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Tópico: Bloodtrip

  1. #121
    Cavaleiro do Word Avatar de CarlosLendario
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    Padrão Capítulo 26 - Assunto para Mortos

    Citação Postado originalmente por Neal Caffrey Ver Post
    Mais um excelente capítulo, Nightcrawler complexo como sempre, personalidade magnetizante.

    Deixando de lado momentaneamente as questões envolvendo o próprio enredo em si, gostaria de lhe chamar a atenção ligeiramente a respeito da gramática. Não se esqueça dos acentos e, mais do que isso, se a sentença é narrada no presente, então a mantenha no presente em sua integralidade; não mescle o manuseio da frase entre passado e presente, sob pena de comprometer seu sentido e a própria narrativa. Exemplo prático:



    Outro ponto onde desejo chamar sua atenção: a questão da transitoriedade dos verbos. Quem "reclama", reclama "de" alguma coisa, e não "alguma coisa", simplesmente. Isso porque reclamar "de" significa se queixar; reclamar "algo" significa atrair para si; entenda que a flexibilização do léxico cria sentidos diferentes. Senão, veja-se:



    De mais a mais, gosto de pensar no caminho que a história toma e nas guinadas que costuma dar. A cada novo capítulo, a história parece transitoriamente se desenrolar num determinado sentido; de repente, ela assume outras feições e dispara em direção oposta, o que me agrada e me agrada muito. Atenções voltadas para Aika e para sua capacidade de síntese.

    Aguardo ansiosamente pelo próximo capítulo.

    Forte abraço, Carlos!
    Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios. E perdão pelos erros, foi uma distração rápida na minha revisão.


    A história deve estar no ritmo certo agora. Não consegui manter um clima depressivo, que era a minha intenção inicial, mas acredito que não será necessário por enquanto. Por hora, fazer com que os leitores entendam tudo é minha intenção primária.

    Obrigado pela sua presença e conto contigo nos próximos capítulos.






    Continuo essa caminhada para o final da história. E conforme ela vai se aproximando, coisas novas serão reveladas. Eu espero que tudo que está acontecendo até o momento esteja empolgando vocês.


    Espero que gostem.



    No capítulo anterior:
    Dartaul relembra seu passado, ou o último dia em que esteve com seus pais. Aika está acordada e viva, e agora gera dúvidas e receio no grupo. Enquanto isso, eles planejam ir até Carlin para deixar Eloise em segurança.





    Capítulo 26 – Assunto para Mortos



    O porto de Carlin parece um cemitério.

    Apesar de ser dia e do sol estar iluminando a cidade, ela não parece tão animada quanto a luz que a ilumina. O cais vazio, a falta de um guia e o movimento rápido das pessoas nas ruas indicam que a situação na cidade não parece ter melhorado muito. Nightcrawler e Trevor veem isso enquanto próximos do contramestre e do capitão do navio, já que estavam passando um bom tempo conversando ali até chegarem à cidade.

    — Achei que a cidade estaria melhor, agora que há uma nova líder. Não parece ter mudado muito... — Comenta Trevor, inquieto.
    — Carlin está melhor, mas os seus cidadãos não. — Responde o contramestre, um homem moreno com um visual comum de marinheiro e um chapéu triangular. — Ela tem reformado todo o norte da cidade mais rápido do que chuva de verão, e pelo que é dito, já está terminado. Logo os mercantes voltam pra essa cidade e as coisas voltam a andar.
    — Você realmente pensa que tudo voltará a andar assim, como se elas tivessem sido atacadas por orcs? — Questiona Nightcrawler, com os braços cruzados — Eram membros da Irmandade. Eu andei olhando mais alguns relatórios que reuni e me lembrei de algo importante que devo ter deixado passar: Massacres promovidos pela Irmandade nunca são feitos por eles mesmo, mas sim pelas vítimas, conduzidas a matar umas as outras. Há os mesmos rastros em todas as que olhei. Então, só imagine como o psicológico de quem sobreviveu aquilo está agora, some com rumores espalhados pela cidade, e então...

    O contramestre fica em silêncio, bem como o restante.

    — Bem, você tinha me dito que está próximo de acabar com eles, não é? — Disse Harlow, sem se distrair com o mar ou com o assunto. — Se estiver, faça isso o quanto antes. Os tibianos não merecem sofrer por tanto tempo dessa maneira.
    — Ou talvez sim. O destino sempre tem seus motivos para atuar.

    O navio atraca no cais sem pressa. A primeira vista, não parecem saber muito bem o que fazer. A luz que Carlin sempre teve parece ter se dissipado, e a própria cidade parece inquieta com alguma coisa. Do convés, sobem Dartaul, Aika e Alayen, além de quatro marujos com um caixão. Nele, está Eloise, que já não é mais a rainha.

    — Nosso trajeto será pelos esgotos. Não importa se a cidade está depressiva ou não.

    Ninguém discorda. O detetive se despede de Harlow e diz que voltará em algumas horas. Feito isso, eles partem até um armazém próximo e encontram uma entrada para os esgotos. Vendo que ninguém está nas redondezas, eles descem, sendo Alayen o primeiro para guiar os marujos e assegurar a segurança do local, depois o caixão, e então o resto do grupo.

