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Tópico: Bloodtrip

  1. #141
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
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    Padrão Capítulo 31 - Resmonogatari II

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    Caralho, sim. Senzo. Bati na trave no nome do personagem, mas apenas confundi um com o outro. Os personagens em si são inconfundíveis. Quis dizer que Senzo é um personagem com potencial. Suzio não é um personagem com potencial, Suzio é um personagem perfeito por si só.

    Espero que esse hiato não dure muito tempo, Carlinhos. Esteja certo de que, quando Bloodtrip voltar, estarei aqui novamente.
    >carlinhos

    Neal, Neal. Obrigado pela constante presença no tópico.

    Acredito que Senzo possa ser do seu agrado. Há muito guardado pra ele nesses próximos capítulos. Mas certamente não será como Nightcrawler.


    Voltei, e espero não partir de novo dessa forma. Só é uma pena que eu não consiga terminar a história esse ano. Tá durando mais do que planejei originalmente.










    Caras, depois de um tempo sumido, estou de volta. Meu computador não foi consertado, então estou usando um notebook que entrou aqui em casa recentemente e serve para o propósito de escrever.

    Perdi um pouco da mão nesse tempo que fiquei fora, então é possível que eu dê uns deslizes nesses próximos capítulos. Mas não demorará muito pra retomar o ritmo. A propósito, decidi mudar o nome do capítulo 31 pois achei que se encaixaria melhor ao propósito dele.

    Espero que gostem!





    No capítulo anterior:
    O jovem Senzo conhece Nuito. Ele entra no Centro das Almas de Ferro, uma poderosa academia para aqueles que desejam ser alquimistas. Ela também ajuda a formar engenheiros e outros tipos de formação. Lá, ele constrói Yoru, um automato com o formato de um louva-a-deus, e o apresenta na Feira Internacional de Maravilhas, mas um acidente grave ocorre durante a apresentação.




    Capitulo 31 – Resmonogatari
    Parte 2




    O ano é 327. Passou-se três anos desde o caso Yoru.

    Embora o caso tivesse chocado Yalahar e se espalhado pelo mundo, Senzo não se deixou abalar. Isso porque seus amigos não permitiram que isso acontecesse. Ele ainda está estudando no Centro das Almas de Ferro, e este será seu último ano.

    As pessoas, bem como o colégio, se esforçaram para esquecer o episódio. Ver alguém sendo eletrocutado até a morte certamente não é uma boa programação para uma tarde, mas os humanos tem uma grande habilidade que até mesmo os elfos invejam: Esquecer. Dito isso, é normal ver mais jovens entrando no colégio todos os anos, e o movimento não diminuiu tanto. Agora mesmo, durante uma nova tarde ensolarada de Yalahar, dois rapazes de 14 anos andam tranquilamente até as escadarias que levam ao colégio. Mas no caminho delas, encostado, está uma figura de cabelos lisos e negros, pálida, encarando-os com cara de poucos amigos.

    Senzo desce e se dirige a passos lentos até a dupla. Receosos, decidem começar a falar.

    — Boa tarde... — Começa o primeiro rapaz, com tanto vergonha quanto medo — Somos novos alunos do colégio, disseram que um guia nos aguardaria no colégio para explicar o que precisamos saber. Você é o guia?
    — Eu tenho cara de guia?

    O segundo rapaz engole em seco. Ambos estão vestidos com o mesmo uniforme, um casaco de botões branco, calças negras e sapatos marrons. Os jovens parecem intimidados – certamente uma má recepção para ambos.

    — B-Bem... Você parece ser um aluno veterano daqui, achamos que poderia nos ajudar...
    — Não. Estou incumbido de proteger esse lugar de qualquer coisa que signifique ignorância. É um lugar para poucos. E não inclui vocês.
    — Com licença, mas fomos aceitos na nossa entrevista, com certeza podemos entrar nesse colégio. — Disse o segundo, da maneira mais educada e comportada possível para evitar problemas.
    — Não é porque foram aceitos que podem necessariamente entrar aqui dentro. Vocês não fazem ideia do que é estar nesse colégio nem do que é necessário. Posso dizer isso apenas olhando para as suas faces.
    — Me desculpe, mas você é apenas um aluno, não pode nos dizer que não podemos estudar aqui!

    Senzo levanta uma sobrancelha. Em seguida, seu braço, que é envolvido em segundos por uma peça de metal amarelada. Algo semelhante a um tentáculo saindo de suas costas, e envolvendo seu braço como um segundo braço mecânico, contendo uma lâmina de 30 centímetros na ponta.

    — O que você disse? — Dispara Senzo, notavelmente irritado.

    Mas ao invés das crianças se sentirem assustadas, elas se impressionam. Aparentemente, já viram aquilo de algum lugar. Logo acabam abrindo sorrisos de admiração.

    — Ei, ei! — Disse o primeiro rapaz, encarando com surpresa a peça — Isso é a Célula de Ferro! Você é Senzo?

    Agora quem está incomodado é Senzo. Pois ele já sabia que os rumores de sua criação se espalharam por Yalahar.

    — E se eu for?
    — Você é incrível! Criou não só isso como Yoru, o autômato mais bonito já criado! Mesmo que tenha acontecido aquele acidente, você fez um grande trabalho!
    — Entramos nesse colégio apenas por sua causa! Queremos ser grandes engenheiros como você! — Disse o segundo, acompanhando a agitação do primeiro.

    O jogo virou. Agora é Senzo quem está acuado, sem saber o que responder. Aquela admiração é realmente irritante para ele, alguém que está acostumado a ser, no mínimo, um figurante. Antes que pensasse em sair andando, uma boa alma surge para salvá-lo daquela situação.

    — Ora, ora, Senzo. Está assustando jovens a essa hora do dia? Ou seria o contrário? — Disse Nuito, brincando com o fato do amigo já estar numa péssima situação para ele mesmo.
    — Hein? Não estou fazendo nada!
    — E por que está mostrando a Célula de Ferro, então?

    Senzo fica um pouco cabisbaixo e irritado, e acaba se afastando. Nuito decide resolver o caso.

    — Não se preocupem, ele é assim mesmo. Gosta de testar todos os novos alunos. Ele está no último ano, afinal de contas.
    — Ah, você é Nuito?! Criador da Teoria da Criação por Alquimia e da Solução Lacrixca? — Questiona o primeiro rapaz, com um grande sorriso no rosto.
    — Sim, e sou o guia de vocês. Nuito Resgakr, tutor iniciante do Centro das Almas de Ferro. Devem conhecer meu amigo.

    O jovem desativa a Célula de Ferro, fazendo ela voltar para suas costas. Ou para um pequeno dispositivo que tem um formato semelhante a um ovo numa frigideira, que está no lado esquerdo de suas costas. Continua afastado, apesar de ainda atrair o olhar dos novatos.

    — Conhecemos sim!
    — Bem, ainda darão de cara com ele aqui algumas vezes. Não me verão com muita frequência, no entanto.
    — Que grosseria a nossa! Meu nome é Bertolomey e o meu amigo se chama Lucio! Prazer em conhecê-lo! — Disse o segundo garoto, estendendo sua mão para Nuito.
    — Igualmente. Logo alcanço vocês.

    Os jovens assentiram e foram rapidamente para a entrada do colégio. Senzo os fita ao longe, insatisfeito e ofendido. Nuito coloca seu braço em seu ombro, também observando os novatos.

    — Então você não sabe lidar com a fama? Deveria já ter se acostumado.
    — Me acostumei com o lado ruim dela.

    Nuito fica em silêncio por um instante.

    — Para, vai. Como eu já disse inúmeras vezes, você é inteligente. Muito inteligente. E merece o respeito que tem ganhado aqui dentro.
    — Que seja. Não gosto disso e ponto final.
    — Ah, que gênio chato.

    Por que acreditei nele?


    É a terceira vez que Nuito o chama dessa maneira. Ele continua incomodado com o elogio.

    — Não tem mais o que fazer?
    — Você também tem, não?
    — Pro inferno. Eu tô indo, te vejo depois.

    Senzo afasta-se e sai andando. Nuito ri e vai até o colégio para ajudar os novatos, como lhe foi pedido.

    Faz um bom tempo desde que Nuito se formou. Ele entrou no colégio com apenas 11 anos, e no ano seguinte ao que Senzo entrou, ele já se formou. Quatro anos de curso foram mais que suficiente para ele, mas ainda assim ele decidiu continuar lá tanto para ajudar seu amigo quanto para aprimorar seu currículo. Ele pode ser muito conhecido em Yalahar, mas não eram todos que ouviram seu nome fora da cidade-estado.

    Em direção ao leste, Senzo caminha pelas ruas brancas de Yalahar, seguindo pela calçada para não ser atropelado por algum maluco com um cavalo descontrolado, ou por uma carruagem em alta velocidade. Essas ruas sempre lhe eram interessantes, pois os cavalos não eram as únicas montarias que as pessoas usam por lá. Sempre há criaturas interessantes levando seus mestres aqui e ali. Talvez o caso mais engraçado que ele já viu até então foi um homem relativamente grande montando uma ovelha negra. Parecia que eu estava no circo por um momento, pensa Senzo.

    Ele atravessa a rua e para na fachada de uma casa relativamente grande, de dois andares, onde por uma extensa vitrine era possível ver um professor e alguém tocando um piano marrom. Ao entrar no lugar, ele encanta-se com a suave e ao mesmo tempo firme melodia que a pessoa toca para o professor, que contempla a execução dessa obra prima com orgulho. Aparentemente ela já está no fim, então Senzo fica ao lado da porta em absoluto silêncio.

    O jovem observa a sala onde se encontra. O chão é de madeira, e há apenas uma vitrine do lado de fora, e ao redor há apenas paredes brancas. Há diversos quadros pendurados nela, e há mais de um piano ali. Próximo de onde ele está, encontra-se uma mesa grossa também de madeira com muitos papéis em cima, bem como um pote de tinta com uma pena dentro dele.

    A música acaba. Quando o professor nota Senzo na porta, ele decide dar apenas alguns elogios para a pianista e se retira para o corredor próximo daquele piano, que está perto de uma parede cheia de quadros estranhos representando criaturas da noite. Um gosto um tanto exótico, ou diferente.

    Esta pianista fita Senzo ao longe e caminha rapidamente até ele. Indo em sua direção, com um belo sorriso no rosto, está Miraya, a garota de olhos levemente puxados e cabelo curto e escuro como o breu. Ao parar de frente para ele, ela pega suas mãos, e antes que o rapaz possa reagir, ela beija-o. Um beijo que dura quase 10 segundos.

    Logo que ela o solta, ele parece um pouco surpreso e também agitado. Ela dá uma risadinha entre os dentes.

    — Esse foi meu boa tarde. Como você está hoje, mocinho? — Indaga Miraya, sorrindo.
    — B-Bem... Ah, sei lá. Não consigo pensar em mais nada depois disso. — Responde Senzo, esforçando-se para não gaguejar ou parecer ridículo.
    — Então você está bem. Assim como eu.

    Miraya dá alguns passos para trás para vê-lo melhor. Senzo lhe manda um olhar curioso.

    — Você está realmente bonito hoje.

    Senzo está mais apresentável do que de costume. Seu cabelo está bem arrumado num pequeno rabo de cavalo. Seu paletó branco, bem como a camisa preta que está usando por baixo, contrasta bem com sua calça azul escura e seus sapatos sociais marrons. Ele não tem o costume de se arrumar, mas quando o faz, dá bons resultados.

    — Nem tanto. — Balbucia o garoto, coçando a cabeça — Só tentei parecer menos feio.
    — Isso é papo de gente triste! Vamos, você está sempre bonito. E hoje está bem mais que o normal. Sinto como se fosse arrancar a cabeça de qualquer garota que ousasse olhar pra você com interesse.

    Ela é boa demais pra mim, pensa, enquanto sorri sem jeito. Miraya, que está com uma blusa de mangas longas de um laranja bem claro, bem como calças escuras e sapatilhas brancas, parece roubar bem mais a atenção do público do que ele. Ela não está tão arrumada, mas ela não precisa de muito pra parecer atraente.

    — Bem, vamos indo? — Disse Miraya, pegando a mão de Senzo e levando-o para fora antes que ele pudesse protestar. Se é que ele deseja mesmo fazer isso.

    O casal cria seu próprio dia conforme passeiam pela cidade. Passam numa sorveteria, conversando e brincando sobre várias coisas. Passam num dos Centros de Xadrez e ficam um bom tempo disputando, sem se importar com o fato de serem o único casal dali; por fim, acabam num restaurante, onde Senzo se esforçou um pouco para pagar a conta. Um encontro comum entre um casal que parece se dar muito bem.

    Eles começaram a namorar há pouco menos de dois anos. Ambos se davam muito bem, e aparentemente Miraya lidava bem com o fato dele preferir estudar do que sair. Ela própria é assim, embora não estude tanto quanto Senzo. Ela também não se importa com o comportamento as vezes tóxico dele, com comentários um tanto ofensivos, chegando até a rir ao ouvi-los. Certa vez, ele acabou assustando sem querer uma criança, e ela se acabou de rir vendo aquilo ao invés de consolar o pequeno. Uma garota perfeita para ele.

    Embora não passem tanto tempo juntos, seus encontros eram mais que satisfatórios para os dois, que mais conversavam do que faziam outras coisas de casal. Por isso, Senzo não se sente culpado por deixá-la em casa para voltar ao Centro das Almas de Ferro para continuar trabalhando, ao invés de prosseguir com o encontro; e Miraya não se sente incomodada por ele preferir continuar seu trabalho. Afinal, ele está trabalhando em algo muito maior do que a Célula de Ferro, e precisa de tempo. E assim ele o faz no final do encontro, despedindo-se de sua garota com apenas um beijo rápido.

    Após vinte minutos, ele volta para o colégio, e dirige-se para os dormitórios, que ficam atrás da grande construção. Logo, ele chega nos laboratórios abaixo deles. Hora de trabalhar.


    Em seu dormitório, algumas semanas depois, Nuito testa a Célula de Ferro. Do mesmo jeito que antes, mas agora com um cilindro com seis buracos na ponta que lançam dardos. Com alguma dificuldade ele acerta todos os dardos num alvo do outro lado do quarto. Enquanto isso, Senzo observa um pequeno pote de vidro com uma tampa escura, com um liquido branco e viscoso dentro. Nuito repara e decide recolher a invenção que estava usando, vencido pela curiosidade.

    — Ei, Senzo. O que é isso aí?
    — Ah, isso? É muito mais complexo do que você imagina.
    — Ah, vamos lá, nada é complexo demais pra mim, sabe disso.

    Senzo gira um pouco a própria cadeira e contempla o potinho.

    — A Teoria da Criação por Alquimia diz que tudo que é físico nesse mundo possui não só uma assinatura própria em nível microscópico como também uma leitura própria. Algo semelhante a DNA e coisas assim. O que eu fiz foi estudar todas essas leituras a fundo e portar todas elas para uma coisa só. Elas assumiram essa forma líquida e branca que chamo de Nancore. E precisei apenas de alguns materiais que possuíam as leituras que eu precisava.

    Nuito parece perplexo.

    — Em suma, você criou uma coisa que cria outras coisas?
    — Exatamente. Não é incrível?

    Seu amigo não sabe como reagir.

    Senzo nem chegou a terminar o curso ainda, mas sempre se mostrou genial. Ele sabia que o amigo tinha potencial para ultrapassá-lo e criar coisas muito mais grandiosas que seus próprios estudos e teorias, algo grande até para um biólogo, coisa que ele planeja ser. Mas agora ele está vendo o rapaz criar algo baseado no que ele mesmo desenvolveu. Um estudo incompleto, uma teoria. Trazida para a realidade com forma física.

