4669 achou perfeitamente plausível que a pirâmide fosse explodir a qualquer momento. Passados alguns segundos de desconforto extremo, 11793 acenou muito vagamente com o corpo e deu as costas aos dois, flutuando escada acima e desaparecendo pelo buraco no teto como se jamais tivesse estado no recinto.

    Só então 4669 percebeu que não estivera respirando. Ele soltou todo o ar que prendera em seus pulmões em um suspiro sonoro e sôfrego enquanto sua mente funcionava a todo vapor. Será que ele estava rondando a pirâmide antes...? Será que nos seguiu desde Ab’Dendriel...? O quanto será que ele ouviu? Seu antigo mestre parecia ter as mesmas questões em mente, pois dirigiu ao seu aprendiz um olhar enigmático, mas visivelmente preocupado, o que só serviu para afundar ainda mais o ânimo de 4669. Eu estou ferrado. Era evidente para ele naquele momento que 11793 conseguiria extrair dele o que quisesse. E se ele já se sentia derrotado diante do segundo em comando, como seria quando ele finalmente ficasse cara a cara com 99591? Pela primeira vez desde que era um aprendiz, 4669 dirigiu a 1593 um olhar de profundo pavor, deixando evidente o tamanho do medo que ele sentia das coisas que ainda estavam por vir. O que eu devo fazer, Mestre?, ele diria se não sentisse que sua língua estava inerte dentro da sua boca. Não havia jeito. 11793 já descobrira que ele voltara e, até onde eles poderiam supor, já sabia que eles estavam escondendo alguma coisa. E se 1593 descobrira seu segredo, era sensato acreditar que seu maior rival também o teria feito. 4669 sentiu um intenso solavanco no fundo da sua garganta. Eles vão acabar comigo. Mais uma vez, os prováveis devastadores efeitos da escolha que ele tomara começavam a dançar pela sua mente. Não havia saída para ele. 1593 pareceu, pela primeira vez, ter se dado conta daquelas coisas também, pois sua expressão facial era de um profundo receio.

    - Fuja. – 1593 sussurrou em um tom tão baixo, mas tão baixo que 4669 só pode ouvi-lo porque o Ancião movera-se para perto dele, quase colando seu corpo com o seu. Só então 4669 sentiu uma espécie de atmosfera de terror emanando de seu mestre, algo que ele jamais esperaria. Toda a pose e a fúria gélida de 1593 pareciam ter sido sugadas dele após a visita de 11793, e parecia nítido ao mestre que seu aprendiz encontrava-se em uma situação praticamente irrecuperável.

    - O quê...? – 4669 retrucou automaticamente, incrédulo do que acabara de ouvir. Ele fitou o Mestre nos olhos, procurando neles uma explicação. No fundo deles, entretanto, ele viu uma sombra que não reconheceu, um espectro perdido que sumiu tão rápido quanto havia aparecido sem dar margem para que 4669 realmente entendesse o que tinha visto. Ele não pode estar falando sério! Os outros poderiam dizer o que quisessem de 1593, poderiam chamá-lo de uma adorador de humanos, poderiam caçoar das coisas que ele sabia, poderiam duvidar do seu potencial. Mas ninguém jamais poderia questionar sua lealdade ao Conselho ou aos fundamentos mais básicos da Necrópole. Ouvir aquelas palavras vindo dele era como se queimar com água ou se molhar após cair num poço de lava.

    - Você precisa fugir e não voltar nunca mais. 11793 não se deixará enganar! – 1593 disse veementemente, sua voz carregada de amargura. Seu rosto voltara a assumir sua expressão costumeiramente calma, como se sua razão estivesse voltando a exercer algum controle sobre suas emoções. – Fuja e ore aos deuses para que não o abandonem como nos abandonaram no passado. Vá embora daqui, 4669!

    - Eu não posso fazer isso! – Ele se pegou dizendo. Por mais que desejasse acima de tudo voltar para a superfície e rever Ícaro, por mais que ele quisesse ardentemente encontrar uma forma de se ver livre do Conselho, de 11793 e de todo o sofrimento que a vida na Necrópole lhe invocava desde a morte de 1208, ele sabia que jamais conseguiria dar as costas para o Bonelord que o criara, o educara e o lançara ao mundo. – Eu não posso deixá-lo aqui!

    - Não é a mim que eles querem, 4669. – O Ancião disse sem convicção. A visita de 11793, entretanto, deixara claro para ele que a situação de 4669 era infinitamente mais delicada que a dele. – Eu vou dizer uma última vez: vá embora daqui e suma de Ab’Dendriel antes que seja tarde demais. Eu prefiro nunca mais vê-lo na vida do que ter de mandar um dos meus servos ajuntar o que sobrar do seu corpo do chão da Necrópole.

    4669 estremeceu, e uma sensação de pânico que ele jamais sentira surgiu em seu interior. Lentamente, ele foi se dando conta de tudo que fizera. Se desse ouvidos ao que seu antigo mestre surpreendentemente lhe dizia, ele enfim conseguiria o que desejara: iria embora dali, se libertaria daquela existência limitada e veria o mundo sem as mordaças e as correntes do Conselho e da Necrópole prendendo-o. O que ele sentia, entretanto, passava longe de qualquer coisa que lembrasse felicidade.

    - Eu falhei com você, Mestre. – Ele disse, procurando imprimir em seus olhos tudo o que ele sentia em relação ao Ancião que estava parado diante dele. Ele sentia-se ridículo, mas havia uma espécie de urgência nervosa contaminando-o que forçava-o a ser sincero. – Mais uma vez, eu falhei.

    - Não. – 1593 disse-lhe, e, mesmo naquele instante, 4669 soube que levaria o olhar que seu mestre carregava para onde quer que o futuro o levasse. A Necrópole parecia mais silenciosa do que nunca. – Fui eu quem falhou, meu aprendiz. Eu falhei com nós dois.

    E, com aquela nota pesarosa e enigmática, o Ancião deu as costas ao seu antigo aprendiz e flutuou para longe, demasiado embaraçado pelas palavras que acabara de dizer para voltar a encará-lo. 4669, por sua vez, ficou a observar seu antigo mestre, perguntando-se se algum dia ele efetivamente chegaria a compreender o que se passava em sua mente turbulenta.
    Última edição por Manteiga; 13-03-2017 às 22:49.
    Nosce te ipsum.

  4. #24
    Avatar de Manteiga
    Registro
    07-05-2006
    Localização
    Porto Alegre
    Idade
    23
    Posts
    2.883
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenMain CitizenAdepto do OffCrítico
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Caso tenha dado certo, obg pela ajuda, Iridium.

    Parte II


    Batráquio não sabia dizer quanto tempo se passara desde que 486486 o pedira para acompanhá-lo, mas ele estava certo de que fora mais do que ele estava disposto a perder ali. Eu preciso encontrar 1593!, ele insistia em pensar repetidamente enquanto, silenciosamente, seguia a passos breves o velhíssimo Bonelord que muito vagarosamente ia flutuando entre as estantes, fazendo paradinhas ocasionais aqui e ali para checar as prateleiras. A expressão facial que ele adotara quando Batráquio se abrira com ele sobre sua necessidade de rever seu mestre ainda latejava no fundo da sua mente, tal qual a amarga sensação que percorrera sua cabeça ao vê-la. Ele não tinha como ter certeza do que ocorrera com 1593 durantes os muitos anos da sua ausência, mas a reação do bibliotecário lhe dava margem para uma única interpretação, a qual ele se recusava em levar a sério. 1593 não está morto, ele insistia consigo mesmo. Não pode estar. O Bonelord mais brilhante que ele conhecera, o Bonelord que o criara, o Bonelord que mais remotamente chegara de compreendê-lo. Ele não está morto. Ele não tinha viajado até ali para descobrir que seu mestre não estava mais naquele plano. Aquela ideia era inconcebível, inaceitável, inadmissível.

