Trecho retirado do livro "A Marcha da Morte" escrito por Michael Stivelman.
Dados do livro:
Nome: A Marcha da Morte
Editora: Imago
Páginas: 239
Ano de Lançamento: 2010
Desafio todos vocês lerem esse relato emocionante até o final
Esse relato fora retirado do livro "A Marcha da Morte" de autoria de Michael Stivelman. Trata-se de um relato chocante ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial em Babi Yar, ravina encontrada em Kiev, na Ucrânia. Uma emocionante história real contada detalhadamente por quem viveu fatos semelhantes; e que, de modo algum, foi poupado do sofrimento e da dor. Naquela época, em Kiev, sob uma falsa premissa de transporte, decretos foram espalhados pela cidade obrigando os judeus a se apresentarem portando documentos, dinheiro e comida, para serem supostamente transportados. Tais decretos ameaçavam os judeus que não comparecessem à morte por fuzilamento.
Dina Mirónovna
A história de Dina. Dina Mirónovna fora ler o decreto. Leu-o rapidamente e saiu. Em geral, ninguém se detinha muito e não se faziam comentários.
Durante todo o dia e toda a noite, em todas as casas, teciam-se e discutiam-se hipóteses. Os pais de Dina Mirónovna eram velhos. Antes da chegada dos alemães, sua mãe saíra do hospital após uma operação. Todos lhe diziam que deveria evitar apresentar-se. Os velhos estavam convencidos de que na estação de Lukiánovna todos seriam metidos em vagões e levados para território soviético.
O marido de Dina era russo. Russo era seu sobrenome e, além disso, ela não tinha aparência judia. Discutiram, consideraram as alternativas, e resolveram que os velhos iriam. Ela os acompanharia até a estação, pô-los-ia no trem e ficaria com as crianças - e seria o que Deus quisesse.
Seu pai, vidraceiro, morava com a esposa na rua Turguenév, n° 27. Dina residia com sua própria família na rua Voróvskaia, n° 41.
Ela voltou tarde para casa, procurou dormir, mas não conseguiu pregar o olho durante toda a noite. Durante longo tempo ouviu correrias no pátio: tentavam prener uma jovem que morava no mesmo prédio. Ela escondera-se no sótão, depois de descer pela escada de incêndio. Vozes masculinas gritaram: "Lá está ela!"
O caso é que, antes da chegada dos alemães, a moça tinha afirmado: "De modo algum eles entrarão em Kiev. Mas, se entrarem, vou encharcar o prédio ocm gasolina e atear fogo". A mulher do porteiro lembrou-se disso. Temendo que a moça realmente incendiasse o prédio, denunciara-a aos alemães, e naquela noite eles tentavam prendê-la. Foi uma noite tensa, inquietante, terrível. Dina tremia como se tivesse febre. Não conseguiu saber se a moça fora presa ou não.
Ao amanhecer, lavou-se penteou-se, apanhou seus documentos e dirigiu-se à casa dos pais, que ficava perto, na rua Turguéneve. Nas ruas, o movimento era incomum. Havia muita gente. Todos andavam apressados, com ar concentrado, carregando bagagens. Às sete horas, Dina chegou à casa dos pais. Todos os moradores do prédio haviam despertado. Os que partiam despediam-se dos vizinhos, prometiam escrever, confiavam-lhes as chaves de seu apartamento, com todos os seus pertences. Os velhos não podiam carregar muita coisa. Não possuíam objetos de valor. Levavam apenas o necessário, inclusive alimentos. Dina pôs a mochila nas costas e pouco depois das sete horas deixavam a casa.
Muita gente caminhava pela rua Turguénev. Mas na rua Artióm a confusão era enorme. Pessoas carregando trouxas atravancavam o avanço de carrinhos, charretes, carroças, e até mesmo de um ou outro caminhão, Tudo se detinha, por algum tempo, para logo se mover um pouco e de novo parar. O alarido e a algazarra da multidão lembravam os desfiles e paradas, quando as ruas se enchiam de gente. Só faltavam as bandeiras, as bandas de música e as solenidades.