    Ele já pode se declarar superado.

    — Mas, no entanto, existem certas complicações na criação do Nancore, e ainda não consegui um material muito importante de Porto Esperança. Então acho que o Nancore não é capaz de criar nada ainda.

    Ou por enquanto não.

    — Ah, que pena. Seria incrível ver isso em ação. Conte comigo se precisar de ajuda.
    — Acho que vou precisar sim, afinal, foi você quem criou o estudo que me baseei.
    — E eu me baseei em outro estudo yalahari. Então não há nada demais no que estamos fazendo.
    — Claro que há! Estamos melhorando o que foi criado no passado! Não é assim que a humanidade sempre funcionou?

    Senzo sempre se empolgava na hora de falar sobre assuntos do tipo e até esquecia-se de certas coisas. Até mesmo sobre ética. Mas, no momento, ele não está prejudicando ninguém, o contrário: Está criando algo que pode ajudar muitas pessoas e mudar o mundo ao mesmo tempo. Mal dá pra imaginar o quanto de coisas que podem ser feitas a partir do Nancore.

    — De qualquer forma, você vai apresentar isso na feira desse ano? Seria um forte candidato a vencer.
    — Não. Ele não está pronto.
    — Ah é, verdade. Falta o material de Porto Esperança, não é? E qual é?

    Senzo guarda o potinho numa gaveta antes de falar alguma coisa.

    — Um coração de um lagarto templário de Chor.

    Nuito engole em seco.


    ~*~


    A Feira Internacional de Maravilhas retorna após três anos. O caso Yoru realmente foi fatal para a reputação do colégio e por muito pouco Senzo não foi expulso, e isso porque Nuito ajudou a aliviar a pena.

    Com o retorno, os projetos de alquimia já não tinham mais a mesma mistura complexa com a engenharia, apenas em raros casos. Peças de robôs não eram mais vistas, tampouco as pequenas maravilhas que se moviam sozinhas e eram feitas de muitas pecinhas. No ponto de vista do público, é como se a tecnologia tivesse atrasado seu progresso em alguns anos.

    Senzo veio com muita insistência por parte de Nuito para a feira. Acompanhado dele, bem como de Miraya e Ember, o grupo segue tranquilamente pelas barracas, evitando muita conversa com as outras pessoas. Elas ainda colocam os olhos em Senzo, e ele acaba ficando mais pálido do que de costume. Em inúmeras mesas, é possível ver machucados se recuperando instantaneamente, animais diminuindo de tamanho, pequenas mutações como uma cauda a mais, e até um hamster com supervelocidade, que atraiu bastante gente. Talvez o maior destaque daquela feira foi um remédio que fez um homem cego voltar a enxergar, mas o grupo não conseguiu chegar lá no momento em que aconteceu.

    Eles param em frente de uma barraca onde há vários alunos demonstrando soluções simples para problemas do cotidiano. Um deles era um garoto de 16 anos mostrando um anel que gerava açúcar infinito a partir do oxigênio, sendo usado para adoçar líquidos. Senzo está distraído e avoado, então não reparou quando o próprio criador do anel o chamou.

    Miraya o cutuca e ele percebe o jovem o encarando. Novamente fica incomodado.

    — Você é Senzo, não é? Senzo Damasukas! Eu queria muito que você me dissesse o que acha da minha invenção!
    — O... Quê? — Balbucia em resposta, não prestando muita atenção no que ele diz.
    — Meu nome é Udel, eu criei esse anel que pode gerar açúcar infinito! Veja, veja! — Disse, usando a ponta do anel, uma espécie de bola com formato octógono tridimensional, mergulhando-a num copo cheio de leite. Depois, ele o oferece.

    Todas essas coisas me dão ódio.


    Senzo encara o copo enquanto o tempo parece correr devagar. É muito estranho para alguém como ele receber esse tipo de atenção, como se alguém o admirasse. Ele sente ao mesmo tempo que a pessoa parece se rebaixar e se inferiorizar frente a ele, como se ele fosse a figura mais importante do mundo, quando nem passa pela sua cabeça algo assim. É um sentimento estranho, que o dá náuseas e faz sua cabeça formigar.

    Ser admirado parece lhe dar nojo.

    — Posso? — Pergunta Miraya para o garoto, tomando o copo de sua mão sem que ele pudesse reagir a tempo. Ela toma um gole um pouco longo e dá de volta para ele.

    Senzo e Nuito a encaram de forma estranha, mas ela parece ter gostado da invenção.

    — Eu gostei! Uma invenção simples, mas muito útil. Dá o açúcar na dosagem certa. É ótimo pra quem não tem tempo nem de ir pegar o pote de açúcar no armário e ainda é bonito.

    Apesar da resposta positiva de Miraya, o garoto não parece satisfeito.

    — Me desculpe, mas eu pedi apenas a opinião do Senzo e de mais ninguém.
    — Ah sim... Tudo bem. Só fiquei curiosa.
    — Espere que logo chamo vocês, pode ser?

    Pois me lembram dele.

    Senzo ouve aquilo e logo em seguida olha para Miraya, que assente para a resposta do estudante com um sorriso triste. E para Senzo, aquilo é um rosto muito mais triste do que aparenta. Que esconde muito mais sentimentos do que alguém pode imaginar. Pois Miraya é assim: Alguém pouco sentimental por fora, mas incrivelmente dramática por dentro.

    Isso é o suficiente para irritá-lo de verdade.

    — Sabe o que eu acho da sua invenção, Udel? — Disse Senzo, encarando o garoto, que não responde.

    O rapaz pega o copo e atira ele no chão, com muita raiva. Isso atrai vários olhares diretamente para o grupo.

    — Horrível. — Disse, com uma voz alta, porém rasteira e odiosa. De nojo.
    — O... O quê? P-Por quê? — Gagueja o pobre garoto, assustado com o ato de Senzo.
    — Um anel pra adoçar coisas? O que você tem na cabeça? Quer que os outros enfiem o dedo no meio da própria bebida só pra adoçar ela? Por que você acha que elas usam colheres ao invés da porra de um anel?
    — M-Mas ele p-pode criar pequenos c-cubos que-
    — Não importa o jeito que você explique, nem de como pode ser útil, é horrível. Uma merda. Jogue no lixo. Terá mais utilidade lá do que no dedo de uma pessoa, até porque ele é mais feio do que a sua mãe.
    — Senzo! — Grita Nuito, assustado com a forma que o amigo está atacando o jovem.

    Muitas pessoas estão encarando Senzo, que humilhou o jovem sem nem precisar gritar. Como se fosse algo desnecessário para alguém como ele. Isso assusta até Miraya, que até então não se importava com a forma que Senzo se comportava de vez em quando.

    Sem falar muito mais, ele sai andando entre o público, com um olhar sério e duro. Parece outra pessoa, ao menos para quem o conhece. E sem parar nem olhar para alguém, ele sai da feira, acreditando que foi um grande erro entrar lá dentro.

    Fora do Centro das Almas de Ferro, ele encara o céu, com algumas nuvens quase a cobrir o sol. Provavelmente choverá mais tarde.

    É o clima perfeito para o começo da formação de um homem.






    Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari III

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    Última edição por CarlosLendario; 15-12-2017 às 17:34.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  2. #142
    Avatar de Neal Caffrey
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    OOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH YYYYYYYYYYYYYYYYYEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEAAAAAAAAAAAA AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH

    Caraca, bicho. Prioridades primeiro.

    Este capítulo foi uma obra prima. Já havíamos comentado sobre Senzo antes, e o fato do seu mau humor aparente poder ser facilmente dissolvido com algumas palavras gentis diz algo sobre ele, sinceramente. Lembro-me, certa feita, de ter criado um personagem semelhante, que pretendia ser mau, mas que, no fundo, era um verdadeiro gentleman. Severo Snape feelings.

    E, cá entre nós: engenheiros sendo engenheiros. Qual é o problema com a droga de um anel que faz açúcar? Particularmente, como um cafeinólogo inveterado, bastaria que Udel criasse uma máquina de café que funcionasse sem café e voilà: teríamos chegado ao auge do desenvolvimento humano. Pobre Udel. Talvez a mãe dele nem seja tão feia assim.

    Cara, é inenarrável o prazer de tê-lo de volta. Tão logo acessei o fórum e vi a atualização do tópico, corri até aqui, torcendo pra que fosse um capítulo novo, e não uma postagem postergando o seu retorno. E, oportunamente: Carlos, Carlinhos, Carlão, bah, tanto faz. Todos os três, que na verdade são a mesma pessoa, são excelentes escritores e são exímios criadores de personagens e narrativas. Já disse antes e repetir não mata: Bloodtrip é uma das obras-primas da seção.

    Welcome back, old friend! Espero que, tão provisória quanto foi a retirada, seu retorno seja definitivo.

    Conte comigo. Gratidão eterna por ti e pelo seu trabalho.
    O Exorcismo de Alyssa Amber
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  3. #143
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    HE IS BACK!

    Enfim, assim como o Neal, fico feliz que tenha retornado xD. Agora, sobre o capítulo, conseguiu atiçar minha curiosidade mais uma vez, e isso sem um cliff hanger. Sério, essa p*ta personalidade do Nightcrawler, o seu jeito bem ácido de ser, que escreveu esse capítulo e acabou por encarnar na personalidade do Nightcrawler...

    Continue Carlão. A história está por chegar em seu fim, e tenho certeza de que um fim glorioso ela terá, baseado em seus últimos capítulos, e mais importante, na história como um todo.


    Não espere algo bem elaborado e feito. De resto...

  4. #144
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    Padrão Capítulo 31 - Resmonogatari III

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    OOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH YYYYYYYYYYYYYYYYYEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEAAAAAAAAAAAA AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH

    Caraca, bicho. Prioridades primeiro.

    Este capítulo foi uma obra prima. Já havíamos comentado sobre Senzo antes, e o fato do seu mau humor aparente poder ser facilmente dissolvido com algumas palavras gentis diz algo sobre ele, sinceramente. Lembro-me, certa feita, de ter criado um personagem semelhante, que pretendia ser mau, mas que, no fundo, era um verdadeiro gentleman. Severo Snape feelings.

    E, cá entre nós: engenheiros sendo engenheiros. Qual é o problema com a droga de um anel que faz açúcar? Particularmente, como um cafeinólogo inveterado, bastaria que Udel criasse uma máquina de café que funcionasse sem café e voilà: teríamos chegado ao auge do desenvolvimento humano. Pobre Udel. Talvez a mãe dele nem seja tão feia assim.

    Cara, é inenarrável o prazer de tê-lo de volta. Tão logo acessei o fórum e vi a atualização do tópico, corri até aqui, torcendo pra que fosse um capítulo novo, e não uma postagem postergando o seu retorno. E, oportunamente: Carlos, Carlinhos, Carlão, bah, tanto faz. Todos os três, que na verdade são a mesma pessoa, são excelentes escritores e são exímios criadores de personagens e narrativas. Já disse antes e repetir não mata: Bloodtrip é uma das obras-primas da seção.

    Welcome back, old friend! Espero que, tão provisória quanto foi a retirada, seu retorno seja definitivo.

    Conte comigo. Gratidão eterna por ti e pelo seu trabalho.
    Olha esse Neal obrigado pelo comentário e pelos muitos elogios. Não que eu os mereça.

    É bom saber que o capítulo foi tudo isso pra você, mostra que não estou escrevendo tão mal. Eu dei um certo esforço pra tudo sair ok, do começo ao fim. Notei que ainda tenho certa dificuldade com cenas de casal. Isso provavelmente porque não sou tão experiente no assunto (leia-se não tive vários casos de amor tampouco li trabalhos românticos o suficiente) e penso que estou cometendo algum erro. As melhores cenas mesmo são as que eu posso colocar ação seja através de palavras, seja através de porrada.

    Senzo ser comparado ao Severo Snape até que faz sentido. Agora que você falou, notei certa semelhança entre os dois. Btw, mal tomavam café nessa época ainda, pois se você notar, a história está se passando muitos anos antes do caso atual com Nightcrawler. (Inclusive vocês já deveriam ter notado isso, tô jogando na cara já ) A propósito, também adoro café e preferia que ele tivesse criado algo do tipo também, mas aí seria demais pra um estudante de 16 anos.

    Obrigado mesmo por todos os elogios Neal, mas acho que você exagera um pouco. Ainda assim, se pensa dessa maneira, não irei te parar. Isso me incentiva a continuar com a história, e trazer pra cá o que planejei até então, que não se restringe a Bloodtrip. Basicamente estou confirmando uma sequência. E ela pode acabar sendo mais longa que a história atual.

    Agradeço por tudo e espero que goste desse capítulo!

    Citação Postado originalmente por Senhor das Botas Ver Post
    HE IS BACK!

    Enfim, assim como o Neal, fico feliz que tenha retornado xD. Agora, sobre o capítulo, conseguiu atiçar minha curiosidade mais uma vez, e isso sem um cliff hanger. Sério, essa p*ta personalidade do Nightcrawler, o seu jeito bem ácido de ser, que escreveu esse capítulo e acabou por encarnar na personalidade do Nightcrawler...

    Continue Carlão. A história está por chegar em seu fim, e tenho certeza de que um fim glorioso ela terá, baseado em seus últimos capítulos, e mais importante, na história como um todo.
    Salve Botas, agradeço pelo comentário e pelos elogios.

    Agora, calma lá porra, chegou aqui mais perdido que cachorro que cai de caminhão de mudança. Esse capítulo em questão e suas partes não falam em nenhum momento de Nightcrawler. Aqui temos o personagem Senzo (que já revelei que é Soulslayer, um dos principais da Irmandade) e seus amigos e conhecidos. Estou contando uma história do passado e como ela se conecta com o presente. Eventualmente os pontos se ligarão.

    Mas obrigado pela presença Botas, espero que continue comigo até o final da história. E depois dela também. Falta leitores aqui.









    Pessoal, como disse na resposta acima, estou confirmando que Bloodtrip terá uma sequência. Em 2018 farei o possível para continuar escrevendo e não planejo parar. Estou aqui há cinco anos e planejo ficar mais tempo ainda!

    Agora, vamos seguindo com a história de Senzo.


    Espero que gostem!




    No capítulo anterior:
    Senzo está em seu último ano no colégio Centro das Almas de Ferro e está próximo de receber seu certificado de alquimista. Nuito se tornou um tutor para acompanhar os últimos anos dele. Senzo também conseguiu uma namorada chamada de Miraya, e ela tem apoiado ele em todas as suas criações. E no retorno da Feira Internacional de Maravilhas, o futuro alquimista humilha um dos inventores por ele ter entristecido Miraya, e por estar irritado com a admiração que tem ganhado dos alunos mais novos.




    Capitulo 31 – Resmonogatari
    Parte 3




    Faz horas desde que a feira terminou, mas Senzo não saiu de sua casa. Sentado no banheiro embaixo do chuveiro*, ele nota seu medo por si próprio, bem como um leve desespero. Está confuso e nervoso. Viu seus únicos amigos o olharem como todos pareciam olhar para ele quando criança, em momentos onde parecia outra pessoa. Como se um alterego se levantasse das sombras para fazer o que ele não tem coragem.

    Está escuro no banheiro. Isso ajuda ele a se lembrar dos rostos de todos. Até mesmo de sua amada, que estava assustada com ele. Eu sou assim?, pensa. Eu sou realmente assim?

    Sim. Eu sou assim. Esse monstro sempre foi Senzo. Esse corpo magro e pálido, esse olhar perturbado, nervoso e louco. Isso tudo sou eu.