    A única coisa pior do que a tempestade confusa e dolorosa de ideias que rodopiava na mente do feiticeiro naquele instante era o absoluto silêncio de 486486 desde que aquela andança começara. Batráquio esperara que, após alguns segundos de desconforto, o curador fosse enfim revelar a ele o destino do Ancião. Entretanto, quanto mais o tempo passava, mais improvável parecia ser a chegada do momento em que ele finalmente diria a verdade. A visível hesitação do outro em tocar naquele assunto só fazia a angústia de Batráquio crescer. Ele já estava voltando a sentir sua costumeira ira, sinalizada por uma vontade assassina de explodir o bibliotecário mesclada com o desejo de tortura-lo até que ele finalmente falasse tudo que sabia. Eu preciso saber, ele pensava sofregamente. Eu só preciso que ele me diga o que houve com 1593!

    Como se lesse sua mente, 486486 enfim quebrou o silêncio entre eles, e o fez de uma forma tão contida e casual que fez Batráquio pensar que ele sequer existira, e que toda a enérgica discussão que ambos haviam tido anteriormente não passara de fruto da sua imaginação.

    - Não estou certo se você prestou atenção nos detalhes quando ingressou na cidade novamente... – O velho começou a falar pausadamente, sem tirar seus olhos dos livros e das prateleiras e sem parar seu movimento vagaroso. – Imagino que você não tenha tido tempo de averiguar o estado atual da Necrópole... Ou talvez tenha visto e não se importe...

    - O que isso tem a ver com 1593? – Ele interrompeu a fala do bibliotecário impetuosamente, com a voz afobada, aproximando-se tanto do corpo do outro que ele quase se atirara sobre o velho.

    - Eu apreciaria muito se você não me interrompesse, 4669. Estou tentando seguir uma linha de raciocínio aqui... – O curador retrucou calmamente, e foi aquilo, mais do que sua evidente escusa em tocar no nome do Ancião, que voltou a inflamar o ânimo do feiticeiro.

    - Dane-se! – Ele rugiu, tentando manter o máximo de controle para não começar a berrar nos corredores da biblioteca e atrair a atenção de algum Bonelord errante que estivesse passeando no andar debaixo. – Dane-se a sua linha de raciocínio! Eu lhe pedi que me ajudasse a encontrar 1593, 486486, e você desconversou da forma mais escrota possível! Eu vi a cara que você fez quando eu toquei no assunto... Eu entendi... Subentendi... Aconteceu alguma coisa com ele, não foi? Me diga! Me diga!

    Ele pronunciou as últimas palavras com tamanha animosidade que acabou forçando o bibliotecário a virar-se e pousar seus olhos cansados em seu semblante furioso. 486486 encarou-o por breves segundos antes de soltar um muxoxo de impaciência, seguido de um longo e sonoro suspiro.

    - Você continua o mesmo. Sempre coberto de razão, sempre dando preferência às suas palavras em detrimento das dos demais. – 486486 retorquiu enquanto lançava-lhe um olhar do mais profundo desagrado. Batráquio abriu a boca para retrucar, mas o bibliotecário calou-o com suas próprias palavras. – Você precisa aprender a ouvir, 4669... Se o que você quer é saber de 1593, então você saberá. Mas eu preciso que você entenda... Eu preciso que você compreenda tudo que aconteceu desde que você foi mandado embora.

    - E o que isso tem...

    - Isso tem absolutamente tudo a ver com o destino daquele que você insiste em chamar de mestre. – 486486 retrucou asperamente, mais uma vez calando o impaciente feiticeiro. – Não estou interessado se você não veio até aqui para ouvir, se você não quer se dar ao trabalho de conhecer as consequências do seus atos irresponsáveis do passado. Você vai me ouvir, 4669... Se você deseja realmente rever 1593... Você irá me ouvir.

    Batráquio cruzou os braços, desgostoso, enquanto engolia em seco e lançava um olhar de desaprovação na direção do bibliotecário. 486486 sustentou o seu olhar, deixando claro que não haveria como ele escapar daquele discurso. Eu poderia simplesmente dar as costas e ir embora daqui, pensou uma entidade abstrata em algum lugar na sua mente. Eu sei onde fica a pirâmide de 1593. Eu posso encontrá-lo sozinho. Ele quase chegou a sentir seus pés formigarem enquanto se preparavam para levá-lo para longe dali. Batráquio, contudo, permaneceu no mesmo local, inerte, cravado no chão como uma estaca. Havia algo no tom de 486486, algo na forma como a qual ele parecia suplicar com a voz que o impediu de ir embora. Além do quê, havia inegavelmente uma parte generosa do seu ser que desejava descobrir o que acontecera na Necrópole desde que ele se fora. O discurso inflamado de 486486 momentos antes despertara nele algum tipo de sentimento de culpa que parecia impedi-lo de simplesmente ignorá-lo e descer as escadas. Você ignorou o seu passado por tempo demais, disse uma voz sábia perdida entre seus pensamentos. Eu sei, ele respondeu. Se você deseja mesmo terminar o que começou, você precisa ficar e ouvir, voltou a dizer a voz. Eu sei.

    - Como eu ia dizendo... Você talvez não tenha notado como esta cidade está... Diferente. – 486486 retomou seu tom comedido e, mais uma vez, se pôs a flutuar entre as estantes, embrenhando-se cada vez mais no interior do confuso labirinto que era o acervo daquela biblioteca. – Nós já não somos mais os mesmo, 4669... Nem somos tantos quanto éramos quando você vivia aqui.

    É verdade, Batráquio se pegou pensando enquanto acompanhava o velho em sua atividade. Ele realmente se ativera muito pouco aos detalhes, mas, como ele já havia parado para pensar enquanto esperava a aparição de 486486 na biblioteca, havia realmente algo muito estranho ali. Apesar da sua recepção intensa, ele percebera poucos Bonelords flutuando pelos limites da cidade e, agora que caía em si, Batráquio percebia o quão incomum era o fato de ele não ter encontrado nenhum outro Bonelord na biblioteca quando chegou. Na realidade, o pequenino Gazer que ele surpreendera com seu ataque elétrico não apenas fora o único outro Bonelord que ele vira na biblioteca desde que chegara, mas também fora o único juvenil que ele pensava ter visto. Nunca houve muitos Gazers por aqui mesmo, mas é estranho enxergar apenas um... Além do quê, os Gazers raramente se afastavam do Ancião que os havia criado, e Batráquio não encontrara nenhum membro do Conselho até aquele instante. E aquilo, mais do que todas as outras coisas, era o que mais lhe perturbava. Onde estão os Anciãos? Por que nenhum deles subiu até aqui para ter notícias de 486486?

    - Tais mudanças, entretanto, não são recentes... Elas começaram há muito tempo. Na realidade, acredito ser prudente associá-las aos efeitos imediatos da sua expulsão. – O bibliotecário prosseguiu, arrancando de Batráquio alguns resmungos baixinhos ao mencionar mais uma vez o episódio. – Acho que é seguro dizer que tudo começou com a partida de 99591.

    O feiticeiro estacou no lugar e, alguns instantes depois, 486486 também parou, mas permaneceu com as costas voltadas ao homem, sem encará-lo. Batráquio sentiu um sensação curiosa correndo pelo seu estômago enquanto sua mente assimilava as palavras que o bibliotecário tão casualmente jogara sobre ele. 99591... Partiu? Não pode ser!