    A jornada pelos fétidos corredores do subterrâneo da cidade mostra-se sombrio. O cheiro ruim de água suja e lixo distrai os sentidos de alguns membros do grupo, mas como estão sendo seguidos por Nightcrawler, sentem que conseguirão passar por ali sem muitos problemas. E conforme seguem em direção ao norte, sentem um cheiro estranho além do lixo entrar por suas narinas e confundi-los pelo caminho que estão seguindo.

    Após alguns minutos, eles descobrem a fonte do cheiro. As águas dos esgotos do norte de Carlin foram convertidas em sangue. Nightcrawler respira fundo e o restante desvia o olhar.

    O detetive acha uma saída ao lado do castelo de Carlin e, novamente, Alayen sobe primeiro, checa o perímetro e manda o caixão subir. Dessa vez, usam uma corda para puxá-lo, com um marujo atrás empurrando. Feito isso, o resto do grupo sobe para dar uma olhada na região. E como imaginaram, as casas estão limpas, com janelas trocadas e portas com novas maçanetas, indicando novas fechaduras. Não há mais nenhum rastro de sangue na região, apesar dela estar estranhamente vazia.

    Eles caminham atentos até a entrada do castelo. Reparam que a Guilda dos Cavaleiros, o prédio que fica do outro lado do castelo, próximo da muralha, está desativado. O provável é que não encontraram ainda um substituto para Trisha, a antiga líder da guilda. E na entrada do castelo, o que encontram é uma guarda composta por doze guardas, dois na entrada, o resto andando pelo jardim destruído do castelo, que agora está convertido em terra.

    Nightcrawler olha para Aika e faz sinal para que ela siga-o. Os marujos vem logo atrás. Após doze passos, as dez guardas ao redor surgem num instante ao redor do caixão, apontando suas espadas. As outras duas apontam as suas para o pescoço de Nightcrawler, que segue com as mãos no bolso, indiferente ao perigo. Aika parece assustada, mas mantém a calma.

    — Homem. — Disse com desprezo a guarda na sua direita, uma mulher desconhecida, mas com voz firme. Usa um visual de cavaleiro completo, com capacete, armadura, ombreiras, caneleiras, luvas e capa — Acho melhor que tenha uma boa desculpa para ousar pisar mais do que dez vezes neste recinto nobre e feminino.
    — Ô se tenho, recruta. É só olhar o caixão.

    As guardas irritam-se com o comentário e Aika percebe que é o momento de agir.

    — Perdoe a falta de educação de meu guarda-costas. Meu nome é Aika Danguian, e trago algo que recuperei em nome de Vossa Majestade.

    As atenções são voltadas para a feiticeira, que não se sente a vontade. Dartaul, ao fundo, parece nervoso.

    — O que seria?
    — A falecida Rainha Eloise.

    As mulheres parecem bem surpresas. As guardas que cercam o caixão abaixam suas espadas, mas as outras duas não. Parecem ter dúvidas. Isso é visível pela forma de como seus braços tremem.

    — Eu preciso verificar o caixão.
    — Só na presença da rainha atual. Nenhuma guarda deste reino pode profanar o descanso de uma antiga líder sem permissão, é uma completa blasfêmia.

    A guarda à direita cerra os dentes, mas abaixa a espada, entendendo o pedido.

    — Acompanhem-me, então.
    — Gostaria de pedir que os outros membros do meu grupo me acompanhassem.
    — Por?
    — Questão de segurança. E todos eles tem a ver com o resgate do corpo.

    A mulher fica pensativa.

    — Bem, de qualquer maneira, tudo depende de Sua Majestade, que está em seus aposentos. Ficarão do lado de fora até que ela tome uma decisão a respeito disso.

    Aika assente e faz sinal para o restante vir com eles. Enquanto passam pelo caminho no meio do jardim, eles recebem encaradas intensas das mulheres ao redor, forçando-os a caminharem mais rápido até o castelo.

    O que encontram no caminho até o quarto da rainha é um chão que um dia já foi impecável, mas agora parece menos cuidado. Ele não brilha em reflexo das luzes dos dois lustres pendurados no teto, e não é mais tão branco que parece vidro. Agora, ele contrasta com as cortinas vermelhas nas janelas, com as paredes de mármore branco e com o tapete vermelho que leva até o trono, mas não mais da mesma maneira grandiosa de outrora.

    As escadarias que levam aos andares superiores são feitas de mármore e serpenteiam até o andar seguinte. Eles passam por um corredor com vários quartos, mas, aparentemente, nenhum deles é o da rainha. Há portas feitas também de um mármore branco e fino, mas faltam polimento, portanto, estão escurecidas. E no andar onde está o aposento em questão, encontram algumas mulheres perambulando pelo corredor – Empregadas da rainha. Há duas guardas no final do corredor, onde está o quarto.

    Por incrível que pareça, os homens presentes ali atraem mais a atenção do que o caixão. Cada mulher que os encara parece tirar mais de suas seguranças particulares, como se, no fundo, quisessem tirar suas masculinidades com as mãos. Dartaul não entende o ódio que elas sentem, mas não se importa com isso, apenas continua andando.