    Mas eu raramente sabia disso.

    Ele me fazia esquecer disso. Aquele maldito Nuito.

    Ele me fazia pensar que eu sou alguém bom.

    Eu nunca fui bom.


    Duas vozes. Tons diferentes, tempos diferentes, mas o mesmo pensamento.

    Senzo percebe que não pode ficar assim, recuado, sentado em posição fetal embaixo da água, pensando que seus problemas irão embora com o tempo. Isso é impossível.

    Ele não é uma boa pessoa.

    Com isso, ele se levanta, fecha os olhos por um momento, e abre-os de novo. Gira o registro do chuveiro e sai do box, com um olhar sério. Ele precisa lembrar-se daquela sensação de quando saiu do colégio, olhando para o céu. Não foi há anos, nem há meses, tampouco semanas. Foi há poucas horas. Não há dificuldade alguma nisso.

    — Senzo! O amor da sua vida tá na porta! Se arruma direitinho pra receber ela! — Grita sua mãe, do lado de fora do banheiro.

    Normalmente, Senzo sente uma mistura de vergonha com nervoso ao ouvir sua mãe mandar uma frase dessas. Mas hoje é diferente.

    Hoje ele começou a mudar.


    Passam-se alguns minutos e Senzo vai em direção da sala, arrumado, com uma camiseta branca e calças verdes. Lá, ele encontra Miraya e apenas ela, sentada num sofá laranja, usando a mesma blusa levemente roxa do encontro de meses atrás e uma saia roxa que vai até além de seus joelhos. Seu olhar parece preocupado, mas ela ainda assim dá um pequeno e gentil sorriso ao vê-lo. Por pouco Senzo não se derrete todo mais uma vez.

    — Vem cá. Não vou te morder.

    Um tanto ofendido, Senzo senta ao lado dela. Ele fita a mesinha de mármore em frente deles, com um tapete marrom embaixo. Em seguida, para as diversas lamparinas que iluminam bem o cômodo. A janela que dá para o corredor que vai para o quintal, no lado direito da casa, mostra as luzes fortes do lado de fora de casa, que se encontra envolvido por uma noite mais fria que o normal. É até possível que neve, considerando o período do ano.

    Senzo quer ser mais firme, mas, como esperado, a garota não deixa. Ela repousa sua cabeça em seu ombro e o abraça. Nos segundos seguintes, era difícil prever o que iria acontecer.

    — Miraya, eu...
    — “Não sou bom”, é o que queria dizer?

    As vezes o rapaz se assusta com a forma de como a garota o entende antes mesmo dele explicar alguma coisa.

    — Bobagem. Você apenas se descontrolou. Não gostou de como o garoto agiu comigo. Normal.
    — Aquilo não foi normal, Miraya...

    A garota, no entanto, não responde. Isso dá um certo desconforto em Senzo.

    — Não... Foi normal, sim. Aquilo era eu de verdade. Um homem cruel e sem coração, cujas falas são mais afiadas que o aço e machucam mais que mil espadas. Eu queria falar isso pra aquele garoto. Eu quis humilhá-lo. Eu quis vê-lo gaguejar. Ver seu ídolo fazer da sua primeira feira ser a última.

    Miraya permanece sem responder, olhando para o chão. Senzo não vê opção senão continuar.

    — Eu vou continuar sendo assim, e tanto faz o que falarão de mim. Ignorarei professores criticando minha atitude, minha personalidade. Os mandarei pro inferno e continuarei a ser o mesmo de sempre, sem amigos, sem ninguém. Vou terminar esse ano e sumir de Yalahar. Aqui não é mais o meu lugar.

    Ele respira fundo, ao mesmo tempo que Miraya. Ela se afasta e deixa as mãos juntas as pernas. O jovem já sabia bem o que escolheu.

    — Me desculpe, Miraya. Se não quiser continuar comigo, tudo bem. Eu entendo. Não sou dos melhores homens mesmo. Na verdade, sou só um garoto.

    De forma abrupta, Miraya se levanta, e Senzo já imagina que ela irá embora sem falar nada. Ao invés disso, ela se espreguiça, vira-se para o rapaz e senta em seu colo, de frente para ele. Beija-o sem cerimônias, sem se importar que os pais dele estão por ali, dentro da casa. Sua irmã já deixou o lugar há tempos.

    Ao deixá-lo, ela o encara com um olhar sério com um misto de desejo.

    — Fique quieto. Não deixe essa aura viril que nasceu em você agora desaparecer.
    — Hã? — Indaga o rapaz, totalmente confuso com o que Miraya estava fazendo.
    — Estou dizendo que você foi muito sexy agora. Só isso.

    Eles se encaram por alguns segundos, sem resposta.

    — O quê? Será que você pensava que eu não era capaz de fazer ou dizer algo assim? Que eu sou muito comportada ou CDF pra tal?
    — Eu... Nunca duvidei. Eu acho.

    Miraya sorri e lhe dá um segundo beijo. E antes que pudessem perceber, já estavam no quarto, em cima de uma cama, com a porta trancada. Miraya está em cima dele, os dois se encaram sem fazer nada. Nem beijos, nem toques, nem uma peça de roupa retirada. Senzo está em total dúvida do que fazer em seguida, até mesmo do que perguntar. Mas tem uma ideia de última hora.

    — Você... Já fez isso? — Pergunta o rapaz, curioso e confuso.
    — Por que você não descobre? — Responde ela, com um sorriso zombeteiro.

    E, felizmente, ninguém escutou nada do que veio a acontecer depois.


    ~*~

    O ano é 330.

    Por algum tempo, Senzo pensou que acabaria tendo um filho quando esse ano chegasse, mas nada aconteceu. Sua estadia em Carlin estava tranquila com Miraya, sem a necessidade de novos membros em casa.

    Sentado na mesa do pequeno laboratório que construiu no primeiro andar da sua casa, ele olha para a carta de Nuito que acabou de ler. Deixou Yalahar um ano atrás. No mesmo período em que criou aquilo que está em pelo menos sete potes cheios, guardados num armário com portas de vidro. Aquilo que ele chama de Nancore.

    Tanto a mesa quanto a cadeira onde está sentado foram criados a partir do material. Até mesmo a camisa social azul escura que está usando. Ele lembra-se de como começou a desenvolver tal mágica, e lembra-se do que estava faltando na sua explicação do Nancore, que se encaixava perfeitamente com o conceito da alquimia: A Lei da Troca Equivalente.

    Dentro da história da alquimia, Senzo lembra-se do poderoso mago que um dia foi um grande cientista, conhecido pelo nome de Ferumbras. Seu nome é proibido e sua ilha extremamente temida. Senzo baseou-se nele, pois ele foi o criador da chamada Pedra Filosofal, que era usada para criar qualquer outra coisa por ser equivalente a qualquer coisa. O conceito do Nancore é igual: Ele é equivalente a tudo, ele cria tudo.

    Ainda assim, ele não ousou chamar-se de Deus até agora.

    Esteve vendendo as cadeiras, mesas e outros objetos que fez de forma disfarçada. Vendia para os principais vendedores de móveis de Carlin apenas para que eles revendessem, como se fossem os criadores. No fim, ele não se importa se tomarem o título da criação dos itens que fez, pois o que criou até então não se compara com o Nancore. Além disso, a venda desses itens dá dinheiro suficiente para ele e sua amada noiva viverem sem problemas. Mesmo que Carlin não goste muito de homens.

    Alguém bate na porta. O pequeno laboratório tinha apenas uma mesa larga e duas mesas logo adiante vazias, além dos quatro armários de madeira nas paredes da esquerda e da direita. Nada a esconder. Com isso, ele pede para que entrem.

    — Boa tarde. Estaria eu incomodando o futuro segundo senhor de Kharos?

    Quem está ali é responsável pela Guilda dos Feiticeiros de Carlin. Alguém anterior a Lea. Bem anterior.

    — Se não é Aria Ahrabaal. Entre.

    A moça alta e magra entra no recinto e fecha a porta. Usa um vestido negro, uma capa verde-escura com vários ornamentos e sandálias brancas, além de vários braceletes de várias cores e um colar com um símbolo de uma fênix, por cima de outro, com uma moeda roxa. De cabelos negros e longos, um pouco mal arrumados, olhar sério e firme, essa mulher não passa um ar de elegância, mas sim de tensão. É como se ela fosse explodir tudo num instante, com um estalar de dedos. Mesmo que ela atraia um pouco de atenção com suas coxas e bumbum maiores que a média.

    Embora Senzo não sinta medo dela, ele prefere manter-se reservado e de poucas palavras, em respeito a ela. Carlin dificilmente manteria a feitiçaria se não fosse por alguém com pulso firme e aura de poder. Puro poder. Até porque sempre correu rumores pela cidade que ela não podia ser derrotada, que sua força mágica era infinita. Entretanto, Aria sempre desmente esses rumores, alegando que seus poderes tem um limite. Embora ninguém tenha conseguido forçar ela ao limite até hoje.

    — Diga, o que deseja hoje?
    — Quis visitá-lo. E relatar algo importante, já que você é uma das poucas pessoas que confio.
    — Certeza que não deseja nada? Sabe que posso lhe dar qualquer coisa. — Disse, tomando um pote pequeno com o mesmo líquido branco. Ele derrama um pouco do conteúdo na mesa, e em dez segundos, ele toma a forma de um sapato com asas. Botas de Velocidade. — Qualquer coisa.

    Ela observa o calçado. Não pode negar que o poder daquilo era realmente tentador, e que deseja ao menos um pouco para fazer algo do seu agrado. Mas esteve resistindo a todas as ofertas do alquimista até então. Seu orgulho é mais forte.

    — Não, obrigado. Certeza que já criou tudo que podia em Yalahar? Seus negócios em Carlin continuarão até quando?
    — Aí que você se engana. Eles não acabarão. Permanecerei aqui com minha noiva o quanto for possível.
    — Acredito que faria muito mais fora daqui.
    — Por causa da rainha? Ah, não se preocupe. Se eu realmente tiver interesse em criar coisas melhores, posso ir para outro lugar. No momento, ainda estou testando o Nancore devagar e aos poucos. E como eu disse inúmeras vezes pra você, não sou um segundo Ferumbras ou seja lá o que você pensa.
    — Ainda espero pela criação de um segundo Orbe da Natureza. E que você seja o cérebro por trás dele.

    Senzo pigarreia e olha para o nada, ignorando o último comentário.

    — Estive investigando alguém da casa dos Alarstake que foi para o tal mundo por trás do Orbe. Eu soube que essa mesma pessoa esteve observando você.

    O homem levanta uma sobrancelha.

    — Quem seria?
    — Teros Jarili Alarstake. Ele é um espião e um bruxo formidável, também, sendo o sétimo na linha de sucessão da liderança da casa. Ele sabe que você é o alquimista renomado de Yalahar que trabalhou ao lado de Nuito, hoje um biólogo estudando espécies em Tiquanda. Caminhos totalmente opostos, devo dizer. Mas como as propriedades deles não ficam tão distantes de Carlin, é natural que coloquem os olhos em alguém como você.
    — Por isso perguntou quando eu irei embora?
    — Exatamente.
    — Quem diria que em apenas um ano, você, a impermeável Aria, se preocuparia com o meu bem-estar ao ponto de pedir para que eu fuja. Estou realmente sem palavras.
    — Não abuse do sarcasmo, Senzo. Sou uma mulher reservada demais para engolir palavras sem sentido.
    — Perdão, não resisti. — Disse, com um pequeno sorriso. Está tentando não mudar a atmosfera da conversa — Além de Teros, há mais alguém atrás de mim?
    — O detetive Cawlo Oraille, de Venore.

    Conhecia esse nome. O próprio Nuito conhece o individuo, dizendo que ele é um dos melhores detetives que já viu, e corre por alguns lugares rumores de que ninguém jamais escapou dele. Ele engole em seco, batendo o dedo na mesa com agitação.

    — Pois bem. Sairei de Carlin em dois meses.


    ~*~


    Alguns meses após a audiência, Senzo habita agora Ankrahmun, lar das inúmeras pirâmides e casas de arenito, quente e inconquistável, protegido por antigos faraós e potência no sul. Além da Baía da Liberdade, é um ótimo local para comércio de tecidos e tapeçarias, bem como joias e diversos artefatos, riquezas como os vasos mais finos e os utensílios mais bem trabalhados para o lar.

    Mas tudo isso é irrelevante para Senzo. Miraya sempre expressou um desejo por viver nessa cidade. Não poderia estar mais feliz decorando a casa onde vivem agora: Uma das pequenas pirâmides habitáveis, próxima do centro da grandiosa cidade desértica. O dinheiro pra consegui-la só foi possível após o alquimista conseguir, com sucesso, gerar uma falsa joia rara, de coloração púrpura, garantindo que foi um grande achado de um distrito abandonado de Yalahar. Vendida a preço milionário em Carlin, ele desapareceu em dois dias de lá junto com sua amada, desmanchando seu laboratório e sumindo com seus documentos no processo.

    Agora, ele vende mais que mobília: Vende também pequenas joias, como se fossem achados de Yalahar. O mesmo relata para seus poucos – mas riquíssimos – compradores que trouxe-as da cidade dourada, local que quase ninguém dali visitou alguma vez na vida. Seu negócio atraiu até mesmo os olhares do grão-vizir, que convidou-o para um jantar, com o objetivo de discutir sobre assuntos e relatos da sua terra natal. Mesmo que o grão-vizir seja apenas uma múmia que não come nada.

    A mudança foi positiva para Senzo, pois Nuito está vivendo em Porto Esperança. Cruzar Tiquanda não é uma opção, até porque ainda não há uma trilha definida que conecte ambas cidades em segurança, mesmo que já se saiba que elas ficam no mesmo continente. Dessa forma, essas cidades usam navios para chegar de um lugar até o outro.

    Naquele dia em especifico, ainda no ano de 330, Senzo está recebendo Nuito, após ambos ficarem sem se falar por um bom tempo. Miraya está em uma casa de banho das redondezas. Tudo parece perfeito para eles.

    — O Nancore realmente te gerou belos frutos! — Disse Nuito, sentado num sofá amarelo, na sala principal da casa — Essa casa é incrível. Na verdade, Ankrahmun é incrível. Mesmo que as vezes esse lugar pareça cheirar a morte.
    — Normal para uma cidade que faz múmias atrás de múmias. E ainda é protegida por outras múmias. Já viu o Grão-Vizir? — Disse Senzo, sentado numa poltrona branca, próxima do sofá.
    — Inclusive já vi o Faraó. Ele é bastante cultuado e respeitado aqui. Como se fosse um Deus.

    Maldição. Ele atiçava desejos de poder que nunca tive.

    — Deve ser bom a beça ser um Deus.

    Senzo sente-se incomodado com algo no que acabara de falar. Talvez com o quão ganancioso pareceu.

    — É, e existem vários deuses por aí. Por exemplo, Fafnar, o sol. Ela feriu gravemente a deusa do mar, Bastset, o que enfureceu seu irmão apaixonado pelo mar, Suon, fazendo ele a perseguir por toda a eternidade para se vingar. Por isso que temos ciclos de dia e noite. É minha lenda preferida.
    — Não passa de lenda. Nunca acreditei nessas coisas.
    — Você é ateu ou coisa assim?
    — Pode-se dizer que sim, pode-se dizer que não. Nunca vi motivo para orar ou pedir benção dos deuses. Não tenho nada mais a reclamar de minha vida, Nuito. Eu inclusive não estou mais pensando em fazer alguma coisa depois do Nancore.
    — Mas você poderia desenvolvê-lo mais ainda! E se você conseguisse moldar coisas ainda maiores que os simples itens que você faz? E se você conseguisse fazer até dragões surgirem do Nancore?