    - 99591 não está mais aqui...? – Ele indagou, procurando ter certeza de que não ouvira errado. Se isso for verdade... Não pode ser um bom sinal! Batráquio estava começando a entender o que 486486 quisera dizer com “catástrofe” momentos antes.

    - Foi o que eu disse, 4669. – O curador retorquiu com impaciência. Havia um certo nervosismo na sua voz que parecia indicar que ele não estava nem um pouco confortável em lhe contar aquelas coisas. – 99591 desapareceu apenas algumas semanas após o seu julgamento.

    Batráquio se calou e sentiu um frio descomunal descer pela sua espinha e um vazio consumir suas entranhas. Então eu realmente causei algum impacto por aqui... 99591 era, para todos os efeitos, o líder espiritual e político da sociedade dos Bonelords, apesar de jamais ter sido eleito como tal. Apesar de ser um Ancião particularmente sádico em alguns momentos, era inegável que a Necrópole prosperara como nunca a partir do momento que ele assumira seu cargo não-oficial. Sob o meticuloso cuidado dele, os Bonelords haviam estendido seus domínios para outras partes do Tibia, fundado assentamentos em Fibula, no Pântano e até mesmo enviado representantes para a selva de Tiquanda e as Ilhas de Gelo. 99591 definira um novo padrão de excelência entre os Anciãos, que passaram a cobrar cada vez mais empenho e competência de seus aprendizes, levando ao surgimento de Bonelords cada vez mais fortes, impetuosos e cruéis. Dizia-se por ali que ele seria o único capaz de conduzir a sociedade dos Bonelords de volta à superfície e aos seus antigos tempos de glória, quando ela dominara a maior parte do Continente.

    - Você está insinuando que é minha culpa que ele tenha... sumido...? – Ele falou debilmente enquanto tentava assimilar a proporção do que 486 acabara de lhe informar. 99591 foi embora da Necrópole e a culpa pode ter sido minha. Puta que pariu.

    - Metade dos Bonelords que ainda vivem aqui certamente acredita nisso, assim como praticamente todos os Anciãos. – 486486 disse, e Batráquio teve certeza de que se ele tivesse um par de braços, ele estaria dando de ombros naquele exato instante.

    - Isso não quer necessariamente dizer que...

    - Você está falhando em analisar a figura inteira, 4669! – Exclamou o curador, enérgico, finalmente virando-se e pousando seu olhar sobre o homem à sua frente, o qual estava decididamente nervoso com o rumo que aquela conversa ia tomando. – Você nos expôs para os habitantes da superfície de uma forma pouquíssimo desejosa. Sim, sabemos que lendas sobre nossa civilização já eram contadas pelos inferiores... Sabemos que os elfos tinham pleno conhecimento deste nosso assentamento... Mas sua aparição desastrosa na cidade de Ab’Dendriel pareceu relembrá-los de nossa existência, de nossos segredos... Depois que você partiu, verdadeiros enxames de humanos imundos se atreveram a aparecer em nosso domínio! Muitos morreram protegendo a integridade da nossa cidade, inclusive Anciãos. Muitos pereceram às escadas desta biblioteca apenas para impedir que as raças mais baixas tivessem acesso ao nosso conhecimento milenar...

    486486 pareceu inflar-se como um balão e começou a dar voltas em torno de Batráquio, girando seus tentáculos, incluindo os cegos, com grande velocidade e energia, demonstrando que havia finalmente se empolgado com o assunto.

    - Aqueles foram dias funestos, 4669. Dias de absoluto caos. Todas as atividades da Necrópole foram paralisadas, todos os espiões e enviados foram chamados de volta, todas as missões foram canceladas... Todos os nossos esforços se voltaram única e exclusivamente para proteger nossa gloriosa cidade dos invasores da superfície. – Dizia 486486, seu tom de voz levemente acima do normal e seus olhos perdidos em qualquer ponto do cenário. – Confesso que é difícil acreditar que conseguimos impedir que sequer um único volume fosse levado da biblioteca... É verdade que nosso exército de defuntos aumentou consideravelmente após as invasões, uma vez que muitos elfos e humanos foram vitimados... Mas as baixas em nosso lado foram pesadas. O número de Anciãos praticamente caiu pela metade, e pouquíssimos Gazers foram produzidos naquela época... Os que já existiam receberam pouca atenção e pouco treinamento, e nossa sociedade pareceu à beira do colapso.

    O feiticeiro agora estava apenas parcialmente ciente dos movimentos do bibliotecário ao seu redor ou de suas palavras, sua mente jazia agora afundada em uma série incompreensível de pensamentos das mais diversas naturezas. E eu achei que eles tivessem ficado muito bem sem mim, ele conseguia racionalizar em meio à enxurrada confusa da sua mente. Eu os condenei. Eu os expus e fui embora para que eles lidassem com as consequências. De repente, seu exílio e todo o infortúnio que adveio dele pareciam pequenos, insignificantes perto da confusão que ele causara. Ele já deixara de se importar com o destino da Necrópole ou dos seus demais irmãos há muito, mas estar ali e ouvir aquela história de 486486 inevitavelmente fazia-o sentir-se a pior criatura em existência no Tibia.

    - A moral ficou muito baixa naqueles dias. As coisas pioraram depois que os elfos enviaram um emissário para discutir os termos de um acordo de paz. Sim, isso mesmo que você ouviu, 4669. – O curador acrescentou após ver a expressão de descrença do feiticeiro. – A situação atingiu tal patamar que os elfos pareceram temer que fôssemos invadir sua cidade. Acredito que tenham interpretado sua aparição como um aviso ou coisa parecida. Francamente, me admirei que eles tivessem demorado tanto a intervir. De qualquer modo, o emissário se perdeu no caminho para cá e nunca mais se ouviu falar dele. Eles nunca voltaram a entrar em contato conosco, e, por algum tempo, temi que estivesse planejando uma invasão. Mas o tempo passou e nada aconteceu. Gradualmente, os humanos voltaram a perder o interesse em nossa civilização, ou talvez tenhamos matado todos os que o tinham. Seja como for, eventualmente voltamos a um período de relativa paz onde pudemos nos voltar a nossos antigos afazeres. Mas o estrago já havia sido feito. 99591 desapareceu no primeiro dia depois da última invasão humana.

    Batráquio engoliu em seco e secou as palmas das mãos nas vestes mais uma vez, percebendo-se completamente atento ao que o outro dia. Ele sentia-se pequeno e burro, da mesma forma como se sentira tanto tempo atrás, quando ele fora julgado por todos os erros que cometera.

    - Há quem diga que os últimos invasores o vitimaram e levaram consigo seu cadáver como um troféu, mas ninguém jamais encontrou qualquer prova disso. Outros acham que algum dos outros Anciãos, ou talvez todos, descontentes com os recentes acontecimentos, tenham se rebelado contra ele, o matado e jogado seu corpo nos pântanos. E também há aqueles que acreditam que ele tenha enlouquecido diante do caos que se apossou da sua cidade e simplesmente se matou. Bobagens. Eu não acredito em nada disso. – A voz de 486486, naquele ponto, estava carregada de ressentimento. Ele sempre admirara profundamente 99591, como a ampla maioria dos Bonelords. Batráquio apenas podia imaginar o choque que fora para ele e os demais descobrir que seu grandioso líder espiritual havia simplesmente sumido, deixando-os para trás à própria sorte. – Estou certo de que ele jamais tiraria a própria vida, e duvido muito que qualquer um, fosse humano ou não, seria capaz de subjugá-lo em uma luta. Não. Estou certo de que 99591 está vivo. Alguns compartilham da minha crença, e os mais tolos ainda esperam o dia em que ele voltará para colocar esta cidade de volta nos eixos... Eu, no entanto, jamais me iludi com tais fantasias.