A presença dos caminhões era um fato estranho: onde haviam conseguido? Acontece que em alguns edifícios haviam sido feitas coletas para contratar um meio de transporte, pois todos se apegavam a seus bens, e queriam levar o máximo de pertences consigo, amontoados numa carroça ou num caminhão. Entre as trouxas e malas deitavam-se os enfermos e grupos de crianças. Os recém-nascidos, às vezes com apenas dois ou três meses, eram levados em carrinhos. Vizinhos, amigos e parentes, russos e ucranianos, ajudavam-nos a carregar as coisas, conduziam os doentes e às vezes os carregavam em macas.
Toda aquela procissão movia-se lentamente. A rua Artióm era muito comprida. Postados juntos a um portão, soldados alemães observavam o desfile. Um deles chamou Dina, dizendo que precisavam de alguém para lavar o chão.
- Você, venha lavar!
Ela se recusou. Por muito tempo, e numa extensão espantosa, alongou-se aquela absurda e barulhenta procissão, aquele "desfile" de cotoveladas, conversas e choro de crianças. Dina travaja um casaco de peles e começou a sentir calor.
Somente lá pelas tantas, depois da hora do almoço, alcançaram o cemitério. Dina lembrava que, à direita, estendia-se o longo muro de tijolos do cemitério judaico, no qual abria um portão. Na altura do portão, atravessando toda a rua, havia uma cerca de arame farpado, com barreiras antitanque e uma passagem no centro. Diante dela, um cordão formado por soldados alemães cheios de insígnias no peito, e policiais ucranianos de uniformes pretos com punhos cinzentos.
Um homem enorme, enérgico, com camisa bordada e longos bigodes de cossaco, muito vistoso, dava ordens à entrada. Grupos de pessoas passavam por ele e entravam, mas ninguém voltava, a não ser, de vez em quando, os carroceiros, gritando, conduzindo suas carroças vazias: já haviam descarregado lá dentro sua carga e voltavam ao encontro da multidão. Berravam, praguejando e brandindo os chicotes, o que provocava grande correria. Tudo era confuso. Dina deixou os velhos sentados perto do cemitério, enquanto seguia adiante para ver o que acontecia por lá.
Assim como muitos outros, supunha que ali encontraria um trem. Próximo, ouvia-se um som que parecia de tiros. Voando baixo, um avião descrevia círculos no céu. Reinava em volta uma atmosfera que ina da inquietação ao pânico. No meio da multidão, ouviam-se trechos de conversas.
- É a guerra, a guerra! Levam-nos para mais longe, onde as coisas estejam mais calmas.
- Mas por que só levam os judeus?
Uma anciã, muito alquebrada, fazia suposições inteiramente infundadas:
- Porque os judeus são uma raça aparentada com os alemães. Por isso resolveram levá-los em primeiro lugar.
A muito custo, Dina conseguiu abrir caminho, enquanto ficava cada vez mais inquieta. Súbito, mais à frente, viu que todas as pessoas depositavam suas coisas em dois montes. As trouxas e malas eram postas num monte à esquerda. E todos os alimentos, à direita. Enquanto isso, os alemães continuavam a ordenar que todos seguissem em frente. Deixavam passar um grupo e esperavam: ao fim de algum tempo, permitiam a passagem de outro grupo. Contavam, contavam e... stop! Assim, a fila ia-se dividindo, sucessivamente, em grupos de dez. Em meio ao barulho e à expectativa, surgiam novamente as conversas:
- Bem, a bagagem seguirá nos vaões de carga. Eles devem estar no lugar da partida.
- Como vamos reencontrar nossas coisas nessa confusão? Eles vão apenas dividir tudo igualmente entre todos.
Dina sentiu-se presa do pavor. Não havia nada que parecesse uma estação ferroviária. Não sabia ainda do que se tratava. Mas percebera que, fosse o que fosse, não haveria nenhum transporte. E havia o estranho matraquear das rajadas de metralhadora que soavam muito perto. Contudo, não desconfiou que poderia se tratar de fuzilamentos. Em primeiro lugar, por que fuzilar tanta gente? Não era possível. E depois - para quê?
Pode-se supor, com certeza, que a maioria das pessoas que lá estavam pensavam da mesma maneira, embora fosse evidente que algo de muito ruim pairava no ar. Dina, porém, continuava a apegar-se à ideia de que "estão nos transportando", inclusive com base num motivo a mais: os mais velhos haviam contado que, em 1918, os alemães haviam estado na Ucrânia, sem molestar os judeus, tendo-os tratado bastante bem, porque os idiomas eram parecidos. Diziam os velhos:
- Há alemães de toda espécie. Em geral, porém trata-se de um povo culto, decente e bastante digno.