    E se eu sou assim hoje, é TUDO culpa dele.

    — Nuito, isso é loucura. Se esse poder cair em mãos erradas, o que você acha que vai acontecer com Tibia?
    — Bem... — Balbucia Nuito, coçando atrás da cabeça — Eu admito que exagerei um pouco agora, mas o que eu quero dizer é que alquimistas sempre buscam melhorar, e nunca se acomodar porque já fizeram demais. Já te compararam com o Lorde de Kharos?

    Por alguma razão, o ar pareceu mais pesado e até mesmo o chão parecia estranho. Como se vários corpos estivessem se movendo embaixo dele. Os faraós não gostam desses comentários, pensa Senzo.

    — Já. E não planejo ser como aquele infeliz.
    — Você poderia ser melhor do que ele. E eu estou disposto a te ajudar.

    Senzo fica algum tempo calado. Depois, ele levanta e se dirige a janela, com os braços cruzados, pensando. Nuito estava com um pequeno pote de cerâmica no colo com alguns biscoitos, dos quais ele ia comendo sem se importar se alguém iria querer também.

    O jovem alquimista está pensando sobre o Nancore, e que, de certa forma, Nuito está certo. Aquilo ainda não está completo. Falta mais pesquisa, mais testes, mais aprimoramentos. Sua invenção ainda está fraca, e ele está só começando. Afinal, enquanto ele esteve parado, Nuito esteve avançando como nunca antes, desenvolvendo curas e remédios para as mais variadas doenças que podiam ser pegas em Tiquanda ou em outro lugar, apoiando a medicina mundial e mapeando cada ser vivo que encontra por lá. Nuito esteve sempre avançando, mas Senzo se acomodou por ter conseguido uma mulher que o ama incondicionalmente e pela criação daquela invenção que cria tudo do zero.

    — Verdade, Nuito. Eu posso ser melhor. Afinal, o Nancore não passa de uma invenção incompleta. Um criador de cópias.
    — Nunca me passou pela cabeça que ela estava incompleta ainda, cacete. O que falta?

    Senzo vira-se para ele com um sorriso. Um bem ganancioso.

    — Exatamente o que você disse. O poder de criar dragões do zero.






    Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari IV








    Nota:

    * Eu decidi que Yalahar teria uma tecnologia superior a todo o resto de Tibia, desde ter sistemas de encanamento e eletricidade até a criação de robôs e autômatos. Eu acredito que, caso eu acabe criando uma sequência, eu possa explicar melhor como os tibianos evoluíram, assim dando pano pra manga pra eu colocar algumas criações minhas em ação.
    Última edição por CarlosLendario; 27-12-2017 às 12:21.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  5. #145
    Avatar de Senhor das Botas
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    Salve Carlão.

    Enfim, primeiro quero agradecer pela confusão. Confesso que tive de puxar da memória e reler algumas partes, mais especificamente as do "Hakugai" e do "Nightcrawler". Alguns trechos interessantes:

    — Você se chamava de Nuito há décadas atrás. Deveria lembrar de quem eu sou. Ou de quem Senzo sempre foi para você...

    ...Nightcrawler começa a sentir o seu peito ficar apertado. De alguma forma, ele sabia do que ela falava. Cada fala dela é como se fosse algo real acontecido há muitos anos atrás
    — Memória falsa...? — Murmura Nightcrawler, com uma voz sombria. Como se tivesse sido possuído. — Tudo aqui é falso. Esse momento. Os momentos anteriores. Essa vida que você tem. É tudo falso!
    E AGORA:

    Suzio vê a si mesmo mais novo. É dia, e o pântano de Green Claw, mesmo distante, enche seu nariz com um péssimo cheiro. E naquele lugar, no limite para as Planícies do Horror, ele aguarda, abaixo de uma árvore, alguém importante...


    ...O rapaz, tendo apenas vinte e seis anos nessa época, era um mago prodígio...
    Acho que deve ter sido aí a minha confusão. Não me lembrava de Nightcrawler, SUPOSTAMENTE, ter sido Nuito (um biólogo famoso, que acabou por virar um mago... Ou é o resultado de uma memória falsa, rs). Mas mesmo assim, após reler estou meio desconfiado do possível rumo que tudo isso pode tomar, e te conhecendo, não vai ser algo ordinário.



    Enfim, embora a Irmandade seja composta de fanáticos que supostamente assassinam/matam tudo em prol de um ideal, e o fazem por quaisquer meios necessários, após dar uma relida nesses capítulos que mencionei, e nesses capítulos do passado de Senzo... Sei não, ainda acho que você vai brincar mais com o conceito de "bom" e "mau" e "os fins justificam os meios" mais a fundo, e creio que Varmuda ainda vai ter uma participação maior na história. Se não for maior do que já tem nessa, com certeza na continuação que você anunciou.

    Enfim, espero que você não me engane na sua resposta, de que esses capítulos recentes não falem em NENHUM momento do Nightcrawler... E é isso. Estou incerto de minhas próprias interpretações do que está para ocorrer, e aguardo o desfecho de tudo





    Última edição por Senhor das Botas; 23-12-2017 às 22:54.


    Não espere algo bem elaborado e feito. De resto...

  6. #146
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    Padrão Capítulo 31 - Resmonogatari IV

    Citação Postado originalmente por Senhor das Botas Ver Post
    Salve Carlão.

    Enfim, primeiro quero agradecer pela confusão. Confesso que tive de puxar da memória e reler algumas partes, mais especificamente as do "Hakugai" e do "Nightcrawler". Alguns trechos interessantes:





    E AGORA:



    Acho que deve ter sido aí a minha confusão. Não me lembrava de Nightcrawler, SUPOSTAMENTE, ter sido Nuito (um biólogo famoso, que acabou por virar um mago... Ou é o resultado de uma memória falsa, rs). Mas mesmo assim, após reler estou meio desconfiado do possível rumo que tudo isso pode tomar, e te conhecendo, não vai ser algo ordinário.



    Enfim, embora a Irmandade seja composta de fanáticos que supostamente assassinam/matam tudo em prol de um ideal, e o fazem por quaisquer meios necessários, após dar uma relida nesses capítulos que mencionei, e nesses capítulos do passado de Senzo... Sei não, ainda acho que você vai brincar mais com o conceito de "bom" e "mau" e "os fins justificam os meios" mais a fundo, e creio que Varmuda ainda vai ter uma participação maior na história. Se não for maior do que já tem nessa, com certeza na continuação que você anunciou.

    Enfim, espero que você não me engane na sua resposta, de que esses capítulos recentes não falem em NENHUM momento do Nightcrawler... E é isso. Estou incerto de minhas próprias interpretações do que está para ocorrer, e aguardo o desfecho de tudo
    Diga aí Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios.

    De fato eu te confundi por causa da Miraya se referir ao Suzio como Nuito, mas isso é pra criar um mistério e uma confusão na mente do leitor mesmo, principalmente por causa da Redchain e da esposa do Senzo serem a mesma pessoa, apesar de ter um século de diferença entre os tempos de cada história. Vou explicar isso detalhadamente nos próximos capítulos, e acredito que esse arco do Senzo ainda irá durar mais um pouco. Isso porque ele é um personagem extremamente importante pra história, embora eu não tenha deixado isso claro ainda.

    Varmuda vai ter mais destaque só na próxima sequência mesmo, como você disse.

    E não vou enganar não, relaxa.








    Galera, feliz ano novo atrasado! Obrigado pela presença e pela contribuição que fizeram durante todo o tempo em que Bloodtrip esteve de pé. Fiquem com o primeiro capítulo de 2018!





    No capítulo anterior:
    Senzo aceita seu lado ruim e foca em desenvolver o Nancore. Vai para Carlin após se formar, mas Aria, líder da Guilda dos Feiticeiros de Carlin, sugere que ele vá embora pois ele está na mira de um detetive veterano. Ele leva Miraya para Ankrahmun pra viverem lá, e Nuito o visita. Ele sugere que Senzo comece a melhorar ainda mais sua invenção.




    Capítulo 31 – Resmonogatari
    Parte 4




    Senzo deita em sua cama, frustrado.

    O ano é 331. Nos últimos meses, o alquimista se dedicou a melhorar o Nancore, usando das mais variadas fórmulas e soluções para testar qualquer reação, mas o problema é que o líquido simplesmente aumentava de tamanho ao invés de mudar ou ganhar mais força ou poder. Apesar de ter leituras ou assinaturas diferentes em sua textura, mesmo que fosse totalmente diferente do Nancore em si, ele nunca mudava. Continuava o mesmo.

    Pra piorar, o Nancore não gera criaturas vivas; apenas objetos inanimados. Senzo já tentou até mesmo ressuscitar uma múmia que conseguiu de um comerciante misterioso, dando-lhe o poder de sua criação, mas não funcionou. Tampouco zumbis ou qualquer morto-vivo ganhavam vida, apesar de estarem na terra dos mortos-vivos.

    Sua criação também tinha tempo limite em sua criação. Ao analisar uma joia que ele criou há quase dois anos com magia, ele concluiu que o objeto não duraria mais do que doze ou treze meses sem virar pó.

    Senzo está totalmente frustrado. Irritado. Desanimado. Sua criação é perfeita – Embora ela desapareça em pouco tempo, ela é perfeita em sua forma, sem precisar de mudanças. Não há como evoluir o que já é perfeito. Dessa forma, ele não sabe mais o que usar.

    No meio de suas indagações, ele escuta um barulho no andar de baixo. O quarto onde ele está fica no andar superior, bem como banheiro e seu laboratório. O barulho pareceu ter sido feito exatamente abaixo de onde ele está – como uma espécie de biscoito esquecido abaixo do sofá. Mas, para esse som ser feito, é preciso primeiro tirar o móvel de cima.

    Ou seja: Sua casa está sendo roubada.

    Senzo levanta rápido, mas silenciosamente, e se dirige ao guarda-roupa de madeira à esquerda da sua cama. De uma das oito gavetas, ele retira um objeto do tamanho da palma da sua mão e prende na lateral esquerda de suas costas, protegida apenas por sua camiseta branca. Ele ativa o objeto movendo o braço. Célula de Ferro com uma lâmina afiada na ponta, pronta para ser usada.

    Ele olha para Miraya. Ela está num sono profundo, como se estivesse livre de pensamentos. Apesar deles não terem tido um filho ainda, mesmo estando casados atualmente, e mesmo que ele próprio não dê muita atenção pra ela, ainda nutrem um amor de jovens difícil de ser derrubado. Um compreende bem o outro. E é por isso que Senzo sente muito medo de perdê-la, dessa forma, aumentando seu medo e preocupação quando nota que sua propriedade está sendo invadida por alguém.

    Ainda preocupado, ele também toma um frasco de vidro com Nancore dentro para alguma eventual situação, e sai do quarto ainda em passos bem silenciosos. Está descalço e atento a sons. Sabe que o gatuno tomará mais cuidado agora que fez barulho, dessa forma, ele próprio precisa de cuidado redobrado para não ser notado.

    Ele desce devagar a rampa de arenito para o andar inferior. Mal pode acreditar quando localizou o larápio fuçando um dos armários da sala. Um sujeito de turbante cinza escuro, calças brancas largas e cheias de estilo desértico, usando um gibão marrom de mangas longas. Está descalço, e na cintura, leva uma cimitarra. Tem uma mochila nas costas, provavelmente com algo roubado da casa.

    Senzo mantém uma aproximação cautelosa, mas ao notar vidro no chão, juntamente de sua invenção, o Nancore, em pequenas quantidades – provavelmente algo que ele escondeu na cozinha para casos assim – ele irrita-se profundamente. Na sua visão, sua criação parece inútil pro ladrão, que simplesmente dispensou aquilo. Então, ele percebe que aquilo foi a origem do som. Um habilidoso ladrão que parece ter ignorado o valor daquela coisa branca.

    Mas algo não parece estar certo. Por que diabos um ladrão jogaria vidro no chão de uma casa onde há pessoas vivendo, justamente enquanto está roubando, e nem mesmo pensa em ir embora?

    Existem poucas coisas que se pode pensar nessa situação.

    A primeira seria de que o gatuno não passa de um ladrão de galinhas, um pé de chinelo, que está tentando melhorar suas próprias habilidades passando de roubos simples como bater carteiras diretamente pra roubos domiciliares. Mas isso não parece fazer sentido, afinal, ele normalmente faria mais barulho que aquilo, e como Senzo ainda estava acordado quando ele entrou, provavelmente escutaria mais que um vidro se quebrando, mesmo se perdendo em pensamentos e achando que o barulho foi um biscoito sendo esmagado ao invés de vidro caindo. Praticamente impossível de ser o caso.

    A segunda seria de que ele é um ladrão experiente contando com a sorte. Como Senzo fica boa parte do tempo no laboratório do andar de cima, um local com uma única janela que fica escuro boa parte do tempo, recebendo pouca iluminação, geralmente provinda de lamparinas e esferas luminosas, e Miraya dorme cedo, o ladrão aproveitou para ter menos cuidado, pensando que o casal está dormindo há horas e não acordará no momento em que ele agir. Isso fez ele ser mais descuidado. Muito difícil de ser o caso.

    A terceira seria de que o ladrão não está se importando com o barulho que fizer. Que o ladrão não é um ladrão, e sim um bandido sem honra que sabe que está armado e sabe que o casal não conseguirá fazer nada contra ele. Mas um bandido não entraria sozinho numa casa daquele tamanho, afinal, ele não tem as mesmas habilidades de um ladrão renomado. Estaria acompanhado de mais gente. Pode moderadamente ser o caso.

    A quarta seria de que o ladrão não está sozinho, e fez aquilo para atrair Senzo e emboscá-lo junto do companheiro. Entretanto, sabe-se que em Ankrahmun, os ladrões sempre agem sozinhos, justamente pra evitar serem pegos pelas autoridades por estarem acompanhados, assim dificultando as chances dele ser localizado. Nesse caso, deveria ser um assassino no lugar de um ladrão. Entretanto, um assassino não rouba casas, não faz barulho de propósito, não atrai ninguém até ele, tampouco usa uma mochila nas costas. Se o alvo está dormindo, ele não vai querer criar situações para matá-lo de outras formas, simplesmente irá ceifá-lo em seu sono de uma vez. Impossível de ser o caso.

    A que sobra é a mais complicada e estranha possível. Um ladrão acompanhado de outro que atraiu Senzo de propósito para a sala, para capturá-lo, e ele está esperando em algum canto do cômodo para emboscá-lo, prendê-lo e então fazer o mesmo com Miraya para conseguirem saquear a casa e irem embora sem interrupções. É estranha, pois o alquimista não se destaca em Ankrahmun o suficiente para ser alvo de tal emboscada, e se caso ambos sejam ladrões e tenham essa inteligência e habilidade toda, é mais possível que sejam assassinos e ladrões ao mesmo tempo.

    Parece que é o caso.

    Senzo vira para trás em uma incrível velocidade e golpeia o escuro. Seu golpe é aparado por uma cimitarra, e feito isso, ele salta para trás, evitando pisar no Nancore. Sua visão periférica o faz se abaixar por reflexo ao notar que um dardo estava para ser lançado em sua direção, e ele percebe que está certo ao ouvir o barulho do objeto se chocando contra a parede. Com a Célula de Ferro, ele assume uma posição defensiva, conforme vê a aproximação dos dois indivíduos de turbante armados.