    O velhote fez uma pausa para tomar fôlego antes de continuar.

    - Ele não foi o único a desaparecer. Muitos foram embora, tomados de desgosto ou vergonha. Depois que 99591 se foi, o êxodo foi ainda maior. Conseguimos descobrir que alguns fugiram para outras colônias, outros simplesmente exilaram-se e nunca mais se ouviu falar deles. Os que ficaram testemunharam o que pareceu ser o fim da nossa esmerada sociedade. Os poucos Anciãos que restaram buscaram, muitas vezes em vão, reorganizar a cidade e tentar retomar alguma normalidade. Mas faltava algo. Era evidente que as coisas não podiam continuar do jeito que estavam. A cidade estava em ruínas, a população decaíra muito, havíamos perdido o contato com muitas colônias... Era preciso que alguém assumisse o controle, alguém com a mesma força e determinação de 99591. A Necrópole precisava de um líder forte, um líder que não tivesse medo de fazer o que fosse necessário para que fôssemos grandes como um dia havíamos sido... O sentimento de abandono e o ódio que nutríamos das raças inferiores atingiu o ápice, então não ouve surpresa alguma quando 11793 foi apontado como um sucessor de 99591, mas em caráter oficial. Ele tornou-se líder do Conselho.

    Batráquio estava apenas parcialmente ciente da tristeza e da amargura que haviam na voz de 486486, uma vez que, ao ouvir a menção a 11793, sua mente fora instantaneamente transportada para algum lugar no passado, para uma audiência ali mesmo na Necrópole, no andar debaixo, em que seu destino, e, aparentemente, o de todos os demais Bonelords daquela cidade fora selado. Sem perceber, ele estava rangendo os dentes e cerrando os punhos enquanto sentia sua respiração acelerar-se.

    - Então ele ainda está aqui? O 11793? – Ele ouviu-se dizendo entre os dentes enquanto seu corpo tremia levemente. Ele não conseguia entender por que aquilo o surpreendera tanto. Sempre foi o desejo dele. Todos sabiam da sede insaciável de poder que 11793 nutrira desde que ascendera a membro do Conselho muitíssimos anos do passado. Parece que ele finalmente conseguiu o que queria, então. Para Batráquio, parecia evidente o que realmente acontecera com o antigo líder dos Bonelords. 11793 aproveitou a oportunidade que se apresentou e deu um fim no único que poderia impedi-lo de controlar essa cidade.

    - É evidente. Alguns questionaram tal escolha, é claro... Mas logo ficou claro para todos que não havia decisão mais acertada a se tomar. – Disse 486486, recobrando o comedimento, sua voz voltando à normalidade. Você não me engana, 486486, pensou Batráquio. Ele conhecia o velho bibliotecário bem demais para saber que ele jamais apoiaria 11793 em qualquer coisa que ele quisesse fazer. Não adianta fingir para mim! Ele tinha certeza de que o curador se incluía entre os “alguns” que mencionara.

    - 1593 teria sido uma escolha muito melhor que o doente mental do 11793... – Batráquio começou, sendo prontamente interrompido por um silvo baixo vindo do bibliotecário, que lançou olhares tensos para os arredores desertos.

    - Cuidado com suas palavras, 4669!

    - Não falei nenhuma mentira! – O feiticeiro protestou aos sussurros, visivelmente transtornado. – 11793 sempre foi um louco sádico, até mesmo pros padrões do Conselho! Ninguém o suportava, 486, eu me lembro disso! Isso não pode ser verdade! Todo mundo o odiava, todos queriam se livrar dele! Quem em sã consciência o elegeria para ter controle absoluto dessa cidade?!

    - Sua escolha foi uma unanimidade entre os Anciãos. – Disse 486486, pesaroso, jogando um balde de água fria sobre o incrédulo Batráquio.

    - Como é?! Isso não é possível! Ninguém faria... Como poderiam... Meu Mestre jamais compactuaria com isso!

    - O Conselho estava desesperado, 4669! Pareceu evidente para todos que teríamos de engolir 11793 se quiséssemos nos reerguer! – Sibilou o velhote enquanto aproximava-se subitamente do feiticeiro e cravava seus olhos arregalados sobre ele. – Além do quê... 1593 não estava em seu pleno juízo. Ele não foi convocado para a seção extraordinária que elegeu 11793. Todos consideravam que ele estava demasiadamente... Instável... Ninguém achou seguro dar voz ativa a ele...

    Ele se calou, mas continuou parado no mesmo local, ainda encarando Batráquio, como se o desafiasse a dizer qualquer outra coisa. O feiticeiro, no entanto, ficou mudo, sustentando o olhar de 486486 e tentando assimilar suas últimas palavras. Ele sentia que finalmente estavam chegando na parte da conversa que verdadeiramente o interessava, mas havia algo em seu corpo, uma espécie de torpor culposo que parecia impedi-lo de dar continuidade ao assunto, como se quisesse preveni-lo de efetivamente descobrir o que acontecera com seu mestre. Sua necessidade de saber, entretanto, falava mais alto.

    - O que você quer dizer com isso? – Ele falou, sentindo que não era apenas seu corpo que tremia, mas também sua voz.

    486486 fitou-o longamente, seus olhos mais uma vez tomados de um sombra que mesclava tristeza e pena. O Bonelord mais velho hesitou por alguns instantes, seu rosto enrugado torcido em uma expressão da mais profunda dor. E, quando ele falou, sua voz saiu tão baixa que Batráquio surpreendeu-se ao conseguir captar suas palavras.

    - Ah, 4669... Você não sabe mesmo...? Ou será que não quer saber? Será que sua culpa é tamanha que você se recusa a processar a verdade apenas para não ter de lidar com ela?

    - Você se importa de parar com esse seu teatrinho patético e falar logo de uma vez o que eu quero saber?! – Ele explodiu, avançando na direção do bibliotecário. Entretanto, seu rosto, seus olhos e o tom da sua voz não exibiam a raiva que ele pretendia imprimir: havia apenas o medo e a insegurança.

    - Você não se lembra do que houve quando 1208 morreu? – O bibliotecário falou inesperadamente, e Batráquio sentiu como se um fragmento de gelo fosse enfiado no seu estômago. – Será que todos esses anos foram o bastante para fazê-lo esquecer da culpa que o consumiu? De como você quase perdeu a cabeça? Será que você já esqueceu de tudo que sentiu naquela ocasião...?

    Ele lembrava-se perfeitamente. Mestre! Ajudar eu! Os gritos de dor, os pedidos de socorro e o desespero de 1208 estavam gravados em brasa no fundo da sua mente. A visão do seu corpo carbonizado, seus olhos vidrados em um eterno reflexo de horror, o aroma pútrido de carne queimada que emanava do seu corpo inerte... Batráquio jamais conseguiria se esquecer daquilo. Ele não precisava se esforçar para lembrar-se da dor, do sofrimento, da culpa e de como ele sentira que o mundo simplesmente desaparecera ao seu redor. Nada mais fizera sentido depois daquele dia, e ele sentia que nada mais nunca faria. Ele está morto, 4669. Ele está morto e nada do que você fizer vai trazê-lo de volta, dissera 1593 quando ele retornara daquela missão, transtornado e com suas emoções à flor da pele. Contenha-se!, repreendera-o 486486 quando ele fora desabafar suas emoções na biblioteca. Não é direito que um Bonelord apresente tamanho transtorno diante da morte, você já deveria saber disso! Não é mais um Gazer imbecil ou um aprendiz! A morte é parte integrante de nossa própria existência! Aprenda a lidar com ela! Ele sabia que não deveria sentir aquela dor, que não deveria se importar tanto. 1208 morrera e ponto final. Quantos outros não haviam morrido antes dele? Entretanto, ele não conseguia deixar de sentir aquela agonia. Ele não conseguia se livrar daquela infelicidade crescente que o contaminava. A perda de 1208 causara-lhe uma aflição que ele jamais experimentara. E, por algum tempo, Batráquio achou que jamais poderia sentir uma dor maior do que aquela. Mas ele eventualmente descobriu que estivera errado.