Havia ainda um fato recente. Dois dias antes, na rua Voróvski, algumas pessoas haviam ocupado o apartamento de uma família judaica que fora evacuada. Os parentes tinham procurado os alemães e apresentado queixa. Veio um oficial alemão e ordenou energicamente que o apartamento fosse desocupado, tratando os judeus com gentileza: "Agora está tudo em ordem. Tenham a bondade." Isso acontecera praticamente na véspera, todos tinha testemunhado e a notícia se espalhara. Os alemães eram muito consequentes e lógicos.
Mas se aquilo não era um transporte, o que seria? Dina contaria mais tarde que naquele momento seu pavor era meramente instintivo. Tudo lhe parecia confuso, e ela se via num estado que não pode ser comparado a alguma coisa. Os agasalhos eram tirados das pessoas. Aproximou-se um soldado e, com destreza, sem dizer palavra, tirou-lhe o casaco dos ombros. Ela então retornou ao ponto em que deixara os pais. Encontrou os velhos juntos ao portão e contou-lhes tudo o que vira. Disse-lhe o pai:
- Filhinha, não precisamos mais de você. Volte pra casa.
Ela foi até a cerca, de onde muita gente tentava sair. Enquanto isso, outros vinham em direção contrária. O alemão dos grandes bigodes continuava a gritar e dar ordens. Dina conseguiu aproximar-se dele e começou a explicar que estava acompanhando os pais, que seus filhos tinham ficado na cidade, pedindo que a deixasse sair.
O alemão exigiu o passaporte. Dina mostrou. O soldado leu a linha referente à "nacionalidade" e berrou:
- Uma judia! Para trás!
Foi então que ela compreendeu tudo: estavam fuzilando os judeus. Com gestos convulsos, pôs-se a rasgar o passaporte em pedacinhos. Atirava os pedaços sob os pés, à esquerda e à direita. Voltou para junto dos pais, mas nada lhes disse para não assustá-los antes do tempo. Embora já estivesse sem casaco, continuava a sentir calor. À sua volta havia gente demais, uma multidão compacta que transpirava, crianças extraviadas que berravam, enquanto muita gente almoçava sentada sobre as trouxas. Pensou então: "Como podiam comer? Não teriam ainda compreendido nada?!
Ouviu-se uma voz de comando. Houve gritos, todos os que estavam sentados ergueram-se e moveram-se para a frente. Os que vinham atrás empurravam os da frente - formou-se uma fila fantástica. Aqui eram depositadas certas coisas, ali, outras. Todos se acotovelavam, disputando lugares. Naquele caos, Dina perdeu-se dos pais. Olhando por cima das cabeças, avistou-os num outro grupo, enquanto crescia uma fila à sua frente.
Houve uma parada. Todos esperavam. Dina esticava o pescoço, procurando descobrir para onde haviam levado seus pais. De repente, um alemão enorme aproximou-se e disse-lhe:
- Venha dormir comigo. Vou soltá-la.
Ela lançou-lhe um olhar tão alucinado que ele se foi. Finalmente, deixaram que seu grupo passasse.
Além da cerca, o barulho cessara. Todos serenaram, como se não tivessem mais vida, e marcharam em silêncio entre os fascistas postados de um e outro lado. À frente, surgiram filas de soldados conduzindo cães sobre carroças. Dina ouviu alguém, às suas costas, pedir:
- Filhos, ajudem-me a passar. Sou cego.
Segurou a mão do ancião e com ele avançou.
- Avô, para onde estão nos conduzindo? - perguntou.
- Filha - respondeu o cego -, vamos cumprir nosso último dever perante Deus.
Nesse instante, penetraram num corredor formado por soldados e cães. Era um corredor estreito, com cerca de um metro e meio de largura. Os soldados mantinham-se em fila, ombro a ombro, com as mangas arregaçadas, empunhando cassetetes de borracha ou compridos cacetes. Os golpes choviam sobre os que passavam pelo corredor. Era impossível esquivar-se ou esconder-se. Golpes impiedosos - que imediatamente produziam ferimentos sangrentos - caíam sobre as cabeças, as costas e os ombros, tanto do lado direito como do esquerdo. Os soldados gritavam: "Depressa! Depressa!", e riam alegremente, muito satisfeitos. Procuravam acertar com o máximo de força os pontos mais sensíveis.