    Ele está irritado, mas também com medo. Mal tem experiência de combate, apesar de Ember no passado já ter lhe ensinado algumas coisas sobre manusear espadas, arcos e defesa contra armas do tipo. Apesar de ter acertado em seu pensamento, é chocante notar que ambos estão armados e parecem querer matá-lo. Ele pode estar certo e errado no que pensou.

    Felizmente, ele aprimorou algumas vezes sua criação, e adicionou algumas novas funções. Dessa forma, ele ativa uma pequena alavanca próximo da ponta do objeto, e a arma se abre nos lados e libera algumas peças de aço douradas que podem auxiliar na proteção de seu braço enquanto executa seus golpes. Logo, seu braço está envolvido por diversas peças de aço de formato retangular, e cada uma possui pequenos compartimentos para guardar dardos.

    Os dois indivíduos se afastam. Em poucos instantes, ele começa a atirar vários dardos bem pequenos na direção deles, provavelmente contendo veneno. Ambos não conseguem evitar todos e acabam sendo pegos por alguns. Um deles se irrita e avança contra Senzo, aos grunhidos. Mas antes que ele pudesse realmente fazer algo com sua cimitarra, ele escorrega no líquido branco no chão, e o alquimista aproveita para golpeá-lo com a Célula de Ferro. Comicamente, o ladrão recuperou o equilíbrio ao ser golpeado.

    A lâmina dá um tranco para trás e Senzo afasta seu braço, ao mesmo tempo em que o homem se afasta a passos dolorosos. Sangue sai de sua ferida, e ele se choca contra um sofá próximo, sentando no chão e deixando a cimitarra cair. O outro, ao ver a cena e o perigo da arma que o residente daquela pirâmide usa, decide desistir e tentar correr. Mas Senzo leva seu braço pra trás, como para pegar impulso, enquanto as proteções no seu braço se enrijecem e se afastam, e soca o ar, ao mesmo tempo em que sua incrível invenção se lança em direção do ladrão. A peça de ferro que lembra um tentáculo parece criar sua extensão sozinha, conforme se aproxima do alvo.

    Ao acertá-lo na lateral das costas, a alça da sua mochila é cortada, fazendo ela cair no chão ao mesmo tempo que o larápio tropeça devido ao poderoso golpe da arma. Ele acaba caindo e batendo a cabeça na quina da janela por onde planejava sair, ficando inconsciente. Dois imbecis, pensa Senzo, enquanto sente-se mais aliviado que tudo acabou sem ele se machucar. As lições de Ember foram úteis, no fim.

    Antes dele começar a ir em direção da mochila vermelha do homem, ele olha para o chão e vê algo estranho. Bem estranho.

    O individuo ainda está vivo, apesar de estar sangrando consideravelmente. O sangue vai em direção do Nancore que ainda não foi espalhado pelo seu pé, e converte ele para uma cor vermelha. A forma dele parece ter mudado um pouco, ficando levemente mais macio e menos grosso. Não parece mais tão viscoso como outrora, e parece exibir pequenas veias escuras, parecidas com as humanas.

    Boquiaberto, ele percebe o que aconteceu. O Nancore mudou de forma. O homem sorri ao notar que o sangue humano é o que falta para que o que era perfeito ficasse ainda mais perfeito. Mas sente-se horrível por dentro ao pensar que teria que lidar com sangue humano pra conseguir o que queria. Ele pode até lidar com doações dele mesmo, de sua esposa e de hospitais próximos com o fim de pesquisa; mas e se ele precisar de mais e não tiver de onde tirar? Se o sangue dele não for o suficiente, se sua esposa se recusar a dar seu sangue, se os hospitais se negarem a dar sangue para ele e ainda levantarem a suspeita dele ser um ghoul*?

    Não há dúvidas. Ele vai começar a matar.

    Então, não lhe resta opção. Pensara em chamar a guarnição da cidade para cuidar dos ladrões, mas teve uma ideia melhor.

    — Muito bem... Mudança de planos. — Disse ele, com um sorriso sombrio no rosto.


    ~*~


    A vida certamente não é uma maravilha.

    Faz duas semanas desde a invasão a sua casa. Ele avisara Miraya sobre o caso, mas ao invés de falar o verdadeiro destino deles, ele simplesmente disse que chamou alguns guardas da Guarnição Ankrahmunita para tratar deles, uma vez que eles não foram mortos por sua arma. Diferente de Yalahar, Ankrahmun não tem leis que proíbam ferir invasões de propriedades, decisão tomada após o próprio faraó ter uma de suas relíquias roubadas de dentro de sua pirâmide por um ladrão lendário.

    Mas a Guarnição nem mesmo saiu de suas delegacias para vigiar os distritos ou resolver casos de invasão. Pois Senzo manteve ambos ladrões cativos num depósito do sótão, acessível por seu laboratório. Ninguém podia ouvi-los gritar ou fazer grunhidos de dor, quando há tantos blocos de arenito grosso bloqueando os sons dos quartos. Os manteve alimentados por algum tempo, e também tirou o veneno de seus corpos, uma das razões para ele ter vencido o combate. Eles se preocuparam tanto com os dardos e o veneno que nem levaram em conta o quão bem armado Senzo estava. Queriam simplesmente acabar com aquilo logo.

    O resultado é que ambos estão presos com cordas grossas envolvendo seus braços e pernas, pendurados por uma suspensão de madeira no teto bem resistente. Suas bocas estão tapadas por precaução. Existe muitos potes e vasilhas fechados sobre um balcão do lado direito do cômodo, todos contendo não só sangue, como Nancore.

    Mas mexer com aquilo tem sido uma grande complicação para Senzo, pois o mesmo está agora deitado em sua cama, com uma febre intensa. Começou os experimentos há uma semana, mas o cheiro horrível que o novo Nancore exalava pareceu ter efeitos negativos sobre o alquimista, que está de cama desde então. Mas antes dos experimentos começarem, ele mandou uma carta para Nuito, dizendo que finalmente conseguiu aprimorar o Nancore, achando o que faltava. O biólogo agora está voltando o mais rápido que pode, acompanhado de Ember e dois novos amigos que fizera em Porto Esperança.

    Esse grupo se reúne a frente da porta da pirâmide onde Senzo vive. Nuito bate com um pouco de força na porta, e é recebido por Miraya.

    É um tanto surpreendente para ambos os lados se verem. Miraya está claramente mais bonita do que costuma ser, usando um belo vestido de alças roxo-escuro que vai até os seus joelhos, com um cinto negro na cintura. Usa vários anéis e braceletes de ametista em ambas as mãos, um costume de todas as mulheres bem abastadas de Ankrahmun. Sua pele está um pouco mais escura que antes, e seus cabelos estão mais longos, passando dos ombros, escuros como sempre.

    Enquanto isso, Nuito está com o cabelo preso num penteado que cai em seu ombro direito e vai até próximo da lateral do tórax, e sua pele permanece tão parda como de costume, parecendo mais bela com seus incomuns olhos azuis. Usa um casaco branco, e por trás usa uma camisa negra. Veste bermudas de uma cor semelhante a âmbar, um laranja rústico, e sandálias. Ember parece mais diferente, pois seus cabelos ruivos estão curtos, e está usando uma camisa regata laranja junto de calças azuis de estilo desértico, bem como sandálias também. Leva seu inseparável arco e sua aljava nas costas, bem como duas facas e três punhais na cintura, dentro de bainhas feitas por ela mesma. Miraya olha pra aquilo e pensa se é realmente necessário vir para a casa de alguém armada desse jeito.

    Os outros dois atrás de Nuito são dois homens, um de pelo menos vinte anos e o outro parece já estar dentro da casa dos cinquenta. Ambos tem cabelos loiros, enquanto o mais velho tem um porte grande e um grande físico. Usa uma armadura de prata e tem um Machado Nobre** na cintura. O outro, de porte mais comum, não está armado e usa somente calças comuns e uma camisa verde.

    Nuito toma a frente de todos demonstrando animação.

    — Boa tarde, Miraya! Como você está? Vejo que os anos tem te feito muito bem.
    — Senzo não fez nenhum experimento estranho em você, né, Miraya? Tem vivido bem com ele? — Pergunta Ember, um tanto preocupada.

    Apesar da animação por parte dos velhos amigos, Miraya não parece demonstrar nenhuma positividade.

    — Senzo bem que podia parar com esses experimentos... Mas ele nunca me escutaria.
    — Por quê? O que aconteceu? — Questiona Nuito, já desfazendo seu sorriso.
    — Ele te chamou por causa da evolução da invenção dele, né? Mas ela não correu tão bem quanto você pensa. Entrem, por favor.

    Nuito e Ember sentem a atmosfera de preocupação ao entrarem na residência, bem como os dois homens que os acompanham. Miraya fecha a porta e vai de encontro a eles, e Nuito aproveita para apresentá-los.

    — Hoje ia aproveitar para apresentar pra vocês dois esses caras que conhecemos lá em Porto Esperança. Esse é Stevan — Disse apontando para o mais jovem, que cumprimenta Miraya apertando sua mão — Ele também é um biólogo como eu e esteve conhecendo muito sobre Tiquanda comigo. Conseguimos uma rota mais segura para evitar Chor graças a ele.
    — Coloca muito mérito em mim sem tanto motivo, Nuito. Bom, não sou só um biólogo, sou também um arqueólogo e estudando para ser um cartografo. Espero colocar no papel toda Tiquanda algum dia.
    — Deixe de modéstia, homem! Bom, esse grandão aqui é-
    — Não é necessário! Não dependerei de suas palavras para me apresentar pra esta bela dama. Chamo-me de Agalberan Orrailo, mas pode me chamar apenas de Agal, se preferir. Meus amigos mais próximos me chamam desta maneira, e como é a esposa do genial Senzo, devo levar em conta sua importância, madame. É um grande prazer conhecê-la. — Disse orgulhoso e imponente Agalberan, estendendo sua mão para Miraya. Ela dá um sorriso um pouco vazio ao vê-lo dizendo essas coisas, e ao dar a mão para ele, ele beija a mesma com respeito e delicadeza, um cavalheirismo um tanto exagerado para um homem do seu tipo.

    Ember cruza os braços e sorri de canto, enquanto fita Agalberan. Sabe muito bem que ele não costuma ser assim o tempo todo. Nuito ri, mas fica um pouco triste com a reação desanimada da moça.

    — Ele é quase como nosso guarda-costas. É um explorador e experiente ferreiro, já foi alquimista no passado, e hoje em dia se dedica ao trabalho de arqueólogo. Ele estuda tanto lagartos quanto dworcs.
    — E eu também ensino esse moreninho a lutar. Ele só se dedica a ficar pesquisando e pesquisando, quando a merda feder pra ele é capaz que ele corra com o rabo entre as pernas e ainda tropece e caia no meio da fuga. Quero evitar que isso aconteça.

    Miraya assente com a cabeça e mantêm com esforço seu sorriso.

    — Enfim, Miraya... O que aconteceu com o Senzo? — Pergunta Nuito, sério.
    — Bom... Depois que ele começou os experimentos com a nova forma do Nancore, ele começou a sentir enxaqueca e enjoos frequentes, e agora está de cama, com uma febre alta. Ele já tentou manipular aquilo usando proteções no nariz e na boca, além de óculos especiais, mas mesmo que tenha resolvido, ele acabou desenvolvendo essa febre. Ele está muito fraco, mal consegue comer.

    Nuito cruza os braços e fita o nada por alguns instantes, pensando. O ar fica um tanto tenso.

    — Ele falou pra você como ele conseguiu evoluir o Nancore?
    — Não. Disse que seria um segredo absoluto, e acabei concordando.

    Nuito assente com a cabeça, ainda com uma expressão pensativa. Os outros três sentaram-se no sofá da sala, prestando atenção no assunto.

    — Na verdade, agora que penso... Tenho concordado com tantas coisas a respeito dele que me sinto um pouco culpada. Ele sempre teve seu jeito, e desde que fiquei junto com ele, percebi que precisava respeitar isso pra deixar a relação confortável entre nós dois. Mas sabe, isso já está indo longe demais. Sabe... Eu tenho muito medo de perder Senzo para esses experimentos. Muito mesmo. — Disse Miraya, com uma voz pesada e de cabeça baixa.

    Nuito põe sua mão em seu ombro. Está mostrando um semblante determinado, tentando passar coragem para a amiga.

    — Fica tranquila, Miraya. Sério! Ele é assim mesmo, descuidado como uma criança, mas genial a níveis incalculáveis. Eu sinceramente tenho inveja dele por ter uma esposa tão boa e ainda conseguir criar algo que cria outras coisas. Mal me desce ainda que ele criou aquilo, hah.

    Miraya sorri um pouco, grata por Nuito estar tentando animá-la. Ember fecha as mãos e as junta acima de suas pernas, incomodada com algo que Nuito disse. Mas mantém a seriedade.

    — Vamos ficar na cidade por um tempo para ajudá-la. Mas também não iremos embora tão cedo hoje. Se importa?
    — De maneira alguma. — Disse Miraya, com um sorriso um pouco mais animado.
    — Agora, podemos vê-lo?

    Miraya assente e leva todos para o quarto onde Senzo está. Ao encontrá-lo, notam como ele parece derrubado pela febre. Está deitado, mais pálido que o normal, com um pano sobre a testa e até um pouco mais magro. Nuito sente mais o impacto de vê-lo assim do que os outros. É quase como se estivesse vendo um cadáver.

    Ele se aproxima do amigo, que parece estar acordado, encarando o teto. Ao notar Nuito, parece se animar um pouco mais.

    — Ora ora, seu maluco. Será que vamos precisar te colocar numa coleira pra você não sair fazendo burrice? — Disse Nuito, com um sorriso.

    Senzo sorri, mas não responde. Sua visão está embaçada e ele não consegue ver seu amigo direito. Ember aparece ao lado dele, mas Senzo não consegue ouvir o que ela está dizendo.

    Miraya está na porta do quarto, junto com Stevan e Agalberan. Vê que Nuito está tentando o possível para animá-lo, esperando ver ele falando e dando suas respostas um pouco atravessadas de costume, mas isso não acontece. Senzo só concorda com a cabeça, com um esforço notável. Não faz ideia de como o marido acabou daquele jeito, só espera que ele melhore.

    Ela se pergunta no que Senzo está pensando enquanto tenta interagir com Nuito.

    A culpa é dele.
    A culpa é dele.
    A culpa é dele.
    A culpa é dele.
    A culpa é dele.
    A culpa é dele.
    A CULPA É TODA DELE.


    Mas ela sabe que nunca vai saber. É muito difícil dizer o que Senzo está pensando.


    ~*~


    Algumas horas depois, Senzo ainda está encarando o teto, sem melhoras. O pano em sua cabeça foi trocado, tomou alguns remédios e comeu uma sopa. Mas nada parece fazer efeito.

    Ao se lembrar do Nancore novo que esteve manipulando, lembrou-se bem dos muitos gritos e expressões aterrorizadas dos homens que capturou. Ele não deveria estar sentindo pena dos ladrões que capturou, que inclusive tentaram matá-lo, mas está. Está porque está fazendo algo covarde com eles. Simplesmente pensou como algum estudioso yalahari já disse alguma vez: Tudo pela ciência.

    Mas se a ciência é tão cruel assim, ele deveria rever seus preceitos sobre ser um alquimista.

    Agora mesmo, ele sente que está sofrendo uma punição divina. Mal teve tempo de notar que seu experimento podia ser tóxico a outras pessoas. Esteve tão animado com os resultados recentes que nem pensou nos riscos ou problemas que sua invenção podia ter. Que, inclusive, renomeou para Akonancore, por quaisquer motivos. Não ia pensar nisso agora.