    - Eu jamais poderia me esquecer. – Ele disse, sua voz embargada pela aflição que aquela memória sempre lhe causava. Repentinamente, Batráquio sentia-se sujo, imundo, como se estivesse maculando o sagrado chão da biblioteca ao permanecer ali com aquelas emoções tão humanas aflorando da sua mente. Pode até ser um jovem promissor... Mas essa reação é completamente indesejável, para não dizer vergonhosa, ele lembrava-se de ter visto 11793 dizer para 1593 alguns dias após o ocorrido. Temo que você não o tenha treinado tão bem quanto acredita. É uma lástima, 1593.

    - Você perdeu o seu aprendiz e, junto com ele, quase perdeu a razão. – Disse 486486. Havia uma imensa hesitação em sua voz, mas para Batráquio apenas parecia que o bibliotecário tinha um mórbido desejo de pisotear a sua dor insistentemente. – O que te faz pensar que seria diferente com 1593?

    Batráquio devolveu a 486486 o olhar mais carregado de emoções que pode, como se quisesse deixar claro para o outro que ele estava indo longe demais.

    - Você mesmo disse, 4669... Que sempre o considerou seu mestre, e que ele sempre o tratou como aprendiz... A relação de vocês sempre foi mais... Qual seria a palavra...? Íntima? Próxima? A relação de você sempre foi mais íntima do que seria desejoso. Do que seria apropriado... O Conselho advertiu 1593 tantas vezes de que estava cometendo um erro ao treiná-lo daquela forma, ao enviá-lo tantas vezes para a superfície, para ter contato com outras raças... Sempre acharam que ele estivesse sendo deveras... Bondoso...

    - 1593 foi o melhor mestre que eu poderia ter tido! – Batráquio respondeu rispidamente, cuspindo aquelas palavras na direção de 486486 e o desafiando com o olhar a dizer o contrário. – Ele foi... Ele é o mais brilhante entre os Anciãos e eu devo a ele tudo que aprendi! Não se atreva a insultá-lo na minha presença, 486486!

    - Eu não estou e você jamais me verá negar o imensurável conhecimento de 1593, tampouco sua incontestável habilidade com magia! – Retrucou o mais velho, devolvendo o olhar intenso de Batráquio, mas baixando a voz e buscando manter o auto-controle. – Contudo... Você pode gritar, pode me insultar, pode me atacar, se quiser, mas você não pode negar que 1593 cometeu diversos erros com você, 4669, e isso se prova através da sua vertiginosa queda!

    Batráquio quis responder alguma coisa, sem saber exatamente se seria um xingamento ou um feitiço, mas as palavras afogaram-se em sua boca e instalaram-se em sua garganta, trancando-a e fazendo-o ter a sensação de que iria sufocar.

    - Você não faz ideia... Ou talvez, se puder se lembrar de 1208, você irá compreender... 1593 ficou arrasado com seu destino, 4669. O seu exílio foi a ruína dele. Apesar do Conselho jamais ter formalmente o culpado pelos erros que você cometeu, boa parte da Necrópole, e, acredito eu, ele mesmo culpavam-no por tudo que aconteceu. Talvez, naquele instante, ele tenha percebido onde errou com você... Talvez tenha pensado em tudo que deveria ter feito e não fez... Seja como for, ele perdeu a razão. – A voz de 486486 agora estava nitidamente embargada também, e era visível que, apesar de suas tentativas, ele não conseguiria manter a casualidade naquela parte de sua história. – Logo depois que você partiu, ele se fechou em sua pirâmide e não foi visto por dias e dias... Muitos pensaram que ele havia sido morto durante as invasões, inclusive. Eu tentei visitá-lo uma ou duas vezes, mas ele se recusou a me receber. 1593 estava visivelmente transtornado. Dizem que destruiu um exército inteiro de ghouls apenas para extravasar sua ira. Não é de se admirar que o Conselho tenha parado de convidá-lo para suas reuniões.

    Controle-se, Batráquio percebeu-se pensando enquanto 486486 fazia uma pausa para retomar o fôlego. Ele sentia seu corpo tremendo e seus olhos marejando-se, mas ele estava determinado a não demonstrar ao outro sua fraqueza, sua culpa, sua humanidade. Controle-se, 4669.

    - Ele simplesmente... Definhou... – 486486 continuou a falar tristemente. – E junto com suas faculdades mentais, foram-se seus poderes... Chegou um momento em que ele simplesmente existia, vagando a esmo pela cidade. Confesso que achei que aquele era o fim da linha para ele... Não me orgulho em dizer isso, antes que você tenha algo a acrescentar. Você tinha razão, 4669: eu sempre admirei e respeitei 1593 profundamente, e você talvez seja capaz de compreender o quanto eu fiquei mexido ao vê-lo naquele estão deplorável...

    A voz do bibliotecário lentamente morreu e seus olhos se perderam em qualquer lugar, e a Batráquio pareceu que o outro estava, talvez pela primeira vez, dando-se conta das coisas que sentira e não soubera nomear. Eu não o culpo, ele se viu pensando. Nunca foi da nossa natureza assimilar emoções. Agora era Batráquio quem tinha os olhos afundados em uma expressão de piedade. Passados alguns segundos, o mais velho voltou a si e, após engolir em seco e pigarrear baixinho, retomou sua linha de raciocínio.

    - Enfim... Aquele não foi, afinal, o fim de 1593. Com o passar do tempo, ele começou a apresentar um quadro de melhora. Voltou a experimentar com os mortos, voltou a frequentar a biblioteca... Ele nunca mais voltou a ser o mesmo, no entanto... Mas parecia que, eventualmente, ele poderia voltar a ser. – 486486 fez uma nova pausa e, mais uma vez, engoliu em seco, levando sua tristeza e melancolia para o fundo do seu ser. Ele piscou algumas vezes e, então, seu rosto cobriu-se em uma expressão sombria que pareceu deslizar também para sua voz. – Mas foi aí que ele apareceu e tudo se pôs a perder.

    Em um movimento rápido, Batráquio secou os olhos marejados com as mangas das vestes e procurou afastar suas emoções da sua mente. O tom fechado de 486486 soou como uma alerta em sua mente, despertando-o do seu torpor emocional.

    - Ninguém sabe dizer como ele chegou até aqui... Ninguém nunca soube nada dele, na realidade. Jamais descobrimos seu nome, e apenas aqueles que conheciam formas verbais de comunicação eram capazes de se comunicar com ele, uma vez que seus olhos estavam... – Naquele ponto, 486486 engoliu novamente em seco, dessa vez de uma forma mais dolorosa do que antes, como se pronunciar as palavras seguintes lhe causasse uma dor imensurável. - ... Costurados.

    Batráquio achava que não havia mais nada naquela conversa que pudesse surpreendê-lo ou fazê-lo sentir algum tipo de arrepio ou aperto no estômago, mas, naquele instante, ficou evidente para ele que ele se enganara. Olhos... Costurados...? Como se estivesse imerso em um lago congelado, o feiticeiro pode sentir suas extremidades formigando até ficarem dormentes enquanto sua mente dava-se conta de que aquilo só poderia significar uma coisa. Uma coisa terrível, monstruosa, doentia.

    - Você não está querendo dizer que...