Todos puseram-se a gritar; as mulheres urravam. Como numa tela de cinema, desenrolou-se uma cena ante os olhos de Dina: um rapaz, seu conhecido, morador de sua rua, muito culto e bem trajado, chorava copiosamente. Muitas pessoas tombavam, e imediatamente os cães eram açulados sobre elas. Algumas conseguiam erguer-se, enquanto outras permaneciam no solo. Os que vinham atrás empurrava, e a multidão pisava e repisava os corpos. Antes tudo aquilo, a mente de Dina obscureceu. Ela se aprumou, ergueu bem alto a cabeça e andou ereta e rija como se fosse de madeira, sem se curvar. Estava ferida, mas nada sentia e não raciocinava. Em sua mente havia um único pensamento: "Não cair... Não cair!".
Enlouquecida, a massa humana entrava para o espaço cercado, uma espécie de praça coberta de grama. O chão estava coalhado de peças de roupa e de calçados. Os policiais ucranianos (a julgar pelo dialeto que falavam, eram da Ucrânia ocidental) agarravam brutalmente as pessoas, espancavam-nas e gritavam:
- Dispam-se! Vamos! Depressa! Depressa!
Os que demoravam eram despidos à força e espancados pelos soldados possessos, presas de uma verdadeira crise de sadismo. Evidentemente, tudo aquilo era feito para que a multidão não tivesse tempo nem para raciocinar. Já havia muita gente completamente nua e ensanguentada. Do lado dos que já estavam nus e eram arrastados para um lugar desconhecido, Dina ouviu chegar a voz de sua mãe e a viu acenar para ela, gritando:
- Filhinha, você não parece judia! Salve-se!
Tomando uma decisão, Dina aproximou-se de um dos policiais e perguntou-lhe onde estava o comandante. Disse-lhe que era apenas uma acompanhante e que estava ali por engano. Ele exigiu que ela lhe mostrasse os documentos. Dina começou a retirá-los da bolsa, mas ele mesmo agarrou-a e revirou completamente: havia dinheiro, e as carteiras de trabalho e do sindicato, nas quais não constava a nacionalidade. O sobrenome Prónitcheva convenceu o policial de que ela não era mesmo judia. Não lhe devolveu a bolsa, mas indicou-lhe uma pequena elevação de terreno, onde um grupo de pessoas estava sentado.
-Sente-se ali. Quando acabarmos de fuzilar os judeus, soltaremos vocês.
Aproximou-se então do montículo e sentou. Os que lá estavam pareciam amedrontados, e mantinham-se em silêncio. Somente uma velhinha de xale felpudo queixava-se de que fora acompanhar a nora e agora estava ali... Todos eram acompanhantes. Permaneciam sentados e, diante de seus olhos, como num palco, desenrolava-se todo aquele pesadelo: do corredor saía um grupo após outro, gente espancada, gritando de dor e de medo, para ser recebida pelos policiais, novamente espancada e despida. Aquilo parecia não ter fim. Dina afirma que alguns riam histericamente. Viu, com seus próprios olhos, que várias pessoas, nuas e marchando para a morte, tinham ficado naquele momento, subitamente, com os cabelos inteiramente brancos.
Homens nus, dispostos em filas, eram conduzidos por uma fenda do outro lado - de lá chegava apenas o pipocar dos tiros. As mães cuidavam de suas crianças, e isso parecia aborrecer os soldados, pois de vez em quando algum deles tirava um filho dos braços maternos, aproximava-se do paredão e, com toda a força, como se atirasse um pedaço de pau, lançava a criança contra ele.
Dina sentia-se como se estivesse acorrentada. Durante um longo tempo ficou sentada, a cabeça baixa, temendo lançar um olhar aos vizinhos, cujo número crescia sempre. Já não ouvia nem os tiros nem os gritos.
Escurecia.
De repente, chegou um carro conversível com um oficial de alta patente, esbelto e elegante, que empunhava um chicote. Parecia ser o chefe supremo, e trazia consigo um intérprete.
- Quem são aqueles? - indagou, através do intérprete, a um dos guardas ucrnaianos, apontando para o montículo onde já se encontravam cerca de 50 pessoas.