    Mas se o potencial do Akonancore é infinito, ele ainda deveria testar tudo que aquilo é capaz de fazer. Mesmo naquele estado, ainda há uma coisa que ele é capaz de fazer.

    Ele ouve um barulho no banheiro, não tão distante de seu quarto, e então o fechar de sua porta. Logo repara em Stevan passando pelo corredor, e tem uma ideia.

    — V-Você! — Grita Senzo. Stevan olha pra trás assustado ao perceber quem o chamou.

    Stevan vai correndo até o quarto. Ao chegar lá, Senzo tira forças do nada para começar a falar.

    — E-Ei. Preciso q-que você me faça u-uma coisa. P-Por favor.
    — Pode falar. É algum remédio que você precisa?

    Senzo tem uma bela ideia.

    — I-Isso. E-Está no m-meu... Laboratório, segunda porta à d-direita do corredor. É um p-pote com um líquido... V-vermelho. Estará na... Bancada... A direita d-da porta.

    Senzo se cansa após falar tanto após tanto tempo em silêncio. Ele respira fundo.

    — Espere um pouco, logo volto! Aguenta firme! — Disse Stevan, bem preocupado com o estado em que Senzo se encontra. Ele segue rápido até o laboratório.

    Na cabeça de Stevan, ele está ajudando Senzo, indo atrás de um remédio para ele. Mas, na verdade, ele pode estar sendo cúmplice de um crime grave.

    Ele entra no laboratório, um lugar cheio de armários com materiais diversos e muitos potes, bem como utensílios. Procura à direita algo que se encaixe na descrição que ele deu, e logo encontra um pote com uma tampa púrpura, sem nada escrito. O líquido é vermelho, mas seu centro é um pouco escuro. Ao pegar aquilo, ele escuta um grito.

    Acaba pensando que é Senzo, por ser um grito masculino. Mas Senzo não tinha capacidade pra gritar.

    Logo, ele sai do laboratório, fecha a porta e vai rapidamente até o quarto dele, preferindo ser rápido ao invés de ficar se perguntando sobre bobagem. Ao entrar lá, ele vai até o lado de Senzo, coloca o pote no criado-mudo e se prepara para ajudar Senzo a sentar. Mas, para a sua surpresa, ele está conseguindo fazer isso sozinho, mesmo que devagar.

    Stevan pega o pote, mas Senzo toma de sua mão rapidamente, sem olhar em seu rosto.

    — Obrigado pela contribuição.

    Senzo abre o pote onde está guardado uma boa quantidade de Akonancore e vira-o garganta abaixo. Para a sua surpresa, aquilo não tem gosto. Ao terminar, joga o pote na cama e deita, fechando os olhos.

    — Precisa de mais alguma coisa? — Questiona Stevan, agindo como se aquilo fosse normal e nada demais tenha acontecido, embora a atitude de Senzo tenha sido estranha.

    O homem apenas mexe a cabeça positivamente, e Stevan decide ir embora para deixá-lo descansar, ignorando a estranheza de toda aquela situação. Odiava questionar o que tinha muito potencial pra ser bobagem. Mas talvez, só daquela vez, não haveria problema em questionar Senzo.

    Ainda assim, ele vai embora do quarto e deixa Senzo sozinho.




    Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari V




    Notas:

    *: Eu decidi que os ghouls serão como os vampiros de Ankrahmun. Agem praticamente da mesma maneira, apesar de vampiros não poderem andar a luz do sol. Aqui, os ghouls serão mais inteligentes.
    **: Tradução livre para Noble Axe.



    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  7. #147
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    Li e inclusive deu like no capítulo... Mas não deixei o mais importante, que é o capítulo. Enfim, vamos lá.


    Meio que já comentamos de fora isso, mas... Sinto um cheirinho de briga feia, e creio que será Senzo x Nuito. Eu já meio que aguardo o resultado, já que se Soulslayer e Redchain aparecem no futuro (vulgo período presente em que a história ocorre), logo concluí-se que Senzo ganhou a possível batalha... E já que não é o líder, possivelmente obterá a maior das perfeições através do líder da Irmandade.

    Enfim, creio que você está trabalhando o passado de Senzo por ele ser MUITO importante na história (e aparentemente é, pela invenção que somada ao sangue deve criar coisas... Cabulosas, rs). No aguardo do próximo capítulo, e minhas desculpas por não comentar imediatamente, Carlos senpai.


    Não espere algo bem elaborado e feito. De resto...

  8. #148
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    Padrão Capítulo 31 - Resmonogatari V

    Citação Postado originalmente por Senhor das Botas Ver Post
    Li e inclusive deu like no capítulo... Mas não deixei o mais importante, que é o capítulo. Enfim, vamos lá.


    Meio que já comentamos de fora isso, mas... Sinto um cheirinho de briga feia, e creio que será Senzo x Nuito. Eu já meio que aguardo o resultado, já que se Soulslayer e Redchain aparecem no futuro (vulgo período presente em que a história ocorre), logo concluí-se que Senzo ganhou a possível batalha... E já que não é o líder, possivelmente obterá a maior das perfeições através do líder da Irmandade.

    Enfim, creio que você está trabalhando o passado de Senzo por ele ser MUITO importante na história (e aparentemente é, pela invenção que somada ao sangue deve criar coisas... Cabulosas, rs). No aguardo do próximo capítulo, e minhas desculpas por não comentar imediatamente, Carlos senpai.
    Diga aí Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios.


    Certamente virá uma briga daquelas por aí, a história está caminhando a passos lentos (eu diria rápidos, mas tanto faz) pra isso e também para o presente. Eu já tenho sentindo a necessidade de avançar logo as coisas, pois acabei fazendo o capítulo mais longo da história meio que sem querer. Mas acredito que no final tudo estará devidamente explicado e assim poderei avançar para o final de Bloodtrip.

    E sim, ele é muito importante pra história, mais do que você imagina. Por isso parei para descrever direitinho a origem de tudo.

    Obrigado pelo comentário mais uma vez, tava pensando que ia fazer double post. Agradeço a presença constante e espero que minha história continue te ajudando a continuar escrevendo!







    Muito bem, vamos continuando com o passado de Senzo. No próximo capítulo já chegaremos no ponto crítico da história. Fiquem ligados!





    No capítulo anterior:

    Senzo descobre como evoluir o Nancore e começa a produzir algo diferente: O Akonancore. Mas isso acaba o deixando com uma forte febre, e para se curar, ele se aproveita da visita de Nuito para que um de seus amigos que não o conhecia direito lhe trazer o que ele acredita ser a cura: O próprio Akonancore.





    Capítulo 31 – Resmonogatari
    Parte 5




    Dor.

    Que dor.


    Que dor lancinante.

    Sinto centenas de facadas no meu estômago. Tenho a sensação que algo deseja sair. Um pequeno monstro. Ele irá rasgar minha barriga e sair triunfante coberto pelo meu sangue e tripas, e gritará o canto dos livres.

    Mas não irei deixar que isso aconteça. Pois tem alguém assistindo. Alguém com olhos prateados e linhas com bolas vermelhas na ponta, de formato perfeito, todas onde acredito ser o seu rosto. Não sei o que é. Talvez seja um demônio. Talvez seja um deus.

    Ele duvida de mim. Acha que irei morrer, vítima da minha própria criação, como um alquimista estúpido e irresponsável. Pois eu tenho uma mensagem para você.

    Me assista.



    ~*~



    O ano é 341. Já fazem dez anos desde o fatídico dia onde foi criado o Akonancore.

    Senzo está recluso num vilarejo ao nordeste de Darashia. Ele se destaca devido a uma torre que serve de farol. O local é um porto que recebe gente de fora, mas frequentemente sofre ataques de minotauros piratas. Parece até piada. Touros marinheiros.

    O local é levemente gramíneo e recebe estações generosas de chuvas e belas safras das mais variadas frutas e legumes que se desenvolvem em ambientes complicados como esse. É possível criar cabras e galinhas, e desenvolver certo foco pecuário. Tudo é vendido para comerciantes de navios vindos do continente principal, de Ankrahmun e também vai para caravanas com destino a Darashia. Enquanto aquele lugar desenvolve coisas básicas como essas, Darashia cria os mais variados tapetes e joias, e seu foco em tapeçaria o destaca, mesmo com o poderoso oponente ao sul.

    Essa indústria funciona normalmente todos os anos, e mesmo quando o alquimista louco veio para aquelas bandas, nada mudou.

    Isso porque ele está sendo caçado por crimes hediondos.

    Senzo está recluso em uma casa que ele mesmo criou, nos ermos daquela região, próximo do mar. Sua esposa vive normalmente na casa, embora sinta saudades da pirâmide que possuíam em Ankrahmun. Apesar dela ter descoberto como ele criou aquela evolução do Nancore, ela simplesmente olhou no fundo dos seus olhos e disse a frase mais sincera que Senzo ouvira em sua vida.

    — Tudo bem. Não vou te abandonar, pois meus votos de casamento foram os mais sinceros desse mundo. E me envergonharia em trai-los.

    Senzo, enquanto está no pequeno laboratório que construiu embaixo da casa, salvo do calor por um dispositivo reprodutor de frio que criou, pensa nessa frase pela milésima vez após ter escutado ela oito anos atrás.

    Ela é realmente muito boa pra mim. Nem parece que existe.

    Ele se lembra dos muitos eventos desse período em que fugiu de Ankrahmun e ficou um tempo em Yalahar de novo. Nuito foi atrás dele há seis anos atrás, pois descobriu também sobre como o Akonancore é feito. Rapidamente o assunto virou rumor dentro de Yalahar, e era questão de tempo até ir para toda a sociedade mágica e inventora de Tibia. Ainda assim, o que causa mais choque é o fato de Senzo ter criado um item que cria outros itens, e não dele estar usando sangue humano para enriquecê-lo e desenvolver vida.

    Os rumores sobre o Akonancore eram exagerados, como de costume. Diziam que ele criava inúmeros dragões para segui-lo e os destruía sempre que quisesse. Que ele criava os melhores equipamentos que existem em Tibia para enfrentar quem ousasse ameaçá-lo. Que ele podia criar asteroides e jogá-los em cima de exércitos para poder escapar.

    Mas, de fato, Senzo já criou um dragão com o Akonancore. Assim como ressuscitou os dois ladrões que acabou matando depois que Miraya o descobriu. E os transformou em seus lacaios para conseguir os itens para a criação do Nancore em massa.

    Senzo planejou muitas coisas. Queria mostrar sua criação para o mundo. Desenvolver o Akonancore de forma que não precisasse roubar sangue inocente. Naquela altura, ele já ganhou a fama de ghoul. E não falava mais com seus amigos há um bom tempo. Vive apenas com Miraya, sério e concentrado em seus objetivos, tentando fazer o Akonancore não depender de sangue e criar uma evolução útil pro Nancore.

    Mas depois de tantas falhas, ele só pôde olhar para o caixote feito de porcelana combinado com alumínio na parede, com várias entradas finas na frente, por onde um ar frio sai, gerado a partir de um bloco de gelo que sempre se recria de novo. Um gelo com uma alma real presa dentro dele, gerada a partir do Akonancore. Pensa que foi uma invenção criativa e útil.

    — Será que eu posso vender isso? — Sussurra para si mesmo, pensando. Nem mesmo deu um nome para aquilo. Só usa para resistir ao calor infernal do subterrâneo de Darashia.

    Em meio a devaneios, nem mesmo notou que Miraya desceu para seu laboratório com uma bandeja de chá gelado. E que ela está agora na sua frente, servindo em copos para ele e para ela.

    — Miraya... Nem reparei em você.
    — Está no mundo da lua mesmo. Como esperado de um alquimista.

    Senzo sente-se culpado, quase sentindo dores na barriga.

    — Me desculpe por te arrastar por aí. Não te dei a vida que lhe prometi e ainda te dei o status de procurada. Sou um péssimo homem, um covarde. Correndo, fugindo, fazendo coisas erradas aqui e ali. Sinto-me muito mal por isso, de verdade. Comparado ao tanto que você me apoia e me ajuda, eu deveria ser capaz de fazer algo melhor por você, mas nem mesmo isso eu consigo fazer. Sou uma falha.

    Miraya escuta-o enquanto bebe o chá. Deixa-o entre suas mãos e fita Senzo, despreocupada.

    — Ah, Senzo. Por isso eu me casei com você. É uma pessoa que não importa quanto tempo passe, continua sempre a mesma.

    O homem a encara com surpresa no olhar.

    — Eu nunca busquei vantagens ao me casar contigo, seu palmito ambulante. Tudo que eu sempre quis é viver ao seu lado, não importa aonde ou como. Tampouco importa os fardos que eu tiver que segurar, nem os altos e baixos. Desde que eu esteja contigo, até o inferno será um paraíso.

    Miraya aproxima-se de Senzo, passando por sua mesa. Ela põe seu copo nela, bem como o de Senzo, e senta em seu colo, abraçando-o.

    — Tudo isso pois eu me apaixonei pela pessoa que está aí, dentro de você. Sua alma, sua personalidade, seu caráter. Não importa se você estiver matando ou salvando, você sempre será o mesmo esquisitão da academia que inventou o autômato mais lindo que eu já vi.

    Senzo quase sente lágrimas chegarem aos seus olhos. Nem mesmo sua mãe fora tão amorosa.

    Na verdade, ele nem se lembra mais do rosto de seus pais, tampouco de sua irmã. Nem dos amigos que tinha antes de entrar no Centro das Almas de Ferro. Para ele, tudo que restou foi Miraya.

    Apenas Miraya.

    Mas então, ele lembra-se do homem que o inspirou a ser como ele é. Ele se chama Nuito, e ele ainda está em Porto Esperança, lançando as mais variadas pesquisas e artigos sobre Tiquanda, estudando sobre Chor, Banuta e até sobre os misteriosos dworcs. Dizem que ele já até montou um Terror Bird.

    Enquanto isso, Senzo criou a ferramenta que provavelmente Uman possui em seu trono, junto de Fardos, mas ela foi exposta ao mundo da forma mais incorreta possível, tornando Senzo como numa espécie de Ferumbras. Ele pode até pensar que ultrapassou seu amigo, mas ele está vivendo melhor do que ele.

    Ou não. Afinal, ele não tinha alguém como Miraya ao seu lado. No entanto, isso realmente supera receber todos os prestígios de pesquisadores, exploradores e até governantes do mundo todo?

    Miraya solta-o e fica encarando por algum tempo, com um sorriso no rosto, segurando seus ombros. Seus olhos esverdeados pareciam vidrados e apaixonados pelo rosto do alquimista, e seu corpo manifesta uma respiração forte, de alguém que está de frente com a coisa que mais ama.

    Parece que a sua pergunta está respondida.



    ~*~



    342 anos depois da vitória de Uman. Noite de primavera.

    Miraya está deitada em sua cama, soando, respirando forte, contorcendo-se. Senzo está sentado ao seu lado, parecendo se arrepender de sua decisão. Dentes cerrados, olhos focados no pote que está em suas mãos. No fundo, há uma pequena quantidade de um líquido avermelhado, escurecido no centro. É possível ver desenhos de veias humanas nele.

    Senzo está profundamente arrependido. E com razão.



    ~*~



    Ainda em 342, Senzo concentra-se com a energia emanada do Akonancore, transformando-o aos poucos em dardos finos e afiados. Ele os dispara contra um alvo vinte metros a frente.

    Miraya faz o mesmo. Ambos acertam quase toda a área próxima do centro do alvo. Eles sorriem um para o outro.