    - Sim, 4669. – O outro interrompeu-o mais uma vez. A atmosfera entre os dois pareceu ficar mais densa e gélida, e Batráquio, mais do que antes, percebeu-se completamente consciente de todos os seus sentidos. – Um Inominável.

    Ele sentiu como se tivesse recebido uma pancada forte na cabeça. Um Inominável... Na Necrópole? Aquela ideia era inconcebível. Isso não pode ser verdade! Ele rapidamente lançou um olhar de pura incredulidade para o bibliotecário, esperando que ele fosse negar ou dizer que era uma brincadeirinha de mal gosto. 486486, entretanto, não tinha senso se humor para tanto. Um Inominável na Necrópole. A ideia era ridícula. Eles viviam muito, muito longe dali, e não tinha qualquer contato com a cidade ou com o Conselho. Não fazia sentido.

    - É claro que foi um choque para todos quando ele simplesmente apareceu aqui. Tínhamos acabado de superar um capitulo terrível de nossa história e estávamos certos de que não havia como as coisas voltarem a piorar... – 486486 continuou, sua voz apressada repleta de desgosto, indicando que era seu desejo terminar logo aquele assunto desagradável. – Nós nunca havíamos visto um deles antes... Apenas conhecíamos as histórias... Nunca ficou claro se ele era um exilado ou se já nascera naquele lugar horrível onde eles vivem e que ficou sabendo da cidade através de um dos traidores que se mudaram para lá... Não fez muita diferença, na verdade. Ele disse que havia sido expulso de lá, mas jamais explicou o motivo. Ele já havia completado a... Transição... Não enxergava nada, mas era como se pudesse sentir tudo com aquela massa cerebral que exibia fora do corpo...

    486486 fez uma pausa e torceu o rosto em uma expressão de inconfundível enojamento. Batráquio sentiu um arrepio pela pele ao imaginar a cena: ele também jamais vira um Inominável antes, apenas ouvira boatos sobre sua aparência completamente monstruosa, anti-natural. A existência deles era uma crime contra a natureza da morte, contra preceitos mais fundamentais da sociedade dos Bonelords, razão pela qual eles jamais se referiam àqueles traidores pelo nome que haviam escolhido para sua nova “raça”.

    - Ficamos perplexos. A presença dele aqui... Acho que aquilo foi pior do que todas as invasões de humanos. – 486486 continuou seu discurso e Batráquio tentou voltar a ouvi-lo. Ele conseguia compreender o que o outro dizia: os Bonelords nutriam um sentimento de superioridade em relação a todas as demais raças, o que motivava seu profundo desprezo para com qualquer uma delas. Mas se havia algo que os Bonelords rejeitavam mais do que os elfos, os humanos, os minotauros ou qualquer outra sociedade... Eram eles. – Não soubemos como reagir. Presumo que ele tenha ficado perplexo também. Talvez esperasse que fôssemos matá-lo. Não sei, nunca entendi por que ele veio até nós. Disse que precisava de refúgio, que queria viver entre nós... Não acredito. Nunca acreditei. Praticamente ninguém acreditou, na realidade... Exceto 11793.

    O feiticeiro ergueu os seus olhos, que haviam se perdido no mármore negro do chão da biblioteca, para voltar a encarar 486486, mais uma vez incrédulo. Cada vez mais lhe parecia que aquela conversa encaminhava-se para o ridículo, para o absurdo e para o mundo da fantasia.

    - Ele disse que deveríamos acolhê-lo. Disse que poderíamos aprender muito com ele, que assim poderíamos conhecer mais sobre a sociedade deles para que eventualmente pudéssemos destruí-los. – Disse 486486. – Eu não quis acreditar naquilo. Aquilo já era o cúmulo do absurdo! E não fazia sentido algum. 11793 sempre foi extremamente conservador, não era possível que ele estivesse seriamente considerando manter um deles aqui... Entretanto, já fazia meses desde que 99591 sumira e desde que ele tornara-se líder do Conselho. Era inegável que estávamos nos reconstruindo sob sua tutela. Ninguém ousou pronunciar-se contra ele. Não me orgulho de ter ficado calado na ocasião... Talvez as coisas tivessem sido diferentes... Parece que estava tudo decidido. O Inominável iria ficar, o desejo de 11793 iria prevalecer e ninguém poderia fazer nada contra aquilo. Mas então... Então ele ressurgiu das cinzas.

    Batráquio sentiu um calafrio, perfeitamente ciente do que viria a seguir.

    - 1593 recusou-se a admitir a permanência dele aqui. – Batráquio sentiu um sentimento estranho, cálido, aflorar em seu peito. – Nenhum de nós esperava aquilo. Até a chegada do Inominável, 1593 assemelhava-se mais a um dos defuntos do cemitério do que qualquer outra coisa. Mas, aparentemente, aquele acontecimento despertou-o do seu transe, e o velho 1593 retornou. Suponho que presenciar um desrespeito daqueles foi um choque maior do que tudo... Ele bateu de frente com 11793 e argumentou que admitir um Inominável seria a pior de todas as traições. Evidentemente, ninguém o levou a sério, dado ao que havia acontecido com você.

    486486 respirou fundo e Batráquio voltou a detectar os perigosos resquícios da tristeza em sua voz cada vez mais abafada.

    - Foi terrível. Digo, todos sempre soubemos que 1593 e 11793 eram inimigos declarados... Não é como se qualquer um deles jamais tivesse se esforçado muito para disfarçar. Os dois sempre representaram pensamentos diferentes... O liberal e o conservador. Você sabe disso melhor do que eu, 4669: seu mestre sempre teve uma predisposição pouco desejável a admitir coisas que os demais achariam intoleráveis. Basta ver a forma nada ortodoxa que ele o treinou. – O bibliotecário cravou seus olhos em Batráquio de uma forma tão incisiva que pareceu ao outro que ele estava sendo despido e analisando até o tutano dos seus ossos. – A aparição do Inominável arrancou 1593 do seu torpor e reacendeu a animosidade entre os dois de uma forma absurda e tão... Surreal. Aqueles que desconheciam o apreço de 1593 pelas nossas leis chegaram a pensar que o ele apoiaria aquela iniciativa estranhíssima... Estavam errados, é claro. 11793, por outro lado, surpreendeu a todos com seu discurso. Ele alegou que era preciso expandir nossas mentes e buscar novas formas de pensamento para reerguer a Necrópole maior e mais forte do que antes, enquanto que 1593 tentou apelar para nossos valores mais fundamentais. Mas não houve jeito. Poucos foram valentes o bastante para ouvi-lo e para desafiar 11793. O Inominável ficou.

    Mais uma vez, o Bonelord mais velho calou-se e lançou um olhar significativo para Batráquio, o qual ele prontamente entendeu. Um arrepio dançou pela sua espinha. Ele sabia que estava perigosamente próximo de descobrir o que realmente acontecera ao seu mestre. Ele sentiu sua boca ficando seca e a ansiedade crescendo em seu peito, mesclando-se com o receio que ele sentia do que viria a seguir.

    - Foi terrível, 4669. Foi como se 11793 tivesse matado a todos nós. – O bibliotecário disse sombriamente. – Ele jogou o Inominável na pirâmide mais afastada que conseguiu achar, para que ficasse longe dos demais, e de quando em quando mandava aliados de confiança para interrogá-lo. Insistiu que tencionava apenas descobrir mais sobre os traidores. Mas era visível, desde o começo, que aquilo não poderia terminar bem. Não demorou até que alguns Bonelords, especialmente os mais jovens, visitassem aquela anormalidade quando a cidade estava quase vazia... Estavam descontentes, desiludidos... Não queriam mais continuar se submetendo a nossas leis... Depois que o primeiro foi embora, mais uma dezena se seguiu. Iludidos pelas coisas que ele dizia, que ele contava do lugar de onde viera... Um a um eles se deixaram seduzir por aquelas histórias de poder, de liberdade, de conhecimento além dos limites da vida e da morte... E então se foram. Como muitos outros, simplesmente sumiram. Eu logo percebi o que estava acontecendo, percebi quais eram as intenções daquelas tristes almas iludidas... Se eles eventualmente chegaram mesmo até a maldita ilha onde eles vivem e encontraram o que queriam, eu jamais soube. Mas nós os perdemos de qualquer jeito.