    E ao chegarem no quarto, a guarda que os acompanha pede que fiquem do lado de fora, esperando, enquanto as guardas de fora e algumas serviçais desarmam eles por questões de segurança. Após alguma inquietação e diálogos, ela aparece de novo, mandando, surpreendentemente, todos entrarem.

    O quarto da rainha é menor do que o que Eloise possuía, portanto, não é tão grande. Possui uma cama de solteiro rica e ornamentada no canto esquerdo à porta, uma janela relativamente pequena, um armário branco comum à direita, um criado-mudo de mesma cor ao lado da cama e uma cômoda marrom ao lado da porta. Há uma mesa de montar feita de madeira bem polida no centro do quarto, onde a rainha se encontra, com um vestido simples e vermelho com um cinto de couro. A mesma coroa que antes Eloise usava agora está em sua cabeça, em seus cabelos presos numa grande trança que passa pelo seu ombro e um pouco além de seu peito.

    A mulher é bela e jovem, alguém que não viu tantos invernos. Possui um cabelo cor avelã, um corpo magro e comum para as mulheres carlinídeas, olhos verdes, nariz e lábios finos. Seu olhar é firme, porém, encantador. Ela está de pé frente a essa mesa, onde há alguns pergaminhos reunidos, além de um pote branco de tinta com uma pena sobre ao lado. Suas mãos estão juntas frente a sua barriga, que parece bem reta e sem destaque algum.

    O grupo faz uma reverência para a rainha. Exceto Nightcrawler, que permanece parado.

    — Não é necessário. Levantem suas posturas, por favor. — Disse a líder, com um pequeno sorriso no rosto. Sua voz é doce e calma, porém, possui autoridade.
    — O oferecimento do nosso respeito à Vossa Majestade é necessária, principalmente nesta situação. Agradeço por aceitar nossa presença aqui, senhorita. — Disse Aika, preocupada com o que diz.
    — Eu entendo, mas não é necessário. Vocês dizem ter algo de uma importância realmente surreal, que nem mesmo Vania, a mulher que lhes trouxe até aqui, teve coragem de dizer. Este caixão... Pode deixá-lo no chão e abri-lo, por favor.

    Os homens do grupo vão para os cantos do quarto e deixam Aika tomar a frente. Nightcrawler fica próximo da garota, enquanto os marujos abrem o caixão e deixam-no ao alcance da visão da mulher, para depois saírem do quarto. E ao ver o rosto pálido da sua antiga líder, sua expressão muda.

    — Não devo ter me apresentado ainda. Sou Elisângela, sobrinha de Eloise. A rainha teve um filho, mas este foi banido do reino por uma relação proibida. Como ela não conseguiu gerar uma criança mulher, eu, filha de sua irmã, Êdora, assumi o trono e o governo do reino de Carlin. Minha mãe faleceu há alguns anos, e desde então, estive vivendo em Ab’Dendriel. E vocês, os que resgataram minha falecida tia, quem são?

    Tanto Nightcrawler quanto Dartaul parecem incomodados com o fato dela não se incomodar tanto com a presença do corpo de Eloise a sua frente.

    — Sou Aika Danguian, venho de Porto Esperança.
    — Entendo... Há muitas pessoas de olhos puxados por lá. E vocês?
    — Dispense apresentações dos membros, rainha Elisângela. — Corta Nightcrawler, direto e sério. Estranhamente, a mulher não se importa com isso. É como se ela estivesse esperando que algum deles fizesse isso.
    — Se é o seu desejo, visitante...
    — Eu sou o atual líder desta companhia. Estivemos em Yalahar para recuperar o corpo de sua parente.
    — Entendo... Você é Nightcrawler, não é? Sei do seu título... O Conde Mascarado de Yalahar. Você é aquele homem corajoso que persegue a irmandade responsável pela morte de Eloise.
    — É por aí. Passamos por bastante sufoco para recuperar o corpo dela. O motivo foi descoberto por nós recentemente. Peço para que preste atenção.

    A rainha não diz nada, apenas concorda com a cabeça.

    — Nenhuma vítima da Irmandade do Caminho de Sangue está morta. Elas estão num estado de coma induzido, muito semelhante com a morte. Estão lidando com pesadelos, um atrás do outro. Só sairão desse estado quando toda a Irmandade for exterminada. E é o que eu busco, no momento.

    Elisângela mostra uma expressão de surpresa pela primeira vez, mas seu semblante continua indiferente, tornando todo o resto falso.

    — Então... Eloise continua viva?
    — Exato. Mesmo agora ela pode possivelmente nos ouvir, mas não sairá do estado de coma.
    — Entendo. É uma grande descoberta, detetive.
    — De fato, é. Por isso resgatamos Eloise. Ela precisa de cuidados e proteção.
    — Pois bem. Eu compreendo.

    Um silêncio surge de repente no quarto. Algo parece se divergir entre os pensamentos da rainha e do grupo.

    — Bem... Pela quietude, parece que vocês desejam que meus druidas sejam quem dará a ela cuidado e proteção, estou certa?
    — É o que esperamos encontrar aqui, Majestade. — Disse Aika, juntando as mãos, ainda preocupada e inquieta.