- São os nossos - respondeu o guarda. - Não sabiam de nada, vamos soltá-los depois.
Então o oficial berrou:
- Devem ser fuzilados já! Se um deles sair daqui e contar na cidade o que viu, nenhum judeu aparecerá amanhã.
O intérprete traduziu fielmente ao policial, enquanto as pessoas sentadas no montículo ouviam tudo.
- Muito bem, vamos! Levantem-se! - ordenou o policial.
Todos se ergueram, embotados como se estivessem bêbados. Talvez porque já fosse tarde, não lhes tiraram as roupas. Mesmo vestidos, foram conduzidos em direção à fenda do paredão. Dina marchou entre as dez pessoas do segundo grupo. Passaram por um corredor, entraram na fenda e de lá viram um barranco íngreme e fundo, de encostas arenosas. Já não havia muita claridade, por isso, no primeiro momento, Dina não conseguiu ver muito bem o que havia lá embaixo. Todos receberam ordem de se apressar; seguindo em fila por uma saliência muito estreita à beira da fossa.
À esquerda, um paredão, à direita, uma fossa; parecia que a saliência fora recortada como plataforma especial para fuzilamentos. Era tão estreita que, ao passar por ela, para não cair, as pessoas comprimiam-se instintivamente contra o paredão. Ao olhar para baixo, Dina teve uma vertigem, tão alto lhe pareceu o ponto em que se achava. Lá em baixo, montes de corpos ensanguentados. Ela teve tempo de perceber, do outro lado da fossa, a presença de alguns soldados alemães armados de metralhadoras. Haviam acendido uma fogueira, e parecia que estavam cozinhando alguma coisa.
Quando toda a fila já estava sobre a saliência, um dos alemães afastou-se da fogueira, apontou a metralhadora e começou a disparar. Dina mais sentiu do que viu os corpos começarem a cair da saliência para dentro da fossa, e percebeu que uma rajada se aproximava dela. Num átimo, pensou: "Agora é minha vez... Agora..." E, sem mais esperar, de punhos cerrados, atirou-se dentro da fossa.
Durante toda uma eternidade teve a impressão de estar voando. Com certeza, estivera mesmo a uma grande altura. Enquanto despencava, não sentiu qualquer pancada ou dor. Logo percebeu um jato quente de sangue a escorrer-lhe pelo rosto, como se tivesse caído numa banheira cheia. Permaneceu estirada, braços abertos e olhos fechados. Ouvia sons estranhos, gemidos, soluços, pranto à sua volta e sob ela: ainda havia muita gente com vida. Toda aquela massa de corpos movia-se imperceptivelmente, em movimentos tentaculares de enterrados vivos.
Postados numa saliência, os soldados começaram a iluminar a fossa, dirigindo a luz para baixo e disparando com pistolas sobre os que pareciam estar ainda vivos. Também andava por ali o oficial que lhe examinara os documentos e ficara com a bolsa. Ela o reconheceu pela voz. Um soldado da SS avistou Dina e ficou desconfiado. Dirigiu-lhe a luz de sua lanterna. Ergueu-a e pôs-se a espancá-la. Ela, porém, permanecia mole como um saco, não dando sinal de vida. Calcou-lhe o pé no peito, pisou-lhe no braço direito com tanta força que o osso estalou. Contudo, não atirou nela e acabou indo embora.
Dentro de poucos minutos, ela ouviu um grito vindo de cima:
- Vamos, joguem terra!
Houve um ruído de pás golpeando surdamente o solo. A areia era lançada sobre os corpos, cada vez mais perto: por fim, grande quantidade caiu sobre Dina.
Sentiu que ia sendo soterrada, não fez nenhum movimento até que a boca encheu-se de terra. Estava com o rosto para cima. Tentou respirar, mas a areia a engasgou. Só então, alucinada, começou a debater-se, tomada de terrível pavor, preferindo ser fuzilada do que enterrada viva. Com a mão esquerda, que não estava ferida, começou a remover a areia, procurando, com todas as forças que ainda lhe restavam, não tossir. Sentiu algum alívio. Por fim, conseguiu sair de sob a terra.