    Batráquio ouvia aquelas palavras incrédulo, sentindo seu coração quase saindo pela boca e extremamente temeroso de onde aquela conversa poderia chegar.

    - 1593 ficou possesso. Eu jamais o havia visto daquela forma... Era como se ele tivesse armazenado sua ira por todos os meses em que ficou naquele estado letárgico e estivesse desejoso de finalmente se livrar dela. Ele acusou 11793 de traição, de ser simpático com o causa dos Inomináveis. Disse que ele estava arruinando a Necrópole ao permitir a permanência daquele monstro. 11793 contrapôs alegando que aquela coisa serviria para expurgar do nosso convívio os traidores, os fracos de espírito, os indignos de permanecer entre nós... Disse que nos reergueríamos maiores e mais fortes quando nos livrássemos das párias que sucumbiram ao discurso dele... Eu disse a 1593 que ele deveria ter cuidado, mas ele não quis me ouvir. 11793 cansou-se dele e decidiu que o tomaria de exemplo, para que ninguém mais se atrevesse a questionar suas decisões.

    O bibliotecário engoliu em seco e Batráquio sentiu que o vazio que outrora habitara seu interior havia regressado e estava estendendo seus tentáculos nodosos para todos os lados do seu corpo. 486486 encarava-o calado, como se estivesse esperando que seu silêncio e seu olhar de profunda desolação fossem o bastante para que Batráquio entendesse o que houve e o poupasse de falar. Com um nó na garganta e sentindo os olhos marejados mais uma vez, Batráquio forçou-se a falar.

    - Então ele o matou. – Ele adivinhou, tendo a sensação de que fora outro ser que falara em seu lugar, pois ele já não mais sentia-se presente naquele plano de existência.

    Para sua surpresa, 486486 soltou um som que se assemelhava tanto a uma gargalhada quanto a um suspiro de dor.

    - Oh não. Oh não... – Ele disse, seu rosto de torcendo de dor a cada palavra, como se falar estivesse lentamente matando-o da forma mais dolorosa possível. O comedido bibliotecário que antes insultara 4669 pela sua sentimentalidade jazia esquecido em algum lugar longínquo, e quem falava naquele instante era um Bonelord consumido pelo rancor que Batráquio tinha dificuldade em reconhecer. – 11793 é um sádico em tal grau... Tão... Tão extravagante... Ele não se contentaria com simplesmente dar cabo de 1593 e sumir com o corpo, oh não. Ele precisava de um espetáculo, precisava que fosse público. Queria que todos vissem o que aconteceria com aqueles que se metessem em seu caminho. 11793 desafiou-o a um Duelo de Permanência.

    Batráquio quis dizer qualquer coisa, emanar qualquer sinal de que estava vivo e acompanhando aquela conversa, mas ele estava paralisado demais pela sua incredulidade para falar. Um duelo? Isso não faz o menor sentido! Aquele tipo de duelo era usualmente aplicado para resolver diferenças muito profundas, onde o perdedor deveria ser expulso da cidade e nunca mais retornar. Ele lembrava-se de alguém sugerindo a 11793 que aquela fosse a sua punição após os acontecimentos em Ab’Dendriel. Não. 4669 não merece a oportunidade de lutar para permanecer entre nós. Ele deve ser expurgado de uma vez, 11793 respondera naquela ocasião, seus olhos cheios de ódio e desprezo cravados em Batráquio. Por que ele iria dar a 1593 a oportunidade de lutar? Por que não se livrar dele de uma vez?

    - Ele queria humilhá-lo, 4669. – Ele ouviu 486486 dizendo, mais uma vez demonstrando uma estranha capacidade de saber o que se passava em sua mente. – Suponho que nutria este desejo desde que 1593 o desafiou abertamente durante o seu julgamento. 11793 jamais aceitou a intervenção de 1593 que acabou levando o Conselho a poupar a sua vida... Ele sabia que 1593 ainda não havia retomado total controle de seus poderes e que não era plausível que seu mestre pudesse derrotá-lo, então ele decidiu aproveitar aquela chance para humilhá-lo diante de todos e fazê-lo pagar.

    486486 soltou um longo e penoso suspiro, e Batráquio tentou se preparar para o que ainda estava por vir.

    - 1593 não teve qualquer chance. Naquela ocasião, 11793 provou a todos porque era o sucessor natural de 99591. Eu jamais havia visto tamanha demonstração de poder antes. – O mais velho falou, seus olhos vagarosamente minguando e postando-se no chão, sua voz mal passando de um sussurro. – Foi um duelo demorado, muito mais do que seria realmente necessário... Quando acabou, o sangue de 1593 tingia os pilares da biblioteca e o chão ao seu redor de verde. Sinceramente jamais compreendi o que levou 11793 a poupar a sua vida, afinal. Mesmo assim, ele não ficou contente com apenas humilhar seu rival. Arrancou um de seus tentáculos, o encantou para que nunca apodrecesse e o cravou na entrada da sua pirâmide, para que todos vissem e se lembrassem daquele episódio antes de tentar desafiá-lo novamente.

    Ele calou-se, pesaroso, e o mais doloroso silêncio que Batráquio experimentara em muito tempo instalou-se entre os dois. Ele evidentemente não estivera presente, mas as imagens do duelo entre seu mestre e 11793 pareciam vivas em sua mente, como se ele as tivesse recebido por telepatia, e apenas imaginar seu mestre, seu sábio e poderoso mestre retorcido no chão, coberto de areia escura e deformado pela batalha era o bastante para fazê-lo afundar na sensação mais amarga que ele jamais experimentara. Ele mal conseguia registrar a ira que ia lentamente chamando-o em algum lugar na sua mente: naquele instante, era o desgosto quem falava mais alto.

    - Então ele foi expulso. – Ele inexplicavelmente conseguiu falar, sua voz trêmula como seus dedos. Sua respiração estava extremamente acelerada e ele começava a sentir-se tonto. Batráquio deu então alguns passos para o lado para se apoiar à estante mais próxima, sentindo-se enojado enquanto o duelo dos dois Anciãos continuava a rodar pela sua mente. – Ele foi derrotado e expulso.

    O bibliotecário evitava encará-lo a todo custo, uma expressão curiosa de dor e algo que parecia culpa existia entre as rugas do seu rosto.

    - Para onde ele foi, 486486? Para Fibula? – Ele dizia incoerentemente enquanto tentava controlar sua voz, que parecia perigosamente próxima de ruir e sumir para sempre. – Ele já havia me dito uma vez que queria conhecer a colônia em Fibula... Ele foi para lá não foi? 1593 está em Fibula, não está?

    486486 mexeu-se desconfortavelmente no local em que estava, seu corpo pairando cada vez mais próximo ao solo, como se ele fosse desabar sobre o mármore a qualquer momento.

    - Eu devia ter visto os sinais... Eu, mais do que ninguém, deveria tê-los visto e entendido... – Ele resmungou baixinho, tristonhamente, ainda sem erguer os olhos do chão. – Mas eu não soube interpretá-los. Eu só entendi quando era tarde demais.