    Dartaul fecha a cara. Ele parece já ter entendido tudo antes de todos. Por um breve instante, Elisângela olha para ele e sorri levemente de canto, e volta a olhar para Nightcrawler e Aika.

    — Não. Eloise não é problema meu.

    Silêncio dentro da sala. Caos dentro das cabeças dos presentes.

    — Como é? — Pergunta Nightcrawler, tirando as mãos do bolso.
    — É como eu disse. Ela será problema ou dos druidas, ou de vocês. Eu reneguei sua linhagem falha e iniciei a minha própria, inspirada na minha mãe. Tive autorização das ministras e tudo corre bem. Isso foi necessário para que toda a cidade ficasse limpa como está agora e para que eu não me preocupasse com nada além da situação de Carlin.
    — Essa atitude é uma blasfêmia contra a cidade e o seu povo, Majestade. Não faz sentido nem em sua base.
    — Claro que faz... Caso fosse revelado ao povo que a família de Eloise usurpou o trono.

    O caos em suas mentes parece cobrir tudo que ouvem. Ele aumenta mais a cada palavra dita por Elisângela, que permanece calma como a brisa de uma manhã, e voraz como um lobo há semanas sem comer.

    — Talvez não tenham reparado, mas... — Disse a rainha, retirando algumas mechas de cabelo que cobriam suas orelhas, revelando um formato pontiagudo — Sou uma elfa. Apesar de eu me parecer muito com uma humana, isso não passa de uma maldição imposta pela família de minha tia, a mesma família nobre de Thais que roubou o que deveria ser dos druidas e dos elfos, mandando-nos para Ab’Dendriel contra nossa vontade. Esperamos por dois séculos, indiferentes a longevidade élfica. Mas deu certo, no final. O ataque da Irmandade do Caminho de Sangue foi uma mão na roda. Carlin pode voltar a pertencer a quem sempre pertenceu, matando de uma vez a influência thaiana que existe no norte deste continente e dando-o para as raças que realmente seguem os deuses. E isso é tudo.

    O grupo fica em silêncio. Havia algum barulho do lado de fora do quarto, mas este também cessou há algum tempo. Aparentemente, quem está do lado de fora também está ouvindo a conversa.

    — No fim, você acabou dando um golpe de estado surpresa, não é? — Disse Dartaul. Não está nervoso nem sente medo, apenas está irritado.
    — Ora. Golpe de estado? Aonde, aqui? — Questiona Elisângela, olhando para o rapaz de forma desafiadora — Não aconteceu nenhum tipo de golpe aqui, meu rapaz. Fui coroada legitimamente. Sou a única sucessora restante.
    — Não. Você roubou o trono. Não tem sangue real, provavelmente foi adotada.
    — Minha avó foi. Ela era uma elfa em segredo que foi assassinada por um viajante de Venore. O mesmo foi julgado há muitos anos. Mas não há necessidade para que eu tenha sangue real, afinal, o trono sempre foi dos elfos!
    — Quem determina isso são os líderes élficos! Se fosse mesmo o caso, os arcanistas já teriam vindo aqui te visitar, não acha? Os elfos estariam entrando na cidade, estariam colaborando com os druidas para assegurar as redondezas, retirariam o sangue nos esgotos. Mas isso não está acontecendo pois você não é a líder legítima. Os elfos não te apoiam.
    — Os elfos ainda não sabem quem eu sou. Mas logo saberão e virão para me auxiliar, e espalhar a palavra dos verdadeiros governantes desta parcela do continente.
    — É aí que você está errada. — Disse agora Alayen, com os braços cruzados, encostado na cômoda de madeira — Os arcanistas não virão te ajudar, pois eu nunca os ouvi desejando o trono de Carlin. Preferem deixar na mão das ex-amazonas. Eu próprio os questionei, como parte do meu treinamento particular.

    Elisângela parece estar perdendo sua resistente calma.

    — De qualquer maneira, o corpo não é problema meu. Resolvam esse problema da forma que acharem melhor. Estão dispensados.
    — Nunca vi alguém fazer pouco caso de uma parente dessa maneira. — Disse Nightcrawler, resignado.

    Alguém parece ter aberto a porta, mas apenas alguns membros do grupo repararam. A rainha ainda rouba-lhes a atenção, principalmente pela sua visível mudança de humor.

    — A RAINHA ELOISE NÃO ERA MINHA PARENTE! Essa linhagem morreu! E se vocês também não quiserem o mesmo destino, sumam daqui junto desse caixão. Essa audiência está terminada.
    — Carlin também encontrou seu fim com você, rainha Elisângela.
    — Como é? — Questiona a mulher, com uma das mãos sobre a mesa. Sua calma já se fora há algum tempo.
    — Exatamente o que ouviu. Acha que Carlin se sustentou todos esses anos por causa que essa família era rica? Melhor dar uma revisada no seu conhecimento lendo alguns livros a respeito da história deste reino, pois o motivo de você ter esse castelo luxuoso e essas serviçais e guardas a sua disposição é apenas por causa da competência de cada líder que governou esse lugar depois de Xenom. Não seja estúpida. Carlin nunca foi governada por thaianos disfarçados e os elfos nunca desejaram esse reino. Você está sendo uma criança birrenta, achando que roubaram seu brinquedo, e agora está jogando tudo que acha no caminho no chão e nas paredes pra ver se te notam e te ajudam a recuperar o brinquedo que você nunca teve.

    Elisângela arregala os olhos. Mal acredita no que está ouvindo naquele momento.

    — Ama o povo de Carlin? Faça um favor para eles: Deixe esse trono. Pois eu próprio farei Eloise voltar a governar essa merda de reino, não importa se eu tiver que tirar um exército do meu cu e botar na porta dessa cidade. Pois se as mulheres daqui dependerem de você, elas vão estar mais fodidas do que caso fossem governadas por um homem.

    Nightcrawler dá as costas para a rainha e vai em direção da porta. E ao abri-la, dá de cara com três guardas, várias serviçais e com a líder da Guilda dos Feiticeiros, Lea, totalmente surpresa. Entretanto, ele passa direto por ela, e vai até os marujos.

    — Tirem o caixão daquele quarto. Estamos partindo de Carlin hoje mesmo.

    Sem contrariar, eles concordam e correm até o quarto. Os restantes no quarto saem, liberando o caminho para os marujos trabalharem. A passos largos o detetive se vai, e a passos rápidos e desesperados alguém o segue. Próximo de descer para o próximo andar, ele decide parar e virar para trás, mas é surpreendido pelo abraço de alguém querido.

    Lea abraça-o forte, mas Nightcrawler afasta a mulher. Ela insiste, deixando-o sem muitas opções.

    — Achei que não tínhamos nenhuma relação forte.

    Ela sente um aperto no coração.

    — Claro que tínhamos, seu imbecil! Eu... Eu mal pude me perdoar por isso. Por não deixar você saber o quão inquieta e depressiva eu fiquei por todo esse tempo que você me deixou, visitando-me tão raramente... E sabendo que você iria para Yalahar, para atrair a Irmandade toda de uma vez e tentar destruí-la... Merda, Crawler! Eu realmente senti medo. Um medo tão forte que meu peito chegava a doer. Me dava até falta de ar imaginar uma faca entrando no seu coração...
    — Melhor do que sentir dor nas costas o tempo inteiro.

    Lea soca o braço do detetive. Ele sorri.

    — Você sabe que eu nunca vou morrer pra esses desgraçados. Eu nunca fui pego por eles, e assim vai continuar até que eu os extermine.
    — E agora... Você está indo até eles pra destruí-los?
    — Precisamente. E eu não sei se irei voltar.
    — Não... Nightcrawler. Ou melhor, Suzio. Me prometa...

    As mãos de Lea chegam atrás de sua cabeça num instante para retirar o barbante transparente que prendia a máscara do homem. Ela retira devagar, revelando para ela olhos mais sombrios que da última vez que ela pôde ver esse rosto. Com as duas mãos na nuca do homem, ela beija-o apaixonadamente, e se afasta alguns instantes depois.

    —...Que irá voltar.

    Suzio dá um sorriso triste e toma a máscara das mãos de Lea para colocá-la novamente. O grupo está vindo ao longe, junto do caixão. Ele volta a pousar seu olhar no rosto esperançoso de Lea.

    — Desculpe, Lea. Eu não posso.

    Ele toma os braços da moça de si e abaixa-os, e vira-se para descer a escadaria até o próximo andar, sem se despedir. Lea fica ali, cabisbaixa, sem saber como reagir. Sua echarpe cai no chão, e o grupo, junto do caixão, passa direto por ela. E conforme ela nota isso, ela percebe que ninguém voltará por ela. E ninguém pode ajudá-la a matar essa solidão que a ronda por tantos anos.

    E então, Dartaul pega a echarpe da mulher e deixa em seus braços, sem dizer nada. Ela fita-o, e por um momento, pensa ter visto Suzio, porém, muito mais jovem.

    Ele vai embora. A hora de investir contra a Irmandade está chegando, e ela sabe que eles não possuem tempo para ajudar ninguém senão eles mesmos.





    Próximo: Capítulo 27 – Divergentes

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    Última edição por CarlosLendario; 11-07-2017 às 19:19.
    ◉ ~~ ◉ ~ Extensão ~ ◉ ~ Life Thread ~ ◉ ~ Seção Roleplaying ~ ◉ ~ O Mundo Perdido ~ ◉ ~ Bloodtrip ~ ◉ ~~ ◉

  2. #122
    Avatar de Edge Fencer
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    E aí!

    Bom, acabei deixando acumular dois capítulos novamente... Comentarei as minhas impressões sobre ambos.