Em cima, haviam concluído o trabalho: jogaram mais um pouco de terra e foram embora. A escuridão era total, e o ar era denso e pesado. Reconheceu a parede arenosa mais próxima. Aproximou-se dela, com muito cuidado, e começou a abrir buracos com a mão esquerda. Assim, comprimindo-se contra o paredão, foi abrindo buracos, subindo palmo a palmo, correndo a cada instante o risco de cair. Ao chegar à borda, percebeu um arbusto. Tateou-o, agarrou-o com desespero, e quando conseguiu se erguer e sair, ouviu uma voz muito fraca que quase a fez cair de novo na fossa:
- Titia, não se assuste, eu também estou vivo!
Era um garotinho, vestido com uma camisa leve e calças curtas. Conseguira sair com ela e estava tremendo.
- Fique calado! - murmurou. - Arraste-se atrás de mim.
Arrastaram-se longo tempo, devagar, encontrando barrancos, contornando-os, assim prosseguindo, ao que parece, por toda a noite, porque começava a raiar o dia. Então, descobriram uns arbustos e neles se ocultaram.
Achavam-se à beira de enorme barranco. À pequena distância, viram alemães que começavam a arrumar seus equipamentos. A seu lado havia cães, presos em correias. Às vezes apareciam caminhões para conduzir o material, mas na maior parte das vezes eram cavalos que chegavam para fazer o transporte. Quando o dia acabou de nascer, Dina e o garoto avistaram uma velhinha uqe corria, tendo atrás de si um menino de seis anos a gritar: "Avozinha, estou com medo!" A anciã, porém, fugia dele. Dois soldados alemães os alcançaram e os fuzilaram. Primeiro, a velha, depois, o menino. De vez e quando, acima ou abaixo de onde estavam, viam passar alemães conversando. Durante todo o tempo, bem perto, de uma certa direção, ouviam-se tiros. Era um matraquear tão contínuo que pareceu a Dina não ter sido interrompido nem à noite.
Dina e o garoto permaneciam deitados - ora cediam ao sono, ora despertavam. O menino disse que se chamava Mótia, perdera todos os parentes e tombara no barranco juntamente com os pais quando atiraram neles. Era um menino bonito, com belos olhos que fitavam Dina como se fosse sua salvadora. Ela pensou que, se conseguisse salvá-lo, o adotaria.
Pela tarde, começou a ter alucinações: seu pai e sua mãe vinham e davam cambalhotas. Quando voltou a si, Mótia chorava ao seu lado.
- Titia, não morra. Não me deixe sozinho!
Com dificuldade, conseguiu lembrar-se de onde se encontrava. Já escuro, ambos saíram do meio dos arbustos e começaram a avançar, se arrastando. No correr do dia, Dina havia traçado um plano: seguir pelo prado até o bosque que se via ao longe. Às vezes esquecia tudo e se erguia, e então Mótia a agarrava e a apertava contra o solo. Aparentemente, às vezes perdia os sentidos, porque em certo momento caiu numa cova. Estavam sem comer e beber há mais de 24 horas. Isso, porém, nem sequer lhes ocorria. Estavam em verdadeiro estado de choque.
Assim, continuaram a se arrastar por toda a noite, até o amanhecer. Divisaram alguns arbustos mais adiante e Mótia avançou para examiná-los, o que já fizera muitas vezes. Estando tudo calmo ele daria um sinal, agitando um arbusto.
Daquela vez, porém, ele gritou com sua voz aguda:
- Titia, fique aí. Alemães!
Soaram tiros. O menino fora fuzilado.
Para a sorte de Dina, os alemães não haviam entendido o que Mótia gritara. Ela recuou e viu-se num banco de areia. Fez uma cova, depois encheu-a, erguendo um montículo, como se estivesse enterrando Mótia, seu companheiro de fuga. Depois, desatou a chorar. Parecia estar enlouquecendo.
Clareava o dia. Dina percebeu que tinha ido dar numa estrada. Á esquerda avistou cercas e algo como uma ruela. Arrastou-se para lá. Deparou com um monte de lixo, enterrou-se nele e pôs sobre o corpo pedaços de papel e trapos. Meteu na cabeça uma cesta furada, através da qual podia respirar. Permaneceu assim, sem se mover, por longo tempo. Em determinado momento alemães passaram por perto, detiveram-se e acenderam cigarros.