    - Meu mestre está em Fibula ou não, 486486? – Batráquio exigiu saber com o coração batendo cada vez mais rápido e as primeiras lágrimas vencendo seu controle e queimando seu rosto.

    - As duas personas dele... Ficou tão nítido pra mim depois que ele se foi, eu não consigo entender porque não vi isso antes. Quando as coisas atingiram um patamar inaceitável ele se viu obrigado a reagir, a mostrar pra todos que ainda estava ali... Mas por dentro... Ah não, por dentro ele ainda estava esfacelado... Era como se duas entidades habitassem o mesmo corpo...

    Cale a boca! Cale a boca, cale a boca, cale a boca! Batráquio pensava repetidamente enquanto esfregava o rosto tomado de fúria, lutando para combater as lágrimas que insistiam em vencê-lo. As palavras de 486486 não faziam mais sentido algum, mas mesmo assim ele queria que ele parasse de dizê-las, que ele se calasse e nunca mais voltasse a falar de 1593 ou de qualquer coisa que acontecera naquela cidade desde que ele se foi.

    - Eu acho que ele nunca superou o que aconteceu com você, 4669. Eu preciso que você entenda... Eu não estou te culpando, eu preciso que você acredite em mim! – 486486 agora falava em um tom suplicante que não lhe pertencia, e havia finalmente erguido os olhos para encarar seu interlocutor, e Batráquio foi pego de surpresa ao vê-los molhados pelas mesmas lágrimas que ele derramava. – Nenhum de nós poderia ter previsto... Mas eu devia... Como eu fui burro! Burro! Eu devia ter percebido como 1593 havia mudado depois da chegada dele... Mas eu achei... Todos achamos que ele estava realmente indignado com a presença dele aqui... Como eu poderia ter previsto?

    - Não... – Batráquio se ouviu sussurrando incoerentemente, talvez adivinhando o que estava para ouvir. Ele já desistira de enfrentar as lágrimas. Ele só queria que aquilo acabasse.

    - Todos estávamos tão desestabilizados... Não foram poucos os que o procuraram para pedir aconselhamento, para se iludirem... Todos nós queríamos acreditar que as coisas melhorariam... Eu devia ter entendido o que ele estava fazendo, eu devia ter entendido que ele também precisava se iludir... Ele não sabia mais como lidar com a dor...

    - Não...! – Voltar foi um erro, ele pensou.

    - Eu acho que ele planejou aquilo o tempo todo. Ele queria o Duelo. Ele queria ir embora... Queria fugir... Quem pode saber desde quando ele estava arquitetando aquilo? Deve ser por isso que ele o procurou, deve ser por isso que ele sucumbiu e se deixou levar por aquelas promessas vazias...

    - Não!

    - 1593 foi embora, 4669. – 486486 jazia perante ele, pousado no chão, seus olhos marejados e seu semblante visivelmente estilhaçado. – Ele juntou os seus pedaços e fugiu de toda a dor, de todo o sofrimento que esta cidade representava para ele.

    - NÃO!

    - Seu Mestre se juntou a eles. Ele nos deu as costas e foi morar com eles naquele lugar inóspito e amaldiçoado... – Havia tanta dor no Bonelord que falava que, para ele, já não fazia mais sentido evitar o uso da palavra. Seria a facada final. – 1593 foi viver com eles naquela ilha maldita que eles chamam de Helheim. 1593 tornou-se um Braindeath

    Nome:      retorno6.png
Visitas:     42
Tamanho:  237,0 KB
    486486 revela a Batráquio todas as coisas que ocorreram na Necrópole após o seu exílio
    Nosce te ipsum.

  5. #25
    desespero full Avatar de Iridium
    Registro
    27-08-2011
    Localização
    Brasília
    Idade
    22
    Posts
    2.391
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenCríticoDebatedorAdepto do Off
    Prêmios Guardião do GF - pelos serviços prestados à comunidade
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Saudações!

    Velho... P*TA QUE PARIU MANO MDS Q CAPÍTULO FOI ESSE?!?!

    Cara... Excelente, a espera valeu muito a pena! Coitado do Batraquio e do 1593... Tomei esse spoiler na lata pra eu deixar de ser trouxa kkkkk

    Esse capítulo foi de tirar o fôlego... Muitos acontecimentos. É triste ver o que houve na Necrópole e o misto de emoções vividas pelo 4669 e o 486486. São aquelas situações indescritivelmente incapacitantes, que mostram a total falta de controle que temos do acaso e das consequências do que foi dito e feito. Capítulo maravilhoso, como sempre. Aguardo o próximo.


    Abraço,
    Iridium.






  6. #26
    Avatar de Gillex Koehan
    Registro
    25-09-2004
    Localização
    São Paulo
    Idade
    28
    Posts
    216
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas CitizenEstagiário
    Peso da Avaliação
    0

    Padrão

    Oi. Nossa, esse capítulo deu uma pesada.

    Sua história começou a me encantar principalmente quando o 4669 encontra o druida moreno sensual pela primeira vez, por motivos diversos.
    Mas esse capítulo, que nem tinha o moço, me puxou de uma forma intensa. As interações, tanto do passado quanto do "presente", deram uma mexida no coração. Haha. Eu acho que eu vou concordar contigo em dizer que esse capítulo é o melhor até agora.

    Uma coisa que eu já tinha percebido antes e que gosto no seu texto é certa visceralidade que você coloca, no sentido de expor as vísceras mesmo - "que quase o fez quase colocar as entranhas para fora", " uma sensação de pavor incontrolável enfiando as garras nas suas tripas". Eu gosto e às vezes aparece de forma mais sutil, mas sempre tem!

    Eu só vou me resguardar na espera do próximo capítulo e é isso.
    Não tenho referências aleatórias hoje. Haha.
    FORA, 11793!

    (Só arruma um "se não" para "senão" e um "o causa" para "a causa". Também tem um "ue" que era pra ser "que", mas que eu perdi e nunca mais achei no texto. Haha.)
    .....
    .....
    RPGTibia

    A gente tá te esperando desde que você nasceu!
    .....
    .....
    .....

  7. #27
    desespero full Avatar de Iridium
    Registro
    27-08-2011
    Localização
    Brasília
    Idade
    22
    Posts
    2.391
    Conquistas / PrêmiosAtividadeCurtidas / Tagging InfoPersonagem - TibiaPersonagem - TibiaME
    Conquistas Sagaz CitizenCríticoDebatedorAdepto do Off
    Prêmios Guardião do GF - pelos serviços prestados à comunidade
    Peso da Avaliação
    0
    Última edição por Iridium; 07-04-2017 às 09:42.



Tópicos Similares

  1. O retorno da raposa
    Por Golden_Fox***** no fórum Tibia Geral
    Respostas: 14
    Último Post: 05-06-2006, 01:13
  2. The Legend of Rockbreaker - o retorno
    Por Subrosian no fórum Roleplaying
    Respostas: 0
    Último Post: 13-03-2005, 01:20
  3. O meu retorno ao mundo medieval denominado Tibia
    Por -=|$qµ@££ £ëöñ|-|@®t|=- no fórum Tibia Geral
    Respostas: 4
    Último Post: 13-01-2005, 21:21
  4. O retorno de ferumbras
    Por Aki eh o Vovô no fórum Tibia Geral
    Respostas: 11
    Último Post: 16-12-2004, 22:11
  5. Foca falante, o retorno
    Por Mataraia no fórum Fora do Tibia - Off Topic
    Respostas: 9
    Último Post: 08-10-2004, 19:09

Permissões de Postagem

  • Você não pode iniciar novos tópicos
  • Você não pode enviar respostas
  • Você não pode enviar anexos
  • Você não pode editar suas mensagens
  •