    No capítulo 25, achei certeira sua escolha de iniciar a narração com esse flashback do Dartaul. Além da qualidade excelente que teve, ele também deu uma carga emocional e até um certo suspense que enriqueceram bastante o capítulo. Sobre a Aika, muito mais dúvidas do que constatações, mas isso é o normal vindo de mim kkkk. Sei que o Dartaul provavelmente vai crescer bastante como personagem nesse final, mas devo admitir que ele já era um dos personagens que eu mais gostava na história; fico contente de ver que ele está tendo um desenvolvimento muito bem feito

    Sobre esse último capítulo, rapaz, que treta você foi introduzir na história, hein? Bloodtrip já se mostrou bem imprevisível até aqui, mas envolver elfos e uma disputa pela coroa de Carlin foi outro nível. A expectativa pra isso tá altíssima, já que essa rainha usurpadora parece ser uma personagem muito interessante. Falando sobre essa rainha, eu gostei bastante das descrições que você forneceu sobre as atitudes e expressões dela, fez com que eu me sentisse realmente dentro daquela cena. Destaque pra essa passagem, achei muito massa:

    O caos em suas mentes parece cobrir tudo que ouvem. Ele aumenta mais a cada palavra dita por Elisângela, que permanece calma como a brisa de uma manhã, e voraz como um lobo há semanas sem comer.
    Falando no geral agora, Carlos, esses dois capítulos mostraram uma versatilidade bem interessante da sua escrita. Já comentei aqui (mais de uma vez kkkk) que esse estilo de batalhas ninjas naruteiras, como diz o Skirt, e todo o sangue e violência que você traz aqui não é exatamente a minha leitura preferida. Por isso, ver esses capítulos nos quais você trouxe suspense, batalhas psicológicas, disputas políticas... É legal demais cara, de verdade. Não que o resto da história não tenha esses fatores, mas esses capítulos trouxeram isso em um nível excelente. Você tem muito talento, Carlos, nunca pare de escrever xD

    Fico esperando a sequência, bem curioso pra descobrir as próximas ações do Crawler.

    Abraço!
    Conheçam minha história: Leon, o Covarde xD

  3. #123
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    Padrão Capítulo 27 - Divergentes

    Citação Postado originalmente por Edge Fencer Ver Post
    E aí!

    Bom, acabei deixando acumular dois capítulos novamente... Comentarei as minhas impressões sobre ambos.

    No capítulo 25, achei certeira sua escolha de iniciar a narração com esse flashback do Dartaul. Além da qualidade excelente que teve, ele também deu uma carga emocional e até um certo suspense que enriqueceram bastante o capítulo. Sobre a Aika, muito mais dúvidas do que constatações, mas isso é o normal vindo de mim kkkk. Sei que o Dartaul provavelmente vai crescer bastante como personagem nesse final, mas devo admitir que ele já era um dos personagens que eu mais gostava na história; fico contente de ver que ele está tendo um desenvolvimento muito bem feito

    Sobre esse último capítulo, rapaz, que treta você foi introduzir na história, hein? Bloodtrip já se mostrou bem imprevisível até aqui, mas envolver elfos e uma disputa pela coroa de Carlin foi outro nível. A expectativa pra isso tá altíssima, já que essa rainha usurpadora parece ser uma personagem muito interessante. Falando sobre essa rainha, eu gostei bastante das descrições que você forneceu sobre as atitudes e expressões dela, fez com que eu me sentisse realmente dentro daquela cena. Destaque pra essa passagem, achei muito massa:



    Falando no geral agora, Carlos, esses dois capítulos mostraram uma versatilidade bem interessante da sua escrita. Já comentei aqui (mais de uma vez kkkk) que esse estilo de batalhas ninjas naruteiras, como diz o Skirt, e todo o sangue e violência que você traz aqui não é exatamente a minha leitura preferida. Por isso, ver esses capítulos nos quais você trouxe suspense, batalhas psicológicas, disputas políticas... É legal demais cara, de verdade. Não que o resto da história não tenha esses fatores, mas esses capítulos trouxeram isso em um nível excelente. Você tem muito talento, Carlos, nunca pare de escrever xD

    Fico esperando a sequência, bem curioso pra descobrir as próximas ações do Crawler.

    Abraço!
    Diga aí Edge, obrigado pelo comentário e pelos elogios.


    Dartaul já estava perturbado com muitas coisas desde o começo da história, ter esse sonho no começo daquele capítulo foi a melhor coisa que pude fazer para continuar seguindo com esse foco nele. Eu também queria contar mais a respeito dele e do porque ele ter mudado como personagem ao longo da história. Ainda continuarei fazendo isso, afinal, já dei muito foco no detetive mascarado, acho que agora ele também tá precisando. Os outros, bem... Quem sabe um dia.

    A parte que inclui na história a respeito de Carlin é parte das tretas dessa versão de Tibia que eu criei, então acredito que não haja espaço para introduzir isso aqui, por hora. Mas, claro, não vai terminar assim.

    Por fim, creio que os últimos capítulos terão esse foco mais psicológico para então voltar a porradaria. Eu venho planejando tudo há um bom tempo, então escreverei cada coisa com o melhor que tenho em escrita. Eu espero que goste!

    Espero que goste desse capítulo também. Escrevi ele pensando em cada pessoa aqui que curte o Dartaul e o Nightcrawler.







    Esse capítulo, originalmente, não existe. Decidi escrevê-lo pois achei necessário uma introdução para o próximo arco. Não quero que nada pareça seco demais agora, tudo passará a ter seus motivos e seu sentimento por trás, seja drama, suspense, ou até terror. E, claro, espero passar todos esses sentimentos para vocês sem problemas.

    Espero que gostem do capítulo!