No canto de uma horta, à sua frente, Dina viu dois tomates verdes. Para alcançá-los, teria de se arrastar até lá. Só então sentiu sede, e novos sofrimentos se apossaam dela. Tentava pensar em tudo, menos naquilo. Fechava os olhos, procurando se autossugestionar, decidindo tirar aqueles frutos do pensamento. Contudo, uma força magnética a impelia e a obrigava a voltar-se para eles. Assim mesmo, conseguiu dominar-se e ficou deitada até anoitecer.
Somente quando a escuridão era total ela saiu, às apalpadelas, encontrou os tomates e os comeu. Continuou se arrastando, e de tanto fazê-lo parecia-lhe haver esquecido como se andava. Continuo assim por muito tempo, até que caiu numa trincheira protegida com arame farpado. Lá pela madrugada avistou uma casinhola e resolveu ocultar-se no galpão que havia por trás. Não estava trancado, e, assim que entrou, ouviu o ladrar de um cão. Os outros cães da vizinhança fizeram coro com o primeiro. Pareceu-lhe que centenas de cães latiam, tão grande o barulho. Sonolenta, uma mulher saiu da casinha e gritou:
- Calado, Riábka!
Espiando no interior do galpão, descobriu Dina. Zangada, com semblante carregado, começou a indagar-lhe quem era e porque estava ali. Dina pôs-se, de súbito, a mentir, afirmando que vinha do trabalho nas trincheiras, perdera-se no caminho e resolvera pernoitar no galpão. Indagou da mulher se sabia o caminho para o comando alemão, na cidade.
- Mas onde esteve você?
- Perto da Igreja Branca...
- Da Igreja Branca? Bem...
Evidentemente, a aparência de Dina era horrorosa: toda coberta de sangue coagulado, suja, cheia de areia, as meias rotas e descalça, pois perdera os sapatos na fossa.
Atraídos pelo barulho, os vizinhos vieram e cercaram Dina.
Segundo tudo indicava, os alemães andavam por perto, pois quase imediatamente apareceu um oficial. Lançou um olhar para a fugitiva e ordenou:
- Vamos!
Enveredou por uma picada em frente e Dina o acompanhou. O oficial nada dizia, apenas certificava-se de que ela o seguia. Braços cruzados no peito, toda encolhida, cheia de frio e muitas dores no braço direito, Dina estava coberta de sangue e doíam-lhe os pés escalavrados. Entraram numa casa de tijolos de um só pavimento, onde cerca de 20 soldados tomavam café da manhã em canecas de alumínio. Dina procurou sentar-se numa cadeira a um canto, mas o oficial gritou e ela sentou-se no chão.
Logo em seguida, os soldados empunharam os fuzis e saíram. Ficou apenas um soldado de guarda. Andando de um lado para o outro, arrumou as coisas e apontou uma cadeira, como se dissesse a dina que poderia sentar-se, não era proibido. Ela então, afinal, se sentou. O solado olhou pela janela, entregou-lhe um trapo e, mostrando-lhe as vidraças sujas, fez-lhe sinais para que as limpasse. Era uma janela enorme, que ocupava toda a parede, e cheia de caixilhos, como uma varanda. E foi ao olhar através dela que Dina percebeu ter-se arrastado o tempo todo em torno de Babi Yar; encontrava-se, pois, no mesmo lugar de onde escapara.
O soldado pôs-se a balbuciar. Dina compreendia tudo o que dizia, embora ele não soubesse, procurando por todoso os meios fazer-se entender.
- Pense um pouco. Os chefes saíram. Estou lhe dando este trapo para que você fuja. Lave as vidraças e veja para onde pode fugir. Entenda, cabeça dura!
Falava num tom compadecido, dando a Dina a impressão de que era sincero, e que aquilo não era uma provocação. Contudo, ela estava em tal estado de ânimo que não acreditava em mais nada. Por isso, por via das dúvidas, balançava a cabeça como se não estivesse compreendendo nada.
Aborrecido, o soldado entregou-lhe uma vassoura, mandando-a varrer a casa vizinha, que estava vazia. Nesse momento Dina animou-se, disposta a fugir, mas, no mesmo instante, ouviu ruídos de choro. Apareceu, então, um oficial com duas moças de 15 ou 16 anos. Trajavam vestidos limpos, escuros e idênticos, e usavam tranças.
- Nós somos do orfanato! - gritavam. - Nada sabemos de nossa nacionalidade. Fomos levadas para lá quando ainda mamávamos!