    Agora, eles geram mais desse Akonancore a partir do nada e dão a ele a forma de lanças afiadas. Há runas inscritas nelas. Ao acertar o alvo, ela explode, liberando espaço para continuar o treino. Entretanto, isso suja o chão de sangue.

    Isso porque os alvos são minotauros que eles capturaram no solstício de verão.



    ~*~



    Nuito está reunido com Ember e um grande grupo de exploradores de Tiquanda na taverna na região norte de Porto Esperança. É noite, todos estão bebendo, mas com certa tensão devido ao assunto da vez.

    — É possível que Edron decida agir sobre Darashia. E se for o caso...
    — Com certeza haverá guerra. — Disse Stevan, seguindo o raciocínio da maioria dos exploradores. — Se Venore decidir apoiar Edron, Thais vai acabar botando os olhos nessa guerra. Vai envolver Porto Esperança, também.
    — Isso é exagero! Por que Thais se envolveria nesse assunto? — Pergunta um dos exploradores, tenso.
    — Tem coisa envolvida que é de interesse dos thaianos, Braghen. O que Senzo criou pode mudar Tibia radicalmente. — Disse outro explorador.
    — E os thaianos vão realmente guerrear com Venore pra por as mãos no Akonancore?
    — E você acha que não?
    — Pois eu acho que Carlin vai se envolver nessa merda e aí que vai explodir tudo. Uma guerra mundial! Já pensou?
    — Só terão a perder! Como se Carlin e Thais tivessem navios rápidos e fortes como os de Venore! Vai ficar entre Venore e Edron pela hegemonia do mar local e das relações com Darashia! Eles fabricam as melhores riquezas de Tibia!

    Todos os exploradores discutem acalorados a situação atual. Mas parece que Nuito está bem distante dessa atmosfera.

    Ele está no balcão da taverna, onde apenas Ember e um caçador estão sentados com ele. Nuito não consegue entrar na conversa simplesmente por estarem discutindo sobre o seu melhor amigo. Ele mal pode dizer se Senzo de fato é seu amigo ou não, já que faz anos desde uma péssima discussão que tiveram – e foi a última, também. Eles não se falaram mais, e Senzo parece ter se escondido em algum lugar de Darashia, embora os habitantes da cidade digam que não viram ninguém parecido com ele por lá. Então, não há como contatá-lo.

    Faz cinco anos desde que o Akonancore foi revelado para o mundo. Senzo já era chamado de “O Neto de Ferumbras” em Yalahar e em Edron, principais núcleos de magia de Tibia. No continente principal, Thais e Venore expressam um interesse disfarçado no que Senzo criou. Embora ele use sangue humano, poucos comentam a respeito disso.

    É quase como se todos pensassem como Senzo.

    — Nuito.

    Ember acorda-o de seus devaneios. Ele vira-se para trás e nota na elfa fitando-o.

    Olhar para ela não parecia mais a mesma coisa que antes.

    Ela está sempre usando regatas e blusas finas quando não está na selva. Seu cabelo cresceu de novo, está preso numa caprichada trança, e ela não usa mais a trança para tirar a atenção dos eventuais decotes que ela usa. Ela também está usando uma tiara florida, feita de algum material leve que lembra porcelana. Entretanto, aquilo não parece ser o maior destaque.

    Ember está usando saia. Uma saia florida.

    Por mais que elas não sejam pequenas, é realmente estranho alguém como ela usar esse tipo de peça de roupa. Mais que isso, ela sempre usa roupas finas e soltas quando está próxima de Nuito, e sempre o olha fundo nos olhos, não escondendo nada de seu corpo com os braços. É quase como se ela estivesse gritando por dentro “Ande, rasgue tudo isso de uma vez, estou cansada de dar sinais!” ou algo assim. Obviamente é um pensamento indecente, mas não há como não pensar nisso. Além disso, ela praticamente não mudou nada desde quando ele tinha 15 anos. Elfos demoram muito a envelhecer.

    Nuito tem dado muita atenção as suas pesquisas, mas talvez ele devesse dar uma chance para coisas assim, como Senzo fez há mais de dez anos. Mas, como previu, não é sobre isso que Ember quer falar.

    — Sim?
    — Esse papo todo sobre o Senzo te aborrece bastante, não é? Pode falar.
    — Bem...

    Nuito olha para os dezessete exploradores reunidos em duas mesas de madeira, conversando ativamente sobre Senzo e sua criação.

    — Incomoda mesmo, mas o que posso fazer? A culpa é dele, afinal de contas.
    — A culpa provavelmente não é dele.
    — E de quem seria?
    — Sua.

    Nuito sente um calafrio correr pelo seu corpo.

    — Nuito, você sempre incentivou o Senzo a ir longe e eu sempre achei isso errado. Ele tem potencial para fazer maravilhas, assim como tem o potencial de fazer catástrofes. É a balança da vida, como diria os arcanistas de Ab’Dendriel. Se ele está escondido em Darashia, fazendo sabe-se lá o quê com o Akonancore, e ainda por cima envolvendo Miraya nesses experimentos, a culpa não é só dele.
    — Isso não tem nada a ver, Ember. Senzo sempre teve essas ideias, o que eu fiz foi encorajá-lo, como um bom amigo faria. Mesmo sem saber o que ele realmente queria fazer.
    — E não acha isso um erro terrível? Se sabia que Senzo podia causar essas coisas, por que nunca reconsiderou sobre apoiá-lo?
    — Quem faz as escolhas é ele, não eu!
    — Acorde, Nuito! Senzo era um rapaz solitário que mesmo tendo amigos, nenhum deles o compreendeu, apenas você! Pois ele sempre te admirou! E nunca foi difícil notar isso, mesmo com Miraya me dizendo!

    Miraya e Ember eram amigas próximas. Talvez por isso que Ember está dando essa bronca nele.

    — Eu não entendo. Ele me pedia opiniões, eu as dava. Ele queria fazer algo bom, um projeto interessante, e eu o ajudava, pois eu era o melhor amigo dele! O que fiz de errado?
    — E se ele tivesse a ideia de engolir o Nancore, mesmo correndo o risco de morrer, mas falando que as probabilidades disso acontecer eram nulas, você o apoiaria mesmo assim?
    — Mas o que é isso que você tá me dizendo, Ember?
    — Eu estou seguindo a porra do seu raciocínio!

    Nuito já está notavelmente irritado.

    — Vai pra casa, Ember. Já estou farto desse assunto.

    Ember pensa em responder, mas vê que aquilo não iria mudar nada. Já estava feito. E se tinha algo que a longevidade élfica lhe deu, é não criticar alguém por erros do passado. Afinal, é o passado.

    — Que seja. Mas se um dia você decidir ir atrás dele, não irei te ajudar. Sabe bem do que fez.

    A elfa sai do banco e vai a passos largos para fora do estabelecimento. Nuito respira fundo e vai até os exploradores pra tentar mudar o assunto.

    — Eu conheci o cara, mas ele não era muito gentil, era meio estranho, na verdade. — Disse Stevan, lembrando-se de quando interagia com Senzo, dez anos atrás. Nuito lembra-se bem disso.
    — Ele já quis seu sangue ou algo assim? Tinha a aparência de um ghoul, ou de um vampiro? — Questiona um dos exploradores, curioso.
    — Tinha mais a aparência de um vampiro. Mas tinha uma esposa linda. O problema é que quando eu o conheci, ele já era envolvido com o Akonancore.
    — É? Viu ele fazendo algo estranho?
    — Vi. Uma vez ele me mandou pegar um pote com um negócio vermelho esquisito no laboratório dele. Ele disse que era remédio, mas tinha mais cara de... Akonancore.
    — Espera. — Disse Nuito, chamando a atenção de todos. — Você deu Akonancore pra ele beber?
    — Ele me pediu, ué. Virou tudo de uma vez, mas isso o salvou de uma febre. Não se lembra que quando o conheci, ele estava de cama?

    Nuito sente seu coração bater mais rápido e o sangue ferver com força, avançando pelas suas veias como cavalos furiosos na chuva. Senzo já o disse no passado que beber aquilo era ficar a um fio da morte. Mas que o fez se tornar justamente o que ele era agora. Ele tinha o poder da criação na palma das mãos, e essa foi a principal razão deles terem brigado. Agora, ele sabe quem começou tudo, e quem foi o responsável por afastá-los.

    Não foi ele, tampouco Senzo. Foi seu próprio amigo.

    Nuito pula em cima da mesa e salta pro outro lado apenas pra pegar Stevan pela gola da camisa e levantá-lo.

    — E VOCÊ ACEITOU?
    — Ei, Nuito! — Protesta um dos exploradores. Mas ele não dá ouvidos. Stevan parece bem assustado, como os outros.
    — Espera aí, cara! Eu não sabia que o Akonancore era aquilo! Nem você sabia da existência daquela merda, não é?

    Nuito solta-o, mas soca seu rosto logo em seguida. Os exploradores se levantam rápido e o afastam de Stevan, mas ele não resiste. Ele simplesmente dá as costas para todos e vai até a saída, sobre o silêncio e olhar dos seus amigos e parceiros de exploração.

    Antes de sair, ele olha para Stevan, que se levantou e agora passa a mão pela boca, onde levou o soco.

    — Espero que esteja feliz. Você condenou o meu amigo.

    Ele fecha a porta de madeira com um estrondo. Sem opções, se dirige até a sua casa.

    Sabe que a hora de abrir aquele quarto chegou.





    Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari VI



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    Padrão Capítulo 31 - Resmonogatari VI

    Não irei esperar comentários dessa vez. Como disse, estou me esforçando para terminar logo essa história, então assim o farei.





    No capítulo anterior:
    Senzo passou os últimos anos fugindo de pessoas que o queriam vivo devido a revelação do Akonancore. Seu único apoio é Miraya. Já foi revelado ao mundo que a criação dele existe, e Nuito busca solucionar isso para dar paz ao seu amigo.





    Capítulo 31 – Resmonogatari
    Parte 6





    Nuito surpreendeu a todos em Porto Esperança quando disse que iria se aposentar da sua vida de biólogo e explorador. Mas é mais fácil dizer que ele chocou muito mais pessoas do que as daquela colônia.

    Embora um de seus melhores amigos, Stevan, tenha ido tentar se desculpar com ele, isso não surtiu efeito, tampouco mudou seus planos. Senzo era mais importante no momento. Nesses momentos, certamente Agalberan derrubaria todas as árvores de Tiquanda se fosse possível apenas para que os dois se reconciliassem e tudo voltasse a ser como antes.

    O problema é que mortos não podem fazer nada senão continuarem mortos.

    Agalberan morreu há quatro anos, vítima do veneno de um inseto da selva, e desde então, a vida de explorador não tem sido mais a mesma para aquele grupo. E agora que Nuito está indo, é possível que a maioria deles deserte e volte para as suas casas. Embora eles já tenham feito um mapa enorme de Tiquanda e conseguido definir uma rota entre Porto Esperança e Ankrahmun, ainda há muito naquela selva que não foi descoberto ainda. Mas Nuito não está mais interessado nisso.

    A partir do navio que zarpará para Edron, ele fita todos os seus companheiros e alguns habitantes da cidade despedindo-se dele. Vê que o tempo que passou lá foi ótimo, e que lhe deu muitas amizades valiosas, além de muito conhecimento. E de canto, ele percebe Ember fitando-o com um rosto triste. Seus olhos pareciam mostrar que ela queria dizer muita coisa. Muita coisa mesmo.

    Mas ela não queria partir de Porto Esperança e provavelmente comandaria os exploradores até que todos eles desertassem. Além disso, também sente que não conseguirá ajudar Nuito, até porque ele não explicou direito o que queria fazer em Edron e o que faria com Senzo após tantas notícias negativas a seu respeito. Dessa forma, ela simplesmente o vê partir, acreditando que não o verá mais.

    Ember sente que se Senzo não existisse, tudo seria melhor. Mas não há nada que ela possa fazer a respeito, já que ela não é uma assassina.



    ~*~



    Nuito chegou em Edron depois de semanas de viagem, durante uma manhã. O local é realmente distante, mas chegar lá acabou valendo a pena. Vestido de um Parka* verde escuro com uma única camisa vermelha por trás e com calças largas, além de possuir uma mochila verde com uma bolsa laranja logo acima, sua bagagem é leve, mas importante.

    Ele atravessou a cidade interna e externa e se dirigiu rapidamente para o norte da ilha. Não conhecia ninguém lá, embora já tenha visitado o local, assim, sabendo aonde ir e aonde não ir. Ele passa pelo monte de wyverns, evita o bosque à direita para não ser atacado por bandidos e segue um caminho reto e direto até uma grande clareira exatamente no norte da ilha. Está entardecendo, e percebe que perdeu o dia todo somente para encontrar aquela região.

    Ali, podia-se encontrar um lago sagrado, cujo acredita-se purificar a região e permite que os animais cresçam mais rápido e não fiquem doentes com facilidade. Humanos que tomam dela também ficam imunes a doenças por um tempo.

    Infelizmente, aquele lago é o seu alvo.

    Nuito pega uma pá pequena da sua mochila e também coloca ao seu lado um machado de lenhador e uma bolsa laranja. Ele cria um buraco relativamente fundo, onde ele acredita que possa estar correndo a água do lago para o subterrâneo. Em seguida, o biólogo pega um frasco, com um conteúdo que ele guardou no tal quarto por anos, com uma restrita magia de selamento. Ele tinha medo do que aquilo podia fazer, por isso tomou várias medidas para guardá-lo. Mas parece que chegou a hora de dar uso para aquilo.

    Ele derrama o líquido vermelho no buraco e enche-o daquilo. Fecha o frasco e coloca-o na bolsa.

    — Espero que dê certo. — Murmura para si mesmo Nuito, enquanto bastante tenso.

    O Akonancore tem inúmeros efeitos, e pode ser usado para criar qualquer coisa. Qualquer coisa, pois nem mesmo Senzo sabe os limites daquilo. E para usá-lo e dar utilidade ao líquido, basta tocá-lo e dar a ele o seu desejo. Mas no momento, Nuito não quer nem se imaginar tocando naquilo, e deixará ele ali para cumprir um simples experimento.

    Após isso, ele vira-se para as árvores próximas dali, e em seguida, olha para a clareira.

    — Ao trabalho.



    ~*~



    Nuito está ali há pouco mais de cinco meses. Construiu uma cabana próximo da floresta mais ao norte, mas que ainda está bem distante do oceano, no extremo norte. Não está tão longe do lago, e sabe que aquilo pode ser perigoso. Por precaução, ele iniciou, há um mês, a construção dum pequeno posto avançado acima de um monte não tão longe dali.

    Há tempos ele escuta rumores sobre lobisomens, mas sempre saiu de noite sem dar de cara com nada. Alguns diriam que ele está brincando com a sorte, mas ele simplesmente está sendo lógico, como todos os cientistas são. Mesmo que ele esteja num mundo de fantasia.

    Ele regularmente vai a Stonehome, ao leste, para comprar comida. Por ser um vilarejo simples, há várias pessoas que o conhecem. O inverno já começou e a região está coberta de neve, mas ele não se deixa intimidar. Está bem protegido do frio e seus pensamentos técnicos evitam que ele se preocupe com coisas banais como a temperatura.

    Quando ele observa o buraco, ele nota que a temperatura não faz diferença para o Akonancore também. Ele sumiu do buraco, mas parece estar, de alguma forma, impregnando-o. Recentemente, ele começou a fazer alguns buracos próximos do primeiro, e acabou de notar que a terra está ficando viscosa e avermelhada. Nota também a estranha presença de pequenos vermes avermelhados correndo por debaixo da terra.