    No capítulo anterior:
    O grupo leva o corpo da Rainha Eloise para a nova rainha de Carlin, Elisângela, apenas para descobrir que ela abomina Eloise e sua linhagem, e deseja deixar Carlin para o povo élfico com ela no comando. Mas Dartaul lhe dá um senso de realidade, juntamente de Nightcrawler. E enquanto saem dali, o mascarado reencontra Lea, mas a deixa para trás, não prometendo voltar.




    Capítulo 27 – Divergentes



    O navio segue numa viagem quieta pelo golfo dos reis. Não demorará mais do que um dia para chegarem ao seu destino.

    Dartaul está quieto em sua cabine. O olhar de Lea direcionado a ele, como se o próprio fosse sua última esperança, parece ter martelado fortemente dentro da sua cabeça, uma vez que, por mais que ele tente, o rapaz não consegue esquecer o que viu. Enquanto deitado, ele tenta organizar seus pensamentos, ao mesmo tempo que lida com os roncos baixos de Aika, que dorme abraçada a ele, com a cabeça em seu peito. Ele não chegou nem perto de pensar o suficiente sobre ela, principalmente sobre o seu retorno misterioso.

    E agora, o maior mistério naquela história toda é sobre o próximo passo de Nightcrawler. Afinal, o detetive é totalmente imprevisível.

    Dartaul vira o rosto para o lado, ainda pensativo, enquanto o navio balança calmamente. E ao olhar para a porta, nota ela entreaberta e com um rosto sorridente por trás dela.

    — Feliz natal. — Disse Nightcrawler.

    A respiração de Dartaul volta devagar.

    — Filho da puta. Quase morro de susto. — Murmura Dartaul, tentando não acordar a feiticeira com a sua voz.
    — Preciso que venha comigo. Vamos conversar.
    — Conversar sobre o quê?
    — Sobre a economia dos dworcs. É algo realmente interessante, pra não dizer complexo.

    O investigador bufa.

    — Vamos só conversar. Não há mal algum nisso. Anda, sai daí.

    O rapaz decide se levantar, tomando cuidado com Aika. Ele puxa o travesseiro e coloca-o debaixo da cabeça da garota, na tentativa de enganar sua mente e dizer que ele ainda está ali.

    Dartaul segue o detetive até a sua cabine. E ao entrar, mal repara em diferenças para a sua. Apenas há mais prateleiras com vários livros em ao menos três paredes do quarto. O rapaz fecha a porta e Nightcrawler dirige-se para uma mesa próxima, tomando para si dois copos cheios de uísque.

    — Aceita? — Disse o mascarado, oferecendo um dos copos para o rapaz.
    — Uísque? Num navio desses?
    — O quê? Não estamos num navio pirata para bebermos rum. E eu não gosto de rum, também.

    O rapaz aceita, e Nightcrawler se senta na outra ponta da mesa. Dartaul senta na cadeira mais próxima, ficando frente a frente com o mascarado.

    Surpreendentemente, ele retira sua máscara e deixa-a sobre a mesa. Seu rosto quase coberto por queimaduras, além da estranha cicatriz no olho esquerdo, parecem ser o destaque central da sala. Afinal, não é todo dia que se vê algo assim.

    — E então, rapaz, me diga: O que tem achado dessa missão toda?

    O investigador se surpreende. Não havia pensado em algo assim até o momento.

    — Bom... Não sei. Pra falar a verdade, não passou pela minha cabeça pensar sobre algo assim.
    — Imagino. Tanta merda acontecendo ao mesmo tempo não nos dá o luxo de refletir sobre nossas vidas.
    — Talvez eu possa dizer que foi uma experiência e tanto. Mas está longe de ser positiva.

    O detetive parece intrigado. Entretanto, ele finge não estar, afinal, sem a máscara, outros podem ver suas expressões e se divertir com isso. E talvez seja um dos motivos do mesmo utilizar aquela máscara.

    — E por que diz isso?
    — Preciso explicar ainda, Suzio?

    Dezenas de cenas onde Dartaul passara por problemas na missão chegam a sua mente, mas ele continua indiferente enquanto fita o rapaz.

    — Bem, acho que não. Mas é sempre bom botar as coisas pra fora, não é?
    — Justamente pra quem causou todas elas? Acho que ainda não é o momento.
    — Ora, rapaz. Não me olhe como se eu fosse o diabo em pessoa. Sei que não sou nenhum santo e nem fui a melhor coisa para essa companhia, mas provavelmente você tem em mente que eu nem esperava que metade das coisas que aconteceram virassem realidade. Estou errado?
    — Então você é um péssimo líder.

    Suzio dá um riso abafado e triste.

    — É, talvez eu seja. Mas, sabe, há uma razão. Não sou nenhum gênio, sou apenas um detetive com uma mente aberta. E antes disso, eu não era um gênio também. Quando eu estudei para ser um alquimista ao lado de um velho amigo, eu reparei que eu tinha a tendência de ser deixado para trás. Como durante o período que vivi com meus pais, que sempre me deixavam sozinho em casa para ir trabalhar e pouco se fodiam pras minhas condições. Deixavam que um vizinho ficasse de olho em mim e cuidasse de mim quando eu ficasse doente. Acho que, no fim, essa impressão nunca foi deixada para trás.

    Dartaul fita-o seriamente, sem responder.

    — Mesmo liderando essa companhia, eu não sentia que estava totalmente apto a guiá-la. Sentia sempre que estava faltando alguma coisa na minha conduta, que eu estava cometendo erros atrás de erros. Então, mesmo quando eu calava a minha boca frente as merdas que aconteciam com a gente, eu estava pensando... Porra, eu sou um retardado mesmo, um animal. Garanto que se fosse ele, algo diferente ocorreria. Algo melhor.

    Suzio dá uma golada rápida em seu uísque.

    — Então você sempre esteve se culpando pelo que fez?
    — É por aí. É bem estúpido ao olhar dessa forma. Eu estou aqui, pensando que não sou capaz de liderar ninguém, ansiando por alguém para carregar por mim meu fardo. Mas veja por um lado: Todos alguma vez já pensaram assim, frente a alguma dificuldade.
    — Eu nunca pensei.

    Suzio engole em seco frente a Dartaul pela primeira vez desde que tudo aquilo começou.

    — Certo, Dartaul. Então, de fato, você é forte, e eu, fraco e mesquinho. Mas é como eu te disse quando estávamos no hakugai: Eu nunca pedi por isso. Nós um dia desejamos crescer, e quando crescemos, queremos voltar de onde começamos. Afinal, um joelho ralado dói muito menos que um coração partido. Perder o dia de brincadeiras com os amigos por causa da chuva é menos doloroso do que ver suas expectativas para o futuro destruídas diante dos seus olhos. A inocência e ignorância da infância é mais confortável do que o conhecimento adulto sobre o mundo.

    Dartaul permanece indiferente, mas Suzio não se incomoda com isso.

    — Até hoje não sei o destino dos meus pais, nem do vizinho que cuidava de mim, nem dos meus amigos. Não sei o que aconteceu com meu velho amigo Senzo, nem com os amigos que consegui enquanto trabalhei em Yalahar. Acho que nem saberei. Me resta continuar trabalhando e cumprindo meu papel enquanto ainda estou vivo. Meu papel de detetive.

    Finalmente o investigador parece entendê-lo melhor, e então, toma um golpe do uísque, em resposta.

    — Você é bem emotivo pra alguém tão frio e babaca.
    — Talvez.
    — Além disso, você expressa coisas que eu mal cheguei a sentir. Afinal, eu não quero voltar pro meu início. Mal tinha amigos, tampouco tive tempo para ser inocente. Agora, eu não sinto que estou cumprindo algum papel. Na verdade, pareço mais um zumbi procurando cérebros. Esses cérebros talvez sejam o fim dessa missão, onde depois disso, continuarei andando por aí, sem rumo. Afinal, você fodeu comigo.
    — Pensei em algo para ajudá-lo, nesse caso.

    Suzio se levanta e pega uma pasta, cuja capa é feita de madeira e é bem escura. Ele coloca na mesa e deixa ela a disposição do rapaz, que abre com curiosidade. Vê relatórios que tinham sua letra, mas ele sabia que não tinha sido ele quem escreveu aquilo.

    — Uma das minhas habilidades é copiar caligrafias. Fiz para você esse relato que você poderá entregar para a sua guarnição daqui um mês.
    — E o que tem aqui para me ajudar? — Questiona Dartaul, alheio ao fato dele nunca ter mostrado sua caligrafia para Nightcrawler.
    — Provas de que você me matou após a Arapuca de Yalahar. Que você tinha começado uma investigação independente para me capturar. Sei que Harkath mandou Trevor para cá justamente pra me capturar caso eu fizesse merda e botasse autoridades em risco. Deve lembrar que, para a chefe dos inquisidores thaianos, eu te capturei junto de Trevor. O relatório estava sendo escrito desde aquilo, e eu decidi ir até lá justamente para o fato de você ter me matado fazer sentido.
    — Sempre sendo um detetive sem noção, não é?
    — É o meu trabalho.

    Dartaul sorri e bebe um pouco mais do uísque, e fecha a pasta. Suzio senta-se na cadeira próxima, e fita o rapaz.

    — Ainda podemos conversar mais um pouco.
    — O navio deve estar chegando ao nosso destino. Ilha Calcanea, não é?
    — Isso. Depois iremos para Fibula e por fim chegaremos no continente para entrar em Thais pelo sul.

    Ambos tomam um pouco mais da bebida em suas mãos e praticamente finalizam seus copos.

    — Bem, vou voltar pro meu quarto. Quero descansar antes dessa jornada.
    — Ah, tudo bem. Depois continuaremos nossa conversa de detetive maluco e investigador recruta.

    Dartaul se levanta e pega a pasta que Suzio lhe entregou. E então, olha para o homem.

    — Que bom que você consegue enxergar diferenças entre nós, Suzio. Pois você deve se lembrar que eu nunca serei como você.
    — Perfeitamente.

    Dartaul dá meia volta e sai do quarto, rumando até o seu, sem dizer uma palavra. Ainda há um resto de bebida no copo do detetive, do qual ele termina de beber. Ao deixar o copo na mesa, ele começa a fitar o nada.

    — De preferência, não seja. Odeio imitadores. — Murmura para si mesmo, enquanto afunda-se em sua própria cadeira, cansado.







    Próximo: Capítulo 28 – O Antigo Lar
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