Elas se arrastavam pelo chão, como que implorando, e o oficial afastou-se quando se aproximaram de suas pernas. Ordenou-lhes e a Dina que o acompanhassem. Saíram para aquela mesma praça onde as pessoas eram despidas. Ali, como no outro dia, amontoavam-se roupas e calçados. Atrás dos montes de roupas estavam sentados uns 30 velhos e velhas, enfermos. Ao que parecia, haviam sido apanhados em esconderijos. Uma anciã paralítica, deitada, estava embrulhada num cobertor. Dina e as meninas sentaram-se juntas. As mocinhas choramingavam.
Estavam perto de uma saliência, e ali, empunhando uma metralhadora, um soldado andava de um lado para outro. Dina olhava-o disfarçadamente, acompanhando com os olhos suas idas e vindas. Ao notar-lhe o olhar, o soldado ficou nervoso e bradou, subitamente, em alemão:
- Que é que você está olhando? Não olhe para mim! Não posso fazer nada por você! Também tenho filhos!
Dina compreendeu então que nem para todos os alemães era fácil o que estavam fazendo. Uma jovem fardada aproximou-se dela. Viu que tremia de frio e cobriu-a com seu capote. Iniciaram uma conversa. Liúba tinha 19 anos, servia como enfermeira no Exército Vermelho e fora apanhada num cerco.
Chegou um caminhão conduzindo presos soviéticos; todos traziam pás. Os velhos estremeceram de horror: iriam enterrá-los vivos? Mas um dos presos olhou de longe e exclamou:
- Vocês tiveram sorte.
Fizeram com que todos se levantassem e os mandaram subir no caminhão. Dois soldados apanharam a velha paralítica e, como se fosse um pedaço de pau, a enfiaram no caminhão, onde foi segura pelos presos. O caminhão, aberto, tinha estribos altos. Um alemão sentou-se na cabine, outro colocou-se na parte traseira e quatro policiais tomaram lugar nos cantos da carroceria. E começou a viagem, não se sabia para onde.
Era muito difícil descobrir qualquer sequência lógica em tudo aquilo: uns eram despidos, outros não, uns eram mortos, outros não, uns eram levados para cá, outros para lá... O caminhão parou na rua Mélnik, onde ficavam as oficinas mecânicas. Vários portões de garagens e oficinavas davam para um amplo pátio. Um deles foi aberto e viu-se que dentro da garagem havia gente como formiga. Ouviam-se gritos, sufocava-se. Todos correram para fora. Aquela multidão fora forçada a pernoitar ali; aquelas criaturas haviam permanecido trancadas por vários dias à espera de serem fuziladas.
A anciã paralítica foi retirada do caminhão e levada para o interior da garagem. A muito custo, entre gritos e guinchos, os alemães lograram fechar novamente o portão, comentando, preocupados, que não havia mais lugar. Dina percebia, escutava e indagava a si própria: que viria depois?
O caminhão deu marcha a ré e partiu. O alemão que estava no caminhão saltou; ficaram os quatro policiais - dois junto da cabine, dois encostados nas laterais da carroceria, não atrás, e sim no centro. Dina e Liúba começaram a planejar uma fuga: era preciso saltar do caminhão. Os soldados, com certeza, iriam atirar - mas isso já não importava. Pelo menos a morte seria mais rápida, e não aguardada numa fila.
O caminhão corria em grande velocidade. Com seu capote, Liúba protegia Dina do vento. O veículo ia ziguezagueando por várias ruas. Já estavam na rua Chuliávka, no bairro onde começava a estrada para Brest-Litovsk. Enrolada no capote, Dina curvou-se sobre a borda traseira e pulou agilmente. Bateu com violência no solo, ferindo-se bastante. Contudo, ninguém percebeu nada. E, quem sabe, ninguém queria mesmo perceber?
Transeuntes acorreram. Dina lhes disse que queria saltar no mercado e, como o motorista não parara, resolvera pular... Nos olhos que a fitavam Dina vislumbrou um brilho de humanidade, acreditassem ou não em sua explicação pueril. Rapidamente ela foi retirada da rua e conduzida a um pátio.
Meia hora depois estava na casa da cunhada, mulher de seu irmão, que era polonesa. Por toda a noite aqueceu-se água para embeber sua roupa, colada aos seus ferimentos.
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