    Mais meses se passam, e ele nota, a partir do seu diário, em sua cabana de madeira não tão bem protegida de criaturas da noite, que ele está há um ano e três meses ali. Na sua última ida para Edron, conseguiu a notícia de que Senzo fora visto fora de Darashia, em algum lugar de Venore. Nenhuma guerra se iniciou entre as nações. Aparentemente, ele fez isso para evitar conflitos inúteis, mas em compensação, ele e Miraya estão sendo caçados como demônios por todas as autoridades do continente. Nuito não consegue deixar de ficar triste, mas não pode sair dali para ajudá-los. Afinal, o que está fazendo ali é justamente para ajudá-los.

    Ao olhar o lago, nota que ele já perdeu sua coloração. Está cinzento e não há como ver o fundo dele. A região em volta dele está com uma grama avermelhada. Vermes estão andando sobre a terra. Há pouco, viu algo parecido com um fantasma dentre as árvores.

    — Parece que está tudo indo bem.

    É esquisito dizer isso para si mesmo após destruir um lago considerado sagrado, mas ele não teve escolha. “Tudo pela ciência” é o que ele normalmente vem pensando ao ver o que está fazendo.

    Mais tempo se passa, e agora ele está no segundo ano de pesquisa, em 344. Ele terminou a pequena torre emergencial acima do monte próximo de sua casa. Em sua cabana, ele possui aljavas cheias de flechas com pontas explosivas, bem como uma Lança de Dragão, que ele comprou recentemente em sua ida para a cidade. A situação a sua volta começou a ficar complicada.

    O Akonancore, de fato, é destrutivo e corrosivo quando não é usado e tampouco selado corretamente. Agora, toda a área ao redor daquele lago está com uma grama vermelha crescendo; As pedras e rochas ao redor mais lembram um cérebro cortado ao meio, com centenas de aberturas no formato de uma bola. Mesmo com esse visual, não passam de minérios duros e sem vida. Ao menos é o que Nuito espera que seja.

    As árvores também foram vitimas. O tronco perdeu as cores e as folhas ficaram vermelhas. Os passarinhos que sempre ficam nessas arvores agora tinham um ou outro olho crescendo na barriga. Cipós que as vezes podiam ser encontrados naquelas árvores por elas serem muito antigas, agora mais lembram um intestino jogado em cima delas. A quantidade de vermes abaixo de pedras e dentro dos buracos quadruplicou, e agora eles estão bem maiores. Eventualmente ele sente a terra tremer, como se algo estivesse correndo logo abaixo.

    A água está avermelhada e lembra sangue. Agora, é possível encontrar peixes esquisitos com placas avermelhadas pelo corpo, com presas enormes na boca. Há outros peixes maiores que eram inofensivos, mas a textura de seu corpo lembrava a de um coração.

    Nuito olha para o céu acima dele. Ele está cinzento, mas as nuvens pareciam levemente avermelhadas.

    Ele está ainda um pouco chocado.

    O efeito corrosivo daquilo era surreal. Agora mesmo ele está criando um bioma próprio, com sua própria flora e fauna. Aparentemente, aquilo era só o começo, e o bioma ainda não se desenvolveu totalmente. Além disso, ele ainda não conseguiu o que queria ali, mas sente que em breve conseguirá.

    Com lança em mãos e arco e aljava nas costas, ele continua observando os arredores. Está frequentemente vendo fantasmas com formas nem um pouco humanas próximo das árvores. Sente que não demorará mais do que alguns meses para eles começarem a atacá-lo, bem como os peixes do lago.

    Como não encontrou grandes perigos na região, ele decide voltar para sua cabana, principalmente porque já estava anoitecendo. Ele deixa o arco e a aljava ao lado da porta e se dirige a sala. Nota uma presença nela assim que põe o pé nela. Felizmente, ele ainda não guardou sua lança, da qual coloca em suas mãos.

    Algo que mais lembra um fantasma está parado próximo da porta que leva ao pequeno depósito que construiu para pesquisar o bioma. Não consegue ver direito a figura, que está encapuzada. Ele aponta a lança, sem dizer nada. Pensa que é um dos larápios que vivem atacando aventureiros nos bosques do leste, mas a figura é sombria demais para ser um simples bandido de floresta.

    Ela vira-se para Nuito e seus olhos são visíveis, apesar da escuridão na cabana. Cor de âmbar, vorazes e furiosos, eles despem Nuito de sua firmeza e coragem, e o banha com o medo e o terror. Algo assim não pertence a aquele lugar.

    — Cure a terra antes que seja tarde demais.

    Num piscar de olhos, a figura desaparece. A lança de Nuito cai no chão e ele não consegue tirar de seu rosto a expressão de horror que formou quando seus olhos encontraram os daquela figura. E o aviso que lhe foi dado parece ainda pior.

    Ele não tinha pensado em como curaria aquele lago antes. E isso foi um grave erro.



    Em seu diário, ele já está marcando quatro anos. Mesmo que o tédio tenha quase lhe tirado a determinação no início, desde que a grama começou a ficar vermelha e desde que os habitantes de Edron começaram a criar suspeitas em cima dele, as coisas deixaram de ficar tediosas, e cada dia tinha a cara de ser um novo dia de vida.

    Ele criou uma ponte entre o teto de sua casa e a pequena torre acima do monte e fez estacas longas de quase dois metros para segurar a ponte de um lado a outro, além de ter conseguido criar calhas para as chuvas, colocando espinhos ao lado delas por questões de segurança. Boa parte do seu tempo na cabana é ficando no teto, que ele planificou, com o objetivo de ficar ali sem cair e sem ser pego pelas criaturas que o bioma do Akonancore criou.

    Agora mesmo, ele está acima do teto, e sua aljava leva flechas flamejantes mágicas. Está fitando o comportamento de uma das criaturas que surgiram no local do lago, cuja está há noventa metros de sua casa.

    Ela tem uma aparência humanoide. Embora tenha um corpo normal de um homem, seu rosto é bem maior. Ele parece ter cabelo, mas este é feito de carne. E ele não possui rosto.

    Onde deveria estar o seu rosto, está apenas a forma vaga de um. Há uma cor carmesim muito clara sobre o que deveria ser seu rosto. O resto de seu corpo leva uma cor avermelhada e estranha, e ele se move devagar. É inofensivo, embora Nuito tenha seus motivos para acreditar que aquela criatura logo surgirá em bandos e começará a atacar sua cabana.

    Mais adiante, próximo de uma colina que existe ao lado do lago, está algumas criaturas diferentes, que lembram fantasmas. Elas flutuam, não possuem pernas e o formato de seu corpo mais lembra um cogumelo. A parte inferior é redonda, o meio possui um tronco levemente humano com braços e a superior lembra a da criatura sem rosto, com uma parte de sua cabeça sendo feita de carne fresca.

    Nuito deu nomes para as criaturas, como normalmente fazia em Tiquanda. A primeira se chama de Inexpressivo ou de Homem Sem Rosto, e a segunda de Ordinário. Não conseguiu tirar informações dos vermes porque eles são estranhamente agressivos e Nuito não faz ideia de como capturá-los. Conseguiu apenas coletar um que lembra uma lesma com um olho vagamente humano saltando por um fino tentáculo da parte superior de seu corpo. Ele apelidou a criatura de Olheiro.

    A grama está com uma cor mais intensa de sangue. Todas as formações rochosas lembram carne fresca e órgãos cortados ao meio, embora estejam fortemente endurecidas. As folhas nas árvores lembram plantas carnívoras, com bocas cheias de dentes de cor semelhante ao carmesim. As árvores parecem ter rostos. As plantas e flores conseguem andar sozinhas, possuem presas e espalham poros no ar de cor quase alaranjada. O lago é praticamente sangue fresco. Os peixes estão conseguindo saltar pra fora do lago e criar pernas e braços, eventualmente virando os Inexpressivos que ele viu antes ou algo pior que Nuito ainda não encontrou na superfície.

    De cima do telhado, ele lê um dos sete livros que ele usou para escrever durante o tempo que esteve ali. Três deles servem para ele escrever suas memórias e conhecimento, caso ele morra lá e alguém tenha curiosidade de saber quem foi o biólogo que se arriscou naquele lugar – E isso também para caso ele não consiga curar aquela terra. Um deles destaca memórias sobre sua temporada de exploração e pesquisa em Tiquanda. Fala sobre Agalberan.

    “Já faz anos desde que ouvi a trágica história que marcou a adolescência de Agal. Ele possuía dois irmãos, e o mais velho tinha ido morar com sua esposa em Venore, enquanto ele, seus pais e seu irmão continuaram vivendo em Thais. É num período antes dele decidir pegar suas coisas e abandonar seus pais para ir para Rookgaard e de lá partir pra Porto Esperança. Mais exatamente, o caso que o levou a Rookgaard.

    Seu irmão era estranho. Seu pai, seus tios e até sua avó diziam que ele era afeminado, e provavelmente gostava de outros homens. Ele sempre achou aquilo uma completa bobagem e achava que apenas faltava umas boas seções de treino pro rapaz. Ele só tirou a prova disso quando entrou no quarto do irmão um dia e encontrou uma cena que ele mal conseguiu descrever direito pra mim. Ele estava com roupas femininas, mas parecia estar fazendo alguma coisa que o chocou. Tanto que ele espancou o próprio irmão por cinco minutos, arrastou ele pra fora de casa inconsciente e o jogou perto do rio ao sul da cidade. Ele ficou irritado não só porque seu irmão era, segundo ele, um garoto problemático que gostava de outros homens, como também porque ele iria atrair mais problemas pros seus pais, que já estavam cheios de problemas para resolver. Ele quis apenas tornar a vida de seus pais mais fácil.

    Ele disse pros pais mais tarde que ele foi sequestrado e o próprio não sabia quem o fez. Mas com o tempo, ele se sentiu culpado e correu pra Rookgaard. Nunca mais olhou pros pais. Ele não sente muita coisa contando isso, mas eu mesmo não fazia ideia de como respondê-lo. Acho que essa questão de homens que gostam de outros homens ainda é algo que não consigo formular uma opinião concreta. Talvez seja bom aproveitar meus dias de pesquisa em Edron pra tentar concluir alguma coisa.”

    No fim, Nuito decidiu que não se importa com essa questão, apesar das opiniões que já recolheu de habitantes de Edron e Stonehome. A maioria contra, pois eles queriam que filhos fossem gerados, mas ao mesmo tempo, que compromissos não fossem quebrados em prol do prazer masculino. Certamente algo complicado demais pra se pensar enquanto a terra próxima dele parece um humano tirando suas tripas pra fora.

    Ele fecha o livro, pega sua lança, seu arco e sua aljava e pula do telhado direto para o chão. Mesmo dentro da cabana boa parte do tempo, ele tem se exercitado bastante indo e vindo com pedaços de madeira aqui e ali. Isso o ajuda a continuar se aventurando naquele lugar. Mesmo que não esteja se cuidando como deveria – Sua barba cresceu e já enche seu rosto de fios escuros.

    Ao entrar, ele engole em seco. Vários vermes enormes correm pelo chão, há besouros enormes vermelhos voando, Inexpressivos perambulando, Ordinários vigiando. Há também criaturas que mais lembram bolas de carne com olhos no centro flutuando próximas do lago.

    Conforme ele se aproxima do lago, as criaturas parecem mais vigilantes a seu respeito. Isso tem acontecido com certa frequência, embora ele não tenha sido atacado ainda. Ele reforça seu arsenal por conta própria, pois está começando a ficar assustado com a forma ágil que aquele bioma tem se desenvolvido. Sabe que uma hora será atacado.

    Ele ajoelha-se em frente ao lago e começa a analisar as criaturas dentro dele. Os peixes cresceram, mas ficaram mais estranhos. Eles parecem estar desenvolvendo mais olhos, mais nadadeiras, cristas, até mesmo asas, o que os fazem pular pra fora da água e planar em volta dela de vez em quando. Mas, no meio de tantas coisas estranhas, algo lhe chama a atenção.

    É um peixe negro, com dois olhos totalmente brancos, que possui um tamanho semelhante ao de um bagre. Sua textura visualmente lembra metal.

    — Encontrei.

    Nuito veio esperando aquilo desde o inicio, o que o faz se encher de satisfação e abrir um largo sorriso. Ele pega seu arco e uma flecha comum do meio das encantadas, e a amarra sua ponta inferior num pedaço de corda. Coloca no arco e puxa o fio.

    Subitamente, ele é puxado para trás, deixando o arco cair por acidente.

    Ele tenta pegar sua lança com uma mão, e com a outra, tenta manter longe um Inexpressivo inesperadamente agressivo. Acaba de notar que ele tem uma boca cheia de dentes, embora não tenha nariz ou olhos. Aparentemente, ele está agindo por instinto, bem como os outros Inexpressivos ao redor dele.

    Sem conseguir força o suficiente para superar a criatura de dois metros, ele cede aos poucos. Mas antes que ele tentasse mordê-lo, algo explode contra suas costas, lançando-o para frente e permitindo que Nuito levantasse de novo. Ele se senta, pega sua lança e levanta rapidamente, tentando saber de onde aquilo veio.

    Adiante, os Inexpressivos começam a correr de várias flechas explosivas. As criaturas começam a ficar assustadas e correm sem parar de um lado para o outro, berrando e grunhindo. O responsável por salvar sua vida é ninguém mais que Ember.

    — Deuses... Finalmente te encontrei.






    Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari VII



    Nota:

    *: É um tipo de casaco que é muito utilizado pelos povos Inuítes. São uma população indígena do norte do Canadá, parte das tribos esquimós.



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    Bom, lá vamos nós comentar os próximos capítulos.

    Ler sua história por si só é uma grande inspiração. Mas não uma "inspiração" geral, mas uma deveras "melancólica". Desespero, medo, melancolia, tristeza... Sério, o tanto de depressão que você consegue colocar nas personagens, mesmo em "partes filler", pra desenvolver a personalidade de algumas personagens, como Nuito, quando descreveu a história de Agal. É legal que não só com o Borges e o Richard, que presenciaram incesto/estupro/abusos, mas esse tema voltou, mesmo que sucintamente. E pelo visto isso é o suficiente pra causar muita, mas muita m*rda ;x

    No mais, que capítulo. O poder do Akanancore, p*ta merda HUEHUEUE. Criou um bioma digno de Roshamul, e o que mais me surpreende... O FUCKIN NUITO FICOU TODO ESSE TEMPO LÁ. Sério, o cara viu o que parecia ser um vampiro, e mesmo assim prosseguiu. Se Redchain chamou o Nightcrawler de Nuito, com toda certeza é porquê o Nightcrawler no mínimo tem toda essa determinação do Nuito, embora seja mais poderoso e tenha o demonho do lado.

    De resto, que desenvolvimento. Estou curioso para saber da forma que o Akanancore criou... E o que está para ocorrer. Ainda acho que Ember se envolverá de um jeito, e te conhecendo, todos terão uma morte terrível...


    E por fim, encerro dizendo o seguinte: não desista! Por mais desanimador que seja ter poucos comentários, o número de visitantes no tópico não mente, e se há uma brava alma que conseguirá ler e acompanhar tudo até o final, como eu, com toda certeza esta alma sentir-se-há lisonjeada por ler algo tão delicioso, e por conhecer um pouco desse íntimo mal humorado, mas com uma vontade ferrenha, desse Carlos... Lendário.

    Deveras Lendário.

    Ok, desativei o meu modo gay.

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    Última edição por Senhor das Botas; 16-01-2018 às 20:23.


    Não espere algo bem elaborado e feito. De resto